Haven Hill
1 One Shot
Notas iniciais
O jovem na capa é o Spencer, apenas pra questão de dúvidas.
Ao decorrer da história, haverão indicações de músicas que servem de trilha sonora, então recomendo ouvi-las porque se encaixam muito bem, e há uma parte onde deixarei um link nas N.F por se tratar de uma dança.
Músicas temas:
“Here” ??“ Alessia Cara ft. Troye Sivan
“Boys Gonna Be Boys” ??“ Benny;
“Shape Of You” ??“ Ed Sheran;
"Heaven" ??“ Troye Sivan;
“Gallows” ??“ Katie Garfield
*Recomendo ouvir enquanto leem a parte, porque fica perfeito.
Monótona, calma e pacífica, Haven Hill era o modelo dos modelos de cidade pequena, estranhamente batizada de tal forma pelos antigos descobridores da terra sem ninguém. Não havia muito para a juventude fazer além de festas e diversões criadas por eles, o que acontecia mal uma vez por semana.
Sendo meio da semana, estavam longe da moleza, faltando muito para o final de semana ainda. A noite podia reinar, mas não significava que dormiam, muito pelo contrário, era difícil dormir em certas noites naquela cidade, quase como uma maldição que afetava apenas algumas pessoas, as quais ficariam acordadas até tarde, a madrugada do dia seguinte. A maldição, para os adultos, tinha um nome que fazia os adolescentes vibrarem: festa.
Bem, aquilo era história, pois a Haven Hill em que estava no momento era música alta, bebida alcoólica para menores, beijos e toques ousados e, com a lábia boa – porque ninguém ali dependia de sorte –, muito mais aconteceria entre as quatro paredes mais próximas que achassem. O barulho não era nada para os vizinhos, convidados para festejarem também, de tal modo às reclamações eram reduzidas.
Tão alta que a música estava, si e os outros podiam ouvi-la do jardim, onde pessoas também se encontravam, sendo mais utilizado para conversarem, passarem um tempo e jogarem ping-pong, o qual Lawrence, o amigo ruivo de dezessete anos, alta estatura, pele branca e olhos castanhos escuros, vencera um garoto por estar sóbrio e o oponente não.
Como eles, como cansara de dançar do lado de dentro, resolvera sentar no banco do lado de fora, o qual era encostado em um muro coberto por plantas. Estando sentado, inclinando um pouco para frente, Iago – seu amigo com dezessete anos, alto, branco, cabelo castanho baixo e olhos castanhos escuros – estava a seu lado, mais desleixado, quase que deitado. Na ponta à sua esquerda, Lawrence havia posto os pés no banco, sentando no topo do mesmo.
Olhando o celular, havia uma mensagem no mesmo, e a leu:
“Como não é seu se estava no seu computador?”
Como não estava a fim daquela conversa já que saíra de casa, não para receber lições, mas para se divertir, viu que estavam há apenas duas horas na festa, coisa que a bebida em sua mão o fazia ter uma impressão diferente, ou fizera.
— Ei – olhando para o lado, vendo que a garrafa do garoto de dezessete anos, alto, pele branca, cabelo loiro e olhos castanhos escuros, estava ainda com o bastante, chamou-o –, encha pra mim.
— Por que eu deveria, nem somos amigos. – ele argumentou.
— Tecnicamente somos, você é amigo do meu amigo.
— Não, você é amigo do meu amigo. – aquilo era algo de ponto de vista. – Qual é meu nome então?
— Oliver. – respondeu.
— É Ollie. – ele retrucou.
— Então, Ollie é abreviação. – contestou.
— Não, Ollie é nome. Ollie U...
— Ei. – Lawrence foi interrompido pelo amigo, e imaginou que ele não gostava do sobrenome.
— Vai me dar ou não? – perguntou querendo apenas mais da sua vodca. Ele pegou a garrafa, e estendeu o copo para o mesmo, tendo-o reabastecido. – Obrigado. – agradeceu já levando o líquido à boca. As chances de ficar bêbado eram poucas, os amigos o impediriam, principalmente Lawrence, responsável por ficar sóbrio para dirigir.
Não eram um grupo – literalmente, eram um trio – tão peculiar assim. Podiam ter suas diferenças em aparência, era um adolescente de dezessete anos, mediano, branco, cabelo loiro caindo em uma franja grande e olhos azuis, ainda assim tinham tanto em comum quanto aparentavam.
— O Iago tá vivo aí? – Ollie perguntou, e diria que preocupado.
— Iago? – esbarrando o ombro nele, o mesmo o encarou. – O que tanto encara?
— Mari. – ele contou, e tentou achá-la, mas não conseguia. – Acho que já está na hora de voltarmos a dançar, se é que me entendem.
Entendiam, e muito bem, e por isso se dispersaram após o último copo, afinal, por mais que a bebida desse coragem, não precisavam tanto assim dela, tinham tudo do que precisavam. Ollie entrara, dissera que tentaria se divertir do lado de dentro, Iago correra atrás da paixão dele enquanto Lawrence ficara, apenas observando – e não duvidava que ele estava à caça –, e si, enquanto andava, fora achado mais do que achara.
A garota de dezesseis anos, média estatura, pele branca, cabelo loiro e olhos verdes, o achara e decidira ficar e curtir um pouco com ela, tendo ido dançar. Podiam conversar enquanto o faziam, e foi o que fizeram antes de se distrair um pouco enquanto ela falava. Seus olhos vagavam, indo parar no outro lado do lugar, em um garoto que parecia entediado com o copo de bebida.
Ele parecia um ano mais velho que si, mais alto, a pele branca, o cabelo castanho baixo dos lados e atrás, com o topo penteado para o lado, um pircing na orelha e olhos, se via direito, castanhos claros.
Evan, vulgo sexy, bonito e quente.
A música era mais alta ali dentro, mas não o suficiente para ser incômoda em si. Estava em um quarto qualquer, aparentemente de um adolescente, um garoto dada a não organização do espaço, apesar de, graças a Deus, não haver roupa espalhada pelo chão, ainda que a manga de um casaco dedurasse que embaixo da cama havia algo escondido. O motivo da cama estar bagunçada era difícil de dizer, afinal alguém pode ter usado o ambiente antes, ou então o dono era apenas desleixado.
— Eu não deveria estar aqui. – comentou ouvindo o fechar da porta do quarto, como a música diminuir.
— Não deveria – com os passos se aproximando, se virou – ou não quer? – perigosamente próximo de Evan, não sabia se responder a verdade seria pior do que ficar calado.
— Sabe o que é, estou com meus amigos e tem uma garota comigo lá fora. – não era uma mentira, era uma desculpa. Estava, de fato, acompanhado de certo modo, então não podia ficar e dar atenção a ele ou os desejos que seu corpo não conseguia esconder.
— Seus amigos são espertos, vão saber que sumiu por um motivo, e sua... Companhia, bem – a mão dele foi para seu peito, deslizando perigosamente –, não acho que ela o deixe assim. – ele sorriu quando si juntou os lábios, colocando-os para dentro a fim de evitar qualquer tipo de reação vocal. Com a mão do mesmo subindo novamente, ela parou em seu pescoço, e ajeitando os lábios, imagi... Sabendo o que viria, viu o mesmo se aproximar para um beijo.
Here
Sendo despertado do sonho que parecera entrar pelo toque de lábios nos seus, a música voltou com tudo, e reparou que ainda estava naquele quintal, na festa, sendo beijado por Alessia. Ficara tão no automático, tão aéreo, que em algum momento começara a beijá-la ou ser beijado por ela.
Querendo parar sem soar rude, queria, sim, manter as aparências, mas não queria ser tão egoísta a ponto de iludi-la. O vibrar do celular no bolso fora uma bênção, um verdadeiro presente dos céus, pois pôde afastá-la, ainda que vendo uma cara de insatisfação nela. Pedindo para a mesma esperar um segundo, viu a mensagem:
“A pornografia era sua!!!!!”
Terminando de ler, sua vontade de estar ali diminuiu consideravelmente, imaginando que agora a prima devia estar feliz por ter conseguido o que queria.
— Vou pegar um ar. – mentindo, deixou-a para trás.
A festa acabara para si.
× Haven Hill ×
O dia seguinte.
A festa do dia anterior fora o principal motivo de alguns que foram convidados não aparecerem no colégio pela manhã, contudo, como não tinha o hábito de faltar, e como a dor de cabeça era pela música alta, não por ressaca, fora do mesmo jeito para o colégio. Como Iago não podia ficar faltando, ele também aparecera, ainda que dormindo em um tempo inteiro de aula, e Lawrence nem ao menos podia sonhar com a opção de ficar em casa, a mãe não o deixaria, e como não viu Ollie, diria que, em geral, seus amigos estiveram lá.
Não sabia de quem fora a ideia de comemorar o aniversário no dia, e não depois, pois com certeza a festa pegara a muitos. Não reclamava, fora maravilhosa, era o que precisava para relaxar, contudo, seu cansaço no dia era por culpa do louco – realmente não fazia ideia de quem era a festa, fora chamado pelo festeiro do Lawrence – que fizera a festa. Graças aquilo, decidira ir ao Lito – a melhor lanchonete da cidade –, encontrando com os outros para se animar.
Comendo seu hambúrguer nada saudável enquanto ouvia os outros, notou pelo canto dos olhos alguém sentar ao lado de Lawrence, do outro lado da mesa. Levantando o olhar, viu se tratar de Ollie, quem fez um breve aceno com a mão. Iago o cumprimentou verbalmente, enquanto si apenas fez um gesto com a cabeça por ainda estar mastigando.
— Hm. – chamando atenção para si com o som, bebeu um pouco do refrigerante, ajudando o hambúrguer a descer. – O que, anda com a gente agora?
— Algum problema? – Ollie perguntou.
— Não, mas o novato paga uma rodada de refrigerante. – explicou, e viu Lawrence sorrir.
— Já volto. – o garoto se levantou, indo até o balcão.
— Ei, ele estava…
— Shhh. – pedindo, calando Iago, não perderia a chance de mais uma lata. Não demorando, Ollie voltou equilibrando os copos na mão, deixando-os sobre a mesa.
— Bem-vindo ao clube. – Lawrence levantou o copo, e com todos o imitando, beberam.
O barulho do sino na porta ecoou pelo lugar não tão movimentado, e enquanto comia, notou que Iago levantou a cabeça, vendo de quem se tratava.
— O estranho do Tommas. – Iago falou, e Lawrence e Ollie se viraram para vê-lo, enquanto si apenas ergueu um pouco o pescoço.
O garoto de dezessete anos, alto, pele morena, cabelo preto arrepiado e olhos castanhos escuros, usava uma calça cumprida, tênis, jaqueta e um casaco amarrado na cintura, ainda que fizesse Sol do lado de fora, forte o suficiente para o jeito dele de se vestir estar todo desnecessário, e ser aquele o jeito normal dele o tornava o estranho do colégio.
Ele se encaminhou para o balcão.
— Qual o problema dele, tirando o péssimo senso de moda? – Lawrence perguntou, e riram.
— Talvez não tenha um espelho em casa. – Ollie brincou, e até si não aguentou conter a risada e riram baixo, o mais discreto que podiam. – Aposto dez que ele nunca pegou garota nenhuma na vida. – ele comentou.
— Boatos dizem que ele é gay. – Iago comentou, e enquanto encarava o garoto que sentara para esperar o pedido, se perguntou se seria verdade.
Olhando o jeito dele, diria que era realmente estranho, mas não o julgaria como gay apenas por aquilo. O pessoal de seu colégio, em geral, parecia um pouco retardado, então consideravam tudo um pouco diferente como sendo algo anormal, e, no caso de Tommas, o mesmo levara a fama de ser gay, já não bastasse ser considerado um estranho e esquisito.
— Verdade? – Ollie questionou, mas achava improvável.
— É só um boato, ele nunca deu sinais nem nada. – Lawrence contou, e aquele assunto já estava começando a incomodá-lo.
— Ok, não sejam chatos. Chega de implicar com o garoto. – pediu querendo falar sobre qualquer outra coisa se não aquilo.
— Já que insiste. – a dupla da frente se endireitou. – Teve mais sorte com as garotas, Ollie? – Lawrence perguntou, perdendo uma batata para o amigo.
— Na mesma merda. – ele respondeu, e por mais que não quisesse falar sobre questões amorosas e que o deprimiriam, já mudara de assunto uma vez, não queria fazer de novo. – Arrumar uma namorada é a coisa mais difícil do mundo.
— Pensei que o Iago fosse o único jogador que ficava com uma garota só. – comentou a fim de fingir que fazia parte daquela conversa.
— Cansei de acordar e a cama estar vazia do meu lado. – ele explicou, e aquilo era profundo. Se alguém como Ollie, que era amigo de Lawrence, o que significava que tinha grande chance de ser como ele, estava cansado daquilo, então ainda havia salvação para o amigo. – Por falar nisso, pode me passar o número da Gwen, eu perdi.
— Primeiro, ninguém perde número, segundo, já disse que não antes, vai continuar o mesmo. – Lawrence respondeu.
— Ela é sua irmã, não sua filha, por que essa besteira toda de não podermos nem olhar para ela? – o garoto perguntou, e conseguia entender que aquilo vinha de um tempo. Lawrence não gostava que si, Iago e, aparentemente, Ollie falassem da irmã de forma que expressasse segundas intenções. Podia entender ele proteger a irmã, mas nem olhar era permitido. – Se pegam por acaso? – um soco atingiu o braço dele, e si e Iago riram.
— Deixa eu explicar, de novo, algo que vocês sempre parecem esquecer: ela ainda tem a ilusão de que vai começar a namorar, noivar e casar com o mesmo cara e viverão juntos pra sempre. – contou, e se perguntava o que dera errado na criação para um ser pegador e a outra uma santa. – Nenhum de vocês vai pegar minha irmã, ela acha vocês uns idiotas afinal. – não duvidava daquilo.
— Já que está tão certo, me diz, como anda sua vida amorosa? – Ollie perguntou.
— Comigo é o contrário, já namorei por tempo demais, então estou apenas… aproveitando. – ele respondeu, comendo em seguida.
— E quem seria a pobre garota? – perguntou.
— A Joceline. – com a resposta dele parecendo tão natural, notou Iago se engasgando a seu lado, e ajudou-o ao dar tapas nas costas do mesmo.
— Você perdeu completamente a noção. – Ollie comentou.
— Se queria nos matar, podia ter usado outro método, não algo tão absurdo. – Iago disse assim que melhor. – Fala sério, acha que tem chance com uma das Cobras?
Devido à fama da família, sempre fazendo negócios lucrativos por todo lugar, ainda que de maneiras não muito… convencionais, haviam sido apelidados de tal forma pelos adultos. Eles não se importavam em picar os outros e esperar o veneno espalhar, mas não sabia se era o mesmo com Joceline ou se a mesma era melhor que aquilo. A garota, por algum motivo, frequentava o colégio, não recebia educação melhor em casa, só não entendia por quê.
