Hazel & Sammy
2 Capítulo 1
Notas iniciais
Hazel acordou ainda mais cansada do que quando fora dormir.
No dia anterior, havia chegado em casa à meia noite. Não que fizesse a menor diferença, pois Queen Marie mal olhara para sua cara. A menina se sentia tão exausta que adormecera instantaneamente.
Mas valera a pena. Ela e Sammy haviam ficado horas conversando sobre as coisas esquisitas que aconteciam com eles, e sobre a coincidência de ambos não conhecerem seus pais.
Mas hoje, segunda-feira, Hazel não sentia a menor vontade de se levantar. Estudava na Academia St. Agnes para Crianças de Cor e Indígenas; e, desde que coisas estranhas começaram a acontecer para os clientes de Queen Marie, Hazel não conseguia atravessar o pátio sem ouvir insultos sobre ela e sua mãe. As pessoas as chamavam de bruxas, feiticeiras, filhas de satã e muitos outros nomes horríveis.
A única coisa que fazia Hazel levantar-se todas as manhãs era o pensamento de que não teria que aguentar tudo aquilo sozinha. Desde que Sammy começara a defendê-la, a vida da menina se tornara um pouco mais colorida, mas as manchas preto-e-branco ainda não haviam sumido por completo.
Hazel levantou-se e arriscou uma olhada no quarto da mãe, pela fresta da porta: Queen Marie ainda dormia profundamente. Hazel suspirou. Teria que aprontar seu café de novo.
Meia hora depois, quando o relógio marcava sete e meia, a menina desceu para o clube de Jazz, onde esperava Sammy todas as manhãs. Ele não demorou a chegar, e os dois se encaminharam para o St. Agnes.
-Sabe, mesmo depois de cinco anos, ainda me revolto com isso — Comentou Sammy inesperadamente.
-Se revolta com o quê? –Hazel questionou, mas já sabia a resposta.
-Com essa escola! –esbravejou ele- Isso é um absurdo! Como o governo pode dividir as crianças entre “De Cor e Indígenas” e “Brancos”? Até parece que as pessoas são melhores ou piores por causa de sua cor de pele ou de sua nacionalidade!
Hazel mordeu o lábio, nervosa. É claro que ela concordava com Sammy, mas era perigoso demais sair reclamando dessas coisas por aí, como se comentasse o tempo. Hazel sempre via no jornal casos de pessoas presas por questionar o governo.
-Sammy... –ela o advertiu, olhando preocupada para os lados.
O menino suspirou, contrariado.
-Tudo bem, você tem razão, Haze. –ele admitiu-vamos lá, já estamos atrasados.
***
Na aula de Educação Física, a Professora Miriam avisou que eles iriam jogar queimado. Ela dividiu os times entre Crianças de Cor e Crianças Indígenas, o que fez Sammy cerrar os punhos. Como ele tinha ascendência mexicana, ele se considerava de cor e indígena, então se via no direito de escolher seu time. Como sempre, escolheu o time de Crianças de Cor, para jogar com Hazel.
Meia hora depois, o time das Crianças Indígenas ganhara. Timmy, um dos garotos que implicava com Hazel e que estava no time vencedor, se vangloriou:
-Bem feito seus negros imundos!
Aquele comportamento era considerado completamente normal pelos professores, portanto a Sra. Miriam não se manifestou. Aquilo só deixou Sammy mais bravo ainda.
-Agora chega! –ele esbravejou- Timmy, preste atenção!
O menino pegou uma bola de queimado azul e jogou outra vermelha para Hazel.
-Você vê alguma diferença entre essas duas bolas?-Sammy questionou o garoto
-É óbvio –Timmy resmungou –Elas são de cores diferentes.
-Obviamente –continuou Sammy- então me diga: com qual dessas você preferiria jogar?
-Tanto faz- Timmy respondeu, revirando os olhos -elas são completamente iguais, só muda a cor!
-Essa — Sammy disse, sorrindo — foi provavelmente a coisa mais inteligente que você já disse a sua vida inteira.
A quadra inteira ficou em silêncio, enquanto, aos poucos, as crianças começavam a entender o que Sammy estava querendo dizer.
-Valdez- A Sra. Miriam disse com a voz estranhamente calma – Me acompanhe, por favor.
***
Hazel ouvira boatos de todos os tipos sobre Sammy. Alunos mais velhos juraram que o viram na diretoria, e outros disseram também que ouviram um carro de polícia.
Mais dia, menos dia, Hazel sabia que o garoto ainda acabaria encrencado por causa de sua mania de falar tudo que vinha à sua cabeça. Ele criticava tudo, desde o governo até o próprio governador, mas Hazel nunca pensara que ele pudesse ser preso. Afinal, ele só tinha doze anos, e, que ela soubesse, nenhum garoto menor de idade podia ir para a cadeia.
