Notas iniciais
Uhul, vocês ganharam mais 3 ou 4 capítulos. Agora o final é só semana que vem, na terça!
Essa era a questão: Como em um momento de devaneios pude me iludir que tudo seria como antes? Como pude acreditar que James havia se regenerado e se tornado o homem que tanto esperei? A tormenta que me atravessava era tão horripilante quanto a probabilidade de saber que ele tramara todo esse tempo contra mim e a família que sonhei que formaríamos. Saber que eu era apenas uma peça descartável nesse jogo em busca da guarda do meu filho era uma mágoa que parecia não caber em meu peito e vazava pelos meus olhos transbordando toda a dor. Sim, meu filho. Eu que levei Emmett em meu ventre por nove meses, eu que o criei quando tudo estava difícil, eu que estive ali... Apenas eu. No entanto, como dizer ao meu coração e aceitar com facilidade o fato de que havia fui atingida com uma adaga no meio das costas pela pessoa que mais confiei? Descobrir todas as mentiras, tudo que foi omitido, todas as vezes em que fui enganada, tudo que deveria saber desde o principio e então me dar conta de que estive apaixonada todo tempo não por um ser humano, mas sim por um pacote completo de mentiras — um pacote lindo, diga-se de passagem, mas ainda assim repleto de decepções — só mostrava o quanto fui fraca e estúpida.
Eu sabia que estar ao lado de James seria difícil. Nunca esperei um "felizes para sempre". O que não esperava, é claro, é que por mais forte que uma tempestade parecesse, sempre existiriam raios que a tornaria mais assustadora e esse raio caiu na minha cabeça quando percebi uma voz nas profundezas do meu inconsciente repetindo mais uma vez o quanto fui tola. Isso não iria dar certo, ele era apenas o homem que — por cargas d'água do destino — estava programado para me magoar repetidamente até que meu coração fosse incapaz de se recompor. Porque foi isso que James fez. Mesmo com todos os alertas em minha mente desde o início e com minha necessidade de manter distância, me permiti cair de cabeça nesse relacionamento sem considerar que essa mudança repentina poderia ser uma armadilha.
Hoje percebo que sou escrava das minhas próprias emoções. Sinto tudo com uma alta intensidade, tudo me faz mal, tudo me agride e tudo me machuca. James me machuca. Ainda sem chão e sentindo que o bebê em minha barriga parecia revoltar-se contra o pai me fazendo enjoar, respirei fundo controlando a ânsia e tentei pensar. Ainda assim, eu só queria me esconder, pedir abrigo e colo ao meu irmão, realizar os mesmos erros que da última vez. Afinal, que destino irônico é esse que me persegue. Mais uma vez grávida e traída pelo mesmo homem.
A porta da sala fechou e eu percebi que o meu maior inimigo sob o mesmo teto que eu.
– Amor, voltei — Ele anunciou — Comprei todas as bebidas.
"Meu Deus, o que eu faço?", perguntei a mim mesma em orações. Sequei o rosto rapidamente com o dorso das mãos trêmulas.
– Mandy? — O ouvi questionar enquanto os passos pareciam mais próximos
– Ahm... diga — Respondi finalmente e me virei
– Tá tudo bem? — Indagou com uma sobrancelha erguida e deu mais um passo a frente — Você estava chorando?
– Eu? Ah não. É que decidi cortar algumas cebolas para enfeitar o prato e, bem, você sabe como arde.
James olhou em volta curioso.
– Certo, mas cadê as cebolas?
– Ficaram péssimas na decoração, então joguei fora
Menti e fui até o filtro pegando um copo de água gelada para me acalmar. O virei rapidamente em meus lábios para manter-me ocupada.
– Você também está nervosa, não é? — Ele tentou adivinhar o motivo da minha estranheza
– Bastante — Menti de novo
– Não precisa, a noite de hoje será ótima e sei que reconquistarei a confiança do seu irmão.
James dissera isso com doçura e aproximou-se envolvendo seus braços em meu corpo para me abraçar. Todavia, aquele abraço parecia frio e eu me sentia como na última ceia de Cristo recebendo o beijo de seu maior traídor. Em minha cabeça a resposta para sua última frase ecoava: "você não terá a MINHA confiança".
– Claro, vai tudo acontecer exatamente como o destino quis — Respondi e a pitada de ironia estava em minhas palavras.
– Eu vou subir para me arrumar, está bem?
Apenas assenti e James inclinou-se para frente roubando-me um beijo no canto dos lábios. Aquela falsa demonstração de afeto me fez questionar todas as vezes em que ele me tocara ou dissera que me amava. Senti nojo de mim, de suas mãos em meu corpo, de seus lábios nos meus e, em um impulso, esfreguei meus braços tentando tirar qualquer resquicio de seu toque.
Esperei até que o som do chuveiro sendo ligado pudesse ser ouvido e subi às pressas para o quarto. Céus, que sorte havia sido a minha por manter minha pequena mala e a de Emmett ainda sem desarrumar. Essa poderia ser a salvação de tudo e o meio mais rápido de evitar o pior. As peguei com pressa e desci colocando-as no porta malas do carro, guardei a chave em meu sutiã — o lugar mais perto e seguro que pensei — e fui surpreendida por uma voz familiar.
– O que está fazendo ai? — Carlos chegava e havia me visto fechando o bagageiro. Por sorte o fiz antes dele perceber qualquer coisa incomum.
– Só preparando uma surpresa para o James. Entra ai, você foi o primeiro a chegar.
Ele entrara e se aproximou de mim me abraçando apertado.
– Senti saudades, magrela.
– Também senti, tarado. Você não pode me abandonar desse jeito.
– Jamais. Cadê o viado do seu noivo? — Carlos brincou enquanto entravamos na sala
– Viado não — James disse enquanto descia as escadas — Como estou? — Me perguntou
– Elegante — Limitei-me — Vou deixar vocês dois conversando e já volto, está bem?
– Precisa de ajuda? — Carlos ofereceu
– Não, não. Prometo que já volto.
Subi as escadas rapidamente e fui até o banheiro trancando-me dentro do mesmo. Meu coração batia em um compasso acelerado e eu estava sentindo-me zonza. Sentei no chão pouco me importando com o vestido e recostei a cabeça na parede. Observei meus braços. Eu parecia ter sangue de barata e não sabia o quanto conseguiria me controlar para não esbofetear o rosto do homem que me ferira.
– Tá tudo bem ai? — Ingrid disse, pela segunda vez ao dia, do outro lado da porta. Então ela e Logan haviam chegado.
– Uhum — Respondi em um murmuro
– Então por que está com voz de choro?
– Não estou não.
– Abre a porta?
– Um minuto — Pedi e levantei com um pouco de pressa passando as mãos sob os olhos limpando qualquer borrão que possa ter aparecido.
– Está legal? — Di disse assim que abri a porta
– Os malditos enjôos começaram — Menti
– Prepare-se, isso tende a piorar.
– Nem me fale, mal posso esperar meus pés inchando como balões de novo — Ironizei rolando os olhos
– Estarei contigo pra te ajudar dessa vez — Minha amiga me reconfortou. "Não, ela não estaria", pensei. — Vamos descer?
– Vamos.
Meu estômago estava embrulhado, meu coração não parecia voltar ao ritmo normal e a ansiedade em mim denunciava meu receio pelas próximas horas. Se James pensou que o jantar de seis anos atrás foi o pior de sua vida, ele certamente não considerava cometer o mesmo erro anos depois.
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