KENDALL POV:

Ter confiado em James depois de tê-lo visto desapontar Amanda e quebrar sua confiança por diversas vezes foi uma tomada de decisão extremamente difícil para mim. Além de sentir-me em cima do muro, a sensação de que traía minha irmã pesava sobre meus ombros de maneira cruel. Eu estava arriscando nossa relação fraternal e poderia até mesmo estar arriscando a guarda de Emmett, caso James estivesse mesmo disposto a enganar-nos e retirá-lo de nós. No entanto, quem era eu para julgá-lo? Amei Savannah intensamente apesar de ter cometido erros tão covardes quanto os do homem que hoje acuso. Ainda assim, apesar de tê-la decepcionado e abandonado quando mais precisava, tudo que senti permaneceu intacto e aumentou quando tive a oportunidade de tê-la em meus braços novamente. E se, de fato, o mesmo tivesse acontecido com James em todo esse tempo? Se essa fosse sua oportunidade de fazer com que tudo desse certo e eu fosse aquele que impedia isso? Por mais que ser um traidor me tornasse um réu, eu certamente não assumiria a posição de algoz novamente. Por tal razão, decidi deixar em suas mãos a mesma chance que o destino colocou nas minhas em relação à Savannah e não vou intervir no que diz respeito à essa relação tão complicada que ele e minha irmã possuem. Minha consciência não estava limpa — sem dúvidas não estava — mas iria ficar quando o final feliz acontecesse para aqueles dois.
– Bom dia, atrasadinho — Amanda sorriu para mim e logo veio com uma caneca em suas mãos — Vim da casa do Jay e, como não tomei café, aprovei para passar naquela lanchonete que a gente tanto gosta. Então pensei: "Por que não levar a vitamina preferida do Kends?" e aqui está. — Ela entregou-me o recipiente e sentou-se sobre a minha mesa de trabalho
– Uau, estou sendo mesmo mimado pela minha irmã? Que feitiçaria é essa? — Brinquei sentindo meu coração apertar pela sua gentileza enquanto eu agi por suas costas.
– Estou apenas muito feliz. Ah, Ken, você não sabe como minha vida está mudando da água pro vinho. Queria que tivéssemos a oportunidade de conversar mais a respeito, tenho certeza que sua visão sobre James mudaria.
"E está começando a mudar", me permiti pensar.
– Então aproveite que estamos no início do espediente e me conte. O que tem acontecido de tão especial? — Me interessei.
– Sério mesmo? Não vai se aborrecer se eu falar sobre ele? — Ela ergueu uma sobrancelha divertidamente
– Ele vai bater em mais alguém dentro da minha casa? — Brinquei mais uma vez
– Acredito que não — Minha irmã entrou na brincadeira e sorriu — Mas, agora falando sério, as coisas tem tomado um rumo diferente desde que voltamos. James tem se permitido amar o Emmett de uma maneira que achei que não aconteceria. Inclusive quando tentei contar sobre a verdadeira paternidade, ele impediu-me e pediu que esperássemos o momento certo. No entanto, houve todo o problema com Mehmet e, bem, você já sabe o desenrolar disso tudo.
– Espera. James, que tanto queria sua paternidade estampada, abriu mão disso pela felicidade do filho?
– Uhum. Pode parecer até fantasioso, não é mesmo? — Minha irmã suspirou enquanto observava as janelas da minha sala — Parece que o homem que idealizei por tantos anos finalmente existe.
– E você está feliz com isso, né? Acho que tem alguns corações saindo pela sua cabeça enquanto fala comigo — Estourei alguns no ar com meu dedo indicador fazendo graça.
– Idiota. — Ela riu — Acredite, eu estou encontrando a felicidade aos poucos. Mas para que essa felicidade fique completa, eu gostaria que você e Jay pudessem voltar a ser amigos mais uma vez. — Seu olhar agora havia encontrado o meu de maneira suplicante.
– Mandy...
– Eu sei, você vai dizer que isso é impossível, que não o perdoa e que...
– Eu ia dizer — A interrompi — Que se você está feliz, eu posso me esforçar. Marque um jantar com James para daqui a duas semanas e eu prometo que tentarei não bater nele dessa vez.
– Você está falando sério? — Ela levantou-se. Os olhos brilhavam como os de uma criança que encara a árvore de natal cheia de presentes pela manhã.
– Sim, estou. Chame Ingrid e Logan e, claro, o louco de pedra do Carlos.
