Heaven
1 Seremos gratos por tudo que temos
Notas iniciais
O dia estava lindo. Brisa agradável, boa o suficiente para não estar frio. Céu claro o suficiente para iluminar parte da copa das árvores, mas não incomodar a pele exposta.
O lugar escolhido ainda era o melhor que conhecia. Perto da beira do penhasco, onde as árvores já não estavam mais presentes e apenas a grama macia se estendia, em direção a onde outras montanhas preguiçosamente iluminadas residiam. Com nada mais do que só pequenos barulhinhos de animais distantes, moradores da mata.
Não era apenas ao acaso. As raízes e a terra estavam cravadas de memórias desde a infância, quando rolavam no chão brincando até deitados por horas, tímidos e conscientes demais um do outro para dizerem qualquer coisa.
Até para onde um deles num ato descuidado se declarou. Mika sempre gostara de contar histórias, e Edric sempre fora fascinado pela voz do outro. Naquele dia em específico, Edric não fazia ideia do porquê, Mika estava cantando. No meio da admiração e dos olhares, deixara escapar o quão apaixonado estava por ele.
Mika se calara abruptamente, o encarando boquiaberto, causando o silêncio mais constrangedor da sua vida, e Elric se encolhera, agradecendo a pele escura por esconder o rubor. Depois tudo fora um flash do corpo de Mika se jogando sobre o seu, o abraçando com força e rindo, estalando os lábios de leve nos seus.
Aquele solo guardava os mais importantes momentos da história de ambos. Se não fosse ali, não poderia ser em lugar nenhum.
Não se cansava de olhar para aqueles enormes pedaços de terra tocando o céu, de maneira tão delicada, dois extremos tocando um o outro.
Desde manhã cedo, quando acordara, tudo o que Edric conseguia era sorrir. De costas para todos sentados na grama, que olhavam em direção a ele e ao noivo, quase marido. Só mais alguns instantes para que o novo título desse lugar ao antigo.
De mãos dadas, enquanto ouvia as palavras da senhorinha à sua frente, governante daquele povoado, realizando a cerimônia de união de ambos, sua mente continuava repassando as preces para que tudo desse certo.
Pedia aos espíritos repetidamente, aqueles que aprendera a acreditar desde criança, quase como um mantra.
"Espíritos, nossos ancestrais, sejam nossos guias nessa nova jornada. Peguem nossas mãos e nos conduzam.
Encham nossos corações e almas com toda sua luz, e muito mais.
Com tudo o que sabem, mostrem-nos que em seus olhos somos o seu povo, que todos somos iguais.
Nos dê sabedoria e força para passar um ao outro."
A mão suava de nervoso, e sentia vontade de limpar nas peles tão bem escolhidas para o dia. Apertou mais a mão que segurava contra si e um apertão foi dado de volta. Não era hora para ficar nervoso.
— E ensinem o bem verdadeiro, com amor dessa união, e lembrem-se, as nossas decisões são escolhas apenas nossas, são nosso próprio futuro em nossas mãos. Vocês são os criadores da própria felicidade. E com isso em mente, daremos continuidade ao ritual.
Ela ergueu os colares dos dois, idênticos, que haviam escolhidos juntos como seriam traçados e cada um recebeu o seu, abaixando a cabeça e fechando os olhos.
Não poderiam mais tirar. O símbolo material da ligação de ambos. De como se amavam e haviam escolhido um ao outro.
As pontas eram queimadas depois de colocados no pescoço, o cordão menor do que a cabeça.
Recebeu logo em seguida, a vasilha feita de barro, cheias do líquido marrom avermelhados que usariam para terminar a cerimônia.
O moreno mergulhou os dedos, e olhou para cima, erguendo a cabeça em direção ao mais alto, levando-os ao rosto do homem à sua frente, os fios tão claros, com curvas tão desordenadas e sinuosas quanto as das montanhas, escapando debaixo da coroa de flores coloridas, uma parecida com a que levava na própria cabeça.
Aquele era, provavelmente, um dos momentos onde Mika parecia superar a própria beleza que tinha. Ele nunca estivera tão lindo antes. Irradiando a mais pura felicidade. Os olhos do amado se pareciam tanto com o lago próximo dali, quando a luz do sol refletia na água.
Tinha certeza de que seu próprio rosto era um espelho. As emoções dançavam dentro de si nas últimas semanas, desde o pedido feito.
Estavam naquele mesmo lugar, numa das várias vezes que dormiram ali. Fora Mika quem sugerira. Havia trançado por algum tempo, com florzinhas e grama, colares. Colocou um nele e o outro em seu pescoço, erguendo os olhos e casualmente falando "acho que está na hora dos definitivos, mas por enquanto é tudo que tenho" sem parecer que sugeria algo tão grandioso.
Nada era mais importante do que aquele ritual para dois amantes daquele povo. Era algo sério, acontecia apenas uma vez na vida e significava compartilhar a própria alma, abrindo mão de uma parte de si mesmo voluntariamente. Realizar um daqueles significava receber respeito entre os outros, demonstrando enfim ter encontrado a pessoa que lhe fora destinada.
Primeiro, afastou com a outra mão os fios rebeldes para que tivesse total acesso à testa clara do amado, colocando-os atrás da orelha um tanto pontuda, regada de brincos e argolas brilhantes e coloridas, feitos de sementes e pedras preciosas.
Depois Elric encostou o dedão na testa de Mika, deixando ali um arco grande e dois menores, forçando um triângulo um tanto curvado, significando que dois se tornariam apenas um, voltou-se às bochechas, traçou na horizontal, debaixo dos olhos e algo próximo a raios de sol curtos ligados a eles, sendo todas as possibilidades. Para seguir e traçar outra vertical sobre os lábios e queixo, o caminho que teriam juntos pela frente.
Repetia, ao mesmo tempo, as palavras tentando soar o mais natural, sem que a voz tremesse ou transparecesse as horas que passara falando para si outra e outra vez.
— Seremos gratos por tudo que temos e em um mundo que nem sempre é como parece, onde cada esquina que viramos só nos leva a outra. Agora, no fim de uma jornada, compreendemos que outra vai começar. Uma onde somos um só, além de nossa morte.
Terminou de traçar as linhas que via outros receberem desde criança. Abriu um sorriso e inclinou o rosto para cima, esperando receber suas próprias marcas.
Os dedos passaram por sua pele, bem mais escura que a do outro, molhados, os mesmos desenhos que fizera, e seu coração martelou de ansiedade. Difícil de acreditar. Podia sentir os olhos umedecendo à medida que ouvia as tais palavras da boca do noivo, na voz doce que só pertencia a ele.
Enfim os dedos baixaram-se, e olhando nos olhos um do outro, tocaram as testas, trocaram o mesmo ar, respirando tão próximos, as batidas do coração sincronizadas, fortes e rápidas, as mãos finalmente se juntando. Ambos no momento considerado o mais íntimo entre casais que habitavam aquela aldeia.
Quando respirações e corações se uniam, era considerado o laço mais profundo a se partilhar com alguém, era o que diziam os mais velhos.
Estava feito. As palavras finalizando a cerimônia ecoavam. Os braços da governante finalmente abaixaram e aquela era a deixa para os tambores começarem a tocar.
Comemoração. Todos levantando-se, formando apenas uma passarela entre ambos os lados de pessoas uma ao lado da outra, sorrindo, enquanto passavam pelo meio, de mãos dadas.
Música ressoando, gritos e risadas, flores jogadas ao vento. Felicidade em seu estado mais bruto.
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