Hart
12 Dia 35
Aart mal trancou a porta e quase sufocou com os beijos de Sjors. O garoto sorriu em meio a pegadas e chupões, e o outro o ajudou a tirar seu casaco. As costas de Aart tiveram um encontro brusco com a parede da sala e o oxigênio — que já era escasso — tornou-se impossível.
— Perdão. — Sjors murmurou com os lábios vermelhos e o ar saindo rápido dos pulmões.
Aart sorriu.
— Perdoo se fizer de novo. — respondeu arranhando o tecido da camisa do outro. Um meio sorriso surgiu nos lábios de Sjors e toda vez que ele fazia aquilo o coração de Aart batia ansioso.
Sjors o puxou para o sofá e Aart fechou os olhos sentando-se no colo dele. As mãos habilidosas do homem cobriram as têmporas do ruivo e ele suspirou. Beijou o queixo de Aart e o ouviu rir, deslizou os dentes pelo pescoço mordiscando a pele. Retirou a camisa do garoto e Aart aconchegou-se mais no homem. Sjors desceu as mãos para o traseiro do ruivo — o que o fez rir e abrir os olhos. Aart fez o mesmo por pura provocação, mas seus olhos se arregalaram quando ele achou duas camisinhas no bolso direito da calça de Sjors.
O garoto gargalhou tanto que ficou vermelho-sangue.
— Espera, espera. — ele pediu puxando o ar novamente. — Você realmente estava com isso desde o começo?
Sjors rolou os olhos e corou.
— Sabia que íamos transar? Isso é muita presunção, não acha que invertemos os papéis? — Aart provocou ainda rindo.
— É mais prático.
— Então sabia que iríamos transar.
— Foi um palpite. — corrigiu.
— Não, não foi. — tombou a cabeça para o lado. — Eu te dei que sinais?
Sjors rolou os olhos de novo, parecia ter desistido de dormir com o outro, porém Aart estava entretido demais para pensar nisso naquele momento.
— Vamos, Sjors, a minha cara de vadia te chamou para minha cama ou seus instintos te avisaram? — era obviamente uma gozação.
— Tem uma boca suja. — Sjors observou evitando a pergunta.
— Essa boca aqui? — e o puxou para um beijo molhado, lascivo e cheio de promessas para mais tarde. Puxou o ar quando se separaram. — Eu amo você, Sjors.
— Eu sei. — enfiou as mãos nas calças de Aart e o encarou. Seus olhos decididos pegavam fogo. — Mas eu te amo mais.
...
Aart olhou para o relógio novamente. 02:12. Aquela madrugada era a mais eterna de todas e saber que Sjors dormia no quarto ao lado não ajudava em nada a sua ansiedade. Levantou-se. Precisava de água.
O jovem retirou um copo d'água, mas nem chegou a beber. Encarou o balcão da cozinha e se perdeu em pensamentos. Cerrou os olhos e percebeu que todos os barulhos ao seu redor se esvaiam. Sua garganta, de repente, se tornou absurdamente seca.
— Aart? — o garoto despertou dos devaneios. — O que foi? Já são quase 02:30. — Sjors cruzou os braços e o olhou preocupado. O garoto não respondeu. — Aart. Ei. — o homem chegou mais perto. — Aart?
O jovem o ignorou e foi até o balcão, passou lentamente as mãos sobre o mármore frio, fechou os olhos e pôs a mão no peito sentindo seu coração bater. Quase chorou. Expirou. O único sentimento que podia nomear naquele instante — de coração acelerado, ar rarefeito e suor nas mãos — era a epifania. Abriu os olhos e virou-se para Sjors, que já estava do seu lado.
Se tinha uma coisa naquele mundo que Sjors conhecia, era aquele brilho no olhar. E por aquele olhar, o homem sabia que Aart sentia o mesmo que ele estava sentindo: palpitação, frio na barriga, suor, leveza e perda de fome e sono. Tão estupidamente típicos e clichês.
