Heaven In Your Eyes
28 Savannah II
Notas iniciais
KENDALL POV:
Tudo o que me faltava era Carlos lembrar e comentar sobre Savannah. Nós dois já tinhamos completado um ano juntos e apesar dela insistir em conhecer meus amigos, eu tentei evitar ao máximo até que não tive escapatória. Não que eu quisesse escondê-la deles, mas sabia que sua instabilidade era perigosa e no fundo, me sentia mal por tudo que passávamos. No entanto, quando o destino já está traçado, se torna difícil fugir das linhas que estão escritas em minha história e todos vieram a ser testemunhas de algumas de nossas brigas, seus choros incontroláveis e até mesmo agressões físicas que sofri. Para todos, omiti muitos fatos. Meus amigos acreditam que eu e Sav ficamos juntos por um período curto, um mês no máximo e que cansado das brigas terminei. O que quase ninguém sabe é o sofrimento que assombra nossa história.
Agora, diante daquela clínica psiquiátrica, eu só conseguia pensar que diabos havia me feito ir até aquele endereço e procurá-la. Emmett estava saindo do hospital e eu devia estar recepcionando-o com o maior carinho, mas ao contrário disso, inventei uma desculpa e vim buscar a responsável por ter me tirado mais uma noite de sono mesmo depois de tanto tempo. Cruzei a porta de entrada indo até a recepção passando por enfermeiros de branco que caminhavam por todo o lado. As paredes brancas me causavam o mesmo arrepio de quando a deixei aqui junto com sua família e momentanemante recordei do do inicio e de como relutei para tentar que as coisas dessem certo sem me dar conta de que estava sendo arrastado para o fundo do poço ao seu lado.
– FLASHBACK —
– Savannah, meu amor, por favor. — Pedi tentando controlar mais uma crise de choro dela — Venha cá, eu preciso que fique bem. — Envolvi seu frágil corpo entre meus braços e percebi o quanto estava definhando diante dos meus olhos
– Estou cansada, Kendall! — Ela me empurrou tirando forças sabe-se Deus de onde — Você não consegue compreender, você jamais vai entender o quanto é horrivel estar presa a esse corpo.
– Não há nada de errado com você! — Expliquei tentando não perder a paciência. Estávamos sentados à mesa de jantar. Na verdade ela estava, eu estava ao seu lado tentando convencê-la a comer.
– Não há nada de errado comigo? Se você me enxergasse de verdade, já teria me trocado há muito tempo.
– Não fale merda, tá legal? Olha! — Puxei minha cadeira colocando ao seu lado e sentei — Eu estou achando isso tudo exagerado demais. Você começou devagar, cortando doces e frituras, fazendo exercícios... Nada muito serio e até ai estava tudo bem para mim. Só que as coisas estão tomando uma proporção absurda!
– Eu apenas estou satisfeita, já comi o suficiente — Ela respondeu friamente secando mais uma lágrima
– Você não se alimentou hoje. Se você não comer, eu vou ter que chamar seus pais de novo.
– Pare de me tratar como uma criança. — Savannah disse se levantando e eu fui atrás
– Não estou te tratando como criança, só não consigo lidar mais com as suas crises. Eu não posso cuidar de alguém doente!
– Eu não estou doente.
– Não? Será que não? Então me explica o que aconteceu ontem de madrugada?
– Do que você está falando? — Ela empalideceu
– Você sabe muito bem.
– Não, eu não sei.
– Savannah, eu vi, tá legal?
– Viu o que? Eu me esforçando para ser uma namorada que tenha orgulho? Ah sim. — Ironizou
– Não, eu vi você escondida comendo, comendo, comendo e colocando tudo para fora. — Confessei tentando encontrar seu olhar que fugia do meu
– Você não deveria ter visto — Me respondeu com tamanha naturalidade que parecia estarmos comentando sobre o tempo ou o placar de algum jogo de basquete.
– Eu não posso permitir isso, já aguentei demais. Você era minha amiga acima de tudo, eu me encantei por você! Nós costumávamos conversar e hoje não consigo ter um dialogo longo que não vá dar em choro ou em algo doentio. Você precisa se tratar mais uma vez!
– Eu não vou parar naquele inferno de novo, confia em mim Kendall.
– Confiar em você? Eu sempre soube que havia um transtorno, mas confiei quando me disse que só queria voltar para o seu peso e nada mais. Eu te incentivei, até sai para correr contigo. Fiz tudo que um namorado descente faria e, no entanto, só te vejo chorando todas as noites e me evitando.
– Te evitando? Então o problema é sexo?
– Não, o problema é amor. Não posso amar alguém que não se ama!