Mas, por mais que Hazel não quisesse pensar nisso sabia que tinha um lugar para o qual delinquentes menores de idade iam: O reformatório.
Muitos anos atrás, Queen Marie havia se ausentado por mais dias do que o normal, quando Hazel tinha apenas sete anos. Ela não gostava de lembrar daquela sensação. Passara fome, sentira medo, e, o pior de tudo, pensara que a mãe nunca mais voltaria.
Numa das piores noites, Hazel não conseguira dormir de tanta fome. Quando sentiu que não aguentaria mais, descera para o Clube de Jazz e, sorrateiramente, filara um pãozinho.
Infelizmente, a viram, e não demorou para que a polícia chegasse e a levasse para o reformatório.
Na época, não tivera coragem de dizer que sua mãe estava desaparecida, pois ficara receosa de que a mandariam para um orfanato. Apenas três noites depois, Queen Marie aparecera e pagara a fiança de Hazel, tirando-a daquele horrível lugar.
Mas Hazel lembrava-se que a mãe ficara muito brava com ela, pois a fiança era realmente cara. Queen Marie só pudera pagá-la por causa do dinheiro que havia acabado de ganhar ao se ausentar. Ou seja, quando sua mãe voltou, provavelmente Hazel passou mais fome do que quando ela estava fora.
Por isso, a menina sabia muito bem que a mãe de Sammy não teria a menor condição de pagar uma fiança, caso precisasse fazê-lo.
Quando sua aula acabou, Hazel passou na casa dos Valdez em busca de notícias de Sammy. Mas, ao chegar lá, constatou que nenhum dos dois estava presente, o que só fez a menina se preocupar ainda mais.
Hazel passou o resto da noite no clube de Jazz. Ela sabia, que, assim que Sammy voltasse de onde quer que ele estivesse, iria correndo para lá, falar com ela.
Quando o relógio de ponteiro marcou onze e vinte e sete, Hazel ouviu um barulho na porta e levantou a cabeça. Sammy estava parado na sua frente, e ela nunca o vira mais feliz.
-Você não vai acreditar no que aconteceu! –Ele disse, com os olhos brilhando.
-Onde você estava?! –Ela gritou, correndo para abraçá-lo-O que aconteceu?! Está tudo bem?!
-Ei, Haze, você vai me sufocar assim! –Sammy protestou, rindo- É sério, eu estou bem
-O que aconteceu?! –Hazel repetiu, soltando ele
-Bem, a Sra. Miriam me levou para o diretor, você sabe, por causa do que eu fiz na aula de Educação Física –Ele disse, como se aquilo fosse banal- daí, eles disseram que eu havia questionado o governo, e que se eu fosse maior de idade com certeza já estaria na cadeia.
-Mas você não é, então... –questionou Hazel
-Então... Então eles me levaram para o reformatório. –Sammy contou
-O QUÊ?! –Hazel exclamou, arregalando os olhos – E você ainda diz que está tudo bem?
-E está –Samy sorriu — Porque a minha mãe conseguiu pagar a fiança!
-E-ela conseguiu?-Perguntou Hazel – Mas a fiança é muito cara! Eu e a minha mãe ficamos semanas sem comer direito só para pagá-la!
-Sim, eu sei! –Sammy agora estava sorrindo de ponta a ponta — Mas você não vai acreditar! A minha mãe achou ontem, no meu quarto, um diamante perfeito! Nós estamos ricos!
Hazel arregalou os olhos
-Um... Um diamante? No seu quarto? Ontem? –Ela questionou, a cada pergunta ficando mais nervosa.
-Sim, sim e sim. O que houve Haze? Algum problema? –Sammy perguntou, franzindo a testa.
-Ai meu deus! Vamos Sammy, rápido! –Hazel gritou, puxando o menino em direção à porta
Em alguns minutos os dois estavam de volta à casa dos Valdez.
-Ah, já entendi. Você quer ver o diamante, é isso? –Sammy perguntou, sorrindo-Vem, vamos falar com a minha mãe.
Hazel não conseguiu responder de tão nervosa que estava. Um pressentimento horrível começava a crescer dentro dela, mas deixou Sammy arrastá-la para a oficina de sua mãe.
-Ei mãe! –Ele chamou-A Haze pode ver o diamante?
Não houve nenhuma resposta.
-Mãe? –Sammy chamou, abrindo devagarzinho a porta –Mãe!
O menino escancarou a porta e ele e Hazel entraram, apressados.
Constancia Valdez estava desmaiada no chão, e, aos seus pés, jazia um diamante perfeito.
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