— Acham que não consigo? – ele perguntou desafiado, e não seriam um grupo se não possuíssem algo em comum, e era o fato de que adoravam ser desafiados.
— Acho que o pai dela te joga fora antes disso. – comentou, e ainda que não gostasse de assuntos sobre relacionamento por imaginar que sempre acabaria sozinho por causa de seu problema, admitia que aquele o interessava. – E a Violet?
— Já terminamos há tanto tempo que ela nem deve lembrar. – ele garantiu, mas duvidava.
Violet e Lawrence realmente namoraram há um bom tempo, foram o primeiro um do outro, e aquilo a marcara mais do que a ele, pois a mesma não esquecia, mesmo com o passar de tantos anos e Lawrence tendo ficado com outras garotas. Ele a evitava, achava que aquilo seria suficiente, mas nem de longe bastava para afastar uma primeira ex-namorada, ainda mais tão devota.
— Eu duvido. – com a fala de Iago, seguiu o olhar dele, como os outros, e viu a garota de dezesseis anos, baixa, morena, tão fã de Lawrence que pintou o cabelo de vermelho, tendo um tom escuro, e olhos castanhos escuros, entrar.
Eles nunca combinaram, o que fez com que nunca entendesse o porquê de terem namorado. Lawrence era bonito, o único garoto ruivo da cidade, com certeza tinha bem mais opções de namoradas, então escolhê-la não fazia sentido nenhum.
Porra, xingou mentalmente.
Estava na merda da sombra do fundo do poço se reparara tanto na beleza do amigo.
— O Lito precisa de uma saída de emergência. – comentou se levantando. – Quero dizer, amo esse lugar, mas precisa. – tendo terminado, como os outros, pegou sua bandeja, começando a andar.
— Tchau, Lawrence. – Iago se despediu do outro.
— Ei, não me deixem aqui. – pediu.
— Até mais. – Ollie falou.
— Seus cornos, filhos da… – ignorando-o, seguiu até o balcão, deixando a bandeja enquanto, aquela altura, Violet o alcançava.
× Haven Hill ×
Era sexta, enfim, e se a prima tinha uma vida, então ela começaria a se manifestar e parar de encher a sua. Ainda que já houvesse ido a uma festa aquela semana e não planejasse ir à outra, gostaria de passar seu final de semana sem dores de cabeça, pois o outro fora uma merda com ela o enchendo o saco.
Ainda era manhã, início da tarde, na verdade, o que significava que estava no colégio e que ficaria por muito tempo ainda por ali. As aulas, como sempre, foram excitantemente chatas, e tirando a única matéria que gostava, não tinha mais disposição para as outras. Estava mais do que na hora de ser inventado um novo método de ensino a fim de manter a si e os outros de sua geração interessados nas aulas, pois o antigo não estava dando certo.
Andando distraído pelos corredores, sozinho enquanto ia se reunir com os amigos no refeitório, sua mente só conseguia focar nos problemas que tivera recentemente, tudo por causa de um desleixe, um acidente por não tomar cuidado por achar que estava seguro na própria casa. Por causa daquilo, e das perturbações via mensagem da prima – cogitou se não seria melhor matá-la, mas lembrava que era uma tarefa difícil –, havia começado a ter dores de cabeça frequentes, apenas seu corpo reagindo a todo estresse psicológico que sofria ao não saber quando ela poderia abrir a boca.
Voltando a prestar atenção no caminho, virou o corredor, vendo o jogador de dezessete anos, alto, pele morena, cabelo preto cortado no estilo arrepiado e olhos verdes, esbarrar em Tommas junto dos amigos dele, todos vestindo o casaco do time, fazendo com que as coisas do mesmo caíssem.
Com a risada deles, revirou os olhos.
— Sério, Marcus? Qual sua idade mental, cinco anos ou o cérebro não se formou? – perguntou.
— Fica quieto, podia ser com você. – passando ao lado do idiota, ele fez menção de colocar a mão em sua cabeça, mas a abaixou um pouco, dando um tapa na mão dele para que ele não o tocasse.
Mantendo-se na dele, o mesmo continuou seu caminho, como si, e até chegar a seu destino, teve tempo o suficiente de pensar no porquê de tê-lo ajudado. Não era amigo ou mesmo colega de Tommas, não interagiam em geral, na verdade, estavam no segundo ano e não se lembrava de ter falado com ele antes, mas ainda assim o ajudara.
Talvez, e aquilo era ridículo, houvesse se compadecido da implicância, afinal tinha uma leve noção do que era se sentir diferente, de não se encaixar, apesar de não ser lembrado daquilo quase todo dia. Não diria que aquilo aconteceria se estivesse em seus dias normais, mas pelo que estava passando, talvez imaginasse que seria a próxima vítima.
— Aqui.
— Ri de mim e depois me ajuda, e ainda me chamam de estranho. – ele comentou pegando o livro de sua mão, não se dando ao trabalho de agradecer.
— Eu não…
— Ontem no Lito. – a fala dele o deixou sem um lugar para pôr o rosto. – Seu amigo jogador é meio indiscreto com olhares. – ele avisou o dando as costas.
— Tudo bem, talvez eu merecesse. – admitiu em uma reflexão.
Chegando ao refeitório, o mesmo estava cheio, como de costume, então, como trouxera algo de casa, apenas se direcionou para a mesa onde Iago acenava para si, sentando-se com os amigos.
— Um ano. – o amigo comentou assim que si sentou.
— A culpa não é minha se minha sala é longe do refeitório. – respondeu, e não contara e nem contaria sobre a ajuda que prestou a Tommas. Não queria ouvir comentários por ter ajudado o garoto que, no dia anterior, estava zoando.
— E aí, estranhos. – com a fala, olhou para o lado de Lawrence, como os outros, vendo a garota de dezessete anos, estatura mediana, pele branca, cabelo ruivo e olhos castanhos claros, se sentar.
Ela sempre os chamava daquela forma, não importava que Ollie e Iago fossem jogadores ou si e Lawrence populares, ela também era, ainda que não ligando para aquilo. Os garotos reparavam nela, aquilo era fato, então, para inveja geral, a única garota ruiva de nascença era bem querida, perdendo apenas para Joceline em pessoa.
— O que já falei sobre ficar comigo e meus amigos? – o ruivo reclamou com a irmã. Se não fosse os três meses de diferença, ela seria um ano mais velha do que Lawrence, ainda que estando no segundo ano, como todos naquela mesa. Pelo que o amigo dissera uma vez, não muito depois de terem ela, a mãe engravidara dele.
— Que fofo, meu irmãozinho está com vergonha de mim. – ela provocou, como sempre que tinha a chance, mas, apesar disso, não se davam mal, eram bem próximos do jeito deles. – Não sinto vergonha quando leva aquelas piranhas lá pra casa sem a mamãe saber.
— Gwen! – ele a repreendeu, e não sabia se era vergonha por ela falar daquele jeito ou ficar expondo ele.
— E aí, como vai à vida? – ela perguntou, e Lawrence suspirou por imaginar que ela não sairia dali.
— Suas amigas faltaram, não é? – o ruivo perguntou.
— Não posso querer passar um tempo com meu irmão sem nenhum motivo em especial? – diante daquela fala, si, Iago e Ollie se entreolharam, encarando-a em seguida, sabendo que aquilo não era normal de acontecer. – Ok, a Kelly faltou, paciência. – ela admitiu, e fora bem fácil. – E vocês, o que tem feito?
— Nada de interessante. – Iago respondeu, e aquilo era a mais pura verdade.
— A vida é um saco. – comentou jogando o cabelo para tirá-lo do olho, recebendo os olhares deles.
— Mesmo pra você, Justin Bieber? A vida de artista não é boa? – Ollie brincou, trazendo à tona algo de seu passado que odiava naquela época, na atualidade, então, era infinitamente pior.
— Nem começa. – pediu.
— Vai, não sou o primeiro a reparar. – ele falou.
— Podíamos chamá-lo de JB, o que acham? – Lawrence sugeriu.
— Não. – proibiu antes que um deles se manifestasse.
— JB, gostei. – com a fala de Iago, soube que eles o encheriam o saco dali para frente.
— Podem parar, não tem a mínima graça. – pediu. – Sou infinitamente mais bonito e ajuizado que ele.
— Se você diz. – Gwen levou uma garfada à boca.
Revirando os olhos, pegou o aparelho no bolso ao sentir o mesmo vibrar, e vendo se tratar de uma mensagem da prima, outra só aquela manhã, sendo que estudavam no mesmo colégio, não ficou muito feliz com o que viu, e as piadas não ajudavam.
— Mensagem das beliebers? – com a brincadeira de Ollie, os outros riram.
— Chega, que saco! – levantando, deu as costas para eles, saindo irritado do refeitório.
— Ele é sempre irritadinho assim? – Gwen perguntou, não recebendo resposta dos outros, que apenas ficaram olhando para a direção que o garoto tomou.
× Haven Hill ×
Estava em casa, mais precisamente no quarto, e já que o pai e a mãe provavelmente já haviam saído, estava sozinho. A casa era grande o suficiente para si e os outros dois, mas um pouco mais de espaço seria bom, como brincava vez ou outra, para um irmãozinho. Seus pais, ao que disseram, não teriam outro filho pelo gasto que aquilo seria, e não que não entendesse aquilo, mas seria bom ter companhia.
Não era do tipo que achava que um irmão era sinônimo de menos amor e dinheiro para si, era grande o suficiente para já ter recebido aquilo até demais, então ficava mais do que feliz em compartilhar. Precisava ser irmão, não irmã, pois não aguentaria uma pestinha mandona, como quase era o caso de Lawrence, exceto que Gwen era a mais velha, não o contrário. Também não queria perder as liberdades que tinha por ser o único garoto na casa.
A quem queria enganar? Não queria um irmão simplesmente por aquilo, queria porque, se os pais tivessem outra pessoa além de si para amar, então talvez não os machucasse tanto com suas escolhas futuras. Um irmão poderia amenizar aquela dor, eles poderiam esquecê-lo e focar no amável bebê novo, e se sentiria menos monstro por destruí-los, apesar de mais por querer usar uma criança para seus propósitos egoístas.
Parando para respirar com o fim da música, esperou a contabilização dos pontos antes de poder escolher outra. Não podia chamar o que fazia de dançar, não com algo tão fácil como aquilo, pois, quando dançava, dançava mesmo, era bem mais rápido e intenso, nada como o que fazia. Podia dizer que estava jogando o melhor jogo de dança para X-BOX, afinal gostava das músicas dele, então o jogava.
Depois de brigar com os amigos, aquilo era a maior distração que poderia querer, e só daquela forma esqueceria os problemas de sua vida. Era jovem demais, mas já sentia o peso do mundo o ferrando, e se fosse fazer o que tinha que fazer, seria mais fácil se a amizade e admiração sumissem, dando espaço para um desgosto, mesmo que simples. Fora rude o suficiente para que eles achassem que si tinha algum problema, e quando fossem o perguntar, faria o mesmo até eles o odiarem.
Pondo outra música, começou a se mover no estilo de “Macarena”, imitando uma das personagens da pequena televisão. Havia duas televisões na casa, uma delas no seu quarto, assim podia jogar em paz sem alugar a da sala, e ficava mais do que feliz com aquilo.
Com a porta sendo aberta, levou um susto quando Lawrence passou pela mesma, e se atrapalhou ao tentar correr para pegar o controle, tropeçando no caminho, mas se sustentando e desligando a televisão, encarando o amigo como se tudo que fizera não passasse de atos normais.
— Tudo bem?
— Sim, claro. – com a respiração ainda normalizando, falou. – Como entrou aqui? – mudando de assunto, perguntou. Os amigos não sabiam que jogava aquele jogo, na verdade, ninguém sabia.
— Seus pais acabaram de sair, então entrei. – não imaginava que eles ainda estivessem em casa, mas o pior não era ser pego dançando, e sim eles deixarem Lawrence entrar. Queria criar certa distância, e eles iam e deixavam um dos amigos entrarem em sua casa, estragando seus planos.
Era por aquilo que amava os pais.
— E o que quer? – tentando ser o mais rude que pôde, percebeu que não era tão fácil quanto parecia.
— Falar sobre isso – ele fechou a porta, apesar de não haver alguém para ouvir –, seu comportamento.
— Eu tô legal. – respondeu evasivo.
— Não, não tá, porque geralmente, quando diz que “tá legal”, é porque tem algo errado. Por que agiu tão estranho hoje? – ele insistiu. – Recentemente, aliás.
— Não tenho agido estranho, sou o mesmo Spencer de sempre. – retrucou.
— Já faz um tempo que tem estado estranho, Spencer, se afastando da gente, e só deu uma trégua na festa, no Lito e surtou mais cedo por uma brincadeira. – ele comentou, e se visse daquele ponto, realmente já apresentava todos os sinais de amigo ruim e que eles deveriam se afastar, mas nem por isso o fizeram, o que provava que eram muito bons amigos mesmo.
— Tenho agido como sempre. – respondeu.
— Sabe que sou seu amigo e que pode falar se algo estiver estranho, não é? – com a pergunta, sua mente respondeu um “sim”, mas conteve a boca.
— Lawrence, eu não tenho agido estranho! – insistiu o olhando, tentando deixar claro que não havia nada de errado consigo.
— Ok, já entendi. – não ficava feliz por magoá-lo ou a qualquer um dos outros, mas, infelizmente, era necessário. – Independente de estar mudando ou agindo estranho ou não, só seja você mesmo. – ele falou, abrindo a porta. – Vamos nos acostumar. – ele saiu sem se despedir. A casa não devia estar trancada, então ele ficaria bem.
Ouvindo o barulho de mensagem, olhou para o celular sobre a cama, e de onde estava era capaz de ver o nome da prima, sabendo do que se tratava.
Lawrence estava certo, só precisava ser si mesmo e fazer o que tinha que fazer.
× Haven Hill ×
Boys Will Be Boys
O Sol começaria a se pôr em breve, e como aquele era o momento em que ambos os pais estavam fora, sair de casa não fora um problema. Havia se precavido muito antes de Lawrence aparecer, escondido sua mala em um local onde não seria achada fácil, o que significava que estava seguro para qualquer tipo de inconveniência que poderia atrapalhar seu plano.
Havia planejado aquilo com bastante cuidado, tomado todas as precauções possíveis, e aquele dia e horário eram os melhores para sua partida. Calculara o nível de dor que causaria neles, e era imensurável, mas estava apenas se ferindo ficando, e se tivesse que quebrar alguém – por mais que preferisse a si –, daquela vez escolheria a eles, pois se quebrasse no lugar deles, não sabia se teria a chance de ter os pedaços juntados.
Sair da cidade, ir para algum lugar grande como Nova York, Chicago, Washington, era como o sonho de qualquer morador daquela cidadezinha esquecida por Deus e o mundo. A cidade não fazia o estilo caipira com moradores inocentes e ignorantes, era tão moderna como qualquer outra, apenas não era a primeiro da lista de cidades mais visitadas.
