Heaven In Your Eyes
96 Final
Notas iniciais
– Como assim não tem nenhum Mehmet El-Haddad hospedado aqui? — Perguntei sentindo minhas mãos tremerem e suarem.
– Ele fez o check out no hotel já tem algum tempo, senhora.
– Certeza? Mas nós nos falamos, eu vim aqui — Afirmei tamborilando nervosamente no balcão
– Sim senhora e ele foi embora no dia seguinte.
– Mehmet foi embora? — A realidade me atingiu e eu congelei — Não, não pode ser. Ele estava aqui. Eu sei que estava.
– Eu sinto muito.
O rapaz de cabelo alinhado e boa aparência respondeu percebendo o quanto a saída repentina do hóspede havia me causado dor. Dei alguns passos para trás ainda incrédula encarando o fato de que estava sozinha e desamparada mais uma vez. O abandono caiu sobre meus ombros sem pudor e minha única vontade era de chorar toda a angústia que estava em meu peito. Como fui idiota, como fui estúpida. Por acreditar em um conto de fadas irreal e em um relacionamento que, aparentemente, só existia para mim, deixei escapar por entre os dedos o homem que estava disposto a me dar o mundo. Agora, em meio ao caos, reconheço que troquei minha segurança por uma paixão arrebatadora que me quebrou em pedaços que jamais serão reconstituidos. Sentindo as lágrimas em meu rosto já escaparem e a culpa no âmago da minha alma esmagar meu coração em meu peito, voltei ao carro desolada.
– Onde estamos indo, mamãe? — Emmett perguntou — Vamos voltar pra casa, por favor.
– Não podemos, Emm.
– Podemos. Eu quero meu pai.
– Não, Emmett. Fique quietinho, a mamãe precisa pensar.
Peguei a bolsa no banco do lado e vasculhei em busca do meu celular. Com pressa e sentindo meus dedos não obedecerem o comando do meu cérebro, disquei o número da minha antiga casa no Líbano, essa era minha última chance. O telefone chamou repetidamente e não era atendido. Insisti mais uma vez e quando estava quase desistindo ouvi Mehmet atender. O sotaque forte, o idioma que tive que aprender e o jeito calmo de falar. Era ele.
– Mehmet! — Quase gritei sentindo em minha garganta a estranheza do desespero por tê-lo perto
– Amanda?
– Você foi embora — Assumi mordiscando o canto da minha boca para que ele não percebesse o tom choroso
– Como você sabe?
– Fui até o hotel, fui até você e... E você não estava. Por que voltou para casa?
– Acredito que não temos mais que falar sobre isso.
– Mehmet, eu estou precisando de você.
– Amanda, eu sinto muito.
– Não vai perguntar o que houve? Não vai se preocupar? O James...
– O que quer que seja que ele tenha feito, sei que é um bom homem — Ele me interrompeu
– Não, ele não é.
– Eu preciso desligar.
– Não, por favor. Eu e Emmett estamos voltando!
– O que? Não, vocês não podem voltar.
– Como assim?
– Amanda, seu lugar é em Nova York ao lado do seu noivo.
– Não. Eu quero voltar, eu quero ir ao Libano.
– Você não pode correr para mim a cada vez que as coisas ficarem ruins, não pode fugir a cada briga. Está na hora de amadurecer e, infelizmente, as portas da minha casa estão fechadas para você.
– Met... — Murmurei em um soluço
– Estou saindo em viagem no próximo mês, fechei um contrato como derbakista e vou viajar alguns meses. Permaneça onde está, por favor.
– Eu não posso...
– Me desculpe.
Ele pediu em um tom amargo e sofrido, mas logo depois tudo que pude ouvir foi o som do telefone ao ser desligado. Eu havia sido rejeitada e colocada para fora do lugar que costumava chamar de lar.
– Mamãe? — Emmett me chamo um tanto quanto receoso no banco traseiro.
Enxuguei as lágrimas com o dorso da mão e virei-me para olhá-lo. Seu rostinho estava úmido e vermelho.
– O que foi, meu amor?
– Não fica brava com o papai, eu sei que ele é bonzinho. Vamos voltar.
– Nós vamos ao Líbano para a nossa outra casa.
– Você estava falando com o papai antigo?
– Estava. Ele perguntou se podemos passar uns dias lá.
Menti, claro que menti. No entanto, depois que estivesse com Emmett em nossa porta, não teria como Mehmet simplesmente nos mandar de mala e cuia para os Estados Unidos de novo.
