Heartche
2 Capítulo 1
Notas iniciais
Eu diria que esse era um dia perfeito: ensolarado com poucas nuvens, fazia calor, mas tinha brisa refrescante que deixava o clima confortável, nem muito seco, nem muito úmido… Parecia até que os próprios deuses haviam se juntado para realizar tal façanha: uma bênção à união que estava para acontecer dali a algumas horas.
Aquele dia perfeito parecia zombar do meu mau humor.
Suspirei mais uma vez enquanto observava pela janela a grama verde dançar com a brisa suave lá embaixo. Estava procrastinando, isso era certeza. Minha gravata pendurada em meu pescoço estava por fazer há pelo menos vinte minutos, meus sapatos não engraxados jaziam em cima da escrivaninha, sem contar que meu cabelo estava em seu caos natural. Não me dignifiquei a penteá-los mesmo que tenha acordado horas atrás. Eu nada queria fazer e ninguém eu queria ver. Claro que aquilo não iria acontecer, eu não tinha me esquecido de que dia era hoje.
— Kuroko-san! — A voz feminina do outro lado da porta seguida de leves batidas na madeira me trouxe de volta ao mundo real — Posso entrar?
A mulher não esperou por resposta alguma e adentrou o quarto sem cerimônia. Pelo menos eu estava vestido.
— Você não está pronto?! — A senhora de cabelos ruivos estava prestes a ter um ataque de nervos. Se ela tivesse, eu definitivamente não era a pessoa que poderia acalmá-la — Você precisa terminar de se arrumar imediatamente! Venha cá, eu faço um nó em sua gravata.
Não é como se eu não soubesse fazer um, mas julgando pelo tom de voz da mulher, era melhor não desobedecê-la. Me aproximei e deixei que ela o fizesse.
— Francamente, vocês homens querem acabar com meus pobres nervos… — Ela reclamava enquanto suas mãos habilidosas rapidamente mexiam no tecido acinzentado em meu pescoço — Meu marido não consegue achar nem as meias que separou para usar, o padrinho fica encarando a janela parecendo um zumbi, e meu filho, o próprio noivo, tem uma crise no pior momento possível!
— Sinto muito, não dormi bem durante a noite. — Eu não estava mentindo.
— Ora, meu querido. Logo você está nervoso? — Ela se deixou rir um pouco, suavizando sua expressão levemente — Até parece que é o noivo.
"Não sou, mas talvez gostaria de ser" foi o pensamento que invadiu minha mente perturbada e mau humorada.
— Está pronta. — Ela constatou um pouco orgulhosa de seu trabalho. Olhei no espelho e percebi que não era um nó tão simples assim. Do jeito que ela é, provavelmente ficou alguns dias treinando em seu marido, decidindo qual nó faria para cada um de nós — Por favor, vá falar com meu filho. Acho que tirando a futura esposa, você é o único que consegue acalmá-lo em situações assim. Além do que, meus pobres nervos não darão conta de mais um problema hoje.
Apenas assenti com a cabeça e saí do quarto o mais rápido possível, deixando meus sapatos para trás. Ouvi a mulher reclamando sobre alguma coisa atrás de mim, mas não dei muito atenção: poderia ser sobre seus pobres nervos ou sobre minhas meias que se sujariam caminhando sem sapatos pela casa. De qualquer forma, estava sem muita paciência para reclamações descabidas, então segui meu caminho até o quarto onde o noivo se trocava.
Passei andando por aquele apartamento como num flash, sem realmente prestar atenção à nada. Era doloroso ver como um lugar que eu costumava conhecer tão bem agora estava tão mudado. A noiva definitivamente havia deixado sua marca ali. Preferi não aumentar o meu mau humor, então afastei os pensamentos sobre o apartamento de minha cabeça e me concentrei em meu amigo. Era hora de cumprir minha função como padrinho, não deixar minha melancolia me consumir. Ao chegar em frente a porta dele, me forcei a sorrir. Percebendo que pareceria falso demais, apenas mantive um expressão neutra e levemente bati na porta, pedindo licença para entrar.
Não houve resposta. Estranho.
— Kagami-kun? — Tentei chamá-lo com uma voz suave — Está tudo bem?
