Heaven & Hell
3 3. Golpe
Notas iniciais
A minha viagem na viatura policial foi um desastre.
Talvez vocês estejam se perguntando, como uma viagem em um carro da polícia acompanhado pela garota mais bonita que já vi, pode ser um desastre. Bem, comecemos pela situação inicial.
Meu pai estava no banco do carona e eu fui com Emily no banco de trás. O rádio estava ligado, e os dois adultos conversavam energicamente sobre uma série policial que meu pai assistia. Decidi então, interagir com a minha salvadora e agradecê-la em um ponto da conversa.
— Emily, obrigado por me ajudar a provar minha inocência agora a pouco e por ter chamado a ambulância e a polícia também – falei para a garota que fitava as árvores e postes passando pela janela em alta velocidade, me ignorando completamente.
Emily apresentava em seu rosto uma clara insatisfação com algo. “Será que eu tinha feito alguma coisa errada?” Dezenas de hipóteses passavam pela minha cabeça, tentando explicar o porquê de Emily direcionar toda essa hostilidade a mim. Mas relevei e continuei:
— Soube que foi você quem me mandou aquelas flores, certo? Obrigado pela preocupação — disse, enquanto Emily se negava a me responder.
— Você está bem? – insisti.
Um olhar selvagem e irritado foi direcionado a mim como resposta, pude sentir na pele as palavras que a garota queria transmitir: “Cale a boca se não quiser que eu faça pior do que aqueles delinquentes”.
Decidi parar com os agradecimentos e perguntas, e tentar me distrair durante o trajeto à minha casa. Encarava a paisagem que passava como um borrão pela janela. Limpei meus óculos duas vezes. Tentei prestar atenção na conversa do meu pai, mas nada me fazia esquecer do olhar agressivo de Emily e ansiar pelo motivo de tal comportamento.
Para os garotos que estão acompanhando o meu relato, uma dica: Nunca, em hipótese alguma, irrite uma garota mal-humorada. Infelizmente eu aprendi isso do pior jeito. Com apenas quatro palavras, consegui transformar uma garota, à primeira vista comportada, em uma fera incontrolável.
Percebi que embora meu pai tivesse ido comigo à delegacia, Emily estava sozinha. Por isso, em uma ação extremamente estúpida (e bote estúpida nisto), resolvi perguntar:
— Onde estão seus pais?
Pronto. Ao terminar a pergunta, Emily virou vagarosamente a cabeça para mim com uma expressão de puro ódio. Não estranharia se ela puxasse um revólver do bolso do moletom e atirasse uma bala entre meus olhos naquele instante. O que eu senti, não foi um medo fraco como descobrir que um espírito me possuíra; ou um desespero banal como ser escoltado por dois policiais em direção a uma delegacia. Era como um instinto, dizendo que eu estava em perigo e que algo muito ruim aconteceria.
Foi então que a expressão salvo pelo gongo fez sentido para mim pela primeira vez. Antes de Emily sequer abrir a boca, o carro parou e o policial disse:
— Chegamos, crianças! Por sorte vocês moram perto um do outro!
Em um movimento rápido, abri a porta do carro e saí no mesmo instante. Queria entrar em casa, me esconder sob as cobertas e esquecer tudo. Mas, como sempre, as coisas não foram como o planejado.
— Heaven, você não vai se despedir da Emily? — repreendeu meu pai impedindo minha fuga.
— Ah, claro... — falei com uma voz trêmula.
E aconteceu novamente. Mais uma vez, Emily mudara completamente de personalidade. Da garota enfurecida de poucos segundos atrás, se tornara em uma dama dócil e educada.
— Sr. Southfield, eu poderia falar um pouco com o Heaven? Gostaria de agradecê-lo propriamente – disse, com a mesma voz doce que ouvi na sala de interrogação.
— Lógico que sim, Emily! Depois você volta para casa, Heaven — disse meu pai com aquela expressão única dos pais que diz “Vai lá filhão!”. — Então até mais, Emily. Obrigado por cuidar do meu garoto.
Enquanto meu pai agradecia ao policial pela carona, um único pensamento me vinha à cabeça: “Estou morto”.
Lá estava eu, sozinho com uma garota naquela rua deserta com poucos carros e com os postes de luz ainda apagados, esperando ser morto por Emily. E, mais uma vez, a personalidade de Emily mudara:
— Escuta aqui, pode parar já de se fazer de santo porque eu sei bem quem você é de verdade. O que você fez com aqueles três foi desumano — disse Emily com aspereza.
