Heartless
1 Ventre de espinhos.
Notas iniciais
" Durante a noite ouço contarem a história mais fria jamais contada;
Alguém ao longo desta estrada perdeu sua alma...
[...]
Como consegue ser tão sem coração? "
The Fray — Heartless
Ventre de espinhos, capítulo um.
Ulquiorra & Orihime.
Durante longas horas Ulquiorra permaneceu daquela mesma forma; Deitado olhando no céu a fumaça que casas e corpos queimado se erguendo levando consigo a total destruição de um vilarejo; Havia um galho podre perfurando seu peito, seu corpo injuriado com cortes após a bela surra descansava no meio de uma espinheiro com sua carne sendo espetada pelas pequenas protuberâncias pontiagudas. As lágrimas já tinham secado no rosto sujo do pequeno deixando suas marcas na fuligem que cobria a pele pálida do garoto.
Por que ainda não tinha morrido?
Respirar era impossível e se o fazia sentia uma dor excruciante, seu peito estava perfurado e sangue morno corria por seu corpo. Os espinhos e galhos retorcidos impediam que os corvos chegassem perto. As aves tinham medo de se ferir e o corpo do garoto estava afundado no mar cortante.
O pequeno fechou os olhos e esperou pacientemente a morte.
Uma que jamais veio.
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— Acabou — Grimmjow anunciou puxando sua lança e saindo de cima do corpo do último ancião. — Tisc! Quase nenhuma riqueza. — o mercenário voltou a praguejar olhando algumas poucas jóias que conseguira furtar da casa dos aldeões.
— Pense pelo lado bom amigo. — Nnoitra tomou a palavra apoiando a espada embainhada nas costas passando os pulsos sobre a mesma apontando com o queixo para a fila de moças amarradas e presas em grilhões. — Conseguimos algo para distrair hoje a noite — sorriu.
O azulado acompanhou o riso do moreno, porém de forma comedida olhando ao longe o moreno com capa longa e negra que passeava como a própria morte pelo campo de batalha furando os corpos. Queria se certificar que nenhum sobrevivente ficaria para trás. Nenhum escapava com vida quando o bando do "Sem Coração" decidia atacar.
— Ele não vai dar chiliques e dizer que "Estamos perdendo tempo e gastando energia" ? — o "Pantera" indagou fazendo tipinho na voz e fingindo uma cara de tédio para imitar a cara taciturna do 'chefe'.
— Quem liga para o que o novato fala?! — Nnoitra disse com raiva. Apesar de novato como suas palavras envenenadas chamaram o colega de espada ninguém o vencia. Ele era o campeão do rei. Não era um chefe, um peixe grande; Ulquiorra tinha sido encarregado apenas de chefiar aquela missão, trabalhavam para o rei das terras Vazias. O homem sem nome.
— Não sei por que o chefe tinha que por justo ele no comando! — o "Pantera" concordou com o moreno alto — Mas que seja. Missão cumprida! Temos direito a um prêmio!
O tão difamado novato nem olhava o grupo, muito menos os outros homens que ainda estavam espalhados saqueando. Procurava algo nos corpos. Algo que procurava em todos: Um coração. O que era um 'coração'? Toda vez que abria os cadáveres achava só carne e sangue. Ele passava furando aquele lugar para ver se um deles achava o bendito. Era uma busca particular e que ele não gostava de tornar pública. Por esta marca única de assassinato e a cicatriz em seu peito ficou com a alcunha de "Sem Coração".
Depois daquele tarde, anos atrás, havia sido achado pelo rei das terras Vazias. O mercenário traidor. O homem que cuidaria de si. Não tinha qualquer lembrança, mas sabia que era o último dos moicanos de um ataque. Um sobrevivente. Não tinha ideia de como tinha ido parar ali entre os espinhos nem como sobrevivera ao peito perfurado. Não lembrava de nada. As marcas em seu rosto também; Quando estava sendo retirado dos espinhos que pareciam ter funcionado para si como um ventre protetor contra aves famintas deixaram marcas em seu rosto. Marcas como lágrimas.