– Leva o papai Jay também. Eu não quero ir sem meu pai.
Passei as mãos pelo rosto agoniada.
– Emmett, por favor. A mamãe está nervosa e chateada. Deixe-me dirigir até o aeroporto e prometo que durante o vôo conversamos.
– Isso não é justo. Eu quero meu pai! Eu quero!
Levei as mãos aos volante e me debrucei sobre o mesmo sentindo as lágrimas rolarem. Eu não sabia como controlar Emmett, minhas mãos tremiam, meu coração batia em um ritmo acelerado e eu não tinha simplesmente nenhum lugar para me refugiar. Apesar de anos depois, eu ainda permanecia agindo como uma criança que foge ao suspeitar que havia um monstro embaixo da cama… Mesmo que atualmente eu soubesse que ele agora habita meu coração. Essa sensação me fazia pensar que estava regredindo, que todos os anos afastada não mudaram minha condição. Ainda assim, eu só queria arrancar do meu peito todo o sentimento existente e toda a vontade de cavar um buraco e esconder as emoções que tenho por James. Ele não merecia minha dor ou meu medo, mas eu também não merecia ser apunhalada pelas costas de novo.
JAMES POV:
– Está tudo bem com a sua mão? Tem certeza? — Ingrid perguntava novamente enquanto Savannah me ajudava com a compressa de gelo
– Tenho. Olha, eu estou pouco me fodendo pra minha mão agora. Preciso achar a Amanda antes que ela faça alguma merda. Tem ideia de onde ela possa estar, Kendall?
– Não, nenhuma.
Percorri os dedos pelos meus cabelos irritadamente. Não é possível que as coisas tenham tomado esse rumo.
– Ela vai voltar, não é? Ela tem que voltar.
– Ela estava muito nervosa — Logan concluiu — Talvez mais tarde apareça em casa novamente.
– Duvido que volte — Di se pronunciou
– Como assim? Por que duvida?
– Porque está tudo se repetindo novamente. A Amanda ia te contar uma coisa essa noite... — Ela exitou
– Do que está falando?
– Ela engravidou novamente e ia te contar tudo hoje. Tinhamos preparado uma surpresa juntas e Logan até trouxe o champagne.
Fui atravessado pela notícia da mesma maneira com que fui quando soube a verdade a respeito da paternidade de Emmett. No entanto, dessa vez o receio era maior. Quando soube sobre meu filho, tinha a oportunidade de tê-lo ao meu lado. Dessa vez, saber da gravidez de Amanda é como se tivesse tido a chance de impedi-la anos atrás e estivesse desperdiçando novamente. E talvez, a pior das hipóteses, eu esteja repetindo os mesmos erros e esteja prestes a perdê-los — coisa que eu não suportaria. Ainda preso à minha linha de raciocinios particular, tentei trazer a tona toda a dor de ter perdido os primeiros anos de Emm e meu coração se apertou ao imaginar que isso aconteceria com o novo bebê.
– James? — Kendall questionou
– Como não percebi? Como? Nós conversamos sobre isso esses dias. Mandy me disse que seu corpo estava mudando e eu perguntei a respeito da gravidez.
– Ela mentiu porque ainda não tinha feito o exame, mas hoje a convenci do contrário — Ingrid voltou a dizer
– Então foi essa surpresa que ela mencionou mais cedo? — Carlos disse
– Que surpresa?
– Eu a vi colocando algumas coisas no porta malas quando cheguei.
– Ela está indo embora — Conclui — Não vou tolerar que isso se repita.
Levantei de imediato passando pela sala para pegar as chaves e carteira. Eu iria até o fim do mundo se fosse preciso.
– Kendall, o que ela fez da última vez que isso aconteceu?
– A deixei na rodoviária para Oklahoma.
– Ainda existe esse contato na cidade?
– Ela não iria para lá, sabe que é o primeiro lugar onde a procuraria.
– E a casa dos seus pais?
– Muito menos.
– E o Mehmet? — Savannah, que até então estava quieta, sugeriu — Eu iria para onde me sentisse segura e sei que ela se sentia assim perto dele.
– Mehmet foi embora do país, mesmo que ela o procure sei que negaria recebê-la. Ele abriu mão para que ficassemos juntos.
O som do celular interrompeu nossa conversa. Coloquei a chave no bolso e corri até o mesmo pegando o aparelho com rapidez. O nome e foto no visor fizeram minhas mãos tremer, mas não tive oportunidade de conter o desespero, já que precisa atender com urgência a chamada.
