Heaven In Your Eyes
18 Savannah
Notas iniciais
Eu havia passado a noite à base de café extra forte em frente ao computador tentando montar um currículo descente. "Certo, Amanda, o que você sabe fazer?", me perguntei horas atrás enquanto mordicava a ponta do lápis que estava em minhas mãos para anotar alguns tópicos em uma folha de rascunho. Assim que terminei de elaborá-lo com minha pouca — para não dizer nula — experiência, comecei a enviar para algumas empresas que haviam colocado anúncios online. Para quantas mesmo eu havia mandado? Segundo minhas contas, foram dezessete partindo dos empregos mais simplórios à alguns um pouco mais bem remunerados. Mehmet havia insistido em continuar pagando pela educação de Emmett, o que havia facilitado um pouco minha carga financeira a ser carregada, mas ainda assim eu não poderia ser uma vagabunda vivendo na casa do irmão de graça. Estava empolgada a retomar as rédias da minha vida e é isso que me fez levantar essa manhã mais confiante do que nunca. Desci as escadas cantarolando e Kendall que estava passando mordiscando uma maça olhou-me curioso.
- Viu passarinho verde essa noite? Ou pior, viu o ex? — Ele ergueu uma sobrancelha
- Você bem sabe que essa é a última pessoa que quero ver. — Passei por Ken dando-lhe um beijo no rosto e sorrindo
- Posso saber por que esse sorriso se ontem estava mal? To começando a considerar te levar para um psicólogo.
- Vai à merda, irmãozinho — Debochei — Simplesmente estou indo agora mesmo em um colégio de supletivo para terminar meus estudos.
- Não brinca! — Ele disse abraçando-me — Que orgulho, Mandy!
- Sim, parei no segundo ano né? E quero pelo menos o meu diploma, isso vai me ajudar a arrumar um trabalho descente. Aliás, coloquei alguns currículos a madrugada toda.
- Você não dormiu?
- Não.
- E está nessa felicidade?
- A esperança deixa as pessoas mais contentes, Kendall, faz com que elas pensem que podem achar a saída para os problemas.
- E você vai encontrá-la, tenho certeza. Mas, estive pensando, por que não trabalha na empresa da nossa família?
- Ah não, não mesmo. Você bem sabe que o se Kent me ver, vai me expulsar como um cão sarnento.
- Primeiro, não é Kent, ele é seu pai. — Revirei os olhos com o comentário — E, segundo, você sabe que eles estão morando longe o bastante daqui e essa filial está sob minha responsabilidade. Você pode ser minha secretária, conhecer cantores famosos, atender todo o tipo de gente... — Ele disse indo até a cozinha e dando mais uma mordida na maçã — Eu estou precisando de ajuda mesmo! — Meu irmão falou com a boca cheia
- Está me dando emprego? — Coloquei a mão na cintura ainda incrédula
- Estou. Você não pode me dizer não como resposta!
- E se nossos pais souberem?
- Você já vai estar empregada e eu como seu chefe não vou demiti-la.
- Hm, é mesmo chefinho? — Brinquei indo até onde meu irmão estava apoiado e organizei seu cabelo todo pro lado deixando-o com um aspecto esquisito
- Quer parar? — Ele disse rindo — Vai ser demitida por justa causa.
- Você reclama, mas me ama. — Mostrei a língua — Quando começo?
- Eu vou hoje umas dez horas resolver algumas pendências e você pode ir ver seus estudos, amanhã começa.
- Que horário?
- Às oito, mocinha.
- Certo. Vou aproveitar para resolver a escolinha do Emmett.
- Ele vai se adaptar fácil?
- Sim, do jeito que ele é tagarela e levado, estar na escola é algo que deve estar sentindo falta.
- Sabe, Mandy, não acho justo o Mehmet pagar pela educação dele. Eu poderia fazer, nossa família poderia, não somos mortos de fome. — "Não são mesmo!", pensei.
- O Mehmet se sente muito pai do Emmett, ele o viu nascer, participou da criação e esse afastamento repentino está sendo doloroso para ambos. Ele insiste que é uma forma de manter contribuindo pelo "filho" — fiz aspas com a mão — e não vou negar.
- Você é quem sabe, secretária. — Kendall disse jogando o resto da maçã no lixo
- Sabe, Kends — repeti o apelido que meu filho deu a ele — estive pensando e cheguei a conclusão de que eu deveria ter vivido tudo isso antes. As vezes me pergunto como seria minha vida se tivesse tomado as decisões certas. Você está ai como um produtor musical, tocando a empresa da nossa família, o Logan e a Ingrid trabalham juntos, o Carlos tá cantando e até a porra do James tem uma profissão.
