Hats Up

3 Capítulo 3


Notas iniciais
É um dom

— Eu mandei soltar as velas! — gritou a mulher. — Você é um inútil, Barzat.

O garoto passou a mão pelo cabelo ensebado e encarou o rosto furioso da mulher. Sabrinne o encarava com ar superior. Era uma mulher bonita, de longos cabelos cor de ferrugem que brilhavam ao sol, e belos olhos quase negros. Colocou a mão na cintura e lançou um sorriso cínico ao moreno, logo se virando e partindo para a cabine principal. O Capitão permanecia sentado à mesa, fazendo rotas em um grande mapa estendido sobre a madeira importada. Sabrinne e ele eram casados há alguns meses. A mulher não possuía o costume de permanecer com o mesmo marido por tanto tempo. Mas havia um motivo para isso.

— Você tem a pior tripulação existente — resmungou a ruiva.

O marido não a respondeu e seguiu com seus olhos colados ao mapa, decidindo se iriam ao Norte ou ao Leste. Sabrinne ficava com raiva destes homens nestes momentos.

— Não gosto do fato de você passar o dia todo escondido aqui dentro. Parece ter medo do sol — concluiu a mulher.

— Você está me atrapalhando — Navin disse lhe lançando um olhar raivoso.

Sabrinne resolveu retirar-se do local para não se estressar mais e perder a cabeça como na última vez. A mulher retirou sua arma da bainha no cinto da calça e subiu até uma das velas. O clima estava perfeito para navegar pelos perigosos oceanos. O céu estava límpido naquela manhã e as nuvens desapareciam aos poucos conforme o vento ficasse mais forte. Passou a mão pela madrepérola gelada que cobria o cabo e mirou em um pássaro que sobrevoava o navio. A ruiva possuía uma excelente mira, ainda mais quando se sentia confiante com sua arma. E aquela da qual usufruía era sua favorita. A que havia ganhado de seu primeiro marido. O pássaro caiu rapidamente, afundando no oceano. Sabrinne sorriu e guardou sua arma novamente.

Desceu do mastro e deu de cara com Barzat. O jovem era moreno e estava sempre a usar uma faixa vermelha amarrada à testa, um tanto enroscada nos cabelos crespos. Ele encarava a mulher, que logo se irritou de ser observada.

— Você não tem mais o que fazer? — Ajeitou a fivela de ouro de seu chapéu.

— Não. O Capitão me liberou.

— Seu Capitão está ocupado demais fazendo as rotas. Eu estou no comando.

O garoto ficou quieto por uns segundos até que a ruiva resolveu pronunciar-se novamente.

— Vá limpar o convés.

— Acabei de fazer isso, senhorita.

— Limpe-o novamente.

E assim o garoto virou-se e pegou o esfregão novamente. Sabrinne não se importava com as pessoas que trabalhavam para ela e para seu marido. Ela não se importava com muita gente.

Caminhou até a cabine novamente e retirou sua faca da bainha. Ao ranger a porta velha, encarou seu marido nos olhos, por mais que os dele estivessem fixos no mapa. Assim que Navin a olhou de relance, ela fincou a faca bem no centro do papel antigo sobre a escrivaninha e lançou um curto e direto sorriso. O homem a fitou com desdém.

— O que você quer, Sabrinne?

Mexendo em seus cabelos cor-de-fogo, rodeou a escrivaninha com os dedos posicionados no cabo da faca. E então, começou a passar suas mãos pelo peitoral do marido e beijar seu pescoço. O homem, confuso, resolveu calar-se e se aproveitar do momento de paz, sem reclamações por alguns instantes.

— Bem... — inclinou-se sobre ele, o olhando profundamente em seus olhos castanhos. — Talvez devêssemos fazer uma pequena parada. Quem sabe? Talvez visitar um bar, matar uns guardas, roubar joias dos inúteis nobres...

Ela estava acostumada a fazer isso. Era um tipo de “feitiço” apenas seu. Todos seus maridos anteriores haviam roubado por ela, trocado tudo por ela, afundado seus navios por ela. Morrido por ela. Alguns ela havia matado.

— Seria uma ótima ideia. Preciso de certo descanso. Vamos parar na cidade mais próxima — ele beijou rapidamente os lábios da mulher. — Diga para Barzat chamar os outros para ancorar o navio no próximo porto.

A mulher sorriu por ter conseguido o que queria. Ela ainda duvidava um tanto de sua capacidade de conseguir tudo facilmente. Retirou sua faca do centro da escrivaninha, onde havia ficado um risco profundo, e saiu da sala, voltando ao convés.

Sabrinne gostava da sensação de estar navegando. Nasceu em uma família de ciganos loucos da capital, mas fugiu para os navios. Vários homens duvidaram dela em seu percurso, mas sua força era maior que a de trinta homens daqueles juntos. Casou-se com o primeiro homem que duvidara de si aos quinze anos. Uns meses depois de se fingir da pessoa mais inocente do mundo, finalmente retirou a espada da bainha e fincou-a no peito gordo do marido. Sem piedade alguma. Transformou-se em procurada por vários piratas da antiga tripulação. Mas ela não conseguiu se conter. Não quis deixar o marido ser um tremendo machista em certo ponto. Matava por diversão e admitia isso.

