Heartlines

3 Breaking Down


All alone... It was always there, you see? And even on my own, it was always standing next to me. Oh, oh, oh… I think I’m breaking down again.

Agora um momento de atenção para o rapaz internamente perturbado:

Aos vinte e dois anos, Draco Malfoy achava que não tinha como se odiar mais, mas ele estava enganado. Mordendo a palma da mão com força para não gritar enquanto andava de um lado para o outro no próprio quarto, ele mal percebeu os espasmos involuntários da raiva que sentia de si mesmo ao repassar em sua memória o modo como havia fugido de Astoria.

Parecia razoável que uma pessoa com tão pouca inteligência emocional, como era o seu caso, uma hora ou outra colocasse a perder a única interação não parental e afetiva que havia conseguido nutrir com assiduidade. Ele já contava com isso, mas mesmo assim Draco não conseguia se desculpar. Sabia, no minuto em que aparatara, que era covarde demais para voltar a vê-la e por isso estava sofrendo antecipadamente pelos muitos dias de falta que teria pela frente.

A verdade é que se alguém um dia tivesse dito para ele, aos onze anos de idade, que ele seria uma figura tão digna de pena dali a dez anos, Draco teria rido e, provavelmente, cuspido aos pés da pessoa para demonstrar sua repulsa e desprezo. Naquela época, sua vida aparentava ser bastante promissora aos seus próprios olhos e aos olhos dos adultos com o qual ele convivia, mas tudo começou a ruir em Hogwarts.

Olhando em retrospectiva, ainda lhe dava uma sensação ruim lembrar o modo como ele sorrira orgulhoso para si ao embarcar no trem. Draco já conhecia o castelo, é claro, mas isso não o impedia de se sentir exultante naquele 1º de setembro. Ele esperava protagonizar aventuras, ser uma grande estrela do quadribol pela Sonserina, e, mais do que as duas coisas juntas, esperava que a combinação delas o fizesse se sentir mais parecido e mais próximo de seu pai.

Do jeito mais deturpado possível, Malfoy havia conseguido tudo o que queria, embora isso tenha lhe custado, gradualmente, quase todo seu bem-estar físico e mental ao longo dos anos escolares. Se até meados do quarto ano ele se divertia sendo um babaca falastrão com todas as pessoas que eram diferentes dele e pelas quais ele nutria uma certa mistura de obsessão adversativa e inveja, o mesmo não poderia ser dito do tempo que se seguiu: tudo ficou particularmente nublado e sombrio do quinto ano em diante.

Até então, ele era só um valentão e, na prática, mais ou menos inofensivo, mas a entrada de Dolores Umbridge em Hogwarts foi o suficiente para a criação de um novo cenário. Draco achava de uma ironia fina que 1996, o ano do seu triunfo, o momento em que mais esteve consumido pela falsa sensação de poder que ele usava arbitrariamente com a Brigada Inquisitorial tenha sido também, para todos os fins, o ano da grande falha de Lucius Malfoy.

Quando a missão de seu pai no Ministério se provou um fiasco, toda a fachada de normalidade e expectativa de grandeza angariada as custas da possibilidade de ascensão do Lorde das Trevas foram desveladas. Lucius foi preso e Draco se tornou um joguete de Voldemort.

Não que tenha notado de imediato. A princípio tudo parecera incrível em sua cabeça adolescente megalomaníaca: por mais que as condições fossem as piores possíveis sem o pai por perto, ser um comensal da morte era um jeito de consertar tudo, de reestabelecer o ambiente seguro e protetivo sob o qual ele havia crescido e de vingar Lucius, de acordo com a sua própria mente arrogante.

A medida que ele foi percebendo as nuances do que parecia um intricado jogo punitivo de Voldemort em relação ao seu pai, no entanto, sua realidade ganhou novos contornos e um nível de complexidade que ele não parecia capaz de assimilar. Quanto mais Draco ficava confuso a respeito de suas noções de identidade pessoal e social, mais agressivo, instável e raivoso ele se mostrava.

Porque a verdade é que nenhuma ebulição emocional ou complexo de grandeza foram suficientes para anuviar o fato de que ele estava aterrorizado até os ossos. E embora o seu plano de introduzir um grupo de comensais da morte dentro do castelo tenha dado certo, alguma parte muito ínfima e mínima dentro de si sabia que ele nunca conseguiria concluir a sua principal tarefa.

“Draco, Draco, você não é um assassino”.