O ônibus se aproximou, parando aos poucos, e respirou o último ar do campo antes de entrar no transporte e seguir seu rumo para uma nova vida, para a realização do desejo de muitos outros adolescentes dali.
× Haven a York ×
Era difícil de acreditar, mas após as horas incansáveis dentro dos ônibus, enfim estava ali, na tão incrível Nova York. Sonhara em visitar a cidade grande muitas vezes, ver com os próprios olhos como era a maior metrópole do país – se não do mundo –, e ali estava, finalmente na cidade grande. Talvez aquele fosse o sonho de todo garoto do campo, visitar uma cidade grande, mas era apaixonado por aquela, então era claro que seu destino não poderia ser outro.
Escolhera um local mais tranquilo para ficar, apesar de ser Manhattan quem possuía mais pontos turísticos que queria ver, então após pegar mais um ônibus, não demorara a chegara no Brooklyn. Um pouco diferente da outra ilha, via mais prédios de casas, não arranha-céus ou prédios exageradamente altos, o dando uma sensação enorme de impotência, como se fosse uma formiga, fazendo com que imaginasse que, se aquela merda toda caísse, estava, como todos, ferrado.
Gostaria de visitar toda a cidade, cada canto da maravilhosa área descoberta por si, contudo, não possuía tempo para aquilo, não quando já escurecera e precisava se hospedar em algum lugar logo. Não carregava muitas coisas, mas claro que podia ser alvo de ladrões, então quanto mais rápido fosse para um hotel, mais rápido saía da visão de todos.
Sorrindo, havia enfim chegado ao começo de sua aventura.
× NY ×
A noite ainda reinava, e tendo se estalado em um motel por ser barato – e provisório –, procuraria um lugar melhor para ficar no dia seguinte, algo barato e bom, mas até lá, até a manhã chegar, decidira se divertir um pouco, conhecer um ponto legal e que poderia utilizar como experiência para sua primeira noite.
Pelo pouco que sabia, identidades falsas não eram difíceis de serem conseguidas ali, apesar de que era necessário um contato, então utilizaria a sua mesma, a que Lawrence conseguira uma vez, afinal não tinham idade para beber, e ainda assim o faziam, e não era porque eram amigos do dono da loja de bebidas. Diferente de Haven Hill e das festas que ia, daquela vez estava indo a uma boate de verdade, um local grande, cheio de pessoas estranhas, música alta e bebida do mais variável tipo, muito diferente das "reuniões" que aconteciam na casa de alguém – a desculpa para se reunirem e encherem a cara.
Estava parado na rua, do outro lado da calçada, andando de um lado a outro como se estivesse ansioso esperando alguém, e por mais que o sentimento fosse verdadeiro, estava sozinho e ninguém o encontraria. Estava, sim, um pouco frio, e talvez fosse pela aproximação do oceano, coisa que estava longe quando estava em sua cidade natal, mas, independente daquilo, não usava casaco, pois sabia – esperava – que fosse ficar mais quente conforme se divertisse.
Ainda que sozinho, em uma cidade onde ninguém o conhecia e podia ser quem era, ainda sentia certo frio na barriga, medo do que significava entrar na boate logo à frente e o que aquilo poderia significar. Sua saída de casa já era um sinal definitivo do que era, ainda que considerasse tudo como uma aventura para se descobrir, mas precisava dar mais um passo a frente – tanto literal como figurativamente –, entrar e aceitar aquilo.
Tomando coragem, atravessou a rua, entrando. Entregando o dinheiro e identidade para a mulher em sua frente, esperou enquanto era revistado pelo segurança a seu lado, e com tudo certo, seguiu para o lado de dentro. Passando por uma cortina preta, a qual não impedia o som, então desde a entrada já ouvia a música, pôde ver um espaço bem grande, com algumas poucas mesas à direita, tendo bastante espaço para dançar, como todos dentro faziam.
Julgando pela aparência, era provavelmente o mais novo naquele lugar, e se perguntava o porquê de não ter sido barrado. Era a primeira vez em uma boate gay – em qualquer boate, na verdade –, então era… esquisito ver apenas homens, todos aparentemente mais velhos que si, ainda que alguns bem jovens. Achava que veria algumas garotas, afinal também havia algumas gays, mas provavelmente aquela era uma boate para homens gays, apesar de poder confundir aqueles vestidos de mulheres.
Andando, a diversão tinha que começar.
Saindo cambaleante, sentia que estava sufocando, como se não houvesse ar o suficiente do lado de dentro para que respirasse, e aquilo era extremamente desconfortável. Havia bebido, claro, só que o fator “demais” podia ser atribuído aquilo, então se somasse o fato de estar em um ambiente desconhecido com ter bebido, então ou se soltaria ou se sentiria desconfortável, e a segunda opção fora o que ocorrera.
Ver todos aqueles garotos e adultos, livres, o fez pensar se aquele não era o tipo de liberdade que queria, poder fazer coisas que não poderia por causa de pensamentos sexistas, ou títulos, rótulos impostos pela sociedade. Eles agiam como queria agir, independente de qualquer coisa, mas talvez houvesse querido fazer aquilo muito rápido já que usara a primeira noite ali para ir direto para uma boate.
— Ei. – a voz chamou, mas não achando que era consigo, continuou sua tentativa de respiração. – Ei – quando uma mão tocou suas costas, se sobressaltou –, tudo bem? – olhando para o garoto que parou a seu lado, ele não parecia muito mais velho que si. Ele era maior, branco, cabelo e olhos castanhos escuros, e julgando pela maneira de se vestir, diria que estava na boate também. – Te vi lá dentro, precisa de ajuda?
— Não. – retirando a mão dele de cima de si, abaixou um pouco, tentando respirar a fim de não perder o pouco ar que tinha. – Estou bem.
— Olha, você parece bem mal. – ele observou, e admitia que bebera demais. – Se você quiser, posso te levar até em casa. Mora perto? – com o aproximar dele, afastou-o.
— Eu não sou assim, ok? – seu tom de voz se tornou um pouco agressivo, efeito da bebida, com certeza, mas não sabia exatamente ao que estava direcionado, se ao fato de ter sido abordado por ter estado do lado de dentro de uma boate gay ou se por ter recebido uma oferta descarada dele de ir até onde estava ficando para fazer algo que não gostava de pensar.
— Ok. Ok, não quis ofender. – ele se defendeu, mas não se sentiu mal por aquilo. Estava na rua, em um lugar desconhecido, à noite. Ele podia ser um sequestrador, um estuprador ou algum tipo de maluco.
— E não estava lá dentro, de qualquer jeito. Quer dizer, estava, mas só porque não sabia que era uma boate gay. – explicou, e não soube o porquê de se importar em estar mentido para um estranho.
— Claro que não. – pelo tom dele diria que o mesmo não acreditava.
— Já estou melhor. – respirando fundo, ajeitou a coluna por fim. – Adeus. – dando as costas para ele, se colocou a andar apressado, querendo logo sair dali.
Definitivamente fora uma má ideia ir à uma boate logo de cara, ainda mais que precisava dos amigos consigo para ter uma noção de controle de verdade, coisa que se provava ausente. Queria poder ser livre, fazer coisas as quais não podia em Haven Hill, mas não importava onde estivesse, ainda era o mesmo Spencer Casey, só estava totalmente perdido.
Não aceitaria ajuda de um estranho, de jeito nenhum, mas quando fora para aquela boate não muito longe do motel barato que se hospedara, a última coisa a qual esperava que acontecesse era se sentir mal, como se não pertencesse aquele lugar, e talvez não pertencesse, talvez tudo que fazia e vivia era apenas curiosidade adolescente, contudo, o pior não era como se sentira lá, e sim não saber voltar de lá.
Tinha certeza que conhecia o caminho – sóbrio –, mas tudo parecia muito diferente, como se estivesse fora do lugar, e claro que a culpa de ter parado em um beco o qual não se lembra de ter pegado antes era do álcool.
Tudo bem, culpar o álcool parecia muito fácil, tinha parte naquilo por não ter pegado um táxi.
Ouvindo barulho atrás de si, se virou, e vendo dois caras, não tão velhos assim, talvez com vinte e pouco cada, sentiu o corpo reagir dando um passo para trás, preocupado com o que aconteceria consigo. Não tinha uma boa intuição daquilo, assim como não tinha uma saída naquele beco, o que significava que não havia para onde fugir.
— Ei. – ouvindo a voz não necessariamente estranha pra si, olhou mais adiante, para além da dupla no meio do beco, onde o garoto de antes estava parado na entrada com um pedaço de algo metálico. – Ele não está sozinho. – com o aviso, um deles deu um passo na direção do garoto.
— Só dois de vocês?
— Nunca disse que ele estava comigo. – aparecendo, pôde ver mais dez ou quinze adolescentes, todos gays e provavelmente saídos da boate.
Os idiotas se colocaram a correr em sua direção, e se afastando para a parede, os viu seguir até o final, pulando o muro para fugir. Salvo e seguro, caminhando para sair daquele beco, se aproximou do garoto e dos outros, quem se dispersavam.
— Obrigado por me ajudar. – agradeceu. Era humilde o suficiente para agradecer o fato de que ele o fizera, como reconhecer aquilo.
— Tudo bem, vez ou outras alguns homofóbicos estúpidos passam por aqui querendo pegar alguns indefesos, e a força policial é uma merda por aqui, então temos que nos unir quando podemos. – ele respondeu, e ouvi-lo o fez perceber o tipo de pessoa que poderia encontrar daquele lado colorido, não o preto e branco que vivia. – Francis, por falar nisso.
— Spencer. – devia ainda estar bêbado se dizia o nome para qualquer um.
— E então, Spencer, pra sua casa ou pra minha? – ele perguntou.
× NY ×
Abrindo os olhos, não percebera o quanto estava com a cabeça doendo até o fazer. Não tinha ressaca alcoólica, nunca passara por tal destino, então se lembrava de todos os seus erros da última noite, principalmente de ter ido para a casa de um total estranho. À questão de crédito, não era uma casa em si, mas um apartamento, mas, se fosse visto por algum dos amigos ou familiares, seria chamado de idiota até a velhice.
Tinha noção de que era completamente estúpido por ir com alguém que não conhecia até a moradia do mesmo, mas após ser ajudado por ele, e por ter ficado com mais medo de ficar sozinho em uma cidade estranha – culpa da bebida na cabeça – do que confiar em alguém que acabara de conhecer e que o ajudara, optara por aceitar a ajuda dele, indo com o mesmo.
Não reparara em nada no local, apenas haviam pegado suas coisas e ido para o local onde, assim que apresentado o lugar que poderia dormir, caiu na cama, apagando. Gostaria de poder ter ficado, contudo, ele não avisara ao colega que o faria, e por uma série de outros argumentos, que não escutara por causa do sono, foram para o apartamento dele, onde acordara.
A cabeça doendo era um aviso de que não deveria mais beber sem os amigos, pois eram eles quem o controlavam para evitar aquele tipo de coisa. Apenas parara porque não podia torrar o dinheiro na primeira noite na cidade, caso contrário provavelmente teria bebido a ponto de ficar totalmente mal, e por pouco não chegara àquele ponto.
Precisando se levantar, alcançou o celular, percebendo que a bateria morrera. Levantando, ao menos sentando, colocou o aparelho para carregar na tomada mais próxima, conseguindo se pôr de pé após lutar com o corpo e a vontade de ficar na cama. Já dormira demais, e não podia se deixar ficar ali para sempre, não quando estava hospedado na casa de um estranho, e aquilo era perigoso.
Fora avisado que não deveria falar com estranhos, como toda criança, cabendo a ela saber quando o fazer, e fora a mãe quem o advertira principalmente. Por Haven Hill ser bem tranquila em geral, ela com certeza não julgara que si poderia se envolver com pessoas que o chamariam para morar com elas.
Saindo do quarto, não sabendo para onde ir, resolveu seguir o corredor à esquerda, a direção das vozes que, se não estavam altas demais, então era sua ressaca aumentando o volume das coisas.
— … que me falasse antes de trazer um estranho para cá.— a voz desconhecida para si falou.
— Ele estava mal, quase foi atacado, e só Deus sabe o que aconteceria se eu não houvesse o seguido.— Francis se defendeu.
— Não sabe nada sobre ele. Se fosse algum amigo seu, eu não me importava, mas um garoto que saiu do nada?
— Devo participar da conversa? – perguntando, sua presença já havia os chamado atenção, ao menos do tal Francis, então sua fala era para parecer que não estava ouvindo escondido.
Olhando para o outro garoto, o analisou por uns segundos, desde a aparência também jovem, provavelmente na sua faixa etária, à estatura mediana, a pele branca, o cabelo castanho e olhos castanhos claros.
Ele veio em sua direção, e esperando, preparado para qualquer coisa, o mesmo o entregou um pedaço de papel.
— Se for ficar como o Francis falou, então eis a lista de tarefas. – olhando rapidamente para a mesma, viu uma planilha com os nomes, descobrindo que o outro garoto se chamava Yoan. – Dividimos as tarefas e despesas, então você entra onde já marquei.
— Acho que é mais certo se apresentar primeiro. – Francis repreendeu o garoto.
— Yoan, e apesar de saber que você se chama Spencer, esquecerei até o final do dia, então foi mal desde agora. – fora, talvez, a forma mais estranha que alguém já se apresentara para si.
— Ainda não decidi se irei ficar. – avisou.
— Bom, até lá, fique com a folha. – Yoan falou. – O banheiro é meio que sagrado, então fique sobre aviso, mas água quente só de noite. Se quiser trazer amigos, tudo bem, mas nada de festas ou sociais barulhentas, a menos que todos estejamos envolvidos. – enquanto ele falava, dando tantas instruções que era como se quisesse que si desistisse, sentiu a barriga doer com o buraco que havia nela.
Fazia horas que não comia, e tinha certeza que o roncar foi ouvido pelos outros, o que o deixou envergonhado.
— Dê espaço para ele respirar, Yoan, ele não estava muito bem ontem. – Francis explicou, e o outro recuou. – Quando foi a última vez que comeu?
— Ontem antes de…
— De não ir à boate gay que você não estava. – ele completou, e por mais que estivesse com dor de cabeça e fome, o olhou com um pouco de irritação por já terem tido aquela conversa e ele, ainda assim, ser irônico.
— É. – sua resposta meio seca não pareceu o afetar.
— Vai tomar banho, já está na hora do almoço mesmo. – não percebera que dormira tão profundamente.
— Pode esperar um minuto? – perguntou para as batidas insistentes do lado de fora.
— Disse que o banheiro era um lugar sagrado, mas não é pra viver nele. – com a fala, revirou os olhos, terminando de se vestir mais rápido.
Yoan realmente dissera que, quando um dos três estivesse no banheiro, então o fato deveria ser respeitado, pois já que não tinham muita privacidade por dividir o espaço, aquele deveria ser o limite. Nada de um entrar no banheiro enquanto o outro estava, mas não dissera nada de demorar.
— Se acabou com a água quente, eu te jogo pela janela. – ele ameaçou entrando.