Desde aquele dia Ulquiorra não sente nada. Nada mesmo. Não apenas psicologicamente falando, mas fisicamente. Ele era um ser humano incapaz de sentir dor. Todos falavam com brilho nos olhos como ele era peculiar de sobreviver com um peito perfurado e se curar ainda. Ele não achava nada peculiar ou bom, tudo que habitava seu "eu" interior era o nada. Viver para servir tinha se tornado seu motivo de se mover e apenas aquele motivo se agarrava com unhas e dentes.
Ele era o servo mais fiel de seu senhor.
Depois de anos com sua alcunha, com sua história de 'sobrevivência' e tantas pessoas repetindo e repetindo a palavra coração perto de si ele tinha tomado ciência de sua nova curiosidade. O que era de fato um coração? Enquanto invadia vilas, matava pessoas, via todo tipo de reação. Choro. Grito. Desespero. Dor, mas nunca somente isso. Sempre levavam a mão ao dito coração, raiz de seus sentimentos, e choravam, gritavam, se desesperavam ou sentiam aquela dor. E ele tinha observado bem, ninguém era melhor platéia que ele. As vezes nem tinham sido feridos ainda, apenas alguém próximo e querido a eles é quem tinha morrido e lá estavam aquelas emoções e aquela mão no peito.
Ele queria saber o que era um coração.
Enquanto caminhava entre corpos, cheiro de carne queimando e corvos devorando os restos mortais ele ia furando os corações. Alguns ele abria e tentava analisar, mas não se demorava. Era apenas carne e sangue. Ele poupava suas próprias vítimas, afinal ele as tinha matado com golpe no coração mesmo. Seus pés esmagavam terra, lama de sangue e ossos já fraturados.
Sentiu apenas pelo solavanco de seu corpo que seu ombro tinha sido perfurado por uma lança. Olhou para baixo e viu o velho com uma perna já amputada e sério ferimento no crânio olhar para si. Não havia hostilidade no olhar. Parecia que o homem sabia que sua hora era chegada, ele na realidade, mostrava interesse em trocar uma ou duas palavras com Ulquiorra. O moreno segurou o cabo de madeira que quebrou — o mesmo com o ferro fincado em seu ombro. Estava calmo e se quer retorceu a bela face em dor.
— Qual sua idade, criança? — o homem indagou cuspindo sangue enquanto gorgolejava suas últimas palavras.
Ulquiorra se ajoelhou ao lado do homem puxando o ferro de seu ombro e fitando o fazendeiro com os olhos de jade.
— 14... 16? — indagou sorrindo. Que isso? Sorri na hora de sua morte? Que reação era essa? — Só uma criança.
O moreno continuou observando o homem com cuidado. O que queria? Nem Ulquiorra sabia própria idade. Que diferença fazia saber ou não?
— Um dia isso vai consumi-lo filho — o homem disse em forma de aviso e Ulquiorra cravou a lâmina em seu crânio deixando o cadáver cair sem vida.
— Lixo — concluiu enfim voltando a ficar de pé.
O moreno colocou seu capuz e embainhou sua espada, deixando-o oculta em sua cintura. Caminhou até o grupo dos mercenários e olhou os homens. Era claro que queriam se divertir com as mulheres pegas. Ulquiorra não fora movido a pena ou piedade para com elas, apenas deu a ordem de retirada.
Muito burburim houve. Controvérsias se abriram, inquéritos minaram sua ordem e a luxúria deu seu jeito de mostrar a sombra de um motim. Ele sacou sua espada e cortou cabeça dos dois mais 'acalorados' em enfiar reticencias em suas ordens. Cravou a espada em seus peitos, altura do coração e abriu o corpo até a base da cintura deixando-os caírem.
— Alguém mais deseja me desafiar? — indagou girando sua espada fazendo o sangue voar para todos os lados. Caiu até mesmo no rosto de Nnoitra que estalou a língua limpando sua bochecha.
Como aquela criança podia ser mais forte e poderosa que todos ali? Que tipo de demônio era quele ser que deveria jazer morto entre espinhos?
— Você? — apontou a arma para o homem e Nnoitra a desviou com dois dedos.
— Tisc. Eu não. — reclamou dando de ombros.
Uma mulher tentou agradecer o moreno. Cabelos castanhos e seios fartos. Ela agarrou o pulso de Ulquiorra e antes de murmurar frases de agradecimento o mercenário puxou o braço e olhando-a com desprezo continuou andar levando consigo seus emissários da morte.
— Que ideia foi aquela? — Rukia segurou a mão da sogra. A mesma estava em silêncio olhando o moreno ir embora pelo bosque sumir como nevoa se dissipando.
— Vamos esperar o Ichigo voltar, Rukia. Ele saberá o que fazer. — ela disse enfim, falando de seu filho e esposo da pequena morena que segurava seu pulso. — Aquele pequeno rapaz... era apenas uma criança. — murmurou olhando o campo de mortos. Por sorte o marido e o filho estavam fora. — Não que você seja muito mais velha, acho que devem regular idade. Uns 17.
— Seu instinto materno devia ser menos aguçado! — Rukia riu enquanto sabotava os cadeados dos grilhões da sogra.
Era uma gatuna, uma ladra sorrateira que para não ser queimada em praça, casou-se com Ichigo. Um rapaz de fama duvidosa dentre todos daquele povoado (agora destruído).
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— Como sempre... — o homem sentado no trono vermelho carmim, bebendo vinho em um crânio sorriu languidamente fitando Ulquiorra. — Nunca me arrependo de deixá-lo no comando. O que lhe falta em coração, lhe sobra em cérebro e astúcia.
— Obrigado, meu rei. — o moreno se curvou de forma um tanto exagerada olhando seu pulso.
Ele nunca era tocado. Pessoa tomavam a maior distância possível de si. Não queriam saber de vê-lo por perto. Ser um humano errante e solitário era parte do moreno. Não desgostava disto, muito menos reclamava. Era um invólucro vazio. Seguia ordens e procurava, quando podia, sua pesquisa pessoal. Não fazia muita ideia do que faria se acaso descobrisse o que era o bendito coração e Aizen (o nome do tal rei) saísse do poder das terras abandonadas. Não tinha planos para si. Nunca teve.
Bem dizer esta curiosidade, esta solidão e servidão o mantinham vivo e em algum propósito.
— Todo bom servo, trabalha de mais! — Aizen disse descendo de seu trono, deixando o crânio sobre uma mesa qualquer pondo a mão no ombro do seu fiel seguidor erguendo-o; — Lamento que eu talvez já tenha planejado tua próxima conquista, meu bravo peão.
— Qual seria? — Ulquiorra indagou enquanto o homem o segurava pela nuca. Ele sentia os frios anéis de outro roçando sua pele enquanto o outro o guiava pela sala do trono até a varanda de onde todas as terras vazias podiam ser observadas.
Uma terra seca, improdutiva. O povo que ali vivia e se submetia a Aizen era igualmente seco e improdutivo. Haviam os mercenários pelas ruas de lama; Caídos nas tinas de água dos cavalos, abraçado a porcos ou simplesmente arrastrando uma prostituta para um beco. Aizen enfim tirou a mão da nuca do mesmo e se afastou. Apontou para cidade.
— Vê Ulquiorra? Vê a que ponto cheguei? Não há mais servos valorosos como você. — o moreno estreitou os olhos verdes para o rei. Bajulação? — Não seja tolo, Ulqui. Eu tenho algo a lhe oferecer... e neste plano só tem a sair ganhando.
— Ganhando o que? — indagou calmo.
— O resultado de suas pesquisas. O que é um coração!
Ulquiorra arregalou os olhos. Como aquele homem sabia de algo tão pessoal?
— Tudo que tem que fazer é.. — sentiu o bafo de vinho roçar em sua bochecha e a voz do rei próxima — Raptar a princesa Orihime.
— Considere feito. Com sua licença. — pediu e se retirou em passos largos. Aquele homem.. era uma serpente pronta para atacar.
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