Neste momento a porta escancarou-se, revelando meu amigo em um estado deveras deplorável: olheiras arroxeadas profundas, cabelos desarrumados, barba por fazer, smoking levemente amassado, gravata arrumada de uma maneira muito esquisita… Em pouco palavras, Kagami-kun estava uma bagunça. Tentei esconder minha expressão de surpresa, mas não creio que tenha sido bem sucedido.
— Não se atreva a rir. — Ele respondeu de maneira seca, me deixando adentrar o quarto.
— Não irei. Vim aqui para te ajudar como eu posso.
Guiei meu amigo até uma cadeira, pedi para que sentasse e refleti o que poderia ser feito para dar um jeito em sua aparência. Corri até o banheiro, peguei seu creme de barbear e passei um pouco em seu rosto. Com bastante cuidado, comecei a passar a gilete vagarosamente tentando evitar machucá-lo de alguma forma. Tinha certeza que ele reclamaria, mas ao começar percebi que estava bastante dócil. Bom que ele não puxou à mãe nas crises de nervos.
— Como você conseguiu deixar seu cabelo assim? — Perguntei tentando puxar assunto, mas ao mesmo tempo curioso para entender como ele acabara com aquele ninho de ratos na cabeça.
— Eu não dormi bem. Fiquei rolando na cama a noite toda. — Isso explica muita coisa.
Aparentemente ele não estava no clima para conversar, então continuei o processo em silêncio. Admito que conversar não era algo que eu tampouco quisesse fazer, então não me importei muito. Apenas aproveitei a sensação de sua pele em minhas mãos. Percebi que ele evitava o meu olhar, mas fingi que estava concentrado demais para perceber. Ficamos assim por um tempo, até que finalizar com uma loção pós-barba.
— Obrigado. Está bem melhor. — Ele estava claramente mais aliviado. Era aparente que ele apenas não estava conseguindo lidar com o momento sozinho.
— Não há de quê. — Respondi sem realmente encará-lo, tentando esconder um suave sorriso de satisfação com o trabalho que tinha feito. Não era nenhuma obra prima, mas estava bom o suficiente.
Peguei no banheiro uma escova de cabelos e um pote de gel para consertar aquela bagunça vermelha em sua cabeça, mas quando voltei ele não parecia bem.
— Eu não sei se consigo fazer isso.
Aquela frase me parou. Me virei para encará-lo e percebi que ele não só suava frio, mas suas pernas não paravam de tremer.
— Ei, acalme-se. — Puxei uma cadeira para que eu pudesse me sentar ao seu lado. Estava com receio de tocá-lo de forma que o deixasse ainda mais nervoso, então preferi dar-lhe espaço — Me conte o que está sentindo.
— Eu tenho medo de tudo mudar. Não sei se consigo lidar com isso. — Ele agarrou minha mão um pouco forte enquanto proferia essas palavras.
— Mas você já está passando por tantas mudanças e está conseguindo lidar com elas tão bem.
— Não sei… Eu só tenho medo, sabe? — Seu olhar ansioso repousou sobre mim, esperando uma solução mágica que não viria.
Se eu pudesse, naquele momento eu diria para desistir do casamento, deixar tudo aquilo de lado. Quem sabe, eu seria a solução mágica para todos os problemas dele. Quem sabe se eu admitisse meus sentimentos, ele não percebesse que éramos feitos um para o outro. Fugiríamos juntos para um lugar distante, quem sabe um dia nos casaríamos. Algum dia pensaríamos em adotar uma criança. Seríamos uma família quase perfeita como nos comerciais de margarina, e eu o amaria pelo resto dos meus dias.
Infelizmente eu não poderia oferecer aquela fantasia à ele. Ele amava outra pessoa e eu era seu padrinho de casamento. Deveria cumprir meu papel.
— Ter medo é normal, Kagami-kun. — Comecei lentamente, acariciando sua mão — Tudo vai mudar, mas para melhor. Sei que você vai conseguir superar tudo isso.
Tenho vergonha de admitir que talvez estivesse falando isso mais para mim do que para ele.
Ele me encarou por um tempo em absoluto silêncio, como se estivesse refletindo. Quando comecei a ficar preocupado com sua falta de reação, ele finalmente me respondeu.