— Não foi você quem disse que banho quente apenas à noite? – perguntou retórico. Era ele quem pagava pela água quente, isso porque o mesmo apenas tomava banho com a mesma.
— Só não demore tanto mais. – ele advertiu fechando a porta. – Quando quiser fazer suas coisas, certifique-se de que ninguém mais entrará no banheiro depois.
— Me pergunto que tipo de coisas você está insinuando.
— Não quer que eu responda. – com a fala, decidindo que realmente não queria, deu as costas para a porta, indo pendurar sua toalha.
Como era responsável pela cozinha, quando voltou, a mesa já estava posta graças a Francis, onde o mesmo terminava de arrumar as coisas.
Com autorização para ir comer o que quer que estivesse cheirando bem e não reconhecia, Yoan apareceu, e após se servirem, sentou-se à mesa junto com os outros, se colocando a comer em silêncio. Os outros dois não pareciam dispostos a conversarem, ou aquela era sua vontade e eles a estavam captando, então tudo que se concentrou no início foi o gosto da comida que tinha que se adaptar a comer, e não mais a da mãe. Havia ido comer em algum lugar barato no dia anterior, mas não se preocupara com o fato de que as comidas e temperos com os quais estava acostumado não seriam oe mesmos.
— Então, Spencer, de que buraco você saiu? – Yoan perguntou quebrando o silêncio.
— Ai. – reclamou quando uma perna atingiu a sua por baixo da mesa, olhando rapidamente para saber a quem pertencia.
— Desculpa, perna errada. – Francis pediu, chutando a de Yoan pela cara de dor do mesmo.
— Pode parar com essa perna? – perguntou. – Não me sinto mal por responder uma pergunta simples. Eu vim de Haven Hill.
— Não lembro de já ter ouvido. – Yoan comentou.
— Somos uma cidade pequena do interior. – explicou. Não ficava surpreso por ele não saber, Haven Hill era bem calma, pacífica e desconhecida para o resto do mundo.
Deveria ser o slogan dela.
— É aqui do lado, há algumas horas. – com a fala, como Yoan, olhou Francis, imaginando como ele sabia daquele tipo se informação. – Geografia era o meu forte. – com a resposta, se concentraram em voltar a comer até Yoan o interrogar mais.
— E por que veio pra cá?
Não estava pronto para aquela pergunta, afinal não imaginara que seria feita por alguém que pudesse vir a conhecer na cidade. Mesmo que tendo decidido morar ali, não estava disposto a se abrir àquele ponto e dizer o que o motivara, não quando não os conhecia direito, sendo apenas uma dupla de estranhos cuja situação o fizera passar uma noite ali e cogitar se hospedar.
— Ai. – reclamou. – Pode parar?
— Eu não te acertei. – ele se defendeu.
— Ele acertou. – seus olhos, como os de Francis, se focaram em Yoan. – Vamos parar com a sessão de chute, ok? – pediu esperançoso. – Já estava na hora de tomar um rumo diferente e dar o primeiro passo a morar sozinho, ainda que dividindo um apartamento.
— Então está realmente pensando em ficar? – Francis perguntou, mas parecia mais uma conclusão.
— Do ponto de vista financeiro é mais vantajoso, mas não sou tão caipira a ponto de confiar em qualquer um da cidade grande. – colocou as cartas na mesa, tratando de deixar claro que não confiava neles simplesmente porque passara a noite ali e agora estava comendo.
— Não se preocupe tanto, não sou nem um pouco forte, e somos do tipo de pessoa que acolhe outros como nós, pessoas que querem morar longe dos pais, mas não tem dinheiro pra isso sozinhos. – Yoan explicou e, se fosse verdade, então a vida fora bem generosa a ponto de dá-lo o lugar perfeito para ficar, mas, ainda assim, tinha que desconfiar daquela bondade toda.
O silêncio voltou a reinar, e daquela vez durou mais tempo.
Não era tão preguiçoso, o suficiente para não estar tão cansado simplesmente por ter trabalhado o dia quase todo. Admitia que não estava acostumado com trabalho caseiro, seu foco em casa sempre fora ajudar mais o pai do que a mãe, então, no dia seguinte, aquilo não seria nada já que o trabalho que exercia em casa era mais manual e puxado. Ainda assim, estava um pouco cansado, sim, e tinha que admitir, não era tão confortável viver em um lugar que, dez ou quinze passos para qualquer direção o levava a parede.
Seu primeiro dia fora de casa já havia passado, e ainda não se acostumara com a atmosfera de Nova York, ainda que já sendo sua segunda noite na cidade. Não sentia necessariamente saudades de casa, saíra por escolha, e se quisesse podia voltar a qualquer hora, contudo, não pretendia o fazer até ter a chance de fazer o que fora ali para fazer: se descobrir.
Sentia saudade do espaço, de poder correr se quisesse, era daquilo que mais sentia falta, e era o que se convencia enquanto ia para o quarto após beber água antes de ir deitar. Seus companheiros de apartamento, os quais já se recolheram também, não pareciam ruins, pelo menos, aparentemente. Só os conhecia há um dia, não os julgaria baseado em nada, mas pelo jeito dos mesmos agirem, questionadora por parte de Yoan e receptivamente por parte de Francis, achava que eles eram bem humanos, normais… Ou uma dupla de sociopatas que queriam o matar.
Já tivera que dividir o quarto com os amigos antes, então a ideia de dividir um apartamento não era tão louca, e não ter que ficar literalmente no mesmo quarto que eles era melhor ainda. Os conheceria, talvez, melhor enquanto os dias fossem se passando, e se fossem legais mesmo, então aquilo seria uma boa experiência apesar de tudo.
O quarto em que ficara não era grande, diria mediano, sem as madeiras da cama, apenas papelões no chão, tendo um colchão por cima. Ficava feliz de não ter que dormir no chão, pois estava ali economizando dinheiro de um hotel, dormir no chão não faria valer a pena. A resposta que ganhara do motivo de não ter uma cama descente era porque a mesma quebrara há tempos e nunca pensaram em comprar outra já que o quarto estava desocupado.
Ignorando quem poderia ser o antigo dono, já havia pescado que Yoan e Francis não pareciam irmãos ou parentes, que provavelmente eram apenas amigos que dividiam um espaço e arrumavam alguém para fazê-lo com eles. A pessoa deixara o lugar em bom estado, de modo geral, o armário marrom e preto era mediano, as cortinas eram azul-escuro, combinando um pouco com a coloração da parede, que pegava um tom diferente.
Era confortável.
Ouvindo o som de alerta de mensagem de seu celular, o som parecido com o do Whatsapp, apesar de ter mudado o som padrão do aplicativo, foi até o aparelho, na cama, pegando-o. Vendo o nome do pai na mensagem, seu coração bateu mais rápido, não tendo imaginado aquilo. Não pensara em mudar seu número para caso os pais ligassem ou tentassem o rastrear. Claro que não podia querer que eles aceitassem um bilhete frio dizendo que os deixaria para seguir o que estava em sua cabeça, para achar seu lugar no mundo, qualquer pai acharia aquilo uma loucura e que si precisava ser internado.
Desbloqueando o aparelho, abriu a mensagem, preparando-se psicologicamente para poder lê-la.
“Filho? Você está aí? Ainda está com seu celular? Está bem? Responde, por favor. Estamos preocupados, não sabemos o que aconteceu com você ou onde está, então, por favor, se ainda tiver seu celular e número, volta para casa.”Sentando, não havia se preparado tão bem quanto julgara, e aquilo o atingira. Sabia que não seria fácil, mas teria sido mais se houvesse se livrado do chip, algo tão pequeno, mas agora responsável por seu estado emocional abalado. Saíra de casa para não causar dor e sofrimento para a família, mas se esquecera de que era exatamente aquilo que faria caso sumisse no meio da tarde e não aparecesse mais.
Deixando o corpo cair para trás, largando o celular, deitou com a certeza de que era o pior filho do mundo.
Ali estava, de novo, dividindo a mesa com dois estranhos, e não que não houvesse o feito pela segunda vez na noite passada, mas porque dormira novamente no apartamento, ainda que não estando em seus planos. Ficara temeroso que, daquela vez, fosse acontecer algo consigo, que pudesse ser atacado, mas, em parte, sabia que era exagero, então dormiu sem muito problema.
Quando amanheceu, após esperar um tempo para tomar seu banho, se juntou aos outros na mesa, começando a tomar o café. Por ser responsável pela comida, Francis comprara os pães frescos, e tinha que agradecer aquilo já que, por morar longe, geralmente comia o pão frio ou tinha que torrá-lo, o que não era a mesma coisa de ser comprado e comido na hora.
Com eles quietos, talvez influência de si estar ali, tornando as coisas um pouco diferentes do habitual deles, achou que poderia ser aquele a quebrar tal silêncio, afinal havia tomado uma decisão sobre tudo aquilo, e eles precisavam ouvi-la.
— Estive pensando e, se for mesmo morar aqui, já que contei o motivo de sair de casa, achei que vocês poderiam fazer o mesmo. – sugeriu recebendo a atenção dos outros dois. – Não precisam, mas dessa forma nos conhecemos melhor.
— Já que se resolveu, e te interroguei, então acho justo. – Yoan quem falou, e ficou tranquilo por aquilo ter funcionado. Realmente queria saber mais sobre aqueles com quem passaria um tempo, daquela forma podia tornar as coisas mais fáceis no que dizia respeito a confiar nos mesmos, julgando-os, talvez, mais como si: humanos. – Diferente desse aí, eu saí de casa. Estava cansado da minha família, e como meu jeito recluso não era bem-aceito, me mudei e não dei endereço.
— Ok, e você? – seu olhar foi parar em Francis enquanto levava um pão à boca, o vendo terminar com o achocolatado antes de falar.
— Problemas com a família também, mas como ele disse, não saí, meio que fui posto para fora. – com a resposta, se perguntou se ficar de boca fechada não houvesse sido o melhor, daquela forma não tocava em possíveis assuntos sensíveis.
— Posso perguntar por quê? – tomando cuidado, perguntou.
— Acho que é fácil de concluir. – não o conhecendo, a única coisa que conseguia pensar e supor era que ele fora posto para fora de casa por ser gay, e aquilo o levava a si mesmo.
Não sabia até onde o amor dos pais era incondicional, nem o quanto os de Francis o amavam ou o fizeram, mas sua saída de casa, em parte, também tinha aquele motivo. O desgosto traria a rejeição deles a si, podia acontecer, e não sabia o que faria se perdesse o amor dos pais por quem provavelmente era.
— Já que já estou perguntando, há quanto tempo estão juntos? – tentando voltar ao assunto, perguntou e Francis e Yoan se olharam, para logo em seguida se tornar o alvo do olhar confuso de ambos.
— Acho que entendeu errado.
— Não somos um casal. – Francis completou a frase do outro, e sentiu-se sem lugar para colocar a cara após aquele fiasco de situação. – Além de hétero, o Yoan nem de longe faz meu tipo.
— Essa frase é minha. – Yoan retrucou.
— Ninguém faz seu tipo, seu assexuado. – ele implicou.
— Melhor do que ficar me pegando em boates, garoto purpurina.
— Ei, não me denigra na frente dos outros. – disse Francis.
— Acho legal que sejam tão bons amigos assim. – comentou gargalhando, recebendo a atenção deles. – Sabe, moram juntos, mas um é homo e outro heterossexual, e ainda assim se dão tão bem.
— Bem-vindo à Nova York, a cidade chama de “A Grande Maçã”, ainda que eu nunca tenha descoberto por quê. – sorriu diante da fala de Francis, achando que não era o único que tinha o que aprender ainda.
Depois do café, tendo escovado os dentes, se dissipou, como os outros, e foi atrás do material de limpeza, tendo mais atividades aquele dia. Se continuasse naquele ritmo, em pouco tempo conseguiria se adaptar e não seria mais estranho, e sim uma rotina natural para si.
— Estou saindo.— a voz de Francis avisou da sala.
— Leva o Spencer junto. — saindo da lavanderia com a vassoura e um balde, viu Yoan sentado no sofá e Francis parado na porta.
— Pra onde?
— Hoje é dia do Francis trabalhar, e já que você está aqui, e não veio para Nova York pra ficar dentro de casa arrumando ela, então pode ir com ele, assim faz um passeio. – ele propôs, e por mais que gostaria de conhecer a cidade que tanto admirava, não podia negligenciar a lista de atividades.
— Tenho que arrumar. – levantando o material, deixou à vista para ele.
— Você não acha mesmo que limpamos esse lugar todo dia, né? – Yoan perguntou retórico.
— Posso? – olhando para Francis, esperou pela autorização dele.
— Deixa as coisas lá. – com a fala, voltou para a lavanderia, deixando as coisas no lugar, se apressando para se juntar a ele a fim de não atrasá-lo.
— Até logo. – se despedindo de Yoan, o mesmo acenou para si, mais concentrado no que passava na televisão. – Trabalha no quê? – perguntou curioso, querendo imaginar o tipo de lugar o qual iriam.
Saber que ele trabalhava o lembrava de que tinha que dar um jeito de conseguir uma renda, qualquer coisa, caso contrário ficaria sem dinheiro em pouco tempo. Todo dinheiro que tinha estava consigo, e por mais que gostaria – como qualquer um no mundo –, seu dinheiro não se manteria no mesmo valor para sempre, então realmente tinha que dar um jeito ou não poderia viver naquela fraternidade, indo morar na rua.
— Você vai ver. – odiava mistérios na vida real.
× NY ×
Não imaginara que o local de trabalho de Francis seria uma academia de dança, ou escola, já que, de acordo com ele, não era tão grande. Por ser final de semana, e só funcionar em alguns dias, ele era o responsável por abrir, o que dava razão a pressa dele, além, claro, de funcionários não poderem se atrasar. Como estava no ritmo, o ajudara a limpar antes dos alunos chegarem, e quando estes foram o fazendo enquanto terminavam, eles apenas se aqueciam, como parecia ser padrão para eles.
Com o espaço organizado e o horário da aula, sentara em uma cadeira no canto, observando os dez alunos enquanto eles se exercitavam com Francis, alongando o corpo antes de começarem a movimentá-lo mais ritmadamente para o treino. De acordo com o garoto, ele ensinava estilo livre, o que achava bem interessante, pois diferente dos outros, não havia um passo específico e característico. Francis os estava ensinando passos que ele pensava para as músicas que ele conhecia, ou coisas que ele via na internet, e a partir daquilo, os alunos criariam o próprio estilo.
Depois de um tempo, parara de prestar atenção na aula, focando-se no celular, não que houvesse algo de interessante ali, apenas estava distraindo a cabeça.
— Ei, ele não vai nos ensinar também? – com a pergunta da garota, levantou a cabeça, olhando para a possível pessoa quem dissera.
— Ele não trabalha aqui. – Francis explicou, e fez um gesto para expressar que ele estava certo.
— É, eu não danço. – acrescentou. Nunca dançara em público antes, apenas o normal para festas, e seu jogo de dança era apenas para si e seu quarto, então aquilo continuaria.