— Espera um pouco! Do que você está falando? Eu não me lembro do que aconteceu lá, eu já não disse isso?
— Ha! Poupe-me, acha mesmo que eu acreditei naquela sua desculpa esfarrapada? Se naquela hora eu tivesse dito para o Simon o que você realmente fez, você já estaria em um reformatório.
— Como assim? Do que você está falando? — perguntei.
O testemunho que Emily deu estava incompleto. Na versão contada, eu era um herói, que mesmo estando em desvantagem contra inimigos maiores e mais numerosos, conseguiu salvar a princesa em apuros. Já na versão “verdadeira” contada por Emily quando estávamos a sós, eu era um vilão demoníaco, que, mesmo já tendo salvado a donzela, continuou agredindo os delinquentes.
— Eu podia ter saído daquela sozinha — disse Emily. — Mas tudo virou uma bagunça quando você chegou. Aquilo deixou de ser uma briga e virou um massacre unilateral, onde você judiava dos três com um sorriso estampado no rosto. Eu não chamei a ambulância para você, mas sim para eles.
— Não pode ser... — balbuciei.
Não conseguia acreditar nas palavras de Emily. Meus pensamentos estavam confusos e eu não conseguia raciocinar direito. Era impossível eu ter feito uma coisa dessas.
— Primeiro você me faz perder o meu primeiro dia de aula graças ao seu ataque de violência. Depois você me faz mentir para um policial para garantir a sua inocência. E ainda por cima nega ter feito isso. Como você irá me compensar?!
— Mas aquele não era eu, era o...
Parei. Não podia contar para Emily sobre Hell. No melhor dos casos ela não acreditaria em mim e nossa discussão apenas se prolongaria. E no pior dos casos eu seria rotulado como esquizofrênico maluco e agressivo para sempre por ela.
— Era o... – disse Emily, esperando a continuação da frase.
Não conseguia argumentar diante à enxurrada de acusações de Emily de forma que ela entendesse. Achei melhor apenas aceitar o que ela dizia e pedir minhas sinceras desculpas.
— Não é nada. Emily, eu realmente sinto...
No momento que ia dizer o “muito” a fim de terminar a frase, minha boca se petrificou e a frase foi cortada na metade. Não só minha boca, mas meus braços e pernas também. Eu não conseguia me mexer, muito menos falar.
— Parece que alguém se esqueceu de mim — disse Hell com sua voz sarcástica de sempre.
— Hell! Droga! Foi só eu me esquecer de você...
— Poupe suas palavras, Heaven. Agora eu farei você pagar pela humilhação que me fez passar! – disse rancoroso.
— Eu sinto...? – perguntou Emily, estranhando a minha pausa. — Anda, continue.
— Eu sinto que você está sendo irritante — disse Hell, olhando para ela de forma petulante.
— O que disse?! — indagou Emily.
— Hell, pare com isso! Não envolva a Emily nas suas brincadeiras de mau gosto!
— Então o nome dela é Emily? Bom saber disso — falou Hell maliciosamente. — Fica de boa aí, Heaven, eu só vou me divertir um pouco com ela.
— Você não acha que está sendo um pouco arrogante tratando o seu salvador desse jeito, Emily? — falou Hell com a minha voz calmamente, enquanto tirava os meus óculos.
— Sua visão é muito ruim, cara. Vou guardar isso um pouco — disse, enquanto pendurava os óculos pela haste na gola da camiseta.
— Você deve estar brincando comigo. Eu já disse que eu podia ter saído daquela sozinha, sem a ajuda de um idiota como você — retrucava Emily.
O ritmo da conversa indicava que o seu rumo seria o caos. Tanto Hell quanto Emily não se seguravam com insultos e provocações. Odiei o fato de eu ter deixado Hell me possuir novamente e odiava mais ainda não poder fazer nada quanto a isso. “Não poder fazer nada...? O cabo de guerra, é claro!” — lembrei. Eu podia simplesmente retomar o controle do meu corpo e expulsar Hell à força.
Concentrei-me, aguçando todos os meus sentidos para voltar àquela sala. No próximo instante, me vi diante do lugar que outrora disputava com Hell a posse do corpo. Mas certas coisas estavam muito diferentes. A sala, que antes era completamente branca, se mostrava preta com uma risca branca cortando-a ao meio. Hell, que da última vez se encontrava deitado, estava de pé e segurava firmemente a ponta da corda com ambas as mãos. Aquela disputa não seria igual a anterior.
Após examinar a aparência da figura diante a mim, notei algumas diferenças entre nós. Apesar de nossos rostos serem iguais, as roupas que usávamos eram diferentes. Minha camiseta branca com detalhes em azul espelhava-se com a roupa preta com detalhes em vermelho dele. Já a minha jaqueta marrom tornou-se uma de couro preta. Além disso, notei que seus olhos não eram da mesma cor de âmbar que os meus. Duas orbes vermelho sangue se alojavam em seu rosto, irradiando fúria. Mas o ponto que mais me chamou a atenção foi o cabelo. Os fios, que antes estavam ocultos pelo gorro, apareciam rebeldemente, mostrando um brilho prateado por todos os lados. Meu cabelo completamente negro via-se nele completamente branco, como uma lua brilhando em meio a um céu escuro e opressor.
Não sabia se eu ficava frustrado por dessa vez ele estar acordado, ou porque ele parecia muito mais badass e estiloso do que eu com aquele visual. Mas a situação continuava a mesma, eu tinha que vencer Hell.
Peguei a ponta da corda do “meu lado” e comecei a puxar. Diferente da última vez, Hell a segurava com força, anulando o meu esforço. Eu não estava perdendo, mas também não estava ganhando. Precisava recuperar o controle antes que a situação piorasse.
Enquanto eu utilizava toda a minha força em vão, a conversa dos dois continuava.
— Calma aí, estressadinha. Não acha muito imaturo da sua parte me chamar de idiota? – dizia Hell.
— Idiotas merecem ser chamados de idiotas. E um como você, que ataca pessoas sem motivo, merece coisa pior.
— Que crueldade. Falar assim de uma pobre alma inocente como eu não é injustiça? — falava Hell com escárnio. — Seus pais não te ensinaram a ter bons modos, Srta. Emily?
— Não ouse falar dos meus pais! — gritava Emily, completamente possessa. — O que você sabe sobre eles?!
— Hell, pare com isso agora! Isso está saindo do controle! — gritava desesperado enquanto puxava a corda inutilmente.
— Tá brincando? A diversão só está começando — disse Hell com uma risada no final.
— Eu toquei em um assunto delicado, foi? Por que você não sai correndo chorar pro papai e pra mamãe? — debochava Hell, dando um passo em direção a Emily.
— Se você continuar falando sobre os meus pais, eu vou...
— Vai o quê? Me chamar de bobo e começar a chorar? — disse, dando outro passo.
— Mais uma palavra, Southfield, e eu juro que eu acabo com você — disse Emily, furiosa.
— Acabar comigo? O que uma filhinha de papai como você poderia fazer? — disse Hell, agora com uma distância de poucos centímetros entre eles.
O que aconteceu em seguida foi muito rápido para eu entender na hora. Os acontecimentos só poderiam ser explicados se fizessem uma apresentação de slide, cena por cena, da ação.
Primeiro, Emily recuara seu braço direito na altura da barriga, enquanto girava o torso no sentido horário. Depois, ela rebobinara a ação, enquanto esticava o braço com o punho fechado. O soco foi desferido diretamente em meu abdômen, fazendo meu corpo voar para trás. Enquanto o golpe estava sendo executado, a imagem que estava na minha frente, com o olhar assustado, soltara a corda, me fazendo cair para trás enquanto a sala voltava gradualmente ao seu branco original.
A posse do corpo veio junto de uma dor angustiante no abdômen. Por um momento, não conseguia respirar e pontos pretos apareciam em minha visão. Ao cair de joelhos no concreto gelado da calçada enquanto segurava a região acertada com meus braços, ouvi a voz de Emily.
— Eu disse que conseguia sair daquela sozinha. Nunca mais fale comigo. Adeus, Heaven, para sempre.
E ao terminar a frase, Emily virou-se de costas para mim e caminhou tranquilamente para a casa em frente à minha.
“Ha ha. Que ironia, nós somos vizinhos.” — pensei, enquanto ria daquela piada sem graça, sob o céu poente enquanto as luzes dos postes acendiam uma a uma, como vagalumes no anoitecer.
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