Notas iniciais
Esse é o penúltimo conto sobre os Marotos e o próximo e infelizmente o último deve sair antes de Agosto. DEIXEM COMENTÁRIOS PELO AMOR DE MERLIM, NÃO MACHUCA E ME DEIXA INSPIRADA! Eu mudei um pouco o estilo da escrita nesse conto e resolvi usar um mínimo de diálogos para focar mais nos pensamentos de nosso amado Remus e nas ações dele, espero que vocês gostem desse modo novo. Recomendo que leiam antes The Golden Boy e The Lost Boy, mas é só uma sugestão. Até lá embaixo.

Remus Lupin abriu os olhos. O cheiro de sangue lhe despertou ainda mais velozmente do que a dor e os gritos que soavam distantes, mas quem gritava daquela forma? Sua visão entrava e saía de foco, mas não mostrava nada além do que folhas verdes das árvores e estava cansado demais para se mover, quase beirava a exaustão total, contudo, os berros cheios da mais pura angústia persistiam e não iriam parar, vozes se confundiam na audição debilitada do pobre garoto.

Que mal tinha feito ele para merecer tal sina terrível?

Os sentidos, afastados pela dor da transformação, retornavam, e a pessoa que esperneava e gritava com tanta força pode ser finalmente reconhecida por Remus. Era James. O cheiro de sangue também vinha do amigo e tal constatação espantou a própria dor que ainda era muito real. O que eu fiz? Se perguntava amedrontada enquanto se aproximava do corpo do Potter aos tropeços débeis e fragilizados. Não se lembrava, porém, a agonia de quem havia lhe acolhido era praticamente tangível.

Viu com horror as mãos de Sirius serem embebidas no sangue que escorria sem parar dos rasgos absurdos no peito do rapaz que arfava e tremia. Assistiu com ódio de si mesmo ele implorar para que a sensação terrível dos ferimentos sumisse. Se viu gritando para que Peter buscasse as poções que guardavam na Casa Gritos e caiu de joelhos impotente, vendo o Black murmurar em desespero para que Prongs ficasse acordado e quebrou em soluços desesperados quando o mesmo respondeu com a voz por um fio:

— É difícil ficar acordado. – Como poderia ser algo tão bestial? James respirava e lutava ao mesmo tempo enquanto Sirius murmurava alguns feitiços que achava que podiam ajudar a situação. O sangue ainda escorria e sujava as vestes do Black. Remus se perguntou por qual motivo eles ainda continuavam consigo. Por que persistiam em um monstro irracional enquanto poderiam estar nos dormitórios dormindo? Mas ao mesmo tempo uma sensação distorcida em sua mente; queria que as pessoas entendessem apenas um pouco da sina da licantorpia, e esse pouco que podia ensina-las era a dor.

Egoísta. Esse é Remus Lupin, um maldito egoísta que por mais que sinta desespero ao ver o melhor amigo sangrar ainda consegue sentir orgulho por estar pregando o terror e a agonia que sentia em todas as luas cheias. Era sujo, tão sujo que lhe despertava nojo e talvez estivesse ficando tão hipócrita quanto o Black ou tão dissimulado quando Wormtail. Já não se importava mais, havia muito pouco com que se preocupar agora.

As dúvidas ainda corriam por sua mente; conseguiriam o perdoar? Então percebeu que não sentia culpa, ainda estava amedrontado e Potter ainda gritava, entretanto, como se sentir culpado por algo que não conseguia recordar? A noite anterior era apenas um vazio esbranquiçado e a memória de ter ferido James jamais existiria, apenas o nada e a imaginação deturpada preencheriam o buraco de angústia aberto pela piedade auto imposta.

Se remoía de medo ao cogitar que, em um ataque de fúria ou ressentimento, os que considerava irmãos espalhassem que era um lobisomem. Tremia com o pensamento do ódio que iriam lhe dirigir, então se questionava, como poderiam odiar tanto um garoto que não tinha culpa de seus atos e que fora amaldiçoado na terna infância? Como poderiam sentir tamanho ódio e desprezo por um humano como eles?