— Eu quero que você prometa que não vai mudar. Que nada entre a gente vai mudar. — Seu olhar estava sério, um pouco turvo — Eu consigo lidar com essas mudanças, mas não sem você.
Ver meu amigo falando aquilo me pegou de surpresa. Infelizmente, não me senti bem a ouvir aquilo. Eu tinha certeza que ele não fazia ideia do quanto as palavras dele tinham efeito sobre mim, então ele provavelmente não sabia o quanto eu iria levar aquilo a sério. Meu maior arrependimento até hoje é de ter concordado com aquilo.
Eu sempre estaria lá para ele, querendo ou não.
…
Assim que abri os olhos, tinha certeza que estava atrasado. Era raro acontecer, mas tinha vezes que o despertador simplesmente não conseguia me despertar. Por essas e outras, sou muito agradecido que tenho um relógio natural que me permite acordar mais ou menos na hora que eu deveria sair para trabalhar. O nome dele é Nigou e naquele momento ele estava em cima de mim lambendo meu rosto, provavelmente me lembrando que devo servir seu café da manhã.
— Nigou, eu conseguia aguentar seu peso em cima de mim quando você era um filhote… Agora eu estou sem ar… — Tentei tirá-lo de cima de mim, mas ele parecia muito confortável e sem a menor intenção de sair dali.
Quando eu o encontrei no ensino médio, eu tinha a esperança que ele não crescesse muito e insisti com meus pais para que ficássemos com ele. Eles não apreciavam a ideia de ter um cachorro, mas como pensaram que não ia crescer muito, acataram. O veterinário que cuida de sua saúde desde a adoção tentou me avisar algumas vezes que ele era provavelmente uma mistura de Husky Siberiano com Akita Inu, então ele com certeza seria um cão de grande porte. Decidi ignorar e não avisar minha família sobre esse pequeno detalhe, já tendo me apegado a ele e ele a mim. Meu pai não se importou quando ele começou a crescer, mas minha mãe nunca deixou de reclamar comigo sobre isso. Por essas e outras acabei me mudando o quanto antes da casa de meus pais, levando Nigou comigo.
— Vamos, Nigou… Eu preciso trabalhar. — Tentei falar um pouco mais firme para que ele saísse de cima de mim, mas não foi muito efetivo já que estava sem ar. Ele continuava a lamber meu rosto exaustivamente, como se me chamasse para brincar.
Eventualmente eu consegui empurrá-lo para o lado e corri para o banheiro. Eu precisava me arrumar rápido. Geralmente sou um funcionário exemplar, mas devo admitir que naquela semana eu estava descuidado, sempre me atrasando para entrar no escritório. O metrô lotado definitivamente era um fator que não ajudava muito, mas devo admitir que as visitas inesperadas de meu amigo bagunçaram completamente minha rotina. O pior de tudo é que ainda não conseguia descansar direito, já que dormia tarde porque fazia companhia até ele ir para casa. Os constantes sonhos que tinha também tiravam a qualidade do meu sono.
Me encarei no espelho, incerto de como esconderia as minhas olheiras profundas. Talvez devesse ignorá-las e focar em ajeitar meu cabelo, que naquele momento estava completamente amassado de um lado e cheio de nós do outro lado. Tomei um banho rápido e lavei aquela bagunça, implorando aos deuses que ele estivesse melhor quando secasse.
Ao terminar de vestir o terno, coloquei um pouco de ração no pote de Nigou e adicionei um sachê de carne como agradecimento por ter me acordado. Percebi que não conseguiria comer nada, então peguei uma garrafinha de vitaminas na geladeira e parti.
…
Adoraria dizer que minha viagem até meu trabalho fora pacífica, mas em dias de semana o metrô era sempre lotado. Chegar com o terno um pouco amassado e os sapatos sujos de serem pisoteados fazia parte da vida de quem não tinha dinheiro para adquirir um carro.
Adentrei o prédio com um pouco de pressa, mas ainda tentando manter uma certa postura de confiança. Este prédio no qual trabalho é uma Editora ainda pequena em Tóquio. Mesmo sendo pequena e se focando no comércio local, a empresa está definitivamente crescendo cada vez mais. Recentemente até abriram um novo departamento para mangás e revistas em quadrinho, visto que este é um mercado cada vez maior.
