Haunted House
11 Natasha Romanov
Notas iniciais
Ao ouvir passos atrás dela, Natasha se virou, uma de suas mãos discretamente deslizando para a faca e a outra segurando o prato de porcelana com firmeza (se jogado como um frisbee, um prato de porcelana poderia fazer um bom estrago na cara de alguém, e Natasha tinha prática com isso), e por isso deu um suspiro aliviado quando viu que era apenas Helen que se aproximava.
Helen ofereceu um sorriso tentador, seus olhos não-treinados deixando passar a faca bem presa nas mãos da outra. "Oi."
"Oi", Natasha respondeu de modo hesitante, tomando o cuidado de deixar tanto voz quando expressão desprovidas de qualquer emoção que fosse. Ela decididamente não estava acostumada com gentileza, palavras macias ou tentativa de aproximação de qualquer modo, visto que a fina cicatriz que descia em diagonal de sua têmpora até ser rudemente interrompida debaixo da orelha poderia assustar as pessoas. E ela decididamente suspeitava de coisas com as quais não estava acostumada mais do que das outras.
"O que está comendo?" Helen perguntou, dando um passo na direção da russa. Parecia insegura, como se, de certa forma, temesse a outra. A distância que Natasha mantinha das outras estava deixando claro que ela desejava ser deixada em paz, aparentemente.
Isso, é claro, não pareceu ser obstáculo para Helen, que deu mais um passo na direção de Natasha, e na cabeça desta, tudo se encaixou. Essa é uma daquelas que quer ajudar, pensou amargamente. Tola.
"Sanduíche", ela disse, ainda inexpressiva.
Parecendo ter reunido a coragem necessária para se aproximar, Helen se sentou ao lado de Natasha (que instintivamente puxou sua mão para mais perto do corpo e enrijeceu os músculos, preparando-se ser atacada) e perguntou suavemente, "De o quê?"
"Queijo, basicamente", Natasha respondeu. "Não tinha mais nada na geladeira. Okay, Helen ainda não provou ser uma ameaça. Ela podia tentar ser simpática. Inclinou-se para a frente, dando uma mordida no sanduíche. O pão estava seco, e ela mal sentiu o gosto quando o engoliu. "Então... você está fazendo faculdade."
Helen assentiu, sorrindo. Se de orgulho por estar estudando, ou de alegria por ter feito com que Natasha parecesse se socializar, era difícil dizer. "Sim. De artes."
"Eu fiz de Literatura e História." Natasha comentou.
"Ao mesmo tempo?" Helen parecia surpresa.
Natasha deu de ombros, dando as dentadas finais na comida. Não era, nem de longe, a coisa mais impressionante que já fizera.
"De onde você é?", Helen perguntou, disposta a fazer com que a outra continuasse falando.
"São Petersburgo. Petersburgo da Rússia, não da Flórida, caso você seja uma patriota alienada." Natasha respondeu casualmente. Ela já havia lidado com respostas do tipo Você não tem bronzeado da Flórida, ou até mesmo E de onde vem o seu sotaque? Vale a pena comentar que ela mais tarde alegou que seu corpo reagia instintivamente à idiotice, e que aquela pessoa estava provocando um holocausto nos neurônios dela.
Helen pareceu achar graça. "Legal. Você sente falta de lá?"
Natasha inclinou a cabeça. "Da cidade, do país...?"
"Tanto faz. Sente falta de um?"
"Bem..." Natasha hesitou, sem saber quão evasiva poderia ser, e o que e quanto poderia revelar. "Petersburgo em si não tem nada de especial. Mas a Rússia é um lugar agradável de se viver."
Loucamente ela revisou suas duas frases na cabeça e como as disse, se perguntando o que poderia ter levantado suspeitas.
Mudou se posição na cadeira, resolvendo mudar também o rumo da conversa. "Soube que seus pais morreram."
Helen sorriu tristemente, e Natasha procurou em seus olhos qualquer sinal de antiga ira ou mágoa. "Minha mãe morreu — meu pai abandonou meu irmão e eu em um orfanato. Deve ter sido difícil ficar viúvo e com duas crianças para cuidar, tão de repente."
A boca de Natasha estava aberta em surpresa ao não encontrar nada que revelasse qualquer sentimento hostil nas palavras, no tom de voz, na expressão ou nos olhos de Helen. "Você lhe concedeu anistia total?", ela perguntou, abismada. Mas o que mais a surpreendeu foi outra coisa. Ela se inclinou para a frente, de modo quase inconsciente. "E seu pai nunca... o pior que ele fez foi abandonar você e seu irmão?"
Agora Helen também parecia surpresa com a incredulidade da outra. "Sim... Isso parece uma experiência pessoal."
Natasha enrijeceu, e sentiu as memórias no fundo de sua mente se rebelando e tentando se soltar. Rudemente, ela as agarrou pelo pescoço, dobrou, chutou e as forçou de volta para o buraco de onde vieram, passando a chave na fechadura. "Pode-se dizer que sim", ela murmurou.
O olhar que recebeu foi quase de pena, e isso foi o estopim para uma repreendida em si mesma, por ser tão patética e fazer os outros dirigirem pena à ela. Sentou-se mais ereta na cadeira. "Perdeu sua mãe também?", Helen perguntou.
"Sim", Natasha havia vestido novamente aquela máscara de falta total de sentimentos. "Eu tinha seis anos."
Nesse ponto, decidiu que a conversa estava total, e absolutamente encerrada. Sem dizer mais nada, jogou a louça na pia e se retirou para o quarto.
*
Olhando pela janela, Natasha tentou se convencer que estava tudo bem, que o mundo era o melhor lugar que poderia existir e que seu telefone tocando no colo era apenas Clint, ou então Sam, ou Michael ou Gabriel.
Eu não quero trabalhar hoje, ela pensou. Por favor, seja engano, por favor, seja engano...
Ela espiou a tela, e franziu o cenho.
De todos os adjetivos que poderiam descrever a vida dela, perigosa e estranha estavam, de longe, no topo da lista. Natasha lidava com drogas, armas, torturadores, loucos, assassinos, ladrões, estupradores, chefes da máfia, traficantes e coisas do gênero desde que se entendia por gente — às vezes fugindo, às vezes formando uma aliança com eles, às vezes caçando-os. Poucas coisas a surpreendiam, e menos ainda a assustavam, e eram ainda mais escassas as situações nas quais Natasha Romanov queria desistir. (Até aquele dia, a única coisa que havia abarcado tudo dito acima, foi o livro 50 Tons de Cinza. Ela perdera todo o resquício de fé na humanidade depois de ter lido dez páginas, e passou o resto do dia largada na cama em estado de choque profundo, mas isso é outra história.) Portanto, foi fora do comum ela achar estranho ver um número na tela do telefone, um número que ela não esquecera apesar de tantos anos terem se passado... um número que pertencia à uma pessoa há muito morta.
Cuidadosamente, seu dedo trêmulo pressionou o botão verde, e ela levou o aparelho ao ouvido.
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