Harry Potter e os entes amaldiçoados
7 Capítulo 7 A transformação
Notas iniciais
A transformação
A menina que atravessa a rua da pequena cidade de Godric’s Hollow é franzina, tem os cabelos desgrenhados e se veste com roupas surradas e largas. Ela mora no bairro bruxo, invisível aos olhos dos trouxas, escondido por magia.
Os humanos da cidade vivem no lado nobre, onde as casas tem jardins e gramados bem cuidados.
A garota está aborrecida, tem os olhos em fogo, atravessa o velho cemitério sem dar atenção aos olhares indiferentes de outros bruxos.O vento uiva em seus ouvidos faz os cabelos negros dançarem revoltosos em torno de seu rosto pálido.
Chega ao bosque por detrás da pequena capela, senta-se na pedra coberta de musgo. Os animais logo começam a aparecer. Ela os observa, gosta de ver como eles parecem fazer exatamente o que ela pensa. As cobras e os insetos peçonhentos costumam ser atraídos para perto dela. É como se fossem seus brinquedos, só que estão vivos.
Sentia a decepção arder em lágrimas quentes que rolavam pela face.A esperança destroçada em seu coração. Nunca iria à escola de magia, seria uma ninguém para sempre!
Os guardiões haviam falado que não havia dinheiro, não haveria carta e que ela não iria para Hogwarts.
Então ela saíra, o corpo duro, a tensão crescendo em seu íntimo e explodindo em impropérios e lágrimas de frustração.
Não conhecera os pais, não sabia quem eram. Sentia-se uma intrusa naquela casa, de alguma forma sentia que não era bem vinda ali.
Apenas o padrinho parecia gostar um pouquinho dela, vinha a intervalos longos e regulares, trazia roupas novas, alguns livros de feitiços bobos e coisas de criancinha. Toda vez que ele aparecia a vida melhorava um pouco, havia alguns doces na casa e a comida ficava melhor. Mas essas coisas duravam pouco, depois tudo voltava ao normal. Ela fazendo mais tarefas do que a própria dona da casa e que seu marido, um homem preguiçoso e bêbado.
Ela via Eufemia, a babá, usar magia para tarefas domésticas, mas ela era proibida de usar magia, nem tinha uma varinha. A maioria das crianças de sua idade já tinha uma.
Mesmo assim aprendeu a usar alguns feitiços menores só de observar, às vezes, pegava a varinha emprestada e ia até o bosque praticar. Tinha alguma dificuldade de executar certos feitiços, porque a varinha resistia um pouco aos comandos. Ou pegava a de Eufemia ou a de Adam.
Ela era persistente e praticava muito durante as fugas rotineiras. Aos poucos ia aprendendo mais feitiços, na verdade ela estava ficando muito boa com eles, mas não sabia disto. Não havia professor, nem aulas, só a sua força de vontade e a inteligência acima da média.
Às vezes, tinha uns sonhos estranhos, com pessoas desconhecidas, daí ela falava enquanto dormia uma língua que não era humana. Muitas vezes não se lembrava dos sonhos, em outras acordava rodeada de animais como cobras e insetos. Uma vez, ao acordar de um desses sonhos, saiu da cama rápida e sobressaltada, procurou os chinelos, sentiu algo frio, era uma das cobras mais venenosas da região, estava enrodilhada sobre seus chinelos, quase pisara nela, mas, a cobra fugiu rapidamente e se aninhou num canto. Mentalmente, a menina censurava a cobra, sem se dar conta.
Mas seu maior pesadelo não era quando dormia e sim quando acordada, sentia não pertencer àquele lugar. Odiava a casa, as pessoas de lá e principalmente a forma como sentia ser invisível para os outros bruxos. E muitas vezes odiava o padrinho, que só lhe trazia bugigangas.
De alguma forma sabia que precisava dele, mas o odiava mesmo assim.
Frequentara a escola primária do lugar, não entendia porque as outras crianças não se aproximavam dela, não tinha amigos, ficava sozinha durante os intervalos. Sentia raiva dos alunos. Eles riam de suas roupas surradas e dos cabelos desgrenhados, só não a importunavam mais porque era a única com notas acima da média em todas as disciplinas. Ficava furiosa mesmo, quando desprezavam as suas habilidades intelectuais, sabia que era mais inteligente e capaz que qualquer um daqueles trouxas.