Cumprimentei algumas passantes conhecidos, que cochichavam entre si e me olhavam de maneira estranha, quase como se estivessem com pena. Isso nunca era um sinal muito bom, mas decidi ignorar e focar em chegar ao andar do meu departamento. Para a minha surpresa, os elevadores não estavam funcionando. Eu trabalho no departamento de Literatura Infantil, localizado no sexto andar do edifício.
Talvez aquele não fosse um dia bom para sair de casa.
Com algum esforço, consegui chegar até o meu departamento, no qual o secretário que estava na entrada falando ao telefone. Ao notar minha presença um tanto ofegante, ele sorriu para mim de maneira simpática, mas ao mesmo tempo compreensiva. Provavelmente o elevador quebrou na hora que a maioria dos funcionários estavam chegando, então ele também deve ter subido todos aqueles lances de escada.
Assim que entrei no escritório, tentei fazer o que faço de melhor: passar despercebido para que ninguém notasse meu atraso. Eu era capaz de fazer isso no ensino médio, quase sempre chegando atrasado nos treinos de basquete. Talvez eu ainda fosse capaz de realizar tal façanha.
— Tetsu-kun!
A voz pertencia à Momoi Satsuki, uma amiga querida e colega de trabalho, que naquele momento acenava para mim de sua mesa. Graças a isso, todas as pessoas que trabalhavam naquele pequeno escritório facilmente me localizaram. Fui desmascarado quase imediatamente. Talvez eu precise de um pouco de prática em minha furtividade…
Dirigi-me à minha mesa, resignado. Esta ficava ao lado da mesa de Momoi-san, que parecia extremamente satisfeita em me ver.
— Bom dia, Momoi-san.
— Atrasado de novo, hm… — Ela esboçava um sorriso um tanto malicioso — Será que agora existe alguém na vida de meu querido amigo que não o deixa acordar no horário certo?
Suspirei pesadamente. Momoi-san era uma pessoa maravilhosa, mas devo dizer que sua mania de fantasiar sobre minha vida amorosa era às vezes um pouco incômoda. Eu já expliquei algumas vezes que não havia ninguém na minha vida, — o que é um pouco triste de admitir — mas ela parece não me dar ouvidos. Nesses casos, eu apenas a ignoro.
— Conseguiu terminar o relatório que era para ser entregue ontem? — Mudei de assunto casualmente. Aquela pergunta fez com que seu sorriso se transformasse numa careta rapidamente.
— É claro que terminei! Eu sei que demorou um pouco, mas eu queria deixar perfeito. — Ela bufou um pouco e logo choramingou — Não precisa também me ignorar assim…
Foquei em ligar o computador para começar logo a trabalhar e recuperar o tempo perdido. Momoi-san não exatamente parou de insinuar sobre um possível relacionamento meu, mas com a minha falta de reação ela eventualmente desistiu deste assunto.
— Tetsu-kun, você parece cansado. Suas olheiras estão mais profundas do que o normal.
Como ela parecia genuinamente preocupada, resolvi responder.
— Eu não ando dormindo muito bem. Parece que eu não consigo descansar.
— Talvez você devesse procurar um médico…
— Não se preocupe, eu só estou um pouco estressado. Mas vou ficar bem. O fator estressante pode ter acabado.
Aquilo não era mentira, mas também não era toda a verdade. As visitas de meu amigo me alegravam e muito, Kagami-kun é uma das pessoas mais importantes para mim, mas a natureza de suas visitas constantes naquela semana me deixou ansioso. Com isso, eu dormi mal e sonhei com coisas que me deixam ainda pior.
Assim que o computador ligou, percebi que um email acabara de chegar em minha caixa de mensagens do email da empresa. Eu tinha uma ideia do que poderia ser, então preferi verificar de uma vez. Era minha chefe pedindo que eu comparecesse a sala dela assim que pudesse. Olhei para Momoi, que percebera a natureza da mensagem e só pôde me encarar com um pouco de pena. Caminhei resignado em direção à sala dela.
Segurei a respiração antes de bater suavemente à porta. Não houve resposta, mas eu conseguia escutar sua voz do outro lado, então resolvi abrir. Ela estava concentrada falando ao telefone enquanto redigia algo em seu computador. A conversa parecia um tanto acalorada, então resolvi retornar mais tarde. Antes que eu saísse, ela notou minha presença e gesticulou para que eu sentasse na cadeira vazia em frente a sua mesa.
Minha chefe, Masako Araki, era uma das poucas mulheres em uma posição de gerência na empresa. Ela também era mais jovem que os outros, então isso a fazia assumir um papel de durona frente aos colegas. Ela ficou conhecida como a dama de ferro dentro da Editora e sempre conseguia impor bastante respeito entre os seus colegas que por muito tempo a trataram como alguém descartável. Felizmente, em nosso departamento sabíamos que grande parte de seu comportamento mais severo era fachada para que ninguém pensasse em tratá-la de maneira desrespeitosa. Ela era, na verdade, extremamente sensível e bastante compreensiva.
Quando a ligação terminou ela ainda parecia um pouco nervosa, mas logo relaxou os ombros e voltou sua atenção a mim.
— Bom dia, Kuroko-san. Queira me desculpar, eu precisava atender este telefonema. — Suas feições ainda estavam um poucos tensas, mas ela falava de maneira calma e controlada.
— Tudo bem, eu poderia voltar mais tarde. Não queria atrapalhar.
— Não atrapalhou. É que é um pouco exaustivo ter que explicar cada passo que eu dou para outros membros da diretoria que pensam saber mais do meu trabalho que eu. Foi até bom você chegar, me deu um motivo para desligar. — Riu-se.
Sorri suavemente ao compreender a situação. Infelizmente não era incomum ela receber aquele tipo de ligação, ouvindo questionamentos e reclamações sobre sua forma de gerenciar o departamento. Aquilo deixava todos seus funcionários extremamente irritados, mas não havia muito que pudéssemos fazer além de avaliá-la bem ao fim de cada ciclo.
— Bom, mas vamos ao que interessa. — Ela ficou ligeiramente mais séria, mas ainda tinha uma postura acolhedora — Você chegou atrasado novamente nesta semana, e seu desempenho caiu um pouco. Há algum fato que gostaria de relatar?
Engoli seco. Fiquei me perguntando porque não mandei um e-mail dizendo que estava doente e iria trabalhar em casa. Infelizmente já era tarde demais, e com a relação que tenho com ela eu não poderia simplesmente mentir.
— Eu sinto muito, não ando dormindo bem e acabo não conseguindo acordar. — Fiquei um pouco envergonhado de admitir isso à ela — Isso não é uma desculpa para meu comportamento, prometo mudar esse quadro imediatamente.
Como resposta, ela apenas fez uma careta de quem sabia que aquela não era toda a verdade, mas não insistiu. Deu os ombros como se aquilo não fosse de sua conta e continuou.
— Assim espero. Sabe, você é um ótimo editor, Kuroko-san. Sua média de livros lançados é superior a de muitos funcionários exemplares em outros departamentos, todos os seus trabalhos têm excelente qualidade, e não há um cliente que trabalhou com você que não tenha o elogiado ao máximo. — Devo admitir que fiquei um pouco sem graça com suas observações positivas — Porém, se você continuar com esses atrasos, eu terei que tomar alguma medida disciplinar. As pessoas comentam que eu sou permissiva demais com você, e eu devo tratar todos de maneira semelhante. Você entende?
— Sim, senhora. Entendo.
Ela me devolveu um sorriso compreensivo.
— Eu não sei o que está se passando na sua vida agora, Kuroko. Mas sei que tem algo te incomodando. Talvez eu não seja a pessoa com quem você queira conversar, mas se precisar pode falar comigo.
Aquele comentário súbito me pegou desprevenido. Mal consegui respirar antes que ela voltasse a falar voltando a uma postura profissional.
— Agora pode voltar, imagino que você ainda não tenha conseguido ligar para Hashimoto-sensei sobre o seu novo trabalho.
Sem esperar por alguma resposta de minha parte, ela se voltou para o computador e voltou a digitar freneticamente em seu laptop. Pedi licença para me retirar e voltei às pressas para minha mesa, mentalmente comemorando que não haveria punição, mas intrigado com sua fala.
— Você já voltou? — Momoi-san pode ter falado com uma entonação de questionamento, mas ela não parecia nem um pouco surpresa. Não era segredo que eu era um bom funcionário e que, com isso, ganhava algumas regalias.
