Heaven In Your Eyes
61 Second Chance
Notas iniciais
KENDALL POV:
— Sr. Conelly, fico feliz em vê-lo novamente — Helena Young, a psiquiatra de Savannah, veio receber-me com a mesma simpatia costumeira. Ela estendeu sua mão em minha direção e eu fiz o mesmo apertando-a de maneira cortês.
— Obrigado. Já faz algum tempo desde que vim, não é mesmo?
— Realmente. O diretor do hospital já me informou sobre sua decisão e devo admitir que estou surpresa. — Suas mãos se recolheram encontrando abrigo no jaleco. Helena caminhou devagar pela própria sala enquanto eu permanecia sentado ouvindo o som dos seus saltos cor de rosa claro sobre o piso
— Por qual razão? — Ergui uma sobrancelha
— A senhorita Harris está aqui por inteira responsabilidade da irmã que atualmente mora fora do país e os pais dela são idosos, impedindo que realizem todos os cuidados necessários. Aqui foi feita uma internação involuntária com a autorização da família e, apesar de não ser mais um caso de risco, seria preciso que alguém a monitorasse quando recebesse alta. Como o senhor bem sabe, Savannah não era uma paciente muito empenhada e foi difícil chegarmos a um acordo para liberá-la.
— Eu entendo, entendo verdadeiramente. Mas, por favor, eu estou disposto a assumir os riscos. — Virei meu corpo na cadeira para encará-la com minha maior expressão de cão sem dono que era capaz de fazer.
— O que acontece, senhor, é que não iríamos liberá-la. Até poucos meses atrás se permitissemos sua saída seria como assinar sua sentença de morte e um dos nossos principios é privar pela vida do usuário do sistema psiquiátrico. Toda a equipe multidisciplinar da clínica realizou durante esse longo tempo de internação um enorme esforço para ao menos manter o peso de Savannah e em geral era extremamente complicado conseguir que ela respeitasse o tratamento. No entanto, desde sua primeira e última visita, as coisas mudaram bastante. — A expressão em seu rosto era indecifrável, como assim as coisas haviam mudado? Mudado em um sentido bom?
— A que está se referindo? — Levantei-me devidamente interessado ficando diante da psiquiatra
— Savannah tem mostrado uma melhora gradativa nos últimos meses, uma melhora que não aconteceu nos últimos anos. Tem mostrado aplicação no que diz respeito à alimentação, dedicação à terapia tanto individual quanto em grupo, tem até mesmo tomado os antidepressivos e polivitaminicos, o que ocasionou uma grande melhora em sua anemia.
— Você está me dizendo que... Que a Savannah está se recuperando? — Havia um sorriso de orelha à orelha em meus lábios.
— Sim, Sr. Conelly. Inclusive houve uma recuperação gradativa do peso corporal, a srta. Harris já conseguiu recuperar quatro quilos.
— Isso é... — Respirei fundo, mas estava com os olhos marejados — Isso é tudo que de melhor poderia acontecer.
Deslizei meu polegar pelo meu rosto limpando rapidamente uma lágrima fujona. "Seja homem, caralho!".
— Com toda a certeza, senhor. A melhora de Savannah se deve em grande parte ao seu desejo em procurá-la depois de tanto tempo e, de fato, sua decisão de tê-la consigo só aumenta o interesse em reabilitar-se. A família da paciente já autorizou a saída e tenho um prazer enorme em dizer que assinei o laudo de liberação esta manhã mesmo.
— Eu mal posso acreditar que a terei comigo novamente! — Estava pasmo. Savannah seria minha mais uma vez, eu estaria tendo a chance de fazê-la feliz mais uma vez e sem abandoná-la como fizera no passado. Será que era isso que James objetivou em relação à Amanda durante todos esses anos?
— No entanto, peço que não se esqueça dos compromissos. Savannah não está curada, mas não podemos aprisioná-la e isso seria anti-ético. Estamos liberando-a para reintegrá-la à família, ao trabalho e à comunidade em que vive, mas o senhor ainda será o responsável e terá como incumbência garantir que ela continue frequentando a terapia, tomando os medicamentos e vindo ao hospital frequentemente para acompanharmos os progressos. — Ela foi séria dessa vez e eu sabia a gravidade da situação. Savannah não tinha um resfriado que com algumas cartelas de remédio de gripe poderia ser curado. Transtotnos alimentares eram graves e a forma como enxergava seu próprio corpo não mudaria da noite para o dia.
— Vou estar ao lado dela para o que precisar. Me arrependo muito de não ter sido presente, de não tê-la procurado antes e hoje percebo que se eu estivesse aqui, talvez esse processo tivesse acontecido muito mais rápido. — Despejei todos os pensamentos que me torturavam como se fosse o réu de um grande crime
— Não tem porque culpar-se. Amanda tinha que, acima de tudo, buscar essa força dentro de si mesma. Ela não pode se tornar dependente de um agente externo para ter equilbrio emocional.