– Bravo, finalmente você entendeu o x da questão. EU NÃO ME AMO, tá legal? Estou tão decepcionada comigo mesma que não sou capaz de enxergar uma única coisa boa em uma vadia gorda como eu sou.
– Você definitivamente não tem espelho.
– E você não tem paciência!
– Eu cansei de ter, estou há sete meses te apoiando e você só está definhando diante de mim. Eu cansei!
– O que você está querendo dizer? — Lágrimas inundaram seus olhos e eu desviei o olhar para não encará-la
– Você sabe bem.
– Não Kendall! Olha pra mim. — Não fiz o que ela pediu, o que tornou a situação mais desesperadora — Ken, Ken!
Savannah me chamou infinitamente, mas eu estava pronto para deixar minha própria casa mesmo que por algumas horas. Eu precisava pensar, precisava pôr os pensamentos em ordem. No entanto, assim que virei de costas, ela jogou-se aos meus pés segurando-me com força enquanto se arrastava no chão. Meu coração enfraqueceu sentindo uma pontada de desgosto, tristeza e arrependimento.
– Só você pode me salvar, Kendall. Por favor, não saia pela porta, você é o motivo pelo qual eu estou vivendo.
Vi minha namorada estender a mão para cima esperando que eu a segurasse e puxasse para ficar de pé, mas a manga de seu casaco escorregou revelando marcas em seus pulsos que até então eu desconhecia. Amoleci diante das circunstâncias, me rendendo diante de seu apelo emocional. Onde estão minhas forças quando preciso delas?
– FIM DO FLASHBACK —
"Onde estão minhas forças quando preciso delas?", me perguntei mais uma vez pensando em dar meia volta, mas uma senhora elegante com um óculos apoiado em seu nariz já havia se aproximado.
– Kendall Connelly? — Perguntou estendendo a mão para mim
– Eu mesmo. — Falei cumprimentando-a
– Sou Helena Young. Venha por aqui, por favor. — Ela disse indicando-me um largo corredor pela qual a segui calado — Devo admitir que estou surpresa, Savannah Harris não recebe visita há muito tempo.
– Quão muito?
– O bastante, senhor Connelly, o bastante. — Disse com pesar deixando o ar se esvair em uma respiração densa
– A senhora é a psiquiatra dela?
– Tenho sido desde que o Dr. Holmes se aposentou.
– Como está o caso de Savannah? — Perguntei temendo a resposta e escondi minhas mãos em meus bolsos apertando-as dentro dos mesmos
– Ela, infelizmente, só conseguirá ter uma melhora significante quando estiver determinada a alcançá-la. O maior desafio é o paciente que não quer mudar, não importa o diagnóstico.
– Compreendo. — Respondi com desânimo
– Desculpe-me a intromissão mas... Você é o rapaz que costumava mandar cartas, não é?
– E o mesmo para o qual ela liga as vezes escondido.
– Não tão escondido assim. — Ela tentou descontrair — Savannah sente sua falta.
– Não tanto quanto tenho evitado sentir a dela — Assumi me sentindo pior do que quando havia chegado.
– Bem, nós chegamos. — Helena disse apontando para uma área ao ar livre, tranquila, repleta de árvores e que tentava ao máximo aparentar paz. Nela haviam algumas pessoas sentadas em diferentes partes, poucas conversavam entre si. Deixe-me explicar: Sav estava internada em uma clínica que abrigava desde depressivos à esquizofrênicos, cada um com sua ala pertencente e nesse momento alguns estavam recebendo visitas aproveitando o mormaço do pouco de sol que iluminava Nova York.
– Como sei qual delas é Savannah? — Perguntei tentando encontrá-la com meus olhos
– Quer que o leve até lá? — Ela perguntou solicita
– Não, prefiro estar a sós. Só, por favor, diga-me qual delas.
– Aquela com os cabelos compridos e escuros, sentada de costas para nós.
– Obrigado
Agradeci sinceramente caminhando pela trilha de pedra na grama. O vento se tornou mais forte, o que fez com que os enormes cabelos negros voassem livremente, tão livre quanto eu gostaria que Savannah pudesse estar. Parei observando sua figura diante de mim, ainda de costas, ainda tão petrificada.
– Sav. — A chamei em um fio de voz, no fundo torcendo para que ela não tivesse me escutado e desejando ir embora o mais depressa possível. O que eu ainda estava fazendo aqui?
– Oi Kendall. — Ela respondeu ainda sem me encarar — Sente-se aqui.
