No dia seguinte do primeiro treino de boxe, Harry estava andando com dificuldade na Escola Westminster. Bem que Rony avisou: ele estaria totalmente dolorido. No intervalo das aulas, Hagrid, o zelador, avistou o garoto passando pelo pátio como se fosse um idoso andando. Ele, comicamente, deu uns tapas fracos nas costas de Harry, que deu um gemido de dor.

- HAHAHAHAHAHA! Estou vendo que começou na academia de boxe ontem! Era essa a visão que eu esperava hoje, garoto! – zombou Hagrid.

- Por favor, não faz isso... – disse Harry com o rosto que transmitia dor. – Eu já imaginava que não ia ser fácil, mas isso aqui é ridículo...

- Vá se acostumando, garoto! – respondeu Hagrid. – Como dizia Muhammad Ali: "Quando sinto dor é quando eu começo a contar, porque é quando realmente importa!" Assim como ele, você também vai ser forjado pelo fogo, Harry! Confie no Dumbledore!

- E com esse frio que tá fazendo, tá bem dolorido mesmo... – disse Harry. – Escuta, Hagrid, quem são alguns que Dumbledore treinou que você consegue se lembrar? Só tinha adolescentes lá na academia...

Harry e Hagrid se sentaram num dos bancos do pátio. O imenso zelador foi falando empolgado:

- Quer mesmo saber? Lembra de Quim Shacklebolt? O "Sultão"?

Os olhos de Harry se arregalaram na hora.

- O... O peso-pesado?? Que foi CAMPEÃO MUNDIAL...? Derrubou um americano em Wembley?? Tem essa luta no seu DVD, Hagrid!!

- É claro que tem! – disse Hagrid super animado. – Ele manteve esse título por dois anos! Também foi Campeão Britânico por seis anos, de 1987 a 1993. Ele DOMINOU o cenário britânico naquela época, Harry... Foi Medalha de Ouro nos Jogos da Commonwealth em 1986... Puxa, Shacklebolt foi uma lenda... E foi treinado por Dumbledore!

- Caramba... e o que ele tá fazendo hoje em dia? – perguntou Harry.

- Ele tem sua própria academia agora, né. Nunca ouviu falar da Academia de Boxe Shacklebolt?

- Nunca... – disse Harry com sinceridade. – Mas conte sobre outros também!

Hagrid olhou para o céu, sorrindo abertamente.

- Eu te disse, Harry. Dumbledore não erra. Emmeline Vance era chamada de "A Fantasma de Bristol" nos anos 80. Uma peso-leve que virou Campeã Mundial, Campeã Europeia e Campeã Britânica! Também foi Medalha de Ouro no Torneio Internacional de Estocolmo em 1988! Ela se aposentou em 1995, mas eu comprei o livro que ela lançou: "No Ringue, na Vida: A Luta de uma Mulher". Ela busca inspirar as mulheres que desejam seguir esse caminho.

- Puxa...! – exclamou Harry.

- Outro que nunca vou esquecer é o "Punhos de Fogo"! Gideon Prewett! Harry, aquele ruivo era um peso-médio que nunca recuava! Campeão Europeu pela EBU, Campeão Britânico – esse título ele defendeu SETE vezes – Medalha de Prata nos Jogos da Commonwealth em 1986... Campeão do Torneio Golden Gloves Britânico em 1983... Também foi treinado pelo Dumbledore.

Harry ficava mais e mais impressionado. Não imaginou que Dumbledore tinha moldado talentos tão fantásticos. "Nossa, o treino de ontem deve ter sido o nível mais baixo do mais baixo...", pensava o garoto de óculos.

- Teve o "Maestro do Ringue": Edgar Bones! – continuou Hagrid – Campeão Mundial de 1982 a 1984... Campeão Europeu pela EBU – aquele nocaute técnico em Milão foi sensação na época! – Campeão Britânico dos Meio-Médios de 1977 a 1985. Harry, ele manteve o título por OITO anos! E não vamos esquecer que foi Medalha de Ouro da Commonwealth em 1978! E por último, mas definitivamente não menos importante...

- Q-Quem...? – Harry mal podia respirar com todos aqueles títulos.