— Compreendo. Dra. Young, eu não permitirei em momento algum que Sav sofra tudo isso de novo. Lhe garanto que farei o que estiver ao meu alcance para que ela continue todo o trabalho que tem sido feito.
— Sabes que demandará de muita paciência, não é?
— Sim e eu estou disposto.
— Isso é muito bom. Vou lhe indicar uns grupos para familiares de pessoas com transtornos alimentares, é importante que frequente as reuniões e saiba qual seu papel nessa caminhada longa.
— Eu farei, faço o que for preciso. — Afirmei determinado tendo certeza que minha alegria contagiava a sala. — Quando posso vê-la? Meu Deus, ela deve estar achando isso uma loucura! — Passei a mão pelos meus cabelos imaginando a expressão curiosa no rosto de Savannah. Será que eu conseguiria parar de sorrir?
— Dissemos a ela que os tratamentos estéticos que está recebendo foram um presente da irmã. Ela está bem feliz acreditando que Carina lembrou-se dela com tanto afeto, mas tenho certeza que a maior alegria será saber que veio buscá-la.
— Posso subir ao quarto? Eu sei, sei que não é horário de visita e que eu não devo subir, mas você sabe que é uma data especial.
— Sim, eu sei — Ela sorriu cumplice a mim, Helena havia auxiliado bastante em meus planos para surprender a mulher que descobri amar — Pode ir até lá, sr. Conelly.
— Muito obrigado, dra, muito obrigado mesmo. — Agradeci apressando-me em cruzar a porta
— Sr Conelly! — A ouvi chamar-me novamente
— O que foi? — Girei em meus calcanhares sentindo que meu corpo ficou, mas minha alma já estava correndo pelos corredores.
— O vestido ficou na outra cadeira.
Gargalhei com minha própria distração e peguei o vestido que havia colocado na cadeira ao lado da minha. Sai dali a passos rápidos acenando com a mão livre para a médica que ajudou minha Savannah durante toda sua internação. Eu mal podia esperar para encontrá-la, vesti-la como uma verdadeira princesa e levá-la ao casamento de Logan. Hoje Sav conheceria minha familia e, mais do que isso, seria minha mulher.
Bati na porta, mas as risadas femininas e baixas dentro do quarto indicavam que ambas as mulheres estavam distraídas. Insisti dando mais duas batidas e logo ouvi a voz doce de Savannah ecoar:
— Quem é? — Questionou de dentro do cômodo
— Acho que pode ser uma visita, por que não abre? — A profissional que eu havia contratado lhe instigou a ir até a porta ciente de que era eu
Levou cerca de um pouco mais de dois minutos para que eu pudesse me deparar com sua visão. Savannah abriu a porta do seu dormitório um tanto quanto receosa — talvez pelo comentário feito por Christie — mas logo um sorriso enorme brotou em seus lábios coloridos por um batom rosado. Seus braços fracos e finos envolveram-me o pescoço em um abraço íntimo e saudoso. Não haviam palavras para ser ditas entre nós dois, eramos apenas nossos corpos e um mar de mágoas que havia sido escoado de nossos corações. Envolvi meus braços em sua cintura apertando-a contra mim e percebi a diferença em seu corpo. Mesmo que aos poucos Sav estava voltando a ser a mulher que esteve comigo anos atrás.
— Eu sabia, sabia que você estaria aqui. — Seus olhos procuraram os meus, meu coração estava estupidamente acelerado por tê-la ali comigo. Nossos narizes se roçaram devagar ao passo em que minha mão subia pelas suas costas até alcançar sua nuca — Eu sabia que não desistiria de mim.
Cautelosamente, nossos lábios ganharam vida aproximando-se um do outro. Havia tempo que eu não saboreava seus beijos, que não podia tê-la tão perto de mim, que não tinha a certeza de que a amaria novamente. Nosso beijo fora tão delicado quanto eu sabia que ela era e pode parecer idiotice, mas havia um alerta em mim para que minhas mãos em seu corpo fossem singelas e para que tomasse todo cuidado do mundo quando se tratava de um contato físico maior. Sei que é tolice, mas Savannah para mim era exatamente como uma daquelas bonecas antigas de porcelana e eu jamais conseguiria ser bruto a ponto de quebrá-la novamente. Com afeto, minha mão direita tomou seu rosto tocando-o por cima da bochecha rosada pelos tons de maquiagem que recebera. Sua lingua quente invadiu minha boca acariciando a minha com tamanha lentidão que me permitia sentir toda a saudade que emanava de dentro de si. Quando aos poucos nos separamos tive a confirmação dentro de mim de que não poderia perdê-la nunca mais.
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