— Aart? — Sjors deslizou o polegar pela bochecha de Aart, contornou o maxilar e parou no lábio inferior. As mãos dele tremiam tanto quanto os lábios do garoto. — Hart*? — o garoto inclinou-se quando o homem o chamou com carinho e fechou os olhos franzindo o cenho. — Não me odeie. — ele sussurrou tristonho.
Sjors quase podia ver a mente do outro trabalhando, juntando as peças das lembranças e tentando encaixá-las. Mas foi só quando sentiu o tapa do lado esquerdo do seu rosto que teve certeza que Aart tinha lembrado.
— Sjors, — a voz dele estava rouca e seu tom, diferente. — me diga, eu sou importante pra você?
— Aart, não me odeie. — pediu com pesar, inclinou de novo a mão para acariciar o rosto de Aart, mas foi rechaçado. — Por favor.
— Sjors, — o garoto franziu o cenho. — eu te fiz uma pergunta. — seus olhos queimavam.
Sjors engoliu a seco, desviou os olhos e encarou o balcão.
— Muito. — respondeu.
— Então por quê mente pra mim?
— Eu não... — lambeu os lábios, agoniado. — eu não queria que me odiasse.
Aart tinha zumbido nos ouvidos e pouca paciência na mente.
— O que eu fazia no hospital? — perguntou esfregando as têmporas.
— Não está em cond-
— O que — Aart o interrompeu e o questionou novamente e dessa vez fazendo pausas. — eu fazia — abriu os olhos — no hospital?
Sjors cerrou os lábios.
— Eu vou refrescar a sua memória já que a minha amnésia parece contagiosa. — o garoto virou-se completamente para o homem. — Fila de transplantes. — Sjors engoliu a seco. — Isso não te lembra nada?
— Eu...
— Tem um coração no meu peito — rangeu os dentes — que não é o meu! — Aart tirou a camisa e mostrou uma longa e fraca cicatriz vertical no tórax em meio a várias outras, quase escondida. — Usou a desculpa desse acidente pra me enganar! — gritou batendo no peito. — Esses remédios, — arfou. — eles não são só por causa dos ferimentos e da amnésia, não é? É por causa da rejeição. São imunossupressores. A Dr. Fleurtje não continua meu tratamento de amnésia porque não é a área dela. — franziu o cenho. — Ela é cardiologista. — não era uma pergunta. — A minha cabeça apagou tudo. — estava enjoado. — Acho que vou vomitar. — encostou a cabeça no balcão e respirou fundo, mas quando sentiu o toque de Sjors, afastou-o. — Sai! De quem é esse coração? Sjors. Eu te fiz uma pergunta.
— Eu não sei.
— Ah, — fungou. — não sabe. Não sabe. Claro que não. Dá o fora daqui. — o ruivo empurrou Sjors e andou a passos largos até a sala pronto para abrir a porta para o outro.
— Aart..
— Fora! — o garoto parou para arremessar uma almofada nele. Sjors pegou. — Tinha razão, Sjors. Eu não quero ver o seu rosto. — destrancou a porta. — Pegue suas coisas e vaza. — Aart deixou a porta de entrada aberta e andou em passos pesados até seu quarto, mas Sjors segurou a porta do cômodo antes de que fechasse.
— Eu vou. Mas antes, — Sjors forçou a entrada. — me diga que se arrepende de ter dado em cima de mim naquele dia. — Aart franziu o cenho. — De ter fingido estar de passagem pelo hospital. — ele deu mais um passo. — Das cantadas baratas, dos esbarrões, dos beijos roubados. — outro passo. O garoto desviou os olhos. — Acha que eu não sei porque se lembrou lá na cozinha? Naquele balcão de mármore foi onde transamos pela primera vez e onde você me contou sobre sua insuficiência cardíaca. Eu fiz isso. Comprei um coração, encomendei o transplante e fiz tudo ao meu alcance para que não houvesse rejeição. — outro passo. — Me aproveitei da sua amnésia e do que tinha acontecido aqui. Mas você deixou que eu me apaixonasse antes de me contar que o perderia. — expirou. — Acha justo?