Sentia especial desprezo pelas meninas bonitas e populares, estas sempre a olhava com desdém e a chamavam de “Monstrinha”. Não era à toa que seus lanches estavam sempre cheios de insetos nojentos. Ninguém sabia explicar porque tantos deles apareciam na escola. Mas se prestassem mais atenção perceberiam que a presença deles estava sempre relacionada com algum incidente com Dee.
Enquanto se lembrava desses momentos e dos sentimentos que experimentara, um breve sorriso de triunfo iluminava o rosto bonito de uma jovem, agora com seus dezesseis anos. Os cabelos negros e sedosos ondulando pelos ombros, os olhos negros e profundos contrastando com a pele clara lhe emprestavam um ar de nobreza e poder. Quem a visse jamais poderia imaginar que fosse aquela que chamavam de “Monstrinha”. Sentia-se outra pessoa, com qualidades e poderes que lhe eram de direito e dos quais iria desfrutar, custasse o que custasse, até mesmo, sua alma.
Ainda se lembrava do quanto se ressentira por não ter ido à escola de magia. Mas a compensação viera de forma inesperada e transformara para sempre a vida da pequena Dee. A frustração, o ódio e a revolta cresceram em seu peito, transformado a pobre garota em um ser muito diferente. A personalidade sofreu mudanças radicais, ela passou a confrontar os guardiões e a questioná-los quanto aos motivos de sua presença ali. Deixou de ser dócil e submissa às ordens dos dois e até seu padrinho percebia as diferenças em seu temperamento.
Tio Pete viera um dia, à muito tempo atrás, com mais embrulhos que o normal, havia roupas e calçados e um pacote diferente. Parecia um velho livro, estava enrolado em um trapo que já deveria ter visto dias melhores. Ele parecia contente por trazer algo a mais para a afilhada, chamou-a para perto:
—Venha, Dee, venha querida. Trouxe algo especial pra você hoje.- ele estava entusiasmado, achando que agradaria a menina.
Sem nem mesmo abrir os pacotes, já sabia o que continham, olhou-os com indiferença. Odiou tudo na mesma hora. Uma explosão de raiva fez cintilar o negro de seus olhos. Porque ela mesma não podia comprar suas roupas? Escolher seus sapatos? Comprar as coisas de que gostava? Porque era sempre ele que escolhia suas coisas? Já estava cansada disto e deixou bem claro ao destilar todo o seu ódio juvenil.
-O que é Tio Pete, mais cacarecos para minha coleção? O que você trouxe agora? Mais um livro idiota de feitiços bobos? Ou roupas que me fazem parecer horrorosa?
O tom de escárnio e deboche da garota fez com que um calafrio percorresse sua espinha. Ele olhou para ela como se nunca a tivesse visto, sentiu até certo medo. A parte covarde que havia nele ressurgiu no mesmo momento em que a encarou.
-Não criança, isto foi de sua mãe, é um presente especial por seus doze anos. – ele tentava reduzir a fúria que percebia no olhar da garota.
— E onde ela está Tio Pete, porque me abandonou aqui? E melhor, quem é ela? E meu pai, sabe do meu amado pai? Os pais que me deixaram na mão desses dois vermes.
Ao terminar de falar olhou para os dois, Eufemia e Adam, que estavam parados num canto assistindo a tudo de olhos pregados na menina. Depois de seu destempero e de jogar toda a sua raiva contra o padrinho ela parecia perfeitamente calma, se dirigiu a ele sem nenhum traço de emoção na voz.
-Deixe aí, depois eu vejo o que trouxe.
-Sim querida, vou deixar aqui. — Tio Pete parecia acanhado, não queria irritá-la outra vez.
Assim que a garota se retirou ele deu uma desculpa e sumiu em sua vassoura.
Sozinha, as lágrimas que segurava caíram em torrente pelo rosto ainda infantil, pareciam queimar seus olhos, mas queimavam muito mais, queimavam a alma da menina, envenenando seu espírito e transformando para sempre sua vida.