Mesmo agora, com anos de distância, a voz ecoava em sua cabeça. Depois do horror, da guerra, da derrocada de Voldemort, da perda de prestigio de sua família e de todas as suas referências sobre quem Malfoy era e o que entendia do mundo, aquela frase persistia como uma bússola. Uma espécie de norte. Assombrava-o na mesma medida em que lhe dava um vago senso de perspectiva. Por muito tempo, isso fora tudo que ele tinha.

Isto e, estranhamente... Luna Lovegood.

Era uma amizade inusitada, para dizer o mínimo. Eles não se viam com frequência. Uma apuração mais precisa é que eles não se viam quase nunca. Mas um dia, na saída de um dos muitos depoimentos que havia precisado dar junto com sua família ao Ministério, ela o interceptou e disse – com aqueles olhos profundos, desvairados e claros – que certa vez ele havia lhe servido seu prato favorito na época em que ela esteve presa no porão da mansão Malfoy e que por isso ele podia contar com ela quando precisasse, já que, para todos os fins, ele seguia preso, e ela, não.

Lovegood o atingiu em cheio ao usar o sentido figurado com a afirmação final. Draco não ousou perguntar que prato havia sido. Ele não tinha a menor pista do que ela poderia estar falando e sabia que, à época, não fazia nada a não ser o que o mandavam fazer. Talvez ele tivesse esquentado com a varinha as pequenas cumbucas de comida dos prisioneiros nos turnos em que ficara encarregado disso, mas não havia generosidade consciente no ato. Ele apenas não concebia outro modo de se lidar com comida.

De modo que não, Draco não a havia procurado desde aquele momento, embora, desde então, periodicamente ela lhe enviasse pequenos bilhetes incompreensíveis que ora eram informativos “saudações! estamos entrando na estação das ameixas dirigíveis” ora comemorativos “feliz equinócio de setembro” ora místicos “carta do tarot da semana: a roda da fortuna”. A todos, invariavelmente, Draco respondia com um “obrigado”, seguido de um “M” maiúsculo como assinatura.

Mas esse era o maior contato exterior que ele tivera pós Hogwarts até conhecer Astoria. E agora que Malfoy não pretendia mais ver Greengrass e a ideia realmente o colocava num estado inédito de espírito, foi como se observasse a um estranho que, uma quinzena depois dos eventos narrados no capítulo anterior, ele se pegou escrevendo o seguinte bilhete: “algum conselho para cuzões com corações partidos? M.

Na manhã seguinte, Luna o respondera com, literalmente, uma chave de portal.

***

Ela o aguardava debaixo de uma figueira que ficava na encosta de um monte muito verde. Era primavera e o céu estava claro, o que fazia Malfoy pensar que talvez por isso a irmã de Astoria se casaria em breve: para aproveitar a estação.

Draco vestia preto da cabeça aos pés e usava óculos de sol com viseiras que protegiam até mesmo sua visão lateral da claridade. De pernas cruzadas embaixo da árvore frondosa, Lovegood se permitiu sorrir enquanto Malfoy se aproximava. Aquele era exatamente o tipo de coisa que ela fazia e que nenhum de seus amigos entendia.

Mesmo Draco não parecia entender, Luna percebeu, pelo modo como tudo em sua linguagem corporal indicava desconforto.

— Olá. Sente-se. – ela convidou com a sua voz suave habitual. Como a sombra era mais do que bem-vinda, Draco consentiu, mantendo uma distancia segura. Lovegood prendeu o cabelo em um coque desleixado utilizando a varinha como suporte para o penteado e tirou do bolso do macacão claro que usava algumas cartas púrpuras e douradas.

Como Malfoy não tinha ideia de como agir, desviou os olhos do dela e se concentrou em um pequeno graveto na relva, decidindo cutucar a grama com isso para se manter ocupado.

— Onde estamos? – ele perguntou, por fim, enquanto Luna distribuía em fileira as cartas de cores fortes.

— Ah, perto da minha casa – sorriu e apontou com o indicador algum lugar da linha do horizonte. Até onde Draco podia ver, no entanto, só havia um extenso pedaço de planície margeado por pequenos morros ao fundo.

— Me conte sobre a garota – ela pediu de maneira simples e direta, ainda muito concentrada em sua própria tarefa para ver o rubor que tomou conta das feições de Malfoy por um instante.

— Não sei o que dizer – murmurou olhando para os próprios sapatos. – Gostaria que ela fosse minha.

Luna pousou delicadamente uma carta ao chão, antes de encará-lo por um instante.