Fora se casando ao longo de sua história, tudo para conseguir o poder de tripulações, das quais morriam de medo da mulher. E ela se divertia intimidando-os. Navin estava sendo seu marido por mais tempo, apenas pelo fato dele a tratar bem, como uma esposa de verdade e respeitá-la como deveria. E Sabrinne gostava bastante dele para mata-lo tão cedo.

— Barzat! — Gritou pelo marujo. — Ancore o navio no porto mais próximo.

O garoto lhe olhou com certa dúvida, o que a deixou quase que irritada. Para todos os tripulantes, o capitão ainda era seu marido, e ela não parecia ter o mesmo posto, por mais que assumisse mais que Navin.

Às vezes parecia uma mulher cheia de mau-humor, mas isso porque ela não se sentia na obrigação de se apegar a nada e a ninguém. Então não precisaria ser gentil com eles. Já estava cansada de abandonar tudo e tornar-se sempre uma fugitiva, mas era um vício do qual ela não conseguia se livrar. Talvez até fosse certa maldição, mas ela nunca fizera mal algum a qualquer feiticeira.

Não demorou muito para a âncora fincar-se no fundo do mar. Sabrinne se inclinou sobre a frente do navio e observou o porto onde haviam parado. Era distanciado da cidade, que parecia pequena, por mais que estivesse sendo observada de um ângulo distante. Sabrinne notou que havia um bar logo descendo no porto. Por mais que não houvessem muitos guardas, não podiam se arriscar deste modo, então costumavam ancorar o navio um tanto antes de local de descida.

— Vamos visitar o bar, primeiramente — disse Navin ao sair da cabine.

O homem caminhou até a esposa e lhe deu o braço. Com um sorriso, Sabrinne desceu do navio acompanhada do marido. Caminharam da praia até o porto, e seguiram para o bar, com os chapéus na cabeça. Por mais que os chapéus fossem a marca de como identificar um pirata de longe, eles não se importaram. Estavam com uma tripulação grande, e era uma cidade pequena. Qualquer ameaça, tinham todo tipo de defesa.

Ao entrar no bar, retirou a arma de madrepérola da bainha e apontou para o que pudesse aparecer em sua frente. Desenlaçou o braço do marido e caminhou calmamente. Escondendo o revólver nas costas, foi até o balcão e deu uma rápida olhada por todo o local. Viu o servente colocando rum em uma caneca e viu um homem de cabelos cor-de-mel sentado de costas em uma das mesas. Ele parecia ocupado, então não notou a presença do casal. Navin matou, silenciosamente, o barman. Com um corte lento e forte no pescoço, tapando a boca da vítima para não soltar nenhum ruído durante a morte dolorosa. Sabrinne caminhou até o homem sentado na mesa e, quando fora colocar a faca em sua garganta, ele segurou a mão da mulher em um movimento rápido. Ao virar-se, a mulher dos cabelos cor-de-fogo conseguiu adivinhar quem era apenas pelos olhos esverdeados.

Northre.

Sabrinne — disse o homem, agora apontando a faca para ela.

Navin, atrás dos dois, apontava uma arma para o homem, caso ele matasse sua amada.

— Me dê um motivo para não lhe matar neste exato momento — disse Northre.

— Você morrerá em seguida — a mulher soltou o melhor de seus sorrisos intimidadores.

— Por que nós simplesmente não damos meia-volta e fingimos nunca ter nos encontrado novamente? — Sugeriu o homem.

— Você tem medo de que eu lhe faça o mesmo que fiz com sua esposa? — Provocou a ruiva.

— O que ela fez com minha mãe? — Uma garota de cabelos castanhos presos em uma trança entrou no bar. Ela já devia estar escutando a conversa há tempo.

— Meredith, longe daqui — falou o homem com os cabelos cor-de-mel.

A garota caminhou em direção de Navin, com a faca em posição de ataque. Sabrinne começou a rir na frente do homem que ameaçava matá-la.

— Ora, ora... por que nunca disse que tinha uma filha? — Aproximou mais sua faca do pescoço do homem.

— Isto não é da sua conta, Sabrinne.

— Uma criança está ameaçando me matar? — Navin riu e a menina quase o atacou, mas fora impedida por seu pai, que lhe fez um sinal.

— Vão embora daqui — disse Meredith.

— Hm... Não. Gostei deste bar — disse Sabrinne enquanto dava um passo para trás.

A mulher sentiu que a garota estivesse explodindo de raiva e curiosidade naquele momento. Ela causava isto nas pessoas também. Ter tirado a vida da mãe dela já fora um trauma, então achou que não precisaria deixar outro de tirar a vida de seu pai em sua presença. Deu dois passos para trás e retirou a faca do pescoço do homem, já sabendo que ele não a mataria, por mais que a odiasse.

— Navin, talvez devêssemos procurar outro porto. Este está apodrecido. O que acha de irmos para o Norte? — Sugeriu, dando ênfase na palavra “norte”, já sabendo que provocaria mais Northre.

— Como quiser — disse o homem que logo se afastou da garota que o ameaçava também.

E os dois saíram do bar, voltando para o navio, aguardando Barzat com os outros tripulantes para voltarem ao ponto de encontro.

Notas finais
Que mais parece maldição