– Amanda, onde você está?
– Papai? — Emmett dizia em meio a algumas fungadas
– Emm, onde você e sua mãe estão?
– Eu peguei o celular escondido. Ela tá querendo ir pra casa antiga sem você, papai. Não deixa a gente ir não!
– Sua mãe não está perto de você?
– Ela tá dando as malas pro moço. Eu não quero ir!
– Emmett, preste atenção — Falei com meu filho enquanto fazia sinal para que os rapazes me acompanhassem até a garagem, mas Amanda havia levado o carro — Precisa me dizer o que está vendo.
– Tem um monte de aviões grandes e gente com mala.
– Estão no aeroporto? — Perguntei enquanto Carlos me puxava em direção ao seu carro e entravamos
– Isso, papai.
– Eu estou indo para ai, não vou te perder de novo.
– Vou desligar, a mamãe tá vindo.
– Eles estão no aeroporto, indo para a "casa antiga". O que é isso? — Indaguei Kendall no banco de trás ao lado de Logan.
– Libano, estão voltando para lá.
– Não, eu não vou deixar. Acelere, Los, eu tenho que trazer minha mulher de volta.
AMANDA POV:
– Venha, Emmett — O chamei indo até o portão de embarque.
– Espera um pouco, mamãe.
– Esperar o que? Temos que embarcar. Foi sorte conseguir as passagens em cima da hora, não podemos perder o vôo.
– Mas eu quero ir no banheiro.
– Você pode ir dentro do avião.
A voz no autofalante indicava o número do portão que deveríamos ir.
– Emmett, por favor — Pedi o puxando pela mãozinha enquanto ele parecia se fincar ao chão para não ir.
– Papai!
Meu filho gritou e eu me virei para ver. Soltei sua mão de imediato e ele correu até James que vinha andando em desespero por entre as diversas pessoas. Emmett pulou sobre seu corpo e Jay o abraçou tão apertado que conforme seus braços o envolviam as lágrimas escorriam em seu rosto como uma cachoeira. Respirei fundo sentindo o passado diante dos meus olhos, revendo o momento em que entrei no ônibus e o quanto esperei que James aparecesse enquanto observava a chuva cair pela janela. Lembro de ter abraçado a mim mesma naquele momento e murmurado um "tudo vai ficar bem" porque era o que eu desejava que ele tivesse dito todo o tempo. Agora, no entanto, eu o tinha aqui. Correndo por mim, lutando por mim e esse era o tipo de coisa à qual não estava acostumada. O pânico invadiu meu corpo, eu estava assustada e o medo de partir era tão grande quanto o medo de ficar.
James colocou Emmett no chão e se aproximou. Atrás dele eu podia ver nossos amigos obsevarem tudo de longe, não apenas eles como alguns viajantes e tripulantes que por ali passavam. Alguns passos a frente e estavamos a um metro de distância.
– Tem alguma coisa pra me contar? Alguma coisa que eu devesse saber antes de ir embora daqui para sempre e nunca mais voltar? — Jay questionou um pouco sem fôlego
– Como sabe que estou indo para sempre?
– É o que você faz. Você foge de mim.
– Não estou fugindo.
– Você sabe que está.
Seus olhos estavam caídos, as pupilas pareciam perdidas e ele se aproximou um pouco mais. Permaneci em silêncio e desviei o olhar para o lado enquanto mordiscava minha boca por dentro contendo o choro.
– Você não ia me contar?
– O que?
– Sei sobre o bebê, o nosso bebê.
– Não é seu.
– Não mente para mim. Chega de mentir — Sua voz era calma e isso fazia meu coração bater cada vez mais lento — Não vou deixar que vá embora mais uma vez, eu não vou perder você, Emmett e a nova criança.
– É porque isso é tudo que você quer, não é mesmo? Você só quer as crianças.
– Não, eu quero você e tudo que essa família representa para nós dois.
– É você quem está mentindo agora. — Rebati
– Eu não mentiria para você. Quis sim tirar a guarda de James, mas isso foi há muito tempo. O que Morgan estava se referindo era ao cancelamento de tudo. Eu abri mão porque aprendi que ter vocês comigo era muito maior do que qualquer orgulho idiota que eu pudesse ter.
– Não vem com essa história
– Não é história.
James tomou-me em seus braços. O esquerdo ao redor da minha cintura, a mão direita em meu queixo fazendo-me encará-lo. Seus olhos nos meus, sua boca perto da minha.
– Eu não quero ouvir suas desculpas.