— O que, vai dizer que héteros não dançam? – ele perguntou, e não entendia a implicância que ele tinha consigo desde que dissera que não estava na boate. Não podia dizer uma coisa daquelas, não em um local onde alguns garotos estavam presentes, e falar aquilo podia soar muito errado, até porque não pensava daquela forma, apesar de agir como se os outros pensassem.
— Não disse isso. – esclareceu.
— Então por que não prova? – ele o desafiou, pegando o controle do rádio, colocando uma música.
— Sério? – perguntou desmotivado.
— A menos que ache que não é capaz. – guardando o aparelho, se levantou, caminhando até ele.
— Ninguém diz que sou incapaz de algo. – avisou. – Espaço, por favor. – ele se afastou, e como a turma já estava encostada no canto, fez um pequeno alongamento, olhando-o quando estava pronto.
Quando o ritmo começou, ficou aliviado por ser uma música que conhecia.
Shape Of You
Começando com movimentos lentos, foi aumentando o ritmo conforme a música também o fazia. Colocando as mãos para o lado, na altura da cabeça, jogou-as para o lado enquanto jogou a cabeça para o outro. Pulando enquanto movia as mãos, colocou um dos pés no chão, e depois o outro, ficando de lado. Levando a mão à cabeça, deu dois passos, logo girando para o outro lado, girando uma das mãos na frente do corpo, e viu Francis correr e parar a seu lado antes da próxima estrofe começar.
Girl, you know I want your love
Your love was handmade for somebody like me
Come on now, follow my lead
I may be crazy, don't mind me
Say, boy, let's not talk too much
Grab on my waist and put that body on me
Come on now, follow my lead
Come, come on now, follow my lead
Fechando a mão em punho, balançou-a no ar para o lado, levando a outra mão para frente do short, subindo o punho para a cabeça, abrindo a mão. Movendo a cintura, manteve uma das mãos na cabeça, subindo um pouco a perna na frente do corpo, tocando-a com o pé, e logo depois fez o mesmo atrás, sendo imitado por Francis.
Batendo ambas as mãos no ar, moveu as pernas, indo um pouco para o lado, e levantou um dos braços na diagonal superior, usando o outro para jogar a mão de um lado a outro do corpo lentamente. Tocando o queixo com a mão esquerda, jogou a cabeça para a direita, logo tocando a área com a mão direita, jogando a cabeça de volta para a esquerda, repetindo o movimento de levantar um dos braços e jogar a mão.
I'm in love with the shape of you
We push and pull like a magnet do
Although my heart is falling too
I'm in love with your body
Last night you were in my room
And now my bedsheets smell like you
Every day discovering something brand new
I'm in love with your body
Girando, parou de frente para Francis e ele para si, com uns dois braços de distância entre ambos. Inclinando, um de seus braços ficou aberto apontando para baixo e o outro para cima, girando abraçando o corpo. Ainda de frente para Francis, suas mãos deslizaram no ar como se fossem o movimento da correnteza de um rio.
Aproximando-se com a parte do “PUSH” , como se fossem realmente atraídos um para o outro, percebeu o quão próximos ficaram, a menos de um braço de distância, e que, de acordo com o sorriso dele, caíra no jogo do mesmo. Empurrando-o – como um magneto –, voltaram a se afastar. Girando, com uma das mãos no peito, inclinou colocando a outra mão para trás, ajeitando-se e girando novamente.
Oh-I-oh-I-oh-I-oh-I
I'm in love with your body
Oh-I-oh-I-oh-I-oh-I
I'm in love with your body
Oh-I-oh-I-oh-I-oh-I
I'm in love with your body
Every day discovering something brand new
I'm in love with the shape of you
Voltando a dançarem individualmente, fez mais movimentos de acordo com o ritmo da música, não se importando muito com ele, ou tentando. Movendo as mãos no ar enquanto mexia o corpo, continuou até a música entrar em outra parte.
Quando a letra repetiu, voltou a fazer os passos do início.
Girl, you know I want your love
Your love was handmade for somebody like me
Tornando a fechar a mão em punho, balançou-a no ar para o lado, mas em vez de levar a outra mão para frente do short, fez com ela o mesmo movimento da anterior.
Come on now, follow my lead
I may be crazy, don't mind me
Francis se colocou atrás de si, e jogando seu corpo para frente, ele fez o mesmo, seguindo seu ritmo.
Say, boy, let's not talk too much
Grab on my waist and put that body on me
Come on now, follow my lead
Come, come on now, follow my lead
Indo para um lado e ele para outro, trocaram de posição, e com Francis na frente, voltaram a se mover no ritmo um do outro, e tão concentrado que estava, de tanto que estava gostando, não se importou ou notou que estavam dançando em sincronia.
I'm in love with the shape of you
We push and pull like a magnet do
Although my heart is falling too
I'm in love with your body
Last night you were in my room
And now my bedsheets smell like you
Every day discovering something brand new
I'm in love with your body
Afastando-se, voltaram a fazer os passos que fizeram anteriormente, seguindo aquilo até entrar em outra parte da música.
Come on, be my baby, come on
Come on, be my baby, come on
Come on, be my baby, come on
Come on, be my baby, come on
Come on, be my baby, come on
Come on, be my baby, come on
Come on, be my baby, come on
Come on, be my baby, come on
De frente para ele e ele para si, correu de costas, com ele o seguindo, e ameaçando ir para frente, ele recuou. Voltando a correr, ele o seguiu mais uma vez, e ameaçando ir para frente duas vezes, ele recuou. Continuaram aquilo até a próxima parte.
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Seu apoio é fundamental. Torne-se um herói!I'm in love with the shape of you
We push and pull like a magnet do
Although my heart is falling too
I'm in love with your body
Last night you were in my room
And now my bedsheets smell like you
Every day discovering something brand new
I'm in love with your body
Repetindo os passos, seguiram daquele jeito até o final.
Come on, be my baby, come on
Come on, be my baby, come on
I'm in love with your body
Come on, be my baby, come on
Come on, be my baby, come on
I'm in love with your body
Come on, be my baby, come on
Come on, be my baby, come on
I'm in love with your body
Every day discovering something brand new
I'm in love with the shape of you
Com Francis se movendo para trás de si, ele moveu as mãos no ar, por sobre sua cabeça, e a cintura, enquanto si colocou as mãos na cintura, movendo-as até o final.
Quando a música parou e outra começou, ele saiu de trás, e se deixou respirar por mais ar. Aparentemente ambos gostavam do mesmo canal de coreografias no Youtube, o que foi uma surpresa para si, mais ainda que dançaram tão bem como fizeram.
— Nada mal para um hétero. – ele provocou, e vendo um sorriso no rosto do mesmo, estava cansado demais para retrucar.
Os alunos correram, e sendo cercado, tentou se manter em pé e se concentrar em apenas um deles quando os mesmos começaram a falar juntos, dizendo o quão bom foram, que queriam aprender consigo também e o elogiando.
— Parece que ganhou alguns fãs. – ele comentou, e olhou-o.
— É. – sorrindo, gostava daquele sentimento, aquela sensação de... liberdade.
× NY ×
— Eu preciso de um banho. – comentou assim que estavam de volta.
— Tudo que quero é comer. – ele comentou, fechando a porta.
— E aí, se divertiram? – seguindo a voz, olhou para Yoan, quem não havia visto antes no sofá. A TV passava alguma série desconhecida para si, e julgando pelo estado deitado dele, diria que o mesmo estava ali há um tempo.
— Foi maravilhoso.
Não se divertia dançando tanto fazia um tempo, e toda liberdade que sentiu foi maravilhosa. Em geral era acostumado com os jogos de dança, sem contar que era a primeira vez dançando do jeito que dançava na frente de uma multidão, ao menos, de tantas pessoas – ou qualquer pessoa. Dançar em festas ou boates era realmente diferente, pois se controlava, então não contavam, mas ali estava, suando por ter dançado tanto para chegar aquele ponto.
Ajudar os alunos também fora bom, o dera uma sensação gostosa de passar o que sabia adiante, e aquilo era maravilhoso.
— Hmm, não disse tudo isso antes. – Francis comentou.
Pego, admitia que não usara exatamente aquela palavra antes, mas não tinha porque mentir sobre um sentimento daqueles.
— Foi, eu admito. – dando-se por vencido, podia sentir o sorriso dele sobre si, e se pôs a andar. – Vou tomar logo meu banho.
— Te espero pra comer.
— Pode começar sem mim. – disse.
Depois da maravilha chamada banho, sentia-se um novo homem, ou adolescente já que ainda faltava pelo em seu rosto para se considerar um homem adulto e feito. Não achava que uma barba ou bigode combinavam consigo, mas, no futuro, quando e se crescesse, se preocupava com aquilo.
Não havia demorado, além de não poder, estava com fome, e agora que limpo, o que mais queria era comer algo, a comida gostosa, admitia – ainda que não tão boa quanto à de casa –, de Francis.
Olhando para o celular, a notificação de mensagem estava ali, exibida na tela para que soubesse que alguém o enviara algo. Alcançando o aparelho, o nome do pai o fez suspirar e se perguntar se queria realmente ler aquela mensagem, e, após deslizar seu padrão de senha, abriu a mensagem. Deveria bloquear as mensagens dele, daquela forma se poupava e a ele, contudo, por algum motivo não o fazia.
Como da última vez se preparara e de nada adiantara, daquela vez apenas se pôs a ler.
“Spencer, se está lendo, por favor, responda. Sua mãe não tem conseguido dormir bem, e eu praticamente não durmo mais, então apenas volte para casa.
Se você fugiu por ser gay, pode voltar a qualquer instante e conversamos.”
Sendo despertado pelo som que seu celular fez ao cair no chão, acordou para a realidade. Seu pai, e talvez a mãe, sabia o que era, ou que achava que era, e além de aquilo o fazer odiar Zoey, quem nunca mais o mandou nem uma mensagem, o fez entrar em transe. Abaixando-se desesperado, pegou o celular, agradecendo que a capa do mesmo o protegera de quebrar, apesar de aquilo não ser o pior.
Ele sabia, ao menos desconfiava, e aquilo, somado que já os fazia sofrer por sua partida, era péssimo.
— Vocês tem remédio pra dor de cabeça? – perguntou.
— Hm, não. – com a resposta de Yoan, olhou para o mesmo, ficando de lado para Francis, ainda comendo.
— Vou comprar, daqui a pouco eu volto. – avisando, pegou as chaves, saindo antes de eles dizerem alguma coisa.
× NY ×
Na rua ainda, graças ao remédio comprado na farmácia da vizinhança, sentia-se bem melhor, mais leve, e era ótimo se livrar daquele peso na cabeça. Não tinha cabeça para suportar tudo que acontecia na sua vida, não sabendo que a família sofria por sua causa. Se sua ideia era não causar dor, saber que fazia o oposto não o deixava nada bem, e por isso comprara uma cartela inteira, o suficiente para caso precisasse e assim não teria que sair de novo e de novo.
Enquanto voltava, distraído seguindo o caminho que memorizara do prédio a farmácia, seus olhos pousaram sobre algo no chão, um cartaz, e, curioso, olhou novamente, vendo de quem se tratava. Não era como se pudesse ajudar, apenas conhecia duas pessoas naquela cidade grande, mas sua curiosidade era muito maior que sua vontade de continuar andando, então se colocou a prestar atenção.
Estava errado. Podia ajudar, pois conhecia o garoto da foto, e apesar de não haver recompensa por informações, ter o nome e celular para contato era o suficiente, afinal estava se vendo naquela imagem, uma de suas melhores fotos.
Era um idiota por não ter, em nenhum momento de tudo aquilo, pensado que os pais poderiam colocar cartazes de procurado para si, mas fazia sentido não se preocupar com aquilo, afinal não havia como eles saberem que estava ali, ou tinha? Nunca dissera seu destino, e se pudessem rastreá-lo já o teriam feito, então talvez fosse apenas um panfleto perdido, trago de longe por alguém que o perdeu ou jogou fora ali, nada demais.
Não se espalhava panfletos de moradores em Haven Hill quando um morador sumia – coisa que só houve uma vez no passado –, todos se conheciam e as noticias circulavam rápido, então era desnecessário. Se o estavam procurando nas cidades vizinhas, então precisava tomar cuidado, pois ainda que distante deles, poderia ser achado, e ainda estava muito cedo para aquilo.
Não sabendo o que fazer, a única solução que o veio à cabeça foi mudar. Não podia estar com a mesma cara do que o garoto nas fotos, era perigoso por alguém poder o descobrir e ligar para o número dos pais, acabando com sua pequena aventura e sonho.
Colocando-se a andar, precisava urgentemente achar um barbeiro.
Passando pela porta da barbearia, odiava quando Yoan estava certo. O garoto o avisara que Spencer se perderia, mas julgara que ele devia ser moderno o suficiente para saber usar o mapa no celular, e estivera errado. O amigo tinha o péssimo hábito de estar certo, então em parte era sua culpa por não ter seguido Spencer para garantir que ele saberia voltar. Por mais que para si fosse uma simples descida de quarteirões, para ele era andar em uma rua que ele ainda não estava acostumado.
Por mais que houvesse se preocupado pela segurança dele já que o mesmo demorara, ficara mais tranquilo após a ligação que o pedia para buscá-lo no local.
Olhando ao redor, não via sinal dele entre aqueles que cortavam, nem entre os que esperavam por alguma coisa sentados. Como não havia alguém que pudesse perguntar, se aproximou do primeiro funcionário a deriva que viu.
— Licença, estou procurando meu amigo. Ele cortou cabelo aqui há alguns minutos. – explicou para ele.
— Aqui. – ouvindo a voz, agradeceu ao homem, olhando na direção de Spencer.
Olhando-o, ele estava tão diferente que nem o reconhecera de costas. O cabelo Justin Bieber foi cortado, agora estava menor, deixando a orelha visível por estar cacheado, não indo abaixo da mesma. A franja sumira, o que deixava a testa dele mais exposta, e não imaginara que ele estaria tão diferente com uma mudança de corte.
Quando ele o pedira para buscá-lo na barbearia, não pensara que não conseguiria o reconhecer.
— Por que a cara de paisagem? – ele perguntou vindo até si.
Gosto de cabelos cacheados, deu de ombros enquanto pensava, deixando a boca dizer outra coisa.
— Achei que soubesse pedir informação. – podia soar rude, mas era fato que não precisava ir até ali, não que não ficasse feliz em ajudar.
— Pensei que podia me perder e parar em algum lugar perigoso. – começando a andar, ele o seguiu.
— Acho que já está na hora de um tour pela cidade.
— Sério? – ele perguntou tão empolgado que se sentiu mal por, em parte, cinquenta por cento da fala ter sido irônica.