- Compositor, grandes coisas. — Meu irmão desdenhou
- Parece que todo mundo seguiu um caminho, mas e eu?
- Não é verdade! — Meu irmão me abraçou reconfortando — Você apenas colocou uma virgula na sua história e essa vírgula foi necessária para que um pequenino nascesse. Ainda tem muito a ser feito, você sabe disso não é?
- Sim, eu sei, e é isso que estou fazendo agora.
- Exatamente. Agora alimente-se e vá resolver suas coisas, eu passo os olhos no Emmett por hoje.
- Mesmo? — Sorri para o meu irmão
- Sim, vou levá-lo para o estúdio.
- Por favor, Ken, não o deixe mexer em nada. Esse menino tem uma mão nervosa!
- Está bem, mãe super protetora. — Ele fez uma careta e eu apenas ignorei. Peguei um iogurte na geladeira e fui bebendo durante o caminho. Ainda teria muitas coisas a resolver hoje e não perderia tempo.
**
KENDALL POV:
Emmett estava encantado com o estúdio da empresa, principalmente quanto entrou e viu Pharrell Williams gravando. Não que ele conhecesse qualquer artista estadunidense, mas só o fato de ter alguém lá dentro cantando já o fazia se balançar no ritmo. Esse certamente seria mais um para seguir a veia artística da família. Também, pudera, olhem o pai do menino! Balancei a cabeça negativamente ao me recordar do fato e o puxei pela mão devagar.
- O que acha de olharmos a sala do tio?
- Não, titio. — Ele negou — Quero ouvir mais música.
- Venha cá, então. — O coloquei em um banquinho diante da mesa e ele pode ver Pharrell melhor.
Meu sobrinho se animou quando coloquei um headphone em sua cabeça, fazendo a melodia invadir suas pequenas orelhinhas. Em um momento infantil, ele deu tchau para o cantor empolgadamente. Ah, crianças!
— Senhor! — Carmit me chamou delicadamente
— Sim — Sorri, mas sua expressão não era das melhores — O que houve?
— Você sabe... — Ela deixou em aberto entregando-me o telefone. Respirei fundo, de novo não.
— Pode tomar conta do meu sobrinho por um instante, por favor? — Pedi e ela assentiu com a cabeça. Peguei o aparelho de suas mãos e fui até o lado de fora colocando-o finalmente em meu ouvido.
Ligação ON:
— Eu já pedi que pare com essas ligações, Savannah.
— Kendall, por favor. Não tenho muito tempo para falar, você sabe que logo vão me descobrir aqui.
— Então não se arrisque, não ligue mais.
— Ken, eu não estou bem.
— Eu não posso lidar com isso, Sav, aguentei tempo demais.
— Você simplesmente não se importa.
— Não é questão de não me importar! — Apertei os olhos com o polegar e o indicador. Todas as vezes que essas ligações aconteciam, eu permanecia o dia inteiro me sentindo um lixo de homem.
— E qual o motivo?
— Sav, minha irmã voltou, não tenho tido muito tempo.
— Sério? A Amanda? Você sempre falou tanto dela, adoraria vê-la.
— Savannah, pare. Não haja como se fossemos um casal, você sabe que tenho seguido minha vida.
— Sim, em sua última carta me disse que estava saindo com alguém. podia ter vindo me dizer ao invés de escrever.
— Desculpe, mas...
— Eu sei, não consegue vir aqui.
— Sim. — Afirmei em um fio de voz
— Você me magoa sabia, Kendall? Acho que você não tem noção do quanto contribuiu para tudo isso, do quanto me feriu e do quanto me trata mal.
— Você que se tratou mal todos esses anos, apenas você Savannah. — Respondi descrente das minhas próprias palavras — Tenho que ir. Por favor, não ligue mais. Amanda virá trabalhar comigo e não quero que ela saiba sobre você.
— Quem mais poderia saber, não é mesmo? Sou sua parte mais obscura — Ela afirmou patológicamente
— Tchau, Savannah! — Desliguei o telefone e encostei-me na parede. Merda!
Ligação OFF.
"- Não machuquei o coração de mulher alguma!
– Isso você nunca vai saber."
A conversa que tive semanas atrás com Amanda ecoava em mim. Eu havia machucado, mas era simplesmente tão mais fácil acreditar que não. Savannah deveria permanecer exatamente onde está e quanto mais apagasse essa memória, seria melhor. Como ela mesma dissera, esta era a minha parte mais obscura, era quem me puxava para o abismo e, acredite, se eu quisesse seguir com um pouco de sanidade deveria afastar-me para sempre de seus olhos cor de âmbar e seu coração tempestuoso.
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