- Pra mim ela foi a melhor, Harry. – foi falando Hagrid. – Rolanda Hooch, a "Falcão"! Amigo, ela era BRUTAL. Eu não estou brincando, só o olhar dela já te deixava apavorado. Nos anos 80, essa peso-galo era o assunto do Reino Unido... Com ela, não tinha brincadeira, então você já pode imaginar: Campeã Mundial, Campeã Europeia, Campeã Britânica por OITO anos... Medalha de Ouro no Torneio Internacional de Boxe Feminino de Dublin em 1987... E agora ela é uma treinadora importante no GB Boxing Team! Imagina isso!! Quem quiser ir pras Olimpíadas de 2012 terá que ser aprovado pela Falcão, Harry!

Harry engoliu em seco. Mas ao mesmo tempo, se lembrou de que Hermione chegou a falar que Dumbledore tinha ex-aluno no GB Boxing Team. Então era Rolanda Hooch. O garoto de óculos estava sem palavras. Dumbledore conseguiu construir cinco lendas com tantos títulos e conquistas. Era impressionante imaginar tudo o que tinha acontecido naqueles anos de glória.

Hagrid sorriu quando viu que Harry olhou determinado para frente, fechando os punhos. O imenso zelador sabia o que ele estava pensando: "Tem muito caminho pela frente ainda."

- Harry, você tem tempo de se tornar tudo isso. – dizia Hagrid. – Os tempos mudaram e muitos preferem participar de outras academias mais atuais, mais moderninhas. Só que eu jamais me esquecerei dos cinco que Dumbledore fez com que alcançassem o topo do mundo. Se esforce e o "quinteto de Dumbledore" vai se tornar um sexteto em alguns anos! Eu acredito em você!

Harry sorriu para o amigo e apertou a mão dele, como se uma promessa silenciosa estivesse sendo formada.



...



Os dias foram passando e Harry continuou indo para a academia de boxe com garra. À medida que comparecia às aulas, ele ia melhorando mais e mais. Todos os dias, depois das aulas, ele passava correndo pela Columbia Road com sua mochila de treino, com fome de aperfeiçoamento. Em breve, uma semana tinha passado.

Mas sem que Harry ao menos notasse, de frente pra Academia de Boxe Dumbledore, a apenas alguns passos, atravessando a rua, lá estava um Pet Shop chamado Lepus. Era mais uma das lojinhas humildes daquela larga rua. Havia uma vitrine grande da qual era possível ver parte do interior. Era cheia de bichos de estimação – cachorros, pássaros, hamsters, coelhos, tartarugas, peixinhos... – e também era possível ver vários dos produtos – rações, sachês, petiscos, brinquedos, coleiras, comedouros, bebedouros, camas, roupinhas, produtos de higiene e medicamentos.

Na longa extensão da Columbia Road, todos cuidavam de seus afazeres com ritmo acelerado e horários rígidos... Mas não a garota que tomava conta do Lepus Pet Shop. Não Luna Lovegood. Ela tinha um cabelo loiro bastante longo – longo demais. O olhar dos olhos azuis era sempre sonhador, como se vivesse num mundo só dela. E cercada de bichos que ela tanto amava, ela estava sempre sorrindo.

- Oi, meus amores! – a loira sonhadora falava com os bichos. – Sabem que dia é hoje? Treze de fevereiro: hoje é meu aniversário! Todo mundo cantando "Parabéns pra Você"!

Os bichos fizeram um mundo de sons diversos. Embora fossem apenas animais, eles também gostavam muito de Luna. Ela fechou os olhos e foi ouvindo como se uma orquestra estivesse se apresentando.

- Ah, que lindo, gente! Eu amei! – disse Luna. – Hmm, olha só a hora. Eu já volto!

Luna se dirigiu à grande vitrine do Pet Shop e levou os seus olhos para o outro lado da rua, para a academia de boxe.

Seu sorriso apareceu quando viu o que queria ver: lá estava Harry, chegando correndo para mais uma tarde de treino. Trazia a mochila pendurada num ombro, a camiseta meio suada, os óculos tortos. Não olhava pros lados. Só vinha determinado, como quem procura algo muito importante, mesmo que ainda não saiba o nome daquilo.

