Hart

9 Dia 30


— Então quer dizer que a fisioterapia não tá funcionando e você não lembra mais como se limpar direito? — Matthijs, já na quinta garrafa de cerveja, zombou.

— É, — respondeu Aart. — vou precisar que meta a mão na minha bunda pra me ajudar.

— Não seria a primeira vez. — Mauk ironizou deitado no carpete da sala de Aart. Aquele lá já não conseguia ingerir álcool algum. Aart ouviu gargalhadas.

— Agora eu posso contar minhas piadas velhas de novo! — Vogel sorriu como uma hiena.

— Você não conta piadas novas há três anos, — Aart interferiu. — minha amnésia não vai tão longe, amigo.

— Mesmo se fosse, — Mauk bocejou. — elas são ruins demais. Aceite.

— Em compensação a gente pode lembrar dos momentos mais constrangedores nesses últimos meses. — Zonne olhou maldosa para Aart. — São muitos. — adiantou.

Aart fez uma careta, rindo.

— Está obviamente mentindo. — o jovem retrucou.

— Não, ela não tá. — Margriet voltou da cozinha. — Teve uma vez no condado...

— Não, não, dessa vez você tem que escutar a Margriet! — Zonne quase gritou.

— "Eu quero dormir pelado!" — Mauk claramente estava imitando Aart no dia supracitado. — Na rua!

— Você deu um vexame bêbado tão grande que a gente teve que chamar Sjors porque você disse que não sairia do meio da estrada até se casar com ele e adotar cinco gêmeos. — Margriet se deitou no sofá.

— E vocês nem estavam saindo!

— Cara, e ele ia viajar esse dia! — Vogel acrescentou.

— Isso, ele ia viajar de madrugada. — Margriet continuou. — E ele voltou do Porto, só pra te resgatar.

— Uma princesinha. — Matthijs zombou, dando sinal de vida.

Logo Aart ficou perdido em pensamentos por um momento, em silêncio. E seus amigos, mesmo bêbados, respeitaram esse momento, sabiam que às vezes ele precisava de um tempo.

— Ele não quer que eu lembre dele. — o garoto murmurou, desabafando.

— Quem? — os gêmeos Mauk e Margriet perguntaram em uníssono.

— Sjors. — Aart desviou o olhar do deles. — Por algum motivo que ele não me diz, — franziu o cenho. — ele se recusa a me contar qualquer coisa que o envolva. Parece que tem medo que eu me lembre dele.

Seus amigos se entreolharam, visivelmente incomodados.

— Olha, Aart, — Zonne foi a primeira a falar. — Sjors nos "pediu" — ela arrastou a palavra. — com muita eloquência que não disséssemos nada...

— Mas que se foda, ele tá sendo um desgraçado egoísta por te deixar de fora. — Matthijs balbuciou e se sentou. — Eu, Margriet e Zonne. Nós te encontramos aqui e ligamos pra ele. — ele soluçou. — Zonne vomitou bem onde você tá sentado, cara. — riu com a careta de Aart. — E essa foi a única parte engraçada. — seu sorriso morreu. — Você tava todo ensanguentado, com os ombros deslocados, perfurações na barriga, — Aart passou os dedos pelas cicatrizes no abdômen e no tórax. — vômito pela sua roupa e sem as calças.— enquanto dizia isso, Matthijs não conseguia encarar Aart. — Só que... — ele engoliu a seco. — tinha varias fotos do Sjors espalhadas pelo chão, coladas na parede e em cima dos móveis. Eu nunca tinha visto tantas fotos dele. E de todos os tipos, roupas e ângulos. Realmente bizarro. A gente, — ele apontou para si e para os outros — a gente acha que Sjors não quer que lembre disso. Que pode ser tudo culpa dele... ou pelo menos ele acha que é.

Aart sentiu os pelos arrepiarem com aquele relato, olhou ao redor e de repente sentiu-se sozinho. Um frio na barriga com gosto de azia o fez trincar os dentes. Tinha a impressão de ouvir um barulho de ferro ao longe, algo como um arranhado estridente e contínuo.

— Aart. — Vogel o chamou pela segunda vez. — Quer que a gente durma aqui?

O jovem encarou os amigos, realmente grato pôr tê-los, fechou os olhos e assentiu sentindo-os se aproximarem num calor aconchegante.