– Se eu disser que te amo ainda assim será só uma desculpa?
– Lembro muito bem de você ter falado de amor, só não lembro de ter amado. Se me amasse não tiraria o Emmett.
– Não estou tirando. Amanda, não me faça suplicar. Eu te perdi seis anos atrás e não vou cometer a mesma burrice. E quer saber por que?
Ele se afastou e abriu os braços para gritar, o que atraiu mais ainda a atenção das pessoas. Então continuou:
– Eu não posso te deixar ir embora porque a última vez que permiti isso passei uma eternidade preso em um abismo sem fim esperando que voltasse. Eu me regenerei, eu mudei, cresci com a sua partida e percebi que somente quando abri mão do que sou foi que me tornei um homem melhor. Se permita ser uma mulher melhor também, Amanda. Se permita crescer ao meu lado porque é só contigo que eu consigo ter sonhos e querer realizá-los. É você que mexe a minha vida, a coloca por vezes de pernas pro ar e ainda assim me faz querer estar olhando esses lindos olhos castanhos todos os dias ao acordar. Eu quero fazer parte da sua história, eu quero terminar de escrevê-la contigo e, porra, sei que está difícil, mas você precisa ficar. Eu sei que não sou perfeito e nem estou falando que sou o homem certo para você, mas se você conseguiu despertar o amor em mim, fique para me fazer despertar em ti os dias mais felizes que pode viver. Eu te amo.
– James...
Eu não sabia o que dizer. Como confiar?
– Acredite em mim.
– Não sei se consigo.
– Não vou te decepcionar.
– Você disse isso tantas vezes...
– Se enxergue em mim. Olhe nos meus olhos e pergunte a si mesma se eu vou fazer algo para te ferir. Eu sei que você me ama, não minta pra si mesma.
– Jay...
– O perdoe, Amanda — A voz do meu irmão ficou mais próxima e ele estava atrás de James — Ele não teve a intenção de tirar Emmett e, se o teve, foi muito breve. Eu seria o primeiro a te aconselhar a ir, mas tenho em mente o quanto esse homem te ama e minha maior tolice seria deixar que vá embora como ajudei a fazer tempos atrás. Fique, fique com o James.
– Eu vou embora daqui a alguns minutos e não sei o que fazer.
– Faça o que tiver que fazer — Jay iniciou — Eu poderia dizer que não estou te segurando aqui, mas se eu não segurar não vou saber viver sem te ter por perto. Se quiser ir, sinta-se livre. No entanto, saiba que irei até o Líbano para te trazer de volta pro seu verdadeiro lar.
– Fica, mamãe — Emmett pediu
– Fica comigo, meu amor. Quando prometemos para sempre, era tendo a certeza de que realmente seria.
Última chamada do vôo com destino ao Líbano.
– Você decide se isso é um adeus ou um recomeço.
– Você sabe que te amo mais que a mim — Respondi sentindo meus batimentos ficarem acelerados
– Isso é um sim?
– Isso é um "para sempre".
Corri até James e ele envolveu meu corpo novamente. Nossos lábios se encostaram devagar ao passo em que encaixavam-se com uma necessidade que eu não sabia explicar. Era como um imã, uma força sobrenatural que os fazia unirem-se em uma infinidade de carinho e ternura. Jay sugou meu lábio inferior enquanto erguia-me no ar e eu sorri entre o beijo sentindo que estava voando sob sua proteção. Quando separamos nossos lábios, ele ainda mantinha-me erguida e pude perceber a tonalidade dos seus olhos ganharem vida, brilho e um tipo diferente de lampejo e fulgor, como se minha resposta tivesse o retirado do mais escuro dos destinos. Ali, sentindo o ar me contornar e a felicidade de aceitar que cresci pela primeira vez em tantos anos, pude perceber que o anjo que me guardava nunca esteve em Mehmet, mas sim no homem que me levava aos céus com apenas um sorriso, com um beijo e com um eu te amo. Era em meio à aqueles olhos esverdeados que eu encontrava o meu céu e eu sei que estaria em casa desde que o tivesse ao meu lado. James poderia não ser perfeito, mas fez seu melhor para ser digno de nos merecer e, indepentende do que fosse, eu sabia que ele merecia. Em meio a alguns aplausos, senti que ele girou-me e, cara, o amor realmente fazia o mundo girar. Se isso era verdade ou não, então este mundo deve ter girado um pouco mais rápido enquanto James estava aqui e o melhor de tudo é que eu sei que ele estaria para sempre.
Fale com o autor