× NY ×
Alguns dias passaram desde que dançara com Francis na escola dele, e como o mesmo prometera após seu corte de cabelo, haviam saído para fazer um passeio juntos, ainda que sem Yoan já que o mesmo se recusara a sair em todas às vezes. Perguntara o motivo, mas recebera a única resposta de que ele não gostava de sair de casa, para nada. Tendo sido um passeio a dois, não se importou muito, já havia acostumado com Francis e Yoan, as implicâncias de um e as brincadeiras que não pareciam brincadeiras do outro.
A dupla era divertida, a paranoia, quando se fora, o fizera perceber aquilo, então tinham uma convivência bem mais normal do que no início, o suficiente para dizer que eles estavam se tornando seus amigos. Francis era mais fácil de entender, era engraçado quando não fazia piadas sobre si, e Yoan, ainda que mais complicado, era igualmente legal. Apesar de parecer meio fechado para as pessoas, interagiam bem, e entendia que ele era apenas daquele jeito, o que só tornava difícil às vezes entender as piadas dele por não saber se ele falava sério ou não.
Não haviam ido muito longe, atravessado a ponte para o outro lado, caso contrário seria um passeio mais longo e caro, até para si. Seu dinheiro estava chegando ao fim, tendo menos da metade do que tinha quando chegou. Fora fantástico todos os lugares que fora, não sabia que havia tantos pontos legais daquele lado, e, por aquele período, permitiu-se esquecer que precisava de mais dinheiro. Lembrava-se de cada lugar que fora, especialmente do parque de diversão.
— Larga o rádio. – pediu pela terceira vez. – Já disse que estou ouvindo música.
— Seu gosto é péssimo. – ele trocou de estação, tirando de suas músicas pop para colocar uma música eletrônica.
— Yoan, manda ele largar o rádio. – gritou para o garoto na sala.
— Vocês estão grandes demais para precisarem de babá. – ele se colocou a caminhar, entrando na cozinha. – E o gosto de ambos é péssimo. Coloquem um rock, pelo amor.
— Chato. – falando para Francis, saiu da cozinha, indo limpar a sala enquanto via Yoan revirar os olhos diante de seu ato infantil. Ouvindo um barulho na porta, deixou as coisas no canto, indo até a mesma. – Quem é?
— Eu.
— Eu quem?
— Eu. – diante da insistência da pessoa em falar sem se apresentar, julgou que os outros deveriam conhecê-la.
— Estão esperando alguém? – perguntou aos garotos, abrindo a porta. Tendo visão para uma garota de dezessete anos, mediana, pele morena, cabelo castanho e olhos castanhos claros, a expressão de confusão no rosto dela era maior que a sua.
— Quem é você? – ela perguntou, ainda que aquela pergunta fosse sua.
— Spencer.
— Argh, você. – olhando para Yoan entre a sala e a cozinha, deu espaço para ela entrar, julgando que a mesma o conhecia.
— Algum problema?
— Poderia citar muitos, começando com o fim do meu dia feliz. – deixando a porta fechada, Francis caminhou até si, ficando a seu lado enquanto assistiam os dois brigarem.
— Qual a história? – perguntou baixo, apenas para que Francis ouvisse.
— Eles se odeiam.
— Quais as chances de ele gostar dela e não saber mostrar? – perguntou. Não achava que a vida era um filme, mas eles bem que agiam como o típico casal que se implicava e se odiava, mas no fundo se gostava.
— Eu desisti depois de todo esse tempo. Lembra que chamei ele de assexuado, então. – ele deu de ombros, andando em direção à dupla. – Ei, ei, já chega. – afastando-os, o mesmo olhou para a garota. – O que a traz aqui hoje, Phoebe?
— Vim passar à tarde com meu amigo, mas não sabia que já tinha companhia. – ela falou, e virou o centro do olhar da mesma. – Por que não contou que tinha um namorado?
— Não somos namorados. – esclareceu o equívoco, não entendendo de onde ela tirara tal conclusão precipitada.
— Opa, então prazer, Phoebe. – caminhando até ela, aceitou a mão estendida da mesma.
— Eu não criaria expectativas. – chutando a perna dele, não foi forte o suficiente para machucar, mas fora para fazê-lo sentir dor.
— Agora entendo por que gosta de dar chutes. – comentou maldoso.
— E aí, vamos sair daqui e da presença de certas pessoas?
— Se não gosta da minha presença, então não entre na minha casa. – Yoan retrucou.
— Tecnicamente, ela é apenas meia sua. – a garota retrucou.
— Tecnicamente, ela ainda é minha. – vendo-os brigarem e implicarem um com o outro, percebia que Francis e as piadas eram bem tranquilas.
Seria um dia interessante, afinal teria a oportunidade de interagir com outra pessoa de sua idade, sendo uma garota, com quem não falava há um tempo.
× NY ×
Com as paredes finas do prédio, principalmente daquele apartamento, era impossível não ouvir as vozes… Não, era errado chamar de tal jeito, afinal começaram com gemidos, o que, ainda que ignorados de início, tornaram-se insuportáveis gritos com o tempo, como se aquele lugar já não fosse barulhento demais na vizinhança, piorando tudo quando alguém dentro do próprio apartamento decidia parecer querer acordar todos os outros.
Tendo chegado ao limite, não dormiria com fones apenas para abafar o som, aquilo soava ridículo e errado já que também morava ali e não era obrigado a acordar por causa dos barulhos inconvenientes causados por outro colega, sem contar que danificaria a audição se ficasse horas – mais do que o comum – com o aparelho no ouvido.
Irritado, não era o único naquela situação, apesar do outro parecer mais confuso. Estivera confuso, sim, mas aquilo fora antes de ser obrigado a acordar de madrugada, ainda mais que acostumado a acordar tarde.
Batendo na porta, de novo, não esperava resposta, não quando já era a, literalmente, décima vez que o fazia, tendo cansado de chamar o nome de quem estava ali. O que quer que ele estivesse fazendo do lado de dentro parecia melhor, o suficiente para que o ignorasse, pois apenas continuava com os gritos, os quais agora evoluíam para falas. Deveriam ter dito que aquilo não podia acontecer, que o horário do sono era sagrado também, contudo, culpava inteiramente o amigo.
— Devo chutar? – perguntou confuso, esperando que o outro, mais responsável, tomasse uma decisão.
— Apenas se for pagar outra. – ele o repreendeu, e com um gesto para que si esperasse, o mesmo saiu, indo até o quarto ao lado. Voltando, ele balançou uma chave em sua frente, se colocando a abrir a porta. – Modernidade, por favor.
— Ele sabe que você pode entrar a hora que quiser no quarto dele? – com a pergunta, Francis abriu a porta, olhando-o.
— Melhor mantermos como está. – claro que Spencer não gostaria de saber que não possuía privacidade no próprio quarto. Claro que concluíra, quando fora morar ali, que havia uma cópia da chave, e não se importava, afinal ficava mais no quarto do que em outro canto, então, se morresse ali dentro, seria bom que Francis tivesse um jeito de poder entrar facilmente.
Olhando para o lado de dentro, para o quarto imprudentemente com a janela um pouco aberta, o novato não tinha companhia, muito menos parecia dormir tranquilamente, pelo contrário, ele estava se remexendo na cama, falando alto, não como se estivesse tendo um pesadelo, como se estivesse tendo algo semelhante a um ataque ou terror noturno. Era fã de filmes de terror, então poderia dizer que ele estava como se vivesse um filme do Fred.
— Ele está tendo um pesadelo.
— Jura? – pelo agitar dele, parecia bem pior mesmo, ainda assim não podia deixar de fazer ironias com a cara dele. – Quando trouxer alguém, se informe se essa pessoa tem algum problema antes.
— Ah, claro, vou fazer um formulário bonitinho. – ele falou, igualmente sarcástico, e o deixou, entrando para tentar acordar o garoto.
— Spencer. – chamando, ainda que sabendo que não adiantaria, se aproximou da cama. – Ei. – abaixando, tocando-o, a mão do mesmo, a qual já estava para fora do cobertor, subiu atingindo seu rosto antes de ter a chance de desviar, e caiu sentado, levando a mão ao rosto. – Filho da… – os passos de Francis vieram até si, ajudando-o a levantar e afastar-se de Spencer antes que o atingisse.
— Deixa eu tentar. – com o pedido, apenas ficou massageando o rosto, deixando-o se aproximar do garoto que apenas pareceu piorar. Francis se abaixou, segurando as mãos de Spencer, o que não foi o suficiente. Tendo que ser um pouco mais agressivo, ele agarrou um dos braços do garoto, puxando-o para frente, alcançando o outro braço.
— Tenta mexê-lo. – sugeriu. Precisavam acordá-lo, afinal não podiam deixá-lo daquele jeito até o mesmo o fazer.
Com o ainda estado de sono dele, Francis se moveu de forma que não o soltasse, mas foi parar atrás dele, abraçando-o de forma que mantivesse os braços do mesmo presos.
— Spencer. – ele chamou, mas ainda era inútil. – Spencer. Não sabe de nada que possa ajudar? Você é o nerd aqui.
— Não sou especialista. – explicou. – Tente… falar com ele e acalmá-lo. – sugeriu.
— Spencer. Spencer, é só um sonho. – com a fala, pôde perceber que ele estava se acalmando, ao menos não mexia mais os braços como um desesperado. – É tudo apenas um pesadelo. Um terrível pesadelo, mas que vai passar. – ele explicou, e notando funcionar, aos poucos, Spencer começou a relaxar, o mínimo ao menos, e, com mais um pouco de paciência e insistência, o mesmo pareceu tornar a dormir mais tranquilo.
Olhando para Francis e ele para si, percebendo que funcionara, usaram o olhar para se perguntarem o que diabos acontecia com o garoto apagado.
A manhã chegara, o Sol estava forte, e com aquilo queria dizer que a luz que entrava pela janela era incômoda. Pela falta de um ventilador ali, deixara a janela aberta, ainda que com a cortina, a qual não fazia seu trabalho direito, e acordara sem vontade, tendo que levantar pela luz não o deixar desfrutar de mais cinco minutos – talvez dez.
Tendo ido tomar banho antes de tudo, usou uma toalha nova já que lavara a outra, e aproveitando da água fria, não demorou mais que o suficiente para que os outros não reclamassem de seu desperdício, não por causa do planeta, mas por causa da conta. Já que apenas teria água quente às noites, então não podia demorar de qualquer jeito. Gostaria de pensar que tinha um dia longo pela frente, mas não era bem daquele jeito, afinal não tinha aula, porque não tinha colégio.
Não sendo de todo ruim ficar no AP, acharia algo para fazer aquele dia também, afinal estava em Nova York, com certeza tinha o que fazer. Havia muitos lugares para conhecer ainda, podia usar aquela oportunidade para, enfim desde que chegara, ir aos pontos turísticos que tanto queria e admirava em NY.
Deixando para arrumar o cabelo após comer, se dirigiu para a cozinha.
— Bom dia. – cumprimentando-os enquanto passava para a lavanderia, colocou a toalha na mesma para secar, voltando. Estranhando ver Yoan sendo segurado por Francis, recebendo um olhar severo do mesmo, sentou-se.
— Bom. – o garoto recluso respondeu irritado com algo já pela manhã, talvez com ligação ao olho.
— Bom dia. – Francis sorriu tentando disfarçar o mau humor do amigo.
— O que houve com seu olho? – perguntou olhando para Yoan.
— Noite ruim de sono. – ele respondeu, e já que estava sendo meio vago por uma noite mal dormida não ser capaz de causar aquilo, algo similar a um inchaço de soco, resolveu deixar quieto. – E você?
— Não lembro com que sonhei, mas boa. – dando de ombros, não devia ser algo bom se não se lembrava. – Foi meio confortável demais, aliás. – sentia que não descansava daquela forma havia uns dias. Teve um momento que me senti como se estivesse dormindo com alguém. – confessou, começando a passar a manteiga em um pão. A dupla se encarou, trocando um olhar cúmplice, e estranhou aquilo. – Fazem isso com frequência ou começaram agora?
— Há um tempo. – Francis respondeu, voltando a comer.
Era de tarde, e com suas tarefas finalizadas, sua manhã perfeita se fora, trazendo sua tarde mais realista do que vivia. A realidade era uma merda, entendia agora porque as pessoas se drogavam, e ainda que não o fosse fazer, estava próximo pela frequência de vezes que tomava remédio para a cabeça doendo, o martelar sempre trago pela consequência de seus atos causados ao sair de casa, e ali estava, com mais uma dor de cabeça, tudo porque recebera outra mensagem.
Estava deitado quando ocorrera, quando o pai, ou talvez a mãe, apesar de ser mais difícil, usara o aparelho para mandá-lo uma mensagem. Ela não era experiente naquela área, então apenas o pai poderia ser aquele a mandar mensagens, e não fora diferente aquela tarde. Todo dia era uma mensagem, mas as ignorara após ele fazer menção ao motivo correto que o fizera sair de casa, contudo, aquela tarde recebera um SMS da operadora, o que o levara, por impulso, a abrir as mensagens, tendo visão da última do pai.
O que lera, tudo o que lera, ajudara a acabar consigo, pondo-o tão para baixo que a cabeça doer era até óbvio. Quisera poupá-los de todo sofrimento que poderia causar, toda dor que seria obrigado a ver nos olhos deles caso soubessem o que fazia, o que era por dentro, independente de quanto tentasse esconder e manter selado.
Tivera que comprar outra cartela de remédio por ter esgotado as suas, mas, assim que estava de volta, diria que o AP estava vazio já que não via sinal de Francis, contudo, sabia que Yoan devia estar entocado no quarto, como de costume. Achando que precisava fazer algo para não surtar ao pensar demais no problema que era para a família, não dormiria, não tão cedo, então procuraria algo, qualquer coisa, para fazer e se distrair.
Antes de poder entrar no quarto, um bater à porta o fez voltar à mesma, suspirando por ter saído dali a pouco. Perguntando quem era, sem resposta, o fez de novo, e ainda assim não obteve fala nenhuma. Olhando pelo olho mágico, não sabendo se era algum conhecido dos outros que não se identificava pela voz diferente quem perguntava, estranhou ao não conseguir ver de quem se tratava.
Não sabia se o olho mágico estava ruim por algum motivo, por isso apenas abriu logo a porta quando outro bater se fez audível. Ficando estático com a visão da pessoa do outro lado, não sabia se tentava fechar a porta e fingir que nada ocorreu ou se agia como se aquela fosse uma visita comum e que estava acostumado a receber naquele lugar.
— O corte combina com você. – a voz de Lawrence soou nostálgica para seus ouvidos.
O clima estava estranho, e pior apenas um enterro. Havia sentado na mesa junto dele, e desde então ficaram em silêncio, como se estivessem esperando um sinal de que podiam começar, e não sabia ele, mas aquela iniciativa deveria ser do mesmo, afinal não era o dono do AP, sem esquecer que fora ele quem viera atrás de si, nada mais certo que o mesmo começasse se explicando.
— Não lembrava que você gostava de café. – ele comentou, e olhou para o líquido no copo em sua mão, como no dele.
— O Yoan faz um café maravilhoso. – permitiu-se a brincadeira, pois era aquilo ou surtar sobre como ele o achara.