Por fim adormeceu, mas o sono é agitado, repleto de momentos que nem mesmo viveu. Está em Hogwarts, rodeada de amigos, feliz, com pais amorosos, que a levaram até a estação de King’s Cross, lhe desejaram sorte e lhe beijaram.
Acorda em sobressalto, tudo está como antes, está em seu minúsculo quarto, sozinha e infeliz. Alguém deixara o embrulho no quarto, ela olha para eles sem vontade de abri-los. Olha com mais vagar, algo chama sua atenção, é o livro, ainda está embrulhado no trapo sujo. Pega-o e vai desembrulhando lentamente, é pesado, tem uns arabescos na capa. Ela olha com mais curiosidade, não há título, nem autor. Folheia com ansiedade crescente, fica surpresa ao perceber que não consegue ler uma palavra sequer.
Passa semanas tentando decifrar a língua em que está escrito, não consegue e o coloca de lado. Mas não desistiu ainda, traçou um plano para conseguir desvendar o mistério.
Quando um Tio Pete temeroso retorna, ela o recebe de bom humor, até tenta ser carinhosa com ele, mas isto soa um pouco falso e ela desiste. Porém tinha que colocar seu plano em ação. Precisava de material de consulta para tentar decifrar o estranho livro. Pensa em usar o padrinho, para isto ele precisa se sentir seguro.
-Tio Pete poderia me trazer alguns livros que gostaria de estudar?- a voz dela é suave e anima o homem.
Está usando as roupas que ele trouxera no último encontro. Ele considera isto como um sinal de que está tudo bem, quer agradá-la e concorda prontamente.
— Já fiz uma lista de assuntos que quero pesquisar...
— Claro Dee, pode deixar , eu vou trazer na próxima visita. – ele está confiante agora.
— Não na próxima visita, mande por coruja. É que estou muito ansiosa para começar. — ela lança um olhar que julga ser doce para o padrinho, amacia a voz no final da frase. — Ficaria muito agradecida se conseguisse logo este material, faça por mim titio.
— Está bem, verei o que consigo fazer. — ele pega a lista que ela lhe estende e a coloca no bolso.
Ao montar em sua vassoura ele dá uma olhada na encomenda.
Artes das trevas
Magia Negra
Feitiços e maldições
Línguas antigas
História dos bruxos
Rituais e feitiços antigos
Ao dobrar o pergaminho e recolocar no bolso ele teve a certeza de que as coisas nunca mais seriam as mesmas. Ela parecia mais do que nunca ser filha de quem era.
As exigências leitoras da menina estavam causando alguns transtornos para Pete, precisou, na maioria das vezes, surrupiar o material de bibliotecas bruxas. Mesmo assim teve que usar de astúcia, alguns feitiços de enganação, e outras vezes usando outros dons. O cuidado era necessário, pois o Ministério fazia o monitoramento de assuntos relacionados com a Arte das Trevas, Maldições e Magia Negra. A pessoa que fosse adquirir, qualquer tipo de material, que envolvesse esse tipo de assunto precisava de uma autorização do Ministério, sem antes deixar de prestar esclarecimentos sobre os motivos de tal interesse.
E quanto mais ela recebia, maiores eram as listas que pedia. Agora eram autores e obras de difícil aquisição, e nisto se resumia a maior parte das tarefas de Pete. Até um armário para livros fora colocado em seu quarto, e outro para os ingredientes de poções e mais um caldeirão de bom tamanho. E para que isto fosse possível ela havia mudado para um quarto maior, com mais iluminação e espaço suficiente para comportar um quarto de dormir e quase um laboratório completo de estudos. E passara dois longos anos tentando desvendar o mistério do “Livro que não podia ser lido” como ela o intitulara.
E estas não foram as únicas coisas que mudaram, ela passou a exigir que Tio Pete comprasse as roupas que via nos anúncios das revistas de moda dos bruxos, começava a usar nela mesma as poções que a ajudavam a se embelezar, estudava etiqueta dos bruxos e bruxas de alta estirpe. Tinha acesso a tudo que acontecia através do Profeta Diário. Enfim era outra pessoa, bonita, elegante e bem informada.
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