- Lá vai o garoto da tempestade... — ela sussurrou pra si mesma.

Ninguém sabia que ela o observava. Ninguém sabia que ela o chamava assim em pensamento. Mas desde a primeira vez que o viu entrar na academia, uma semana atrás, ela percebeu algo. Ele carregava um tipo de silêncio que só quem já gritou por dentro conhece. Um silêncio que ela conhecia. E, ao mesmo tempo, ele tinha energia e presença de alguém que decidiu lutar apesar de tudo.

Quando ele foi até a porta da academia para abri-la, quase foi atingido por uma bicicleta que passou na calçada. Desviou no último segundo com um passo rápido, e nem olhou pra trás. Luna soltou um pequeno riso. "O que você está procurando de verdade?", ela pensou. Luna não enxergava o mundo só com os olhos comuns. Ela tentava ser uma com o mundo, ver aquilo que não é tão óbvio — "enxergar com o coração", como ela prefere dizer. Depois que decorou o horário que Harry aparece, ela criou uma espécie de "ritual diário": ir até a vitrine para tentar "entender o mistério". Ele a intrigava. Só de ver, sabia que ele ainda estava começando naquele esporte cheio de socos... Esporte esse que ela não ligava muito. Mas ela não conseguia deixar de admirar algo: era como se ele fosse um herói em formação.

- Luna! Lunaaaaa! – gritava uma voz de uma senhora de idade ao fundo do Pet Shop. – Me ajude com esses sacos pesados!

- Já vou, Sra. Sprout! Já vou...! – respondeu a garota sonhadora.

Antes de ir, ela deu uma última olhada para o garoto. Ela não sabia seu nome. Ainda não.

Mas sentia que um dia saberia. Sentia que ele não era só um lutador. Era alguém em busca de algo que o mundo havia negado. E Luna, que via o mundo com o coração e não com os olhos, reconhecia bem aquilo. Porque ela também buscava algo. E era bom saber que havia outros heróis silenciosos por aí.



...



Os dias passavam e a academia de boxe continuava frenética. Dumbledore variava os treinos entre "mais aprofundados" e "mais básicos", sempre tomando o cuidado de relembrar até mesmo aos mais veteranos todos os corretos fundamentos do boxe. Harry já estava se aperfeiçoando em coisas que não tinham sido ensinadas no primeiro dia dele: bloqueios, esquivas, trabalho de pernas, precisão, ritmo. Não demorou muito para que ele alcançasse o nível de Hermione e Rony no ato de colocar as bandagens nas mãos e no exercício de pular cordas. Ele até tentou um pouco o saco de velocidade – é um saco pequeno, geralmente em forma de gota ou pera, feito de couro ou materiais sintéticos duráveis, como vinil e preenchido com ar ou materiais leves para permitir movimentos rápidos.

Mas como viu que Dino estava rindo e Cho Chang só balançava a cabeça com desdém por causa da técnica ainda iniciante, ele se emburrou e saiu andando.

Enquanto os alunos praticavam ou individualmente ou com aqueles que mais se davam bem antes do treino em grupo, Dumbledore andava pelo salão, oferecendo palavras de reflexão:

- Boxe é um diálogo – não um monólogo. Se você só bate, então não está ouvindo.

Dino Thomas e Gina Weasley estavam no centro da academia, mostrando o quão avançados eram. Os dois trocavam golpes cronometrados, movimentos secos e certeiros — jab, jab, direto, esquiva, contra-ataque. O barulho das luvas se chocando era quase bonito de se ouvir. Angelina olhou e soltou elogios:

- Perfeito, vocês dois. Fluidez sem hesitação. Parece coreografia... só que com impacto!

Dino sorriu com o elogio, mas olhou discretamente ao redor, garantindo que todos tivessem ouvido. Gina, por outro lado, mantinha a concentração. Os olhos firmes, a respiração controlada, o olhar às vezes encontrando o de Dino... e às vezes desviando rápido demais.

Angelina, por sua vez, estava treinando Neville para que conseguisse melhorar o equilíbrio. Embora ele tivesse o interesse, era como lutar contra uma muralha com técnica refinada.

