Heartlines

6 No Light, No Light


You are the hole in my head, you are the space in my bed, you are the silence in between what I thought and what I said. You are the night time fear, you are the morning when it's clear. When it's over... you're the start.

E porque o recurso “uma moça loira para dar um pouco de perspectiva” serve para ambos protagonistas, aqui vai:

Daphne parecia... Solar.

Seu sorriso sempre muito branco agora contrastava com a pele bronzeada de quem havia passado muitos dias em lugares remotos e paradisíacos do mundo por quase um mês. Astoria, em contraponto, nunca parecera mais soturna ou pálida. Quando as duas se encontraram a primeira vez, a mais velha das irmãs franziu o cenho em preocupação.

Astoria nunca tinha sido a mais efusiva das criaturas. Ela tinha um humor que num geral Daphne não entendia, mas agora parecia apenas triste e isso era assustador, porque Daphne gostava de manter a impressão de que Astoria era inquebrável, mesmo quando ela dava pequenas amostras do contrário.

— Você precisa de dinheiro?

— Não. Não é nada disso. – suspirou, frustrada. Ela entendia que, para a irmã, dinheiro era o sinônimo de segurança e, portanto, estabilidade – não apenas material, mas emotiva também. Astoria não poderia discordar mais (e aqui, meus amigos, vocês devem concordar comigo que apenas pessoas burguesas podem se dar ao luxo de escolher se comprometer com uma das duas opções, de modo que no fundo elas eram mais parecidas do que achavam), ainda assim, discutir era a última coisa que queria.

— Você está doente?

— Não que eu saiba.

— O que você tem então?

— Eu não sei, Dee. Acho que a resposta mais sincera envolve dizer que estou cansada, mas ainda não sei muito bem por que. Há algo me empurrando para uma mudança da qual não sei se estou preparada e pela qual eu não anseio. No meio desse redemoinho tem uma pessoa.

— Uma pessoa...? – Daphne incentivou e apenas porque o seu tom de voz era suficientemente cuidadoso, Astoria decidiu continuar:

— Uma pessoa que eu me apeguei e de quem sinto saudades.

— Você está falando sobre o Malfoy?

— É. – tudo em Astoria queria mentir ao mesmo tempo em que tudo nela queria dizer a verdade. Pela primeira vez, ela só estava cansada demais para deliberar muito sobre o tema e decidiu apostar na segunda opção. Não era como se algo muito ruim pudesse acontecer depois da confissão. Não era como se nada fora de sua cabeça pudesse ser pior do que dentro de sua própria cabeça. – Acho que sim.

— Eu não sei o que dizer, Astoria, nós não fazemos muito isso de conversar e eu estou sinceramente surpresa. – a súbita delicadeza e o tato de Daphne fizeram com que ela se assustasse de verdade. Astoria riu com vontade, antes de menear a cabeça:

— Acredite, é surpreendente para mim também.

— Não é possível que as pessoas façam isso sóbrias. – e como Astoria não precisava ser sinalizada duas vezes quando o assunto era álcool, ela pegou uma garrafa de vinho pela qual tinha muito apreço para usar naquela situação inédita.

— O que te impede de estar com ele, afinal de contas? – Daphne perguntou, depois de agradecer pela taça servida.

— Eu não sei, Dee, nós dois somos meio fodidos da cabeça.

— E você tem medo de que estar perto dele foda mais a sua cabeça ou a cabeça dele? – Astoria não saberia dizer o que era mais inusitado: Daphne xingando ou resumindo perfeitamente o que ela ainda não tinha conseguido articular em palavras.

— Eu acho que é exatamente isso.

— É estranho saber que você tem medo. – Daphne murmurou. – Mas ao mesmo tempo... É bom saber que você é humana, no fim das contas.

— E o que você acha que isso quer dizer?

— Não sei, Astoria. Todo mundo tem que inventar um motivo, talvez. O que eu sei é que é normal ter medo e que ninguém está totalmente bem da cabeça. Sabe? Não 100%. Estar perto de outras pessoas e... conversar, as vezes ajuda.

— Isso foi muito... Irmã mais velha.

— Se você está tentando me elogiar, saiba que não é assim que funciona.

— Foi legal da sua parte, Dee. – Astoria tentou de novo, e de coração. – Eu acho que nós deveríamos talvez tentar mais vezes.