– Meu Deus, eu estou sonhando. Isso é mesmo real? — Mandy arregalou os olhos e começou a abanar-se fingindo um ataque — Me belisque. — Ela esticou o braço na minha direção
– Com todo prazer — Respondi beliscando seu antebraço com força
– Ai caralho, não era para fazer.
– Você pediu, porra — Rebati fazendo carinho onde havia machucado anteriormente, mas não havia como discutirmos. Ambos já estávamos caindo em gargalhadas.
– Sempre me agredindo, né? — Ela percorreu os dedos pelo meu cabelo bagunçando-o
– Sou seu irmão mais velho, se não implicar não tem graça. Mas é claro que parte das minhas funções também é proteger e ser um mala sem alça quando se diz respeito aos seus relacionamentos.
– Meus relacionamentos? Plural? — Amanda fingiu-se de ofendida colocando a mão na boca semi aberta.
– Você entendeu. Eu estava me referindo a James e Mehmet.
– Claro. Mehmet. — O suspiro longo que saiu de seus lábios indicava pesar
– O que houve? Está tudo bem em relação a ele?
– Eu sinceramente não sei. Ainda não tive a oportunidade de falar com ele desde a briga que teve com Jay. Me sinto dividida, sabia?
– E por qual razão? Você gosta dele ou coisa parecida? — Fiquei confuso
– Gosto como amigo e tenho uma gratidão que jamais saberei recompensar.
– Vocês foram noivos por anos, não acho que Mehmet fazia isso esperando algo em troca. Está na hora de deixar essa dívida ir embora, não acha? Você se cobra demais ter que pagar por algo que acredito que ele não espera ser compensado.
– Eu não sei. As vezes parece que estou o apunhalando pelas costas ao viver minha vida e deixá-lo fora dela.
– E você terá que deixar por causa de James.
– Exatamente. Ele não aceitará que Met fique por perto dividindo Emmett por todos os cantos. Além disso, há a paternidade.
– Pa-paternidade? — Gaguejei com minhas próprias palavras e fingi uma tosse para disfarçar.
– Está tudo bem?
– Sim, só engasguei — Menti — Continue, por favor.
– Você sabe que legalmente Emmett é filho de Mehmet, ao menos é o que consta em sua certidão de nascimento e em seu sobrenome.
– Mas não em seu sangue.
– Não vai demorar muito e Jay vai tomar providências em relação a isso.
– Então por que você mesma não sugere?
Opinei tentando tornar mais fácil o que eu já sabia ter acontecido. Se partisse de Amanda a ideia do reconhecimento de paternidade, James poderia seguir em frente com parte de seus objetivos sem prejudicar nenhum dos lados. Ele teria seu filho reconhecido e minha irmã não se sentiria traída.
– Talvez seja melhor esperar. Caramba, vai ser um choque para o Met.
– Mandy, você precisa deixar que o Mehmet se vá e não estou falando isso literalmente no sentido de deixá-lo voltar para o Líbano, mas sim de deixá-lo seguir para que você também possa. Você não pode dar cada passo se preocupando em como suas decisões vão afetá-lo, importe-se com a sua família a partir de agora.
– Mas Mehmet era a minha família.
– E agora James que está sendo.
– Eu sei, você tem razão — Murmurou mordendo, em seguida, o canto da boca apreensivamente — Espera, você está mesmo defendendo o Jay?
– Estou tentando fazer com que enxergue o que é certo e não quero que viva presa no passado. Você já fez isso por tempo demais em relação ao próprio James, o que te impediu de ter uma vida com Mehmet. Vai fazer o mesmo agora, só que ao contrário?
– Eu não sei, Kendall, não sei. Acho melhor começarmos a trabalhar, já te importunei o bastante por um dia.
– Você sabe que não foi incomodo algum. Te grito na hora do almoço? Hoje eu pago tudo.
– Que bondade é essa? Só por isso vou comer uma tonelada.
– Pode comer, olho grande, eu deixo — Ri enquanto revirava os olhos divertindo-me com sua fome
– Hey, Kends.
– O que foi? — Perguntei ainda com um sorriso estampado no rosto
– Eu só queria agradecer por tudo. Você é realmente um irmão e tanto.
– Isso é pela comida? — Gargalhei
– Não, seu bobo. Você sabe que não é.
– Eu sei — Falei agora seriamente — Mas só aceito os agradecimentos com um abraço. Vem cá, pirralha.

Puxei minha irmã em um abraço apertado envolvendo-a e protegendo como sempre fiz. É claro que como seu irmão mais velho não pude deixar de bagunçar-lhe os cabelos e morder-lhe as bochechas. Fazia parte do meu ritual e, no que dependesse de mim, faria para sempre.