Notas iniciais
Por Angel of Silence

"Você sabe que meu sofá estará sempre disponível."

Natasha virou os olhos verdes para Clint, e colocou uma mecha de seu cabelo vermelho e encaracolado atrás da orelha. "Sei, mas já saí daquele apartamento perto do Starbucks, não vou sair daqui também."

Mas Clint a conhecia bem demais. Ele pausou o jogo, o que fez com que Natasha gemesse do que parecia ser dor física, porque ela sabia o que viria a seguir. Conversa.

"Você odiou essa casa desde o momento em que colocou os pés aqui", Clint disse, e seu tom não deixava espaço para contestação. "Por que ainda fica?"

Os dedos de Natasha se apertaram em torno do controle do XBox, e de repente, o peso da arma no bolso da jaqueta se multiplicou. "Vantagem estratégica. Essa casa é isolada. Não tem muitos desconhecidos por perto. E já fiz uma pesquisa total pelo histórico delas. Alunas de faculdade, ficha limpa, até onde pude ver."

Clint hesitou, então assentiu, cedendo. Ele sabia que ela tinha razão, e que se não tivesse sido cuidadosa assim a vida inteira. já teria morrido mesmo antes de se conhecerem. Ele se virou novamente para o videogame, e deu play. Jogar iria deixar Natasha mais aberta, ele supôs, e corretamente. "Você poderia tentar ser amiga delas."

"Não", ela disse imediatamente, sem pensar duas vezes. E, conhecendo-a, ele sabia que ela já havia pensado no assunto, e diversas vezes, observado-o imparcialmente e sob diversos ângulos. "Só para me aproximar delas, e começar a gostar delas, e então elas serão sequestradas e usadas como isca para me fazer ir atrás delas e virar hóspede de sei-lá-quem. Não, muito obrigada, eu não cometo o mesmo erro duas vezes. Eu nem devia ser amiga sua em primeiro lugar."

"Você não pode viver sozinha para sempre", Clint apontou. "E se você pode ser minha amiga..."

"Funcionou muito bem por doze anos. Além disso, você tem treinamento, quase tanto quanto eu. Você sabe se cuidar..." e então ela sorriu, não sendo capaz de resistir à tentação de adicionar: "...para um garoto."

Eles jogaram por mais alguns minutos em um confortável silêncio, um ao qual eles tinham se acostumado mais de dez anos antes. Finalmente, Natasha falou de novo. "E Marie?"

Clint sorriu ao pensar na irmã mais nova. Pobre garota. "Bem. Estava querendo me visitar, mas sabe como é. Ela não gosta muito de sofás, e a escola está... como que ela disse... 'tentando me matar lenta e dolorosamente'. E ganhou um cachorrinho."

"Sério?" Natasha se surpreendeu. Marie nunca havia sido muito fã de bichos em geral, e sua cabeça vivia no mundo da lua, trazendo morte rápida à todos animais de estimação que ela já teve. O que durou mais foi Fred, o peixinho dourado, quando ela tinha treze anos. Ficou vivo por três impressionantes semanas. "Eu dou sete dias antes de ele fugir."

"Ha. Eu dou cinco."

*

Estava escuro quando Natasha acordou. Muito escuro. Ela pulou na cama, a arma previamente escondida debaixo do travesseiro apontado para o espaço vazio na frente dela. De modo instintivo, ela tentou registrar tudo de uma vez: a escuridão, cortada por uma brecha de luar que havia se esgueirado pela cortina, o metal em suas mãos vagarosamente se esquentando, a trava de segurança destravada, o ar imóvel como estaria dentro de uma caverna, sua respiração acelerada pela adrenalina do pesadelo e o cobertor meio fora da cama, quando ela o havia chutado para longe.

Lentamente, ela baixou a arma, travou-a de novo e se levantou. Com três rápidos e longos passos, ela atravessou o quarto e acendeu a luz, cegando-se por uns instantes. Piscou várias e repetidas vezes, até que se acostumou com a súbita claridade.

Vazio, como ela sabia que estaria. As malas em um canto, ainda não completamente desfeitas, a prateleira já estufada de livros, as armas semi-polidas em cima da escrivaninha.

"Está vazio", Natasha disse a si mesma, mas checou duas vezes se a porta e a janela estavam trancadas. E estavam, como ela sabia que estariam.

Ela se deixou cair na cama, sentindo-se subitamente dominada pelo cansaço. Conferiu as horas no relógio.Uma e meia da manhã. Havia tido quatro horas de sono.

Melhor do que na maioria das noites, ela pensou, mas o pensamento não lhe trouxe alegria. O quarto lhe pareceu abafado, e ela se levantou de um salto e abriu a janela abruptamente. O vento frio lhe alcançou, ajudando a clarear seus pensamentos. Era um bom exercício, ao qual ela já estava acostumada, desde seus primeiros anos na fuga. Mas naquela noite, não era suficiente.

Decidindo-se, Natasha trocou de roupa em questão de segundos, deliberadamente evitando olhar-se no espelho — ela não estava com paciência para examinar suas cicatrizes, não naquele momento — e depois de colocar a arma no coldre, saiu do quarto silenciosamente e desceu as escadas.

Ela fez a maior parte do caminho tentando, com sucesso, evitar os pontos que rangiam e o local dos móveis. Errou apenas um dos degraus, jurando que era o último, não o penúltimo, que gritava como um gato sendo atropelado. O som reverberou intensamente na casa silenciosa, e ela se encolheu por um momento, para logo em seguida se repreender por ser tão medrosa. Medrosa e estúpida.

"Burra, burra, burra" ela murmurou para si mesma, e prosseguiu com seu desejo intenso de sair daquela casa enorme, caindo aos pedaços.

Por alguns segundos, sua mão hesitou sobre a maçaneta, esperando que a porta fosse subitamente escancarada e todos os fantasmas de seu passado entrassem por ela, gritando e rindo e mandando, com aquele sorriso enviesado e doentio, com uma pinça coberta de sangue seco.

Deixe de ser infantil, ela pensou, e então repetiu em voz alta, como se as palavras se tornassem verdadeiras se pudessem ser ouvidas. "Deixe de ser infantil." Mas, mesmo se gritasse as palavras, ela tinha um sentimento que não se tornariam reais. Ela estava sendo boba e infantil, e seria para o resto de sua vida. Isso não fez com que ela se sentisse menos feliz ao deslizar a língua sobre os dentes, e encontrasse todos, inclusive os falsos, no lugar.

Ela trincou os dentes, e saiu da casa, suspirando quando foi engolfada pelo vento.