- Levanta a guarda, Neville! E nada de olhar pro chão! O adversário tá aqui, ó! – Angelina apontava pros próprios olhos.

- Desculpa... é só que... você é muito rápida... – dizia Neville ofegante.

- Relaxa, você tá ficando melhor, não pior. – respondeu a amiga. – Isso vale tanto quanto qualquer jab bem dado.

Neville soltou um sorrisinho. Mas ele não conseguia evitar: o olhar dele escapava, vez ou outra, para o centro. Lá, Gina se movia como se fosse feita de energia pura. Ágil, precisa, com o estilo bem parecido com o de Mike Tyson – balançando, se movendo como onda, corpo baixo, lançando combinações rápidas. Dino devolvia cada golpe com categoria, mas Neville notava — ela era quem ditava o ritmo.

Em determinado momento, Dino deu um gancho mais forte do que o necessário, atingindo o antebraço de Gina com força. Neville e Angelina viram a cena. A ruiva recuou um passo e sacudiu o braço, massageando a área.

- Ei! Foi um pouco demais, não? – disse Gina.

- Poxa, amor, achei que você aguentasse. – respondeu Dino despreocupado e gingando – Tá sensível hoje, é?

Neville apertou os punhos. Angelina o observou de canto de olho, sem dizer nada.

Gina respirou fundo e voltou à posição. Ela engatilhou os punhos e disse:

- De novo.

Eles recomeçaram. Mas o brilho nos olhos dela já não era o mesmo. Havia um quê de irritação contida.

Mais tarde, após todos os treinos em grupo, Dumbledore reuniu os alunos para alongamento final. Enquanto todos se esticavam no tatame, Neville permaneceu deitado por um instante, exausto. Gina passou ao lado dele e, como sempre, sorriu com gentileza.

- Treinou bem hoje, Neville!

Neville não esperava por aquilo. Seu rosto corou. Ele deu um sorriso tímido e foi respondendo:

- Valeu... você também. Como sempre.

Dino se aproximou e passou um dos braços pelos ombros de Gina.

- Minha ruivinha é muito boa mesmo! Vocês deveriam tentar ser mais como ela, sabe?

Gina lançou um olhar afiado pra Dino — não raiva, mas de alerta. Neville apenas olhou pro teto. Fingiu não ouvir.

Angelina, que estava guardando os equipamentos de treino, não deixou de observar. Murmurou sozinha:

- É nos detalhes que as rachaduras aparecem...



...



Algum tempo depois, Harry estava com Rony e Hermione no habitual "pós treino" deles, em que eles relaxavam na Sorveteria Hogsmeade. O céu de Londres já estava tingido de laranja. A vitrine da sorveteria refletia o brilho dos postes acesos, e o interior tinha aquele ar acolhedor de fim de expediente.

- Só a gente mesmo pra tomar sorvete na época do frio. – comentava Hermione.

- Ah, vai dizer que não acha o máximo ter a sorveteria toda só pra gente? – dizia Rony, com um largo sorriso enquanto segurava um cone. – Eu sei que "recuperação" não é a palavra certa... mas... chocolate é a minha fisioterapia.

Hermione revirou os olhos com carinho, rindo das palavras. Harry, por outro lado, estava mais quieto. Mexia o canudo no copo de milkshake de morango, pensativo. Ele disparou para os amigos:

- Vocês já pensaram no que é... viver disso? Tipo, pra valer?

Hermione mudou a expressão para curiosidade.

- Viver do boxe, você quer dizer?

- É. Tipo... lutas grandes, imprensa, mídia em cima, tudo que vem com isso. As lesões, a pressão, os fãs, os haters. Dano cerebral permanente. Gente que desmaia e nunca mais acorda igual. Eu não sei... é uma vida inteira de risco, né?

Rony deu uma pausa do sorvete com as palavras que Harry proferiu. Até ele percebeu o peso do assunto. Hermione apoiou os cotovelos na mesa e olhou diretamente pra Harry. Ela foi dizendo:

- Você tá certo. É uma vida de risco. Mas também é uma vida de legado. Alguns boxeadores viraram REIS sem coroas. Lennox Lewis, por exemplo: campeão, aposentou com dignidade. Joe Calzaghe: o campeão mundial dos super-médios com o reinado mais longo da história do boxe, tendo detido o título da Organização Mundial de Boxe por mais de DEZ anos e o defendido contra VINTE oponentes. E essas pessoas não só venceram no ringue. Venceram fora também. Fizeram história. Marcaram o mundo.