— Não foi nada de mais, ela só me pediu para que eu não me atrasasse mais ou eu sofreria algum tipo de medida disciplinar.
— Oh… Tetsu-kun está com problemas no trabalho por causa da namorada que não o deixa dormir! — Um sorriso malicioso brotou em seus lábios excessivamente brilhantes de gloss. Não me dei ao trabalho de responder — Ah, chegou uma notificação no seu celular enquanto você estava fora. Provavelmente sua namorada…
E antes que ela pudesse completar seu comentário, o telefone em sua mesa começou a tocar e ela foi obrigada a atender. Ela me lançou um olhar de "essa conversa continuará mais tarde" e começou a falar com seu cliente de maneira calma e delicada. Seria maravilhoso se Momoi-san pudesse esquecer que estava me provocando com aquele assunto, mas ela raramente esquece algo. Tenho certeza que aquele assunto voltaria à tona novamente.
Me foquei em apenas ler a mensagem que me foi enviada e entendi porque minha amiga continuava a falar de um possível par romântico.
"Haru-chan — Thu, 09:25
Vou passar hoje na sua casa depois do trabalho. Creio que hoje não seremos incomodados. Estou com a chave, pode vir sem pressa."
Suspirei profundamente, sabendo que naquela noite não iria dormir cedo novamente.
…
— Você demorou.
Ao entrar em minha própria casa, é assim que sou recebido. Nem um "olá, quanto tempo" ou "como foi o seu dia". Fiquei momentaneamente irritado, mas logo vi Nigou abanando seu rabo, vindo em minha direção para me receber, e fiquei mais tranquilo. Simplesmente ignorei o tom do sujeito sentado no sofá que me encarava uma certa impaciência contida.
— Eu trabalho. — Dei os ombros.
— Até às 23h? Fala como se eu não conhecesse seus horários. — Ele parecia mais irritado que o normal. Estava sentindo que algo havia acontecido.
— Você mesmo me disse para vir sem pressa. — Evitava encará-lo enquanto fazia carinho na barriga do cachorro massivo. Estava mais preocupado na quantidade de pêlos que ele estava soltando do que aquela conversa sem sentido.
— Eu não diria isso se soubesse que você ia chegar tão tarde! Eu até fiz o jantar!
Olhei para a mesa e me surpreendi ao notar que ela não só estava posta, mas tinha comida. Agora não pude deixar de encarar o homem que estava de braços cruzados me fuzilando com os olhos.
— Sinto muito… Deveria ter avisado que ia demorar. — Tentei falar de maneira calma, não querendo o irritar ainda mais, resolvendo me explicar — Hoje eu tive que encontrar uma autora que quer lançar um novo livro, e tivemos que esperar a ilustradora aparecer na reunião. Infelizmente ela demorou quase duas horas para chegar e ainda tivemos uma reunião demorada porque elas não conseguiam concordar sobre o projeto. Ainda tive que voltar para o escritório e fazer um relatório.
Com isso, ele relaxou um pouco os ombros, parecendo mais tranquilo. Porém ele ainda manteve a expressão irritada por um tempo — pude jurar por um segundo que estava até fazendo beiço como uma criança mimada. Levantou-se do sofá e veio em minha direção, curvando-se um pouco para me ajudar a tirar meu casaco.
— Hm. Vou esquentar a comida. — Pendurou meu casaco no cabideiro, pegou as formas que estavam na mesa e se dirigiu a cozinha. Resolvi acompanhá-lo.
Fiquei observando enquanto ele esquentava as coisas no velho microondas da minha casa — que já deveria ter sido trocado há eras atrás e que milagrosamente ainda não tinha pegado fogo — sem dizer uma palavra. Isso não pareceu incomodá-lo de forma alguma. Creio que ele estava acostumado com o meu jeito mais quieto. Fico um pouco triste com esse fato, já que uma das minhas partes preferidas de nossa relação é o ato de irritá-lo.
— Não vai perguntar porque eu fiz o jantar?
Evitei sorrir naquele momento. Ele parecia estranhamente envergonhado.