Doce Remus. Ingênuo Remus. Ele não era humano, era um lobo faminto em pele de um rapaz magro e abatido. Dócil menino. Cruel menino.

No fundo queria que todos sumissem, o deixassem sozinho em sua bolha de apatia profunda e egoísmo crescente. Não se importava com a guerra lá fora, não dava a mínima, ao contrário dos amigos que queriam – desejavam quase em obsessão – tomar parte naquele combate mesquinho, todavia, pessoas morriam e o doce Lupin tinha de atender as expectativas e achar aquilo um absurdo e tomar parte nas batalhas. Era aquilo que esperavam do bom e gentil Remus John Lupin, enquanto na verdade ele apenas queria estar a salvo.

Ele era um monstro. O verdadeiro monstro que se escondia embaixo da cama e assombrava crianças, porém Moony não procurava abrigo na noite, ele a evitava, corria para uma máscara adoravelmente talhada. Quem iria pensar tal disparate do doce e prestativo rapaz? Quem seria tão cruel a ponto de espalhar boatos tão terríveis? Ninguém, porque Remus era a imagem da santidade, de alguém reservado e puro. Ou talvez houvesse alguém disposto a acabar com a fachada de bom moço.

Besta. Uma besta que uiva na noite e ri de dia. Um lobo com sede de sangue quando lua sobe e um garoto estudioso e reservado quando o sol brilha. Não é preciso dizer para qualquer pessoa das artimanhas e dos jogos que ele faz para se manter acima das suspeitas. Cinco já sabem sobre seu segredo, quanto tempo iria demorar para que todos apontassem o dedo e gritassem em uníssono a palavra criatura? Não tinha ideia, mas preferia adiar e afastar ao máximo aquele momento trágico.

Ele sabia muito bem que nenhum enigma permanece sem resposta por muito tempo e que segredos, em algum momento, são contados por línguas que carecem de piedade.

É isso que Lupin é, um ser que merece misericórdia. Nenhum vestígio de arrependimento aparece em sua mente enquanto os gritos de seu amigo ecoam, nem escrúpulos surgem quando mente para manter a sua santidade que alimenta com palavras falsas e revoltantes. Pobre garoto, mas de todos os seus amigos – até mesmo dos mais distantes – ele era o que sabia melhor como jogar o jogo da vida e, se quisesse sobreviver, tinha de esquecer qualquer moral e ética para se colocar em um pedestal de segurança que parecia prestes a ruir à medida que a guerra batia na porta e exigia que os bons lutassem em suas linhas de frente.

O doce menino não queria usar maldições imperdoáveis, apenas desejava estar a salvo e não mediria esforços para isso. Não sabia o preço, não sabia quantas pessoas teriam de ir, todavia, pagaria – não importava quão alto fosse o valor – sem hesitar. Bruxos e bruxas vão e vêm todos os dias, então que diferença faria se mais alguns fossem em prol de sua liberdade da luta? As linhas de frente deveriam ser um show luzes horrendas e mortais, por isso, no ápice de seu egoísmo e covardia, Remus queria escolher correr do epicentro do caos.

No entanto, imploraria pela vida dos amigos, pediria de joelhos e em lágrimas se necessário. Era isso, um ser miserável reduzido a covardia e medo, que seria capaz de implorar a seu pior inimigo por piedade. Um resquício de ser humano racional, mas nem os restos de um bruxo ele poderia ser. Uma besta, não passava de uma maldita besta em busca de sangue e de ser saciado, os que fossem prejudicados estavam na sua frente.

James, em algum ponto de seus devaneios, havia parado de gritar, apenas tremia e chorava em silêncio, o que surpreendeu o menino-lobo, que nunca – nem mesmo nos dias que recebia as piores fraturas nos jogos de quadribol – havia o visto derramar lágrimas de dor física. Aquilo lhe fez ver e ouvir o que não existia; suas mãos viraram patas em frente aos olhos âmbar desesperados, as unhas agora eram garras e a racionalidade não passava de um sonho distante e utópico.