— Eu começo ou você…
— Como estão todos? – perguntou interrompendo-o, e pela expressão do mesmo, tão calmo e parcial, não sabia o que pensar. Talvez a família o houvesse chamado para levá-lo de volta, ou talvez outra pessoa o fizera, alguém que sabia onde estava e como contatar a pessoa.
— Bem, na medida do normal. – ele respondeu, e agradeceu quando o viu beber o café, não acrescentando nenhum toque de ironia ao dizer que poderiam estar melhores se não fosse por sua culpa.
— Estão muito preocupados? – perguntou atrás de mais informações visto que ele estava sendo bem vago.
— Você sumiu e só deixou um bilhete, preocupados é pouco. – ele respondeu, e sentiu-se mal, para variar.
— Não vai dizer que eu sou irresponsável, burro, imprudente e egoísta? – não entendia a falta de reações agressivas e estouradas dele, apesar do mesmo sempre ter sido o mais cabeça fria do grupo. – Me dar um sermão.
— Eu até posso, mas não vai gostar, e não sou seu pai. – podia imaginar o sermão que ele o daria. – Mas quer mesmo ouvir um? – ele o olhou, e sentiu severidade nos olhos do amigo por um instante.
— Não, acho que não. – com os olhos do mesmo suavizando, não sabia mais sobre o que falar com o mesmo, ou melhor, tinha uma vaga noção, só não sabia se estava pronto para ouvi-la sair de sua boca. – Como sabia que eu estaria aqui?
— Tá brincando? Você é o maior fã dessa cidade, se você fugisse e não viesse para cá, não sei mais pra onde iria. – ele respondeu, e foi tomado por uma necessidade estranha de rir, e se deixou levar pela mesma, acompanhando-o naquilo.
Ele o conhecia, bem o suficiente para, com certeza, ser o responsável por ter dito para espalharem os cartazes na cidade. A polícia, até onde sabia, não o estava procurando, e aquilo era bom, pois dificultaria as coisas para si e sua vivência no lugar. Provavelmente não era o único jovem – e nem seria – que sumia ali, então eles deviam estar ocupados com coisas mais importantes do que um caipira que se perdeu na cidade grande.
— Cortou o cabelo pra não ser reconhecido? – ele realmente o conhecia. – Fica bem assim, JB.
— Gostei do corte, e não me chama assim. – disse emburrado, e o mesmo riu, assumindo um tom sério após aquilo.
— Não precisa se não quiser, mas, se quiser se abrir e conversar, foi pra isso que vim. – ele ofereceu, e a oportunidade martelou em sua cabeça,
Percebendo algo, suas sobrancelhas ficaram a pouco de se juntarem com a estranheza que seu rosto assumiu.
— Meus pais não vieram com você? – achava que, talvez, eles também estivessem na cidade, procurando por si, tendo Lawrence sido o primeiro a achá-lo.
— Não, eu vim sozinho. – ele respondeu, e, talvez, apenas talvez, pudesse fazer aquilo.
— Eu precisava ficar sozinho. – soltando de uma vez, confessou sem nem ao menos perceber.
— Foi um pouco longe pra isso. – aquilo era o eufemismo do ano para si.
— Não é pelo que me disse. – tendo um estalo, falou. O fato de ele ter aparecido sozinho podia ser por aquele motivo, por achar que a última coisa que conversaram o motivou a fugir e fazer toda aquela loucura. – Já vinha planejando tudo há um tempo. – o hotel não fora escolhido por acaso, nem o horário de partida, muito menos seu armazenamento de dinheiro. – É uma longa história. – suspirou.
— Então precisaremos de mais café. – ele levantou o copo, indicando que já havia acabado com o dele.
Quando dissera que era uma longa história, não estava brincando. Contar toda sua situação mental de semanas – porque se voltasse mais no tempo ficariam dias sentados – levara mais tempo já que entrara em um assunto delicado, falando também sobre todos aqueles dias na cidade, e a tarde chegara ao fim, o que era muita coisa já que ele aparecera após o almoço, por volta das uma hora.
Ele o ouvira, tão calma e compreensivelmente que ficava, mais uma vez, mal por tudo aquilo. Tinha… Tivera a opção de conversar com ele ou com os outros, confiar mais naqueles que decidira confiar a ponto de chamar de amigos, e ainda assim não o fizera, escolhendo uma opção louca e que julgara como a mais fácil: fugir.
Tinha um… Vários bons amigos, e precisava ser grato aquilo.
Abrindo a porta, deu de cara com Francis, dando espaço para que ele entrasse. Gostaria que Lawrence conhecesse os garotos que estava acostumando a chamar de amigos, mas Yoan não saíra do quarto todo aquele tempo, enquanto Francis só aparecera agora depois de horas fora.
— Olha, até o desconfiado do Spencer tem amigos. – ele provocou, estendendo a mão para Lawrence.
— Lawrence.
— Francis.
— Engraçadinho. – disse.
— Se a comédia morrer, o mundo morrer. – após apertar a mão do amigo, ele se colocou a ir em direção do corredor, e o amigo parou no lado de fora, na porta.
Fazendo um som debochado e retardado, ele o correspondeu com o mesmo, seguindo o caminho dele.
— Ele é legal. – com o comentário do ruivo, olhou para Francis indo para o quarto.
— Ele é um saco. – voltando a encarar o amigo, viu um sorriso sugestivo no rosto do mesmo, e atingiu o punho no ombro dele. – Vou te socar. – ameaçou.
— Tá bem. – ele disse descrente.
— Sobre o que conversamos, ainda não falei com minha família, então…
— Minha boca é um túmulo. – ficava feliz do momento em que o tornara um amigo.
— Por isso precisa de uma pastilha. – provocou.
— Quem vai socar quem? – ele o atingiu no ombro, e parou de rir. – Até logo. – atingindo o punho de lado no dele na altura do rosto, atingiu novamente na altura da barriga, batendo as mãos em seguida, completando a despedida deles. – Não demora muito, ok? Não é o mesmo sem você.
— Ei, Lawrence. – parando com o mesmo já o dando as costas, continuou: – Como me achou exatamente aqui?
— Conheço alguém que rastreia celulares. – surpreso por alguém ter realmente pensado naquela possibilidade, sorriu.
— Tchau. – despedindo-se, o viu voltar a andar, e fechou a porta, virando-se para se assustar com Francis o encarando do corredor. – Não me assuste assim, assombração. – pediu.
— Gostei do seu amigo, parece legal. – e porque era.
— Lamento, ele é hétero.
— Não tem problema, prefiro loiros de qualquer jeito. – ele piscou para si, indo para o quarto, e revirou os olhos diante da provocação do mesmo.
Francis ficara o dia fora, mas não perdia tempo.
Não ter aula o estava fazendo perder noção de tempo, dos dias da semana, pois não tinha certeza do dia. Podia ser quarta, assim como podia ser sexta já, e como nenhum dos dois pareciam estudar, pelo menos, não em um colégio, não podia se basear por eles, não que fosse algo tão importante assim. Estava, sim, perdendo aula, mas seu histórico quase impecável o permitia faltar para estar na margem de faltas aceitável.
Logo pela manhã, após o café, havia batido na porta de Yoan, precisando falar com ele. Julgara que, ainda que conversando com Lawrence, contando a ele toda sua situação, só o fizera de forma tão tranquila por serem amigos, e precisava ganhar coragem – e experiência – em falar aquilo com outras pessoas, daquela forma se tornava cada vez mais natural. Chegaria o dia que, se perguntassem, teria que responder, e não podia ficar sem saber como dizer quem era, então treinaria com ele.
— Por que não podemos conversar no seu quarto? – perguntou. Seu quarto ficava próximo demais do quarto de Francis.
— Porque o Francis nunca entrou nele, você não será o primeiro. – ele respondeu, e se perguntava os segredos que o garoto guardava ali. – Por que não conversamos na sala?
— Porque é particular. – explicou, e como estavam sentados em seu colchão, apenas se preparou para o que precisava ser feito. – Meu amigo esteve aqui ontem, o Lawrence…
— Eu sei. – com a confissão, se perguntou como e de onde ele ouvira.
— Enfim, depois de conversarmos, eu contei pra ele algo, e queria que você fosse a segunda pessoa a saber. – explicou.
— O que é?
— Eu gosto de garotos. – falou em um só fôlego, admitindo ter sido mais rápido e fácil do que imaginara. Ele ficou em silêncio por uns instantes, e se perguntou se o mesmo não estaria recebendo a notícia ou talvez pensando que era óbvio. – Foi mais fácil do que pensei.
— Tudo bem, não é por nada, mas por que contar isso para mim? Eu sou religioso, mas não ouço pecados e falo sobre Deus, então você devia falar com o Francis, que entende sua situação. – ele argumentou.
— Achei que seria mais fácil com você justamente por não ser gay. – explicou, e percebendo que deixara algo passar, voltou. – Espera, é religioso? Logo você, com todo esse jeito…
— Acho que deve saber que não se julga um livro pela capa. – ele respondeu, e realmente não esperava que Yoan fosse de alguma religião. – Mórmon.
— Pra você também. – estranhando o que quer que aquilo significasse, falou.
— Sabe que Mórmon é uma religião, não é? – perguntou.
— É?
— Quais as religiões na sua cidade?
— Só temos o catolicismo. – contou.
— Claro. – ele falou como se aquilo fosse óbvio.
— Enfim, acho legal que seja amigo e divida apartamento com alguém gay sendo que tem sua religião. – comentou.
— Fui criado nessa religião, mas gosto de seguir o pensamento moderno progressista, ou seja, não fico preso à religião como se fosse absoluta. – aquilo era uma contradição. – Não gosto de achar que devo criticar o diferente.
— Nunca tentaram converter um ao outro? – perguntou em tom de brincadeira.
— Não, apesar de ter sido ele quem meio que me tornou mais tolerante à homossexualidade em si. – o garoto explicou, e se lembrando de algo, sorriu para si. – Ano passado ele me mostrou o vídeo de uma música chamada “Hands – a song for Orlando”, e isso me ajudou bastante, na verdade, é a única música dele que eu gosto. – o mesmo contou. – Ela fala que, se um milhão de mãos constroem muros, um milhão destroem.
— E?
— E que é linda, apesar de triste pelo motivo de ser criada, e não tive argumento contra ela. – entendia, por alto, o que ele queria dizer. “Muros” podia ser interpretado como “preconceitos”, “rótulos”, “divisões” e qualquer outra coisa, mas apenas teria certeza quando a ouvisse. – Há quanto tempo sabe?
— Acho que desde esse ano, mas só tive confirmação nesse tempo aqui. – confessou. – Apesar de… Se, você é um adolescente como eu, então posso dizer certas coisas…
— Spencer, eu tenho dezessete e não sou santo, posso entender o que for dizer. – com a fala, tomou coragem.
— Apesar de eu ser um hipócrita que já assistia…
— Pornô? Isso era óbvio, você demora demais no banho. – o mesmo comentário descontraído, e revirou os olhos, achando mais graça do que irritado. Ele não era um adulto ou criança, devia entender que aquilo era normal para si que não seguia uma religião.
— Cuidar desse cabelo demora, ok? – avisou. – E você tem que aprender a ter mais autocontrole com o que diz. – ele deu de ombros, não como quem não liga, como quem concordava, mas provavelmente não o faria.
— De qualquer jeito, e agora que sabe que gosta de garotos?
— Não sei. – respondeu pensativo. – Não há exatamente um guia para como agir no futuro, mas acho que o próximo passo seria minha família.
— Seja o que for, eu te ajudo se quiser, e tenho certeza que o Francis idem. – ele falou, e sentiu-se confiante por ter bons amigos ali também.
Depois da conversa com Yoan, havia ficado no quarto enquanto ele fora para o dele. Não estava trancado, se exilando do mundo por ter admitido, pela segunda vez, que gostava de garotos, muito menos mantendo distância de Francis, quem diria que sempre soube, não por algo como olhar para identificar outros gays, mas pelo mesmo o ter visto do lado de fora da boate.
Não estava se escondendo, nem de longe, acontecia apenas que havia só uma televisão naquele lugar, a qual estava sendo usada por ele, então ficar no quarto, assistindo programas por televisão online era a melhor opção. A internet da casa era boa, o suficiente para carregar os vídeos em uma velocidade aceitável.
Tendo saído do quarto para beber água, viu Francis caminhando no pequeno corredor, e seguiu seu caminho.
— Tenho algo para você. – ele falou, e parando, estranhou o que ele queria consigo. – Fecha os olhos e abre a mão.
— Por quê?
— Só faz, seu chato. – ele implicou, e fechando os olhos, curioso, estendeu a mão. Sentindo algo ser posto sobre ela, fechou a mesma, sentindo ser a embalagem de alguma coisa já que as bordas cortavam um pouco. – Abre.
— Camisinha? – perguntou olhando as cinco embalagens em sua mão. – Está me dando camisinha? – julgando que só entenderia se perguntasse, o fez.
— É pra comemorar que enfim se assumiu. – sua expressão confusa assumiu surpresa, e semicerrou os olhos.
— O Yoan te contou? – perguntou achando que teria que ter uma conversa com o garoto depois. A porta do quarto do mesmo foi aberta, por onde ele saiu.
— Sabe como as paredes são finas, certo? Eu estava passando e ouvi um pouco da conversa, o essencial. – com a resposta, deixou de encarar o antissocial. – Não estou dizendo para usar o quanto antes, mas se precaver é importante e tudo mais. – ele começou a dar as costas para si.
— Não sei o que ouviu, mas não me “assumi” ou coisa do tipo, não sou como você. – falou e o mesmo parou.
— Como? – ele perguntou.
— Spencer, não…
— Deixe que ele fale por ele mesmo. – com a fala de Francis, tão severa como nunca vira para com Yoan, ficou preocupado se havia tocado em um assunto delicado.
— Eu disse que não sou como você. – repetiu. – Não tinha que ouvir minha conversa, e ainda que um acidente, deveria ter esperado pra ver se eu falaria algo com você, e ainda assim, não sou como você. – disse, e ele deu dois passos em sua direção, mas não recuou. Estava irritado, e tinha todo direito, afinal ele não tinha que ouvir suas conversas.
— Não quero saber se ainda está no armário, quando quiser falar algo, não fale como se ser homossexual fosse ruim perto de mim! – ele avisou, tão sério que mal reconhecia o mesmo.
— Não foi o que quis dizer. – agora entendia que fizera besteira ao falar daquela forma, e que Yoan tentara o avisar do assunto sensível que aquilo era.
— Então maneire no seu jeito de falar, porque nós, os gays assumidos, já passamos por coisas demais para virem gays no armário para nos colocarem para baixo também. – ele o deu as costas, irritado enquanto marchava para o quarto, batendo a porta.
— Acho que falei besteira. – admitiu, ouvindo o suspirar de Yoan.
— Ambos falaram.