— Comprou um coração no mercado negro! — Aart gritou.— Isso é justo?
— Eu compraria um corpo humano inteiro, — sorriu triste. — se necessário, — os dedos de Sjors desenharam os lábios trêmulos de Aart. — se isso fizesse com que ficasse bem.
— Eu definitivamente não estou bem. — afastou as investidas de Sjors, exausto.
— Por enquanto, é o suficiente. — ao ouví-lo, Aart sentou-se na sua cama e pôs as mãos no rosto. O coração que um dia fora de outra pessoa batia depressa, mais que o usual. Sjors ajoelhou-se na frente do garoto e abaixou a cabeça até pousá-la nos joelhos dele.
— Por quê não me escuta? — Aart estava tão, mas tão cansado.
— Perdão, Aart, perdão.
— Jogou fora minha cama de casal.
— Sim.
— E as suas camisas que estavam no meu quarto. — assentiu. — Apagou nossas fotos e mensagens do meu celular. Tudo isso pra quê? Você não se afastou, Sjors. Ficava me rondando como se eu fosse alguém que... — parou e engoliu a seco.
— Que?
— ... que amasse.
— Eu amo. — Sjors se inclinou. — Eu amo muito, eu amo tanto. Eu tentei, Aart, tentei ficar longe e te proteger. Teria sido melhor assim. — franziu o cenho. — Mas eu não consigo. Desculpe, Aart. Desculpe. — e ficou repetindo baixo até que seus lábios fossem tomados pelo outro.
O jovem não parecia ser paciente, as bocas se entrelaçaram e suas línguas quase se fundiram, mas Aart logo empurrou Sjors.
— Você vai doar uma grana astronômica para centros de tratamento infantil. — puxou o ar enquanto sentenciava o outro. — Vai me devolver tudo o que tirou desse apartamento. — Sjors presenteou-lhe um selinho. — Vai prometer nunca mais me levar pra sua casa. — fez cara de nojo. — Eu odeio aquela casa. E se você tivesse um corpo no armário, eu saberia. — Sjors assentiu. — Eu ainda não engoli essa história de tranplante e não vou te perdoar tão cedo. E eu não rolo na cama a noite toda.
E pela primeira vez em meses, Sjors riu.
— Não, — concordou. — dorme comigo, bem perto.
Sjors, depois de tanto tempo, deixou-se ser quem era. E ele era um homem. Um homem que por meses absteve-se de tocar em seu amante por ser o melhor, mas que sinceramente não teria feito essa escolha tempos remotos atrás. Aart vestia apenas uma leve roupa de dormir naquela noite e Sjors mal conseguia pôr os pensamentos em ordem, desceu a cabeça para os joelhos do outro e beijou o local como se fosse sagrado; mordiscou sua coxa, a parte interna das pernas e a respiração entrecortada do ruivo foi uma música para seus ouvidos; distribuiu beijos por seus pés e subiu os lábios por outra perna. Ele queria sentir o toque de Aart queimar sobre sua pele. Se perder nos vermelhos e alaranjados. E logo. Arranhou com os dentes a barriga do jovem até obrigá-lo a tirar a camisa. Um calafrio prazeroso desceu sua espinha e estremeceu seu corpo. Levantou-se e jogou o garoto com tal força na cama que — se não fossem as circunstâncias — ficaria preocupado. Explorou o pescoço dele como se procurasse um tesouro e os gemidos contidos de Aart não eram exatamente de grande ajuda.
Aart o puxou para encará-lo, as bochechas vermelhas como seus cabelos e os lábios entreabertos num pedido já conhecido por atenção.
— Você é bem egoísta, não é? — o garoto sorriu tristonho, vencido.
— Mais do que imagina. — e levou seus lábios aos dele.
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