Apenas obedeci temendo encarar seu rosto depois de tanto tempo. Assim que dei a volta sobre seu corpo ainda tão magro pude ficar diante da mulher que um dia amei e venho tentado enterrar dentro de mim. Seus olhos azulados ainda eram brilhantes, apesar da pele levemente envelhecida, os ossos sobressaltantes em seus braços e a aparência de cansaço. Havia um tom rosado nas maças de seu rosto, o que me fez supor que alguma enfermeira generosa a tenha maquiado com um pouco de blush para dar um ar mais saudável. Eu estava preso à sua face, procurando no fundo daquela imensidão azul resquícios da menina doce que me fizera sorrir desde o primeiro momento.
– Quanto tempo. — Murmurei sem jeito
– Não tem problema, esperei por você. — Ela disse tentando sorrir e me sentei diante de seu corpo ainda tão singelo
– Me desculpe. — Eu não conseguia dizer nenhuma frase longa. Era como se quanto mais falasse, mais estendesse uma corda para ela se segurar a mim.
– Pelo que?
– Não ter aparecido, ter te destratado ao telefone, ter arrumado outro alguém.
– Tantas desculpas, parece que errou demais.
– Não errei? — Essa pergunta perambulava em minha mente desde que prometi voltar na visita seguinte após a internação e nunca mais apareci — Fui tão sugado emocionalmente e ainda assim sai como culpado.
– Se há culpa é porque houve amor.
– O amor fere, Savannah.
– Amar não fere, eu que te feri e muito. Você não merecia ter passado por um terço do que passou ao meu lado, não merecia que eu te arrastasse para a minha escuridão e te fizesse tanto mal.
– Você me arrastou quando maltratou a si mesma. Estive tão disposto a estar ao seu lado, a cuidar de você mas... — Respirei fundo — Você não quis.
– Não estou preparada para abandonar esses hábitos, talvez nunca esteja. Mas e você? Esteve preparado para me abandonar.
– Eu não me perdoo até hoje pela covardia que fiz. Eu não conseguia te encarar, Savannah, não conseguia ver a pessoa que amava se afundando diante de mim enquanto eu me sentia impotente e, o pior, me levando junto! Eu já não tinha forças, não conseguia mais acordar diariamente com você chorando, se negando a comer, aguentar suas compulsões durante a madrugada, os cortes, o sangue que volta e meia encontrava manchando alguma toalha. Eu não conseguia aceitar que não era o suficiente para te fazer feliz. E quando você foi internada eu simplesmente... Não consegui mais voltar, não consegui te encarar depois de desaparecer, de ter te abandonado quando mais precisava de mim.
– Eu gostaria de poder mudar as coisas, mas não posso. Queria ser diferente, mudar o modo como eu penso e como faço as coisas. Porque, sabe, é difícil ficar assim. Eu me sinto mal, sozinha, imprestável, não sendo digna de receber nada.
– Você é digna de receber muito, mas precisa querer.
– Acha mesmo que eu não quis ficar bem durante todo esse tempo?
– Acho. — Admiti
– Não é como se eu gostasse da dor propriamente dita, Kendall.
– Então por que tentou se matar, hun? Por que eu fui obrigado a te encontrar desacordada ao meu lado quando acreditei que estava apenas dormindo? Por que tive que correr para salvar sua vida temendo nunca mais poder olhar em seus olhos?
– Eu estava com pensamentos obscuros novamente, estava com semblante doente outra vez, isolada e te vendo cada vez mais cansado de mim. Eu sabia que não iria demorar a partir!
– Você me empurrou porta à fora da sua vida.
– Mas você não precisava ter ido embora. Quem quer ficar, sempre fica.
– Isso é estupidez, eu não deveria estar aqui.
– Por favor, fique.
– Por que?
– Porque todas as minhas relações foram destruidas por mim mesma, Kendall. Você é tudo que me resta e dói saber que minha lembrança mais doce só existe dentro de mim. — Ela sorriu tristemente apesar das palavras amargas
– Do que sorri?
– Tem muitas coisas atrás de meu sorriso e estou feliz, mesmo que não creia. É bom saber que ao menos uma vez você saiu dos meus sonhos e está diante de mim.
– Não diz esse tipo de coisas que só faz com que eu me sinta pior.
– Vir aqui já é algo que te faz mal. — Ela afirmou
– Acho que sim.
– Então para que veio, Kendall? O que te trouxe até aqui?
– Sonhei contigo essa noite.
– Acredito que tenha sonhado outras vezes e isso não mudou nada. O que te trouxe aqui?
– Eu não sei, queria saber de você.
– Preocupado pela primeira vez? — Vociferou
– Não ironize, quero mesmo saber de você.
– A sequência de minha vida é uma grande incógnita, se resume a viver um dia de cada vez, absolutamente isolada e não por opção.
– Sua família não vem mais aqui?
– Ah Kendall, quem perderia seu tempo com uma doente? Há anos que passo natal e ano novo sozinha, trancada em um quarto. As vezes parece que o mundo é uma cela e estou nele cumprindo uma pena.
– Você pode sair daqui, sabe disso.
– E ir para onde? Meus pais até onde sei não conseguem mais lidar comigo, eles já eram velhos anos atrás e agora estão mais envelhecidos. Minha irmã está fora do país, assim como Amanda. Aliás, como ela está?
– Está bem, parece que está se entendendo com James.
– James? O namorado que a abandonou?
– Sim.
– Bom, parece que ex namorados covardes estão dando as caras ultimamente — Ela alfinetou, apesar do tom de brincadeira
– Amanda me disse que eu não era tão diferente de James e estou começando a considerar que ela possa estar certa.
– Quem diria que o monstro que tanto condenou também vive dentro de ti — Savannah disse e apoiou sua mão em meu peito quando proferiu a palavra "dentro". Me senti invadido por seu toque, eu não estava pronto para tê-la tão perto. Pelo menos ela percebeu e retirou a mão, o que me trouxe mais tranquilidade.
– Te contei sobre Emmett? — Mudei de assunto
– Não. O que exatamente?
– Ele afogou-se, está saindo hoje do hospital.
– Sinto muito — Sav disse verdadeiramente — Ele está bem?
– Uhum, ainda bem.
O silêncio reinou entre nós por um momento, até que Savannah voltou a quebrar o gelo.
– Estive pensando: Seu sobrinho está deixando o hospital e está aqui por mim?
– Você me desestabilizou depois de tanto tempo, apenas venho tentando entender qual foi o gatilho que me fez correr para você.
– O medo da perda. Você quase perdeu seu sobrinho e a última vez que encarou a morte de perto foi por minha causa. Tens medo de perder seus entes querido desde então, acho que te deixei traumatizado.
– Tem feito terapia demais — Conclui
– É o que mais se tem a fazer por aqui. Clínicas psiquiátricas são estranhas! Alguns fumam demais, outros subornam enfermeiros por doces e alguns mais libidinosos trocam beijos, rola de tudo na verdade.
– Você participa desse tipo de coisa?
– Ciúmes, Kendall?
– Participa? — Ignorei sua pergunta e reforcei a minha
– De maneira nenhuma, já disse que me isolo.
– Você não deveria estar isolada, tinha um brilhante futuro pela frente.
– Tenho encarado meu futuro da mesma maneira que meu passado: inexistente.
– Por que não tenta voltar a focar no tratamento? Por que não se permite?
– Qual o motivo para voltar a ter paz?
– Talvez esse motivo esteja diante de ti. — Confessei
– Você? Minha memória é vaga, Kendall. Lembro de poucas situações, muito poucas. Mas, apesar disso, sei de todo o mal que te fiz e não me permitiria fazê-lo.
– Nem eu deixaria que o fizesse, mas se a Savannah pela qual me apaixonei voltasse...
– Sem promessas — Ela me interrompeu — Você já prometeu demais quando disse que voltaria assim que entrei aqui.
– Me desculpe — Pedi sinceramente dessa vez mirando o chão
– Não se preocupe, meu depoimento não deve ser encarado com tristeza. Quer dizer, eu sempre ando triste mas talvez isso só aconteça porque sinto sua falta desde que você me deixou.
– Não me arrependo de ter te deixado, Savannah. Me arrependo sim da maneira como isso aconteceu, mas se eu não tivesse ido teríamos permanecido adoecendo juntos e eu não poderia estar aqui agora encarando você e te pedindo para tentar.
– Tentar para que? Eu sou apenas um reflexo do seu coração vazio.
– Não tente pelos meus sentimentos ou pelo meu coração, mas tente pelo teu que ainda quer bater por muitos e muitos anos.
– Seria como desistir de tudo que eu sou.
– Ser triste não é tudo que precisa ser. — Finalizei já me levantando para deixá-la novamente. Dessa vez Savannah não tentou me impedir, apenas levantou-se ficando diante de mim.
– Posso te pedir uma coisa?
– O que?
– É que eu daria meus dois braços para receber um único abraço, mas sei que isso nunca mais vai ocorrer, não tem ocorrido há muito tempo. Se não quiser, tudo bem eu...
Não deixei que ela terminasse. Apenas abracei seu corpo como se pudesse protegê-lo, envolvendo-a como se fosse uma armadura na qual ela pudesse se esconder e assim terminei minha visita, esperando verdadeiramente que Savannah possa recomeçar.
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