— Beber juntas? – Daphne brincou, sorvendo todo o liquido escuro e Astoria sentiu uma alegria súbita ao descobrir que ela tinha, ao fim e ao cabo, algum senso de humor.

— Principalmente. – sorriu de canto, imitando-a.

Não era uma relação fácil a delas duas. Mas qual era, afinal de contas? Naquela noite, com a cabeça anuviada pelo vinho tinto e uma sensação de calor no peito por ter se sentido parte de algo ao dividir a vida com Daphne, Astoria realizou que alegria só era tangível quando compartilhada. E bom, talvez se ela, como eu – e como vocês, meus amigos, eu espero –, tivesse assistido Into the Wild, teria descoberto isso sem precisar apelar para sua irmã mais velha. Talvez, se ela tivesse assistido ao filme, ela experimentaria a sensação de estar feliz e triste ao mesmo tempo, em parte agradecida pela beleza da dor que era estar viva e poder sentir – ainda que as vezes isso significasse sentir coisas realmente estúpidas. Mas Astoria Greengrass era uma bruxa, e, novamente, ela não estava familiarizada com películas trouxas contemporâneas. Nem com noções muito intimas de vínculo afetivo.

Mas talvez crescer fosse justamente sobre isso: abraçar a possibilidade de mudanças, de expansão de conhecimento e de si mesmo. Ela não tinha como provar, mas conseguia intuir, e apesar do medo danado que sentia só de pensar muito a respeito de relacionamentos (de qualquer natureza, não apenas românticos) e de como eles eram expostos a finitude como tudo na vida, Astoria sentia vontade de se enrolar com uma coberta; ainda assim... Ressonando lá no fundo, pulsava uma fome de risco, de assumir a coragem para fazer o que ela realmente queria, como quando havia fugido de casa. E isso, é claro, envolvia Draco, mas era mais do que a coragem de ter algo com ele: era a coragem de ter um compromisso consigo mesma e com seus desejos de frente, sem subterfúgios, sem condescendência com sua parte mais preguiçosa e medrosa.

A coragem de sair das masmorras pro meio da guerra, ainda que de maneira atrasada e apenas metafórica.

***

— Hey. – Draco mal pôde disfarçar a surpresa ao vê-la novamente.

— Hey. – Astoria respondeu, emendando de súbito o que queria dizer: — Você estava certo.

— Sobre...? – era uma pergunta genuína. Ele não havia cogitado a ideia de poder estar certo em qualquer questão que fosse nem por um segundo sequer. Às vezes, parecia que ele estava chegando a compreensão de algo, como no dia que conversara com Luna, mas então tudo ficava uma bagunça de novo.

— Sobre a gente não poder continuar daquele jeito.

— Ah...

— Eu perdi uma pessoa que eu amava. – ela começou, meio incerta. A memória de Susan ainda fazia com que sua voz se quebrasse um pouco. Mas ela não poderia começar de outra maneira. E talvez para estabelecer o nível de sinceridade que queria manter durante toda a conversa, prosseguiu: – que talvez eu amasse em mais níveis do que eu estava preparada para entender aos 15 anos de idade.

Draco assentiu com a cabeça.

— Esse tipo de coisa... – suspirou – Fode com a cabeça da gente. Viver fode com a gente. E as vezes parece melhor evitar. – Malfoy desviou os olhos, porque compreendia de uma maneira muito dolorosa o que ela dizia.

— Só que evitar também fode com a gente. – Astoria riu, porque era tão obvio e ainda assim levava tanto tempo para reconhecer. – E eu acho só que... Não existe um jeito certo de fazer as coisas, mas talvez se nós formos só suficientemente honestos com a gente e com os outros, as coisas se tornem um pouco mais... Possíveis? Eu não sei. Mas sei que amo você. E tudo bem se não der certo em algum momento. Se eu mudar de ideia. Se você mudar de ideia. Ou se algum acidente trágico comigo ou contigo acabar com todo o resto de saúde emocional do o outro. Porque essas são as coisas que eu não posso controlar, por mais que eu queira. O que eu posso é só... Estar aqui. E falar pelo que sinto agora.

— Agora é mais do que o suficiente para mim, Astoria. – ele murmurou, aproximando-se devagar, emocionado pelo modo como ela o encarava, pelo fato de que o presente parecia finalmente o estado de tempo ideal para se viver. Não antes e nem depois.

Só... Ali.