Heaven In Your Eyes
21 The Kid
Notas iniciais
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JAMES POV:
\n\nEu já estava batendo com a ponta da caneta no papel por diversas vezes. Porra, simplesmente odiava quando a inspiração desaparecia. Era como se estivesse buscando desesperadamente por água em um deserto escaldante sem jamais encontrar sequer o oasis que ilusoriamente me confortaria. Deixei o ar escapar pelos meus lábios densamente e comecei a tatear a quantidade de folhas em cima da minha mesa de trabalho, deveria haver em algum lugar um trecho de outra composição minha inacabada que pudesse ser adaptado à nova. Em meio a um papel rasurado encontrei: "Cause now I found the reason why I've been waiting for you and there's just one thing I wanna do. So, please, let me kiss you". ("Porque agora eu encontrei a razão pela qual eu estive esperando por você e há apenas uma coisa que eu quero fazer. Então, por favor, deixe-me beijar você.") Quão irônico poderia ser? As vezes quem muito procura, definitivamente encontra. Havia escrito essa letra após a noite do noivado de Logan onde pude provar mais uma vez os doces lábios de Amanda. Larguei a caneta de lado, passar a manhã de sexta feira compondo era o que eu menos precisava, mas infelizmente haviam prazos a serem cumpridos e o fato de entrar em contato com meus sentimentos me levava diretamente à ela. Levantei ansiando pelo meu maior vicio: café. Quantas xícaras já havia tomado mesmo? Talvez fosse a hora de começar a tomar Ritalina para ativar minhas sinapses. Peguei mais uma dose de expresso e levei aos lábios, sendo reprimido pelo meu paladar que acusava que a bebida estava amarga demais. Dane-se, talvez fosse exatamente de um pouco de amargura que eu precisasse. Sempre considerei a tristeza bonita o suficiente, inspiradora, fonte das palavras mais profundas e carregadas de emoções jamais explicadas antes. Talvez — quem sabe? — Amanda me inspirasse não apenas às letras mais românticas, mas também as mais deploráveis.
\nFechei os olhos e fui de encontro à última imagem que tenho dela. Arrumada, os olhos marcados por uma fina linha de delineador, saindo de casa apressada com seu filho. Filho. Por que diabos ela fizera tal coisa? E o pior é que a criança sequer era ruim. Emmett possui um ar encantador, uma alegria e molecagem que me desperta, que me faz querer estar perto. Por vezes, seus olhos tão parecidos com os meus me fazem lembrar da minha própria infância e de como minha mãe ficava louca correndo atrás de mim. Também pudera, eu realmente era um pestinha! Sorri lembrando da ideia e principalmente lembrando do garoto. Eu deveria mesmo passar mais tempo com ele, o que consequentemente me arrastaria como um escravo de guerra para a rainha dos meus anos incontáveis. A verdade é que talvez eu não pudesse realmente romper com ela, pelo menos não para sempre. Ruptura quer dizer muita coisa e para se romper de verdade tem que ser algo a que não se pode mais voltar, algo que faz com que o passado tenha deixado de existir. E, caramba, nosso passado nunca vai ser apagado! Somos um produto disso, uma consequencia de uma história cheia de dor que castiga até hoje tanto a mim quanto a ela. Abri meus olhos mais uma vez e os senti úmidos. Chega! Chega de música por hoje e chega de Amanda também. Eu tenho que me divertir ao invés de ficar pensando a respeito. Peguei a chave do carro e já tinha endereço certo para ir.
**
\n– Abre o caralho da porta! — Resmunguei ao telefone — Não me diga que está ocupado com a Ingrid?
\n– Não, viado. To ocupado com a tua mãe! — Logan respondeu entrando na pilha
\n– Onde você está?
\n– Na porta da sua casa, visita surpresa.
\n– Ah, adoro. Por que não tocou a campainha? — Ele disse e logo o vi diante de mim, desliguei a ligação.
\n– Eu toquei, três vezes para ser mais exato.
\n– Desculpa, mano, eu e a Di estamos cuidando do Emmett e ele é uma bomba atômica em forma de criança.