Rony permaneceu calado, mas sorriu para Hermione, ela era incrível e disse a coisa certa que Harry precisava ouvir. "Hermione, você é única...", pensava Rony.

- Você tem algo especial, Harry. – continuou a garota de cabelos cheios. – Eu sei que não parece agora, mas... tem gente que nasce pra lutar. E não só no ringue. Você já tá fazendo isso. Todo dia.

- Oi, eu vim aqui pra tomar sorvete, não pra ouvir monólogo motivacional. – disse Rony sorrindo pra quebrar o gelo.

- Ai, Rony...! – suspirou Hermione, rindo da "indelicadeza".

- Mas ela tem razão, viu. – disse o ruivo para Harry. – Se você tem a garra, a cabeça firme e a disciplina... não existem limites do que você pode se tornar depois, chapa.

Harry olhou pros dois. Sorriu. Um sorriso pequeno, mas real.

- Vocês são meio esquisitos, sabia? – ele disse com um ar sarcástico, mas havia um "obrigado" escondido na fala.

- Orgulhosamente. – disse Hermione, sorrindo com o seu ar de especialista em boxe.

- E com ótimo gosto pra sorvete! – Rony deu um sorrisão.

Os três brindaram com seus copos plásticos, como se fossem troféus. Ali, entre os últimos goles e a vitrine embaçada, Harry ainda tinha suas dúvidas e ansiedades, mas tudo se tornava mais suportável com a presença de seus grandes amigos.



...



Na sexta-feira que se seguiu, Harry acabou chegando uma hora mais cedo na academia. Não sabia como aquilo tinha acontecido. Talvez a ânsia de descobrir logo o que tanto queria o fez sair mais rápido de casa para o treino. Algo o instigava e era incansável. Queria treinar, queria entender, queria buscar.

Do outro lado da rua, dentro do pet shop, Luna Lovegood o viu novamente. Ele sempre passava por ali com o mesmo ar determinado, como se carregasse um peso nos ombros... mas aos poucos, ela percebia: o peso estava se transformando em propósito. "Falta pouco... suas dúvidas vão escorrer e só restará o caminho", pensava Luna enquanto sorria. Parecia um farol de energia positiva direcionada a Harry.

A porta da academia rangeu ao se abrir. Lá dentro, ainda não havia alunos. Apenas o silêncio dos sacos de pancada imóveis, o cheiro de lona e o som de um rádio antigo tocando algo instrumental em volume baixo. Harry pensou "Tá, e agora o quê?". Antes que decidisse, Dumbledore apareceu na porta de seu escritório ao canto. O treinador olhou e sorriu ao ver Harry.

- Senhor Potter... cedo hoje. Gosto disso. Gostaria de entrar um pouco?

Harry coçou a cabeça, ainda encabulado por ter chegado tão cedo e sem ter planejado nada. Ainda assim, ele seguiu o treinador para dentro do escritório envidraçado. Encontrou Dumbledore já sentado à mesa.

Era um escritório modesto, com um arquivo, uma mesa de centro, alguns equipamentos de boxe, um painel de cortiça. A mesa tinha itens comuns de escritório. Mas o que chamou atenção de Harry foram dois quadros. O primeiro, logo atrás de Dumbledore, era uma fotografia famosa do boxe: o nocaute no primeiro round de Muhammad Ali em Sonny Liston, em 25 de maio de 1965 – o famoso "Golpe Fantasma". Harry não conhecia toda essa informação, mas sabia quem era Ali. O segundo quadro, logo ao lado, fez com que Harry arregalasse os olhos: aqueles eram, nada mais, nada menos, que o "Quinteto de Dumbledore", os alunos que o treinador levou até o topo: Quim Shacklebolt, Emmeline Vance, Gideon Prewett, Edgar Bones e Rolanda Hooch. "Hagrid choraria de emoção se ganhasse um quadro desse...", pensava Harry. Ao que o treinador pediu, