Heartlines
1 Prólogo
Notas iniciais
É um dos segredos daquela mudança de estabilidade mental adequadamente nomeada transformação, que para muitos de nós nem céu nem terra trazem qualquer revelação, até que sejamos tocados por alguma coisa ou uma influência peculiar, subjugando-nos à receptividade.
George Elliot
Eles haviam se conhecido em um momento muito estranho da vida de Draco Malfoy. Ao menos no sentido bíblico do termo, uma vez que estavam apresentados um ao outro desde a mais tenra idade, por pertencerem ao mesmo círculo social. Até os vinte anos, porém, Astoria Greengrass nunca havia dedicado atenção ao rapaz, exceto, talvez, naquela ocasião em que aos cinco anos de idade, aborrecida com o pequeno Malfoy petulante que a provocara, ela atiçara um dos muitos pavões mágicos do jardim exótico de sua mãe para bicá-lo e rira por gloriosos minutos da fuga chorosa de Draco antes de uma intervenção adulta.
No entanto, até mesmo essa memória estava soterrada no meio do entulho psíquico inconsciente de ambos e nenhum deles se recordava do fato, de modo que quando eles se encontraram – pós-Hogwarts e pós segunda guerra bruxa – naquela noite de sexta feira de lua minguante em um estabelecimento suspeito e inóspito que faria tanto os progenitores de Greengrass quanto os de Malfoy retorcerem o rosto em horror, eles dois eram adultos, infelizes e desconhecidos o suficiente para protagonizarem a história trágica clássica:
Garoto internamente perturbado encontra garota emocionalmente indisponível no bar. Os olhares se cruzam. Há um breve reconhecimento facial por parte dos dois. Ela pondera, enquanto beberica um gole do próprio copo. Ele aguarda, sem muita esperança. Sua reputação o precede, mas dez minutos depois, os dois estão em um cubículo de 3m quadrados que se passa por banheiro.
A primeira transa não foi incrível – nenhuma é, em especial quando envolve uma série de contorcionismos pela falta de espaço e a leve apreensão de ser flagrado – mas Astoria gostou do modo como ele a tocou, semelhante a como quem se segura a uma boia de salvação. E Draco sentiu alivio em perceber que sua cabeça torturante se interessava o suficiente por Astoria a ponto de lhe dar uma trégua. Os dois haviam considerado um negócio bom o suficiente para repeti-lo outras vezes, em outros lugares.
Uma parte de Malfoy até achou divertido quando descobriu depois que o bar em questão era dela. Astoria sonhara com um lugar onde bruxos desajustados e levemente suspeitos pudessem afogar suas mágoas em paz e havia saqueado uma parte ínfima de sua poupança no Gringotes (apenas o suficiente para não alarmar os próprios pais que controlavam todas as transações bancárias familiares) antes de fugir de casa para tornar seu plano possível.
Sua ideia não era exatamente original; muitos bares surgiram no pós-guerra. E todos estavam obtendo relativo sucesso. O de Astoria tinha ela mesma como bônus de propaganda: Greengrass era impetuosa e espirituosa (uma combinação incomum para a sua idade), xingava como ninguém, tinha olhos de lince para ameaçar possíveis encrenqueiros e usava sua mente febril para pensar em drinks mágicos e coloridos e noites de eventos diversos que acabavam invariavelmente com sucessos muito bregas de Celestina Warbeck, como Reminiscências (“e nesse feitiço de dizer que não te espero”...), cantados aos berros por bruxos e bruxas etilicamente alterados.
Draco, por sua vez, não era nada e não almejava que nada acontecesse em sua vida. Ainda assim, coisas aconteciam. Astoria era de longe a maior e melhor delas. E, naturalmente, ele não sabia lidar muito bem com isso. Os primeiros seis meses foram até fáceis, porque Malfoy conseguiu se concentrar no aspecto físico e biológico da coisa toda. Estar com Astoria era um jeito de canalizar energia, para dizer o mínimo, e ele era grato (um sentimento que lhe parecia inédito) por isso.
A verdade é que Malfoy se sentia estupefato pelos períodos de tempo, mesmo que curtos, em que ele simplesmente estava deitado ao seu lado, ainda recuperando a respiração, exausto e pronto para, enfim, um sono sem sonhos, porque nas vezes que ela deixava que ele dormisse em sua cama, essa possibilidade existia de fato.
Havia qualquer coisa sobre o colchão de Astoria que surtia mais efeito do que as muitas poções calmantes com as quais ele lidava diariamente desde os dezessete anos de idade e, se fosse para apontar, Draco deduziria que tinha algo relacionado ao cheiro inconfundível de erva doce na fronha do travesseiro, idêntico ao que ele sentia quando estava perto o suficiente do cabelo dela. Bastava senti-lo para que ele pudesse respirar melhor. Essa foi a primeira grande constatação: que era possível associar alguém a um cheiro e que uma memória olfativa podia alterar humores.
A segunda grande constatação teve a ver com a falta que a presença de Greengrass fazia e veio num dia em que, acordando de um dos muitos e recorrentes pesadelos, Malfoy percebeu que só conseguiu se acalmar ao evocar a imagem de Astoria. Dessa noite em diante todas as vezes que ele dormia sozinho e acordava com o peito comprimido e o corpo paralisado, Malfoy se utilizava desse recurso.
Do pequeno hábito noturno para a percepção de que passou a dedicar boa parte do seu tempo apenas conjecturando sobre o que falar quando estivesse por perto ou como se comportar sem parecer tão fodido quanto ele de fato era, a janela de tempo foi curta.
Por fim, a terceira e última constatação, a que o atingiu como um raio, isto é, com a força de uma revelação divina, sobreveio quando ele a viu beijando outra pessoa. Foi quando soube, da maneira mais dolorosa possível, que estava irremediavelmente perdido.
É aqui então que realmente começamos.
Essa, portanto, é a história de como uma trama quase-romântica pode abrir caminhos até então insuspeitos, ainda que muito buscados. Também é a história de como dois anti-heróis conseguiram um enredo sentimental complicado o suficiente para que pudessem começar a se tornar as pessoas que vinham almejando e tentando ser há uns anos.
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