Preferia os gritos, preferia que Potter ainda berrasse por causa da agonia que sentia, mas não. Agora era apenas a falta de sons que anunciava o pior. E nem sabia quanto tempo havia se passado, fazia muito que Peter havia ido em busca de algo para amenizar a situação crítica? Não tinha ideia, apenas queria que tudo fosse apenas mais um de seus pesadelos que arrancavam ainda mais suas já escassas horas de sono. Infelizmente, era real; o sangue tinha textura, cheiro e cor, Prongs ainda angustiava e lutava em silêncio, Sirius ainda estava imundo e aterrorizado.

Estava exausto e apenas queria desmaiar ali sem se importar, mas o Black – maldito Black com suas tendências a se preocupar milhares de vezes a mais que o necessário – entraria em pânico real e terminaria não fazendo nada de útil, por isso, se agarrou firmemente a esses pensamentos da mesma forma que o amigo ainda se atava a vida rarefeita e quase frágil que lhe restava.

Quem causaria a morte do irmão? Da pessoa que se importava muito com seu bem-estar e nem ao menos conseguia sentir culpa por isso?

Era uma criatura desprezível que temia até a própria sombra quando não estava perdido na insanidade causada pela Lua. Até que ponto chegaria? Seria ainda pior do que as mentiras que contava? Conseguiria superar o medo e a covardia para ser ainda mais dissimulado? As respostas deveriam estar suficientemente próximas, mas nunca o suficiente para serem tocadas pelas mãos imundas e corruptas do Lupin. O toque negro e corrosivo do rapaz poderia infestar com as palavras delicadas e mentirosas.

Seria uma pessoa que merecia uma punição? Ou era apenas uma criança assustada tentando segurar um fardo pesado? E sua cruz poderia explicar suas atitudes? Poderia dar um álibi para todas as vezes que não impediu Sirius e James de irem irritar Snape? Poderia suavizar seus desejos de largar tudo e todos para simplesmente sumir no dia em que tivesse de empunhar uma varinha para tirar vidas? Importava mesmo conseguir desculpas e respostas? Mais um questionamento que evitava.

Estava na borda da insanidade e a sanidade, espreitando o fim dos dois lados. Esperando pacientemente que o seu final não fosse tão trágico quanto a sua vida fora. Nunca havia desejado se tornar um escravo das falas bem estruturadas para mostrarem apenas o que queria, mas no fim, se tornara e não queria mudar aquilo, na verdade, estava confortável escondendo sua verdadeira face odiosa das pessoas para que estas jamais o incriminassem por crimes que não podia se lembrar. Garoto esperto. Garoto estúpido.

Em algum momento, Pettigrew havia chegado. Em algum momento, James havia ficado estático. Em algum momento, Sirius havia suspirado ao notar que as poções faziam e não faziam efeito, mas Lupin não se lembrava desses momentos, era tudo um vazio imenso causado pela apatia e pelo medo quase tocável. Seria um assassino a partir de agora? O que seria de Remus John Lupin se a pessoa que havia lhe acolhido com sorrisos largos morresse por garras que juravam que eram suas, porém ao mesmo tempo não eram.

Estendeu a mão para a escuridão e nem ao menos se importou em não ter feito nada para amenizar o sofrimento de James, no fundo, apenas uma sensação de orgulho queimava dentro de si; as pessoas jamais poderiam entender a licantorpia, entretanto, um único seria forçado a compreender um de seus sintomas: a dor e seria de modo tão forçado quanto a maldição imposta dos lobisomens.

É sobre Remus John Lupin que estamos falando, ele é uma besta em pele de menino.

Notas finais
Olá pessoas queridas de meu coração! Espero que tenham gostado de minhas divagações sobre nosso Moony. O conto sobre o amado - nota-se a ironia - Peter Pettigrew deve sair antes desse mês acabar. DEIXEM COMENTÁRIOS PELO AMOR DE MERLIM, NÃO MACHUCA E ME DEIXA INSPIRADA! Abraços, Doomsday Noble.
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!