— E alguma vez isso já deu certo para você? – Draco sentiu a irritação rugir dentro dele, mas não havia maldade na pergunta de Lovegood, ele constatou, subitamente indefeso.

O que ela realmente estava perguntando, notou, em algum momento do silencio constrangedor que se seguiu, é se ele achava ser possível ter outra pessoa. Ele havia pensado que sim. Durante muito tempo da vida, Malfoy tinha pensado que o amor era como um contrato. As partes envolvidas davam o que tinham e se apropriavam do resultado final.

Parecia simples na teoria, mas agora ele já era calejado o suficiente para entender que na prática as coisas sempre adquiriam dobraduras, nuances, gradações e modulações que escapavam de fórmulas simples.

— Não. – respondeu por fim e considerou que, nesse sentido, ele não queria que Astoria fosse dele; o que Draco queria era ser romanticamente o suficiente para ela. E o que doía nessa ótica é que ele não achava que era o suficiente nem para si mesmo, quanto mais para outra pessoa.

— Você ainda parece estar em conflito com a sua imagem anterior e quem você é agora. Eu sinto muito. – Luna comentou.

— A questão é que não sei quem sou agora.

— Mas sabe quem quer ser? – ela inquiriu, chamando a atenção dele para as cartinhas. – Vamos, agora você pode escolher. – ela disse de maneira gentil, se referindo tanto as cartas que havia distribuído quanto ao assunto, talvez.

Em toda sua vida, Draco Malfoy nunca havia se feito tal pergunta. Ele não tinha precisado, não quando as instruções sobre quem ele era e quem tinha que ser estavam tão claras no passado. Escolhendo distraidamente um dos papelotes que Lovegood indicava, sem força para sequer perguntar do que aquilo se tratava, ele pensou a respeito.

— Hm. O pendurado. – Luna virou a lâmina do tarot para cima, lendo a inscrição na parte de baixo, antes de observar, com Draco, uma pequena gravura medieval de um homem suspenso pelo pé esquerdo em uma viga verde.

— O que isso quer dizer? – ele não se conteve, por fim.

— Você vê que engraçado? – Luna sorriu, começando a resposta com uma pergunta. – Se a gente olha com atenção, percebe que ele não tá realmente dependurado. A corda não passa ao redor de seu tornozelo.

— Sim. – Draco apertou os olhos, observando o detalhe.

— Isso indica que, na verdade, ele não está preso pelo corpo, mas pela cabeça. É o aspecto mental que o mantêm nessa posição. Por outro lado, é significativo que a corda esteja em seu calcanhar, que significa vulnerabilidade. – Luna meditou um pouco. — Sei que não parece uma carta bonita, mas é bem positiva na verdade: simboliza a dificuldade, o valor e o ensinamento de um novo início. E é paradoxal porque sugere, ao mesmo tempo, o sofrimento e a tranquilidade, a imobilidade física e o movimento interno.

— Sofrimento e tranquilidade. Como isso seria possível? – Draco perguntou de maneira ácida.

— Sendo. – ela deu de ombros. – O Pendurado fala sobre uma prova dolorosa, sabe, mas necessária. Ele ameaça a continuidade das coisas, ao mesmo tempo que assegura uma abertura mental e espiritual. Representa o aprisionamento como a consequência dos erros anteriores. Mas aí que está: a privação simbólica do movimento físico aumenta a atividade mental do personagem. Do mesmo jeito, a posição invertida dele favorece uma visão diferente da realidade que ele está acostumado.

Draco encarou a gravura. Luna continuou:

— O que essa carta sugere é que na dificuldade se revela a resistência individual à prova, e não no conforto. – sorriu, recolhendo-a. — A dúvida é necessária e construtiva desde que venha do desejo de compreender. – parecia didático o suficiente para ele assentir, por fim.

Uma parte de Malfoy quis dizer que aquilo era uma estupidez, que ele não acreditava nela e que ela era louca. Essa parte, estranhamente, tinha a mesma voz que ele tinha aos onze anos. Reconhecendo-a dentro da própria cabeça, Malfoy pensou sobre a voz que tinha aos vinte e dois, e foi com ela que ele calou a mais nova, antes de lançar um longo olhar para a menina serena que o encarava.

— Você realmente acredita nisso? – murmurou.

— Sim. – ela respondeu, sem nem titubear, lhe concedendo outro sorriso.

— Obrigado. – Malfoy disse num fio de voz, e ele estava sendo sincero.

— Mais uma? – ela sugeriu e ele assentiu com a cabeça, sentindo o peso dos ombros cederem um pouco.