\n– Emmett? — Perguntei erguendo uma sobrancelha e passando pelo portão
\n– Sim, o filho da Amanda. Ela teve que viajar com Kendall e o deixou na casa da Ingrid, ela o trouxe para cá hoje porque vai passar o final de semana aqui.
\n– Hm, a viagem da Amanda é longa? — Sondei
\n– Só o final de semana, foi hoje e volta domingo. — Ele respondeu e fomos surpreendidos por um pequeno furacão correndo até nós dois
\n– TIOOOOOOOOO! — Emmett pulou em mim e o peguei no colo, o pequeno estava suado de tanto correr
\n– Como está, garoto? — Falei o apertando um pouco e pondo no chão
\n– To cansado, tia Di já me deu taaaanta comida. Olha meu buchinho! — Ele ergueu a camisa e estufou a barriguinha
\n– Caramba cara! — Fingi estar surpreso — Sua mãe não vai brigar?
\n– Não sei, ela não quer que eu coma docinho — O vi balançar os ombros em desdém — Tio!
\n– O que? — Perguntei
\n– Vamos jogar bola hoje?
\n– Hoje? Mas eu vim conversar com o tio Logan.
\n– Por favoooor! — Ele pediu já começando a fazer birra
\n– O que eu ganho se fizer?
\n– Um abraço grandão — Sugeriu
\n– Um abraço grandão de um menino pequeno?
\n– Mamãe diz que sou pequeno com um coração grande.
\nTive que sorrir, ele era mesmo.
\n– Concordo, você tem mesmo um coração enorme. Cadê meu abraço então?
\nEmmett se aproximou aos poucos e abraçou minhas pernas, não pude deixar de expandir meu sorriso e ao mesmo tempo me sentir especial com o carinho dedicado. Abaixei o tomando em meus braços e questionei a mim mesmo sobre ter filhos. Emm tinha o poder de desenvolver um lado paternal em mim que sequer pensei existir.
\n– Que cena linda! — Ingrid apareceu na porta que dava acesso ao jardim
\n– Ah, oi Ingrid. — Fiquei sem graça e soltei Emmett
\n– Não solte, isso merecia uma foto.
\n– Deixa disso! — Retruquei sem jeito voltando a ficar de pé e fui cumprimentá-la — Como está?
\n– Estou bem, James. E você? Parece cansado.
\n– Não tenho dormido bem nos últimos dias, você deve imaginar o porque.
\n– Sem dúvida. Veio conversar com o Logan?
\n– Na verdade vim tentar me distrair, mas isso pode incluiu passar algumas horas jogando com o Emmett.
\n– Isso me deixaria muito feliz.
\n– A você? Por que?
\n– O que Di quer dizer — Logan se meteu rapidamente — é que ela fica feliz de você se distrair e também nos ajudar, não é amor?
\n– Isso, isso. — Ela concordou sem graça
\n– Então titio, vai jogar?
\n– Vamos, onde está a bola?
\n– Eu vou pegar. — Ele saiu apressadamente correndo para dentro da casa e ainda pude ouvir Ingrid aconselha-lo a não correr
\n– Menino esperto esse! — Logan disse admirado
\n– Tenho que concordar, além de ser um bom garoto.
\n– Sim. Temos que admitir que a Amanda o criou muito bem, não é?
\n– Por favor Logan, não quero falar da Amanda. — Desconversei caminhando pelo gramado
\n– Achei que essa era a razão de estar aqui. — Ele palpitou
\n– Não é mais. — Desviei o olhar, Loggie sempre sabia quando eu estava mentindo.
\n– Ainda magoado pela existência do Emmett? — Insistiu
\n– Por ela ter escondido que tinha um filho e por ele ter sido de outra pessoa.