A noite caíra, e estava um pouco frio para a primavera, então ficar dentro de casa fora o melhor. Não sabia quando, mas a palavra “casa” começara a sair sem querer nas vezes que se referia ao local, e cansara de consertar no início, falando “AP” no lugar. Gostava dali, já estava acostumado, tinha um ar familiar já, e as amizades não eram ruins, gostava delas, ainda que não houvesse terminado de conhecê-las o suficiente para poder se considerarem amigos como fazia com os antigos.
Eles não substituíam, nem de longe.
Era por gostar tanto de estar ali, da experiência que estava vivendo, que precisava consertar sua borrada. Mesmo que admitindo ter falado demais, Francis não parecia que o ouviria, o mesmo o estava evitando já há dois dias, e por isso resolvera dar um jeito em tudo logo antes que perdesse a chance. Não queria se acertar com o garoto por querer continuar a morar ali, e sim porque gostava de morar ali, e não gostaria que sua experiência aterrorizante, nova, engraçada e incrível fosse por água abaixo por sua idiotice.
Como pelo horário qualquer coisa não combinava, ainda que fossem um trio de adolescentes, sendo Francis o mais velho com dezoito, resolvera agir já que os outros estavam em seus quartos, local que o mais velho passara a frequentar mais já que si ficava mais na sala e ele queria evitar o mesmo ambiente.
Pelo horário, julgara que estava quase na hora de os mesmos saírem para comer, então, achando que seria mais fácil se os fizesse aparecer, pegara uma panela e uma colher de pau, batendo na mesma de onde estava, fazendo barulho suficiente para chamá-los atenção e retirá-los dos quartos.
— Venham, povo. – parando quando, da parede da sala com a cozinha viu as portas serem abertas, voltou para a mesma, apagando a luz. Esperando de pé, não o fez por muito tempo, pois logo a luz foi acessa. – Oi. – cumprimentou-os, olhando para Francis atrás de Yoan, quem, após perceber que era o foco de seu olhar, se focou na mesa.
— O que é tudo isso? – Yoan perguntou.
— Minha especialidade: pizza congelada esquentada. – adolescentes grandes e responsáveis ou não, cozinhar não era seu forte, então era aquilo ou comida chinesa, e já experimentara há alguns dias. – Meu jeito de pedir desculpa. – Francis o olhou. O sabor fora propositalmente escolhido no que ele gostava, até porque não era bobo.
— Bom, vou deixar vocês comerem. – a fala de Yoan foi estranhada por si.
— É um pedido de desculpas, mas montei a mesa para três. Não precisa ir. – até porque ficaria mais nervoso se tivesse que lidar sozinho com Francis, e aquilo acabaria parecendo algum encontro.
— Já estava de saída, e nem ferrando vou ficar segurando vela. – sabia que não era o único que perceberia como aquilo parecia, e era óbvio o que ele estava fazendo. Yoan praticamente nunca saia, nem mesmo para compras, então o fazer agora era muito claro. – Se me amam, guardem um pedaço pra mim. – ele pediu, pondo uma touca, caminhando para fora. Devia estar realmente frio dada combinação dele: touca e jaqueta.
Deixados para trás, o fechar da porta trouxe o silêncio, e desconfortável, encarou qualquer ponto que não o garoto em sua frente. Se antes, bem no início, tinha medo dele e do que o mesmo podia fazer já que não o conhecia, agora só conseguia se sentir extremamente desconfortável com o fato de ter agido de forma tão estúpida com ele pelo mesmo dizer apenas a verdade.
— Eu…
— Vamos comer ou não? – o mesmo se sentou, e admitia, o cheiro de frango com catupiri o estava deixando com fome.
Fazendo o mesmo após liberar espaço retirando o copo e prato de Yoan, pegou a faca estendida para si para tirar um pedaço da pizza, a qual já estava cortada. Não se importando muito com talheres, comeriam com a mão mesmo, havia deixado guardanapos na mesa, daquela forma podiam limpar as mãos.
— Desculpa ser um idiota. – pediu.
— Não é o primeiro que encontro, a culpa é minha. – ele falou, não tocando na fatia gostosa e gordurosa no prato. – Se… decidir sobre o que é não é algo fácil, e eu não deveria ter imposto isso em você.
— Se assumir. – corrigiu-o, mostrando que não se importava com o termo. – Ainda soa estranho, mas é quem eu sou, e as pessoas terão que aprender a lidar com isso, como eu.
— Boa sorte. – ele levou uma fatia à boca.
— Não espero que seja fácil, mas… Não posso mudar quem sou, e gosto desse Spencer. – disse, e se pegou perguntando se, agora que chegara à conclusão definitiva, que se assumira de vez, voltar para casa era o próximo passo.
— Espera, coloca mostarda na pizza? – ele perguntou ao observá-lo fazer, enquanto o mesmo os servia com o refrigerante.
— Sim, gosto de mostarda e ketchup. – respondeu levando um pedaço daquela maravilha à boca.
— Gosto menos de você agora. – ainda que entendendo o tom de brincadeira, estranhou o motivo.
— Como assim, é maravilhoso! – defendeu seus acompanhantes.
Com o passar da noite, comendo pizza enquanto se entendiam, conseguiram fazer as pazes, e si pôde esquecer todos os problemas do mundo a cada risada, tudo o futuro que o aguardaria com a nova decisão.
A noite continuava, e aparentemente, nada de Yoan voltar. Quando terminaram de comer, Francis dissera que não precisavam se preocupar, ele havia ido em casa, então apenas guardara o pedaço dele e o refrigerante. Como já havia tomado banho, Francis foi para a cama após escovar os dentes, então teve seu momento no banho antes de voltar para o quarto, julgando que o garoto já deveria ter apagado.
Com as pazes feitas com Francis, consigo tendo se assumido, faltava apenas mais um passo, o mais importante: contar a família. O mais correto seria voltar e dizer cara-a-cara, afinal havia concluído o que fora fazer ali, mas não sentia-se pronto para partir ainda, largar o AP o qual se acostumara e os amigos que fizera. Podia estar prestes a fazer do jeito errado, mas era daquele jeito ou não sabia de que outro faria.
No quarto, arrumado para dormir, pegou o celular, encostando-se à parede. Abraçando o travesseiro, tentou se manter forte enquanto ligava para o pai, tendo tomado as devidas precauções antes. Pusera o aparelho com número bloqueado, daquela forma não era impedido antes de começar a falar.
Quando ele atendeu, dando “alô”, se adiantou:
— Sei que tem muito o que falar, mas deixa eu falar primeiro. – pediu, mas o falatório emocional dele fez com que perdesse a vez. O adulto falou sobre como estava preocupado e o queria de volta em casa, contando que estavam quase mandando prender Lawrence por ele ter dito que si estava bem, por ele saber onde estava, mas não dizer nada. Ficava feliz pelo amigo ter dado notícias suas e mantido seu paradeiro em segredo. – Sei que sim, mas preciso falar algo. – ele se acalmou do outro lado, e respirou fundo.
— O que quer falar?— ele perguntou.
Heaven
— Pai, eu… – sentindo-se ficar sem voz e entalar, julgara que dizer de uma vez seria a solução para evitar tal destino. Diria tudo que tinha para dizer de uma vez, daquela forma não dava tempo do cérebro voltar atrás e a língua travar, mas fora exatamente o que houve.
— Spencer? Está aí ainda? — com a pergunta dele, quis abrir a boca e falar, dizer que estava ali, que precisava explicar tudo, mas não conseguia. – Filho? Está tudo bem?
Não esperava sentir aquela sensação horrível, aquele sentimento como se a garganta houvesse se trancado para qualquer coisa que não fosse auxiliar na respiração, pois até a saliva estava difícil de engolir. Não sabia como exatamente se sentiria além de assustado e temeroso, mas agora entendia. A garganta fechada o dava uma ideia, e era assustador que dizer uma frase tão simples, com tão poucas palavras, fosse tão difícil.
O pai ainda o chamava, e começava a ficar preocupado consigo e seu silêncio. Era uma negação como filho, pois quando não o estava recusando ligações ou mensagens, preocupando-os pela falta de notícia, estava ligando para começar frases e não terminar, deixando-o com uma sensação errada da situação.
— Gay. – quando a palavra saiu, sentiu-se tão aliviado quanto poderia estar, e até sua respiração melhorou.
— Não entendi, pode repetir?— com a pergunta, imaginou que ele talvez houvesse entendido, e apenas queria que si repetisse, queria ouvir de novo, não por querer confirmar, mas por querer que si tivesse coragem para dizer novamente.
Não entendia o motivo de estar tão analítico, tão profundo sobre o que levara o pai a perguntar novamente sendo que poderia ser algo tão simples como ele não ter entendido, mas, ainda assim, respirou fundo para tomar coragem.
— Pai, eu sou gay. – repetindo, dessa vez completando a frase, levou a mão aos olhos por instinto para limpar a área, percebendo que estava chorando.
Havia, depois de alguns meses já sabendo o que era, mas negando, se assumido para o pai, e por mais que houvesse o feito para Lawrence, Yoan e meio que para Francis, sentindo um pouco de liberdade em cada momento. Sair do armário não era fácil de acordo com todos os Youtubers que assistira, mas fizera, e sentia-se liberto de uma corrente forte que o prendera pernas, braços, olhos e, principalmente, a boca.
— Eu sou gay. – repetiu, repetiu e repetiu.
Passando as mãos no rosto enquanto os olhos colocavam dias de choro para fora, não conseguia parar, não importava o quanto chorasse ou limpasse o rosto. Não havia recebido a resposta do pai ainda, e claro que podia ser negativa, mas sentia-se um pássaro livre, e não queria ser enjaulado.
— Desculpa se eu não…
— Por que está se desculpando?— ele perguntou, e não respondeu, apenas enxugou mais lágrimas. – Pare de chorar também, você já é um homem grande.
— Desculpa. – pediu.
— O que já disse sobre desculpa? — estranhando o tom dele, diria que o mesmo estava emocionado. – Você é meu filho, Spencer, isso não muda porque gosta de outros garotos. — enquanto continuava o trabalho sem fim de enxugar as lágrimas, um sorriso se abriu em seu rosto.
— Obrigado. – se arrependia de ter ligado, pois agora queria abraçá-lo.
Ouvindo uma voz feminina no fundo, alta o suficiente para que si conseguisse ouvir, ele falou algo, o qual não entendeu pelo mesmo ter afastado o celular da boca.
— Só um minuto.
— Ok. – com o pedido dele, se colocou a esperar, tendo a ansiedade adicionada a sua lista de emoções no momento. Ele aceitara bem, ficava feliz com aquilo, mas não conseguia ouvir muito bem, contudo, ele parecia falar com alguém, muito provavelmente sua mãe, para quem teria que se assumir também.
O medo o impedia de pensar em coisas boas, como o fato de que, talvez, ele não estivesse o condenando para ela, que talvez ele estivesse dizendo coisas boas e explicando sua situação para a mesma, contudo, o medo era mais forte.
— Sua mãe quer falar com você…— a fala dele foi interrompida, como se ele houvesse perdido o celular das mãos.
— Spencer, filho. – ouvir a voz dela o fez sorrir. Sentia saudade daquela voz, de poder estar com ela também.
— Mãe, eu…
— Seu pai falou comigo. — foi difícil não ficar nervoso com o conteúdo daquela conversa. –Sei que está aí, sozinho e confuso, mas podemos dar um jeito nisso. Assim que você voltar, iremos mais a igreja, daremos um jeito nisso.
Gallows
Com o quase sorriso aliviado que abrira ao contar se desfazendo aos poucos diante de sua realidade, a voz da mãe ficou cada vez mais longe, e se tornou definitivo quando não conseguiu mais sustentar o braço levantado, deixando o mesmo cair aos poucos até o celular tocar a cama, onde ficou.
Aquela sensação de alívio que sentira ao tirar um peso dos ombros, o peso, fora substituída por uma dor forte, a qual começara especificamente no peito, subindo em seguida. Sua cabeça fora tomada pela dor, e levando uma das mãos à mesma, sentiu-se tonto, como se o mundo houvesse dado um giro mais forte, deixando-o de tal jeito.
O mundo não girara, infelizmente, si o fizera. O que mais temia acontecera, e agora talvez fosse capaz de entender como Francis se sentira – ainda que em parte – ao ser negado pela família. Quando deixara sua casa, sua ideia original fora não fazê-los sofrer, e ainda agora pensava neles, no sofrimento que os causara e causava, no caso da mãe. Pensar em ser rejeitado, ser considerado vítima de uma possessão ou similar, o deixava mal, ainda mais que nunca pensara a fundo naquilo além do dia que soubera que houve com Francis.
Aceitar quem era, ligar para os pais e contar para eles não parecia fácil nem mesmo em pensamento, contudo, o fizera, tão inocente e despretensioso que, no fundo, achara que seria uma maravilha, que seria aceito sem muitos problemas e viveria feliz e tranquilamente com eles.
Levantando-se, alcançou a cartela de remédios, precisando tomar algum logo ou aquilo pioraria, e gostaria de evitar tal destino. Caminhando para fora do quarto, tendo esquecido o celular, não chegou a ouvir a voz do pai o chamando do outro lado.
Caminhando pelo corredor vazio, o silêncio reinava pelo lugar, sinal de que Francis já havia ido dormir, e sem problemas, continuou o caminho para a cozinha atrás de algo para ajudar o remédio a descer. Abrindo a geladeira, pegou o copo de água já deixado ali dentro, indo até a pia.
Retirando um comprimido, levou-o à boca, bebendo do líquido para ajudar a descer. Esperando, precisava se concentrar para perder aquela dor, se esquecer dos problemas e deixar qualquer coisa para trás, daquela forma o remédio agisse mais rápido e sua dor parava.
Não estava acontecendo. Não sentia que a cabeça parava de doer, que seus problemas eram levados embora milagrosamente pelo poder da ciência, e se pegou imaginando se usar drogas era mais efetivo, porque não conseguia suportar as pancadas que parecia levar dentro da cabeça, as quais estavam acabando consigo.
Pegando mais dois comprimidos, encarou-os se perguntando se deveria tomar para agilizar o processo. Se um agia tão devagar, três agiriam com mais velocidade, terminando logo com aquele sofrimento que era a cabeça doendo.
Levando o copo à boca para ajudar os outros dois comprimidos, se preparou para não sentir mais nada.
× NY ×
Continua...
Notas finais
Amo esse casal FranSpe/SpeFran (?), FranSpen/SpenFran (?). Honestamente não sei como pessoas inventam nomes pra casais. Deve ser uma habilidade, e aparentemente não tenho.
A dança especifica é a terceira, mas podem ver as outras caso achem que elas também ficam legais na cena. Alguns movimentos eu adicionei, então não verão aqui: https://www.youtube.com/watch?v=Kl5B6MBAntI
Por mais que tenha tido esse final lindo, gostaria de fazer algo mais realista, tipi ele morrendo, mas quem sabe no futuro e em outra história.
Teremos um dois, mas que levará um tempo, pois vou fazer outra história agora, por isso, me sigam e fiquem atentos as notificações, será mais fácil.
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