— Não tinha se passado pela minha cabeça a pergunta. Mas se quiser compartilhar…
— Seu encosto finalmente foi embora e eu posso voltar a frequentar sua casa. É um ótimo motivo para se comemorar, não? — Então era por isso que ele estava tão irritado: porque Kagami-kun vinha para cá todos os dias.
— Não sei se é motivo suficiente para uma comemoração… Ainda mais porque você odeia cozinhar. — Disse pensativo — Acho que tem mais.
Ele ficou calado por alguns instantes e suas orelhas começaram a ficar vermelhas. Como estava virado de costas para mim, eu não conseguia ver sua expressão, apesar de imaginar qual seria.
— Kise terminou o relacionamento com aquela modelo, seja lá qual for o nome dela, e ligou pra mim. Disse que queria me ver.
Ah, Kise. Eu já deveria ter imaginado que esse era o assunto.
— Sério? Quando isso aconteceu?
— Ontem de noite. Eu queria ter te contado na hora, mas imaginei que você estaria ocupado com o encosto. — Ultimamente essa é a forma na qual ele se refere a Kagami-kun. Ainda não sei muito o que pensar a respeito desse apelido carinhoso. Às vezes isso me irrita um pouco, outras vezes eu não posso deixar de concordar.
Naquele dia eu estava exausto, então só não dei atenção.
— O seu nome está diferente no meu celular, você poderia me mandar mensagem.
— Ah… É verdade. Tinha me esquecido. — Respondeu de maneira indiferente enquanto retirava as travessas fumegantes do microondas e as levava para mesa.
— Então parece que as coisas podem mudar para você e ele. Fico feliz. — Sorri genuinamente, mas ainda sentindo uma pontada de inveja.
— Ainda não tenho certeza se as coisas vão mudar. É do Kise que estamos falando. — Notei que seus ombros caíram, numa expressão de derrota, mas logo se recuperou e fingiu estar bem — De qualquer forma, vim para ficar com você hoje, e não para falar sobre ele.
Fiquei confuso com a mudança repentina de assunto e deixei transparecer.
— Ah… É que durante uma semana inteira você ficou com aquele cara em casa… Imagino que não tenha sido uma boa experiência e que você estivesse precisando de companhia, sei lá.
Finalmente me caiu a ficha de que o jantar hoje era uma forma de me consolar. Ele deve ter imaginado que eu estivesse mal esses dias todos com as visitas de meu amigo brigado com sua esposa. Ele deve até ter imagino que Kagami-kun estivesse apenas falando sobre ela e consequentemente me magoando no processo.
E isso não podia estar mais longe da realidade. Parecia que ele se recusava a falar sobre ela, e eu estava bem com isso. Na verdade, são esses momentos que mais gosto de estar com ele: quando ele não se refere à sua esposa e volta sua total atenção para mim.
Eu só nunca admitiria isso em voz alta.
— Obrigada por se preocupar, Aomine-kun. — Sorri sem realmente olhar para ele — Mas sabe o que realmente seria um melhor consolo do que um jantar?
Eu o vi estremecer e se voltar para mim com um olhar cheio de expectativas. Deixei a resposta no ar enquanto caminhava para meu quarto, sabendo que ele viria logo atrás.
— Você não quer jantar?
— Podemos pensar nisso depois.
Mesmo sabendo que talvez as coisas entre ele e Kise pudessem dar certo, eu ainda quis aproveitá-lo um pouco. Aquilo me deixaria um pouco inquieto e culpado na manhã seguinte, mas naquele momento eu não ligava muito. Só de pensar que no presente momento, Mayu estava provavelmente abraçada com alguém que deveria ser meu me fazia sentir em chamas.
E eu realmente precisava apagá-las de alguma forma.
Ao ver Aomine-kun passar pela minha porta e fechá-la tentando deixar Nigou do lado de fora, meus pensamentos foram parar em Momoi-san naquela manhã. Ela insinuara que eu tinha alguém na minha vida, uma parceira romântica… Talvez fosse difícil de explicar para ela que eu não tinha uma parceira, mas um parceiro. Talvez fosse mais difícil explicar que era um conhecido dela. Ou talvez fosse mais difícil ainda explicar o tipo de relação que temos.
No caso, nem eu sei explicar direito.
Apenas aceitei quando ele tirou a camisa e me empurrou para a cama.
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