\n– Mas você não queria um futuro com ela quando estavam juntos. — O vi defender
\n– Porra Logan, tá do lado de quem? — Chutei uma pedrinha que estava próxima aos meus pés
\n– Olha James, eu vou ser bem franco. — Ele começou a caminhar pisando calmamente na grama — Quando a Amanda voltou, eu não tinha nenhuma intensão em tratá-la bem. Apesar de saber que ela foi embora por causa da SUA traição, fiquei magoado pelas coisas terem se prolongado por tanto tempo e você ter sofrido longos seis anos esperando-a para se redimir. Eu te vi definhar mano e entendo teu lado! Mas agora consigo enxergar as coisas com mais clareza...
\n– Como assim?
\n– No lugar de Amanda também teria ido embora.
\n– O que? Você sempre a repudiou por ter ido! — Esbravejei, mas logo tive que me conter pois Emmett havia voltado com a bola
\n– Existe melhor motivo para permanecer distante do que proteger uma vida? — Logan disse olhando para Emm que sorria sem entender.
\nSerá que Amanda havia sumido por tanto tempo justamente para não voltar com o filho e ser confrontada por mim? Sendo assim, por que voltou agora? Permaneci imerso em meus pensamentos e no tobogã de possibilidades que estava diante de mim até que Emmett me chamou mais uma vez.
\n– Titioooo! — Ele chutou a bolinha impacientemente — Vamos jogar logo!
\nComeçamos uma pequena partida, na verdade tanto toquinhos na bola. Emmett insistiu em certo momento para que eu o ensinasse as embaixadinhas, mas ele sempre se confundia e não conseguia manter a bola. Jogamos por mais ou menos uma hora e eu já estava exausto. No entanto, aquele pequeno garoto continuava como uma pilha.
\n– Vamos lá tio Jay, só mais uma partida — Pediu enquanto eu já estava sentado e sem camisa pegando um pouco da brisa
\n– Não tenho seu fôlego, rapazinho! — Brinquei e ele se sentou ao meu lado desanimado saboreando um sorteve de morango que Ingrid havia lhe dado
\n– Isso é maldade, eu sou uma criança e você tem que me ensinar coisas novas.
\n– Quem te ensinou a argumentar assim?
\n– Não sei, mamãe diz que puxei a teimosia do tio Kends.
\n– Kends? — Gargalhei — Ele sabe que o chama assim?
\n– Gosta mais do que quando chamo de tio "bababa" — Ele pôs a lingua para fora brincalhão
\n– Emmett.. — O chamei
\n– Eu.
\n– Como era com... Com o seu pai? — Minha curiosidade atiçou
\n– Meu pai é legal! — Ele deu uma pequena mordida na ponta do sorvete e fiquei esperando que desse continuidade — Ele toca derbake e vive viajando.
\n– Mas ele te trata bem?
\n– Sim, me ensinou a tocar, sabia? Se a mamãe tivesse deixado eu trazer o meu, eu ia tocar um musicão, viu titio!
\n– Então você também é músico? — Me interessei
\n– Sim, a mamãe fala que puxei do meu pai.
\n– E como é a sua mãe com ele? Eles se gostam muito? — Sim, eu sei que estava me aproveitando da criança para perguntar, mas as pulgas atrás da minha orelha eram maiores que meu bom senso.
\n– Não sei titio. — "Claro James, como ele ia saber? O garoto tem cinco anos", me repreendi em pensamentos.
\n– James, Emmett! — Ingrid nos chamou — Tá na hora desse pequeno entrar e tomar um bom banho. Depois vocês jogam mais!
\nDeixei que Emmett a obedecesse e passei mais um tempo sentado ao ar livre. O bom da casa de Logan era justamente o enorme jardim que a cercava e o quanto a natureza estava ali exposta mesmo em uma cidade tão cheia de concreto quanto Nova York. E foi ali, em meio ao ar fresco que tocava meu rosto e aos pequenos raios solares que me iluminavam que pude lembrar-me do beijo que a dei na última vez que estive aqui. Ela, sempre ela. Devo começar a considerar que tudo no dia de hoje está me remetendo a lembranças nas quais Amanda sempre está. O problema é demonstrar para mim mesmo que ela não ocupa espaço apenas em minhas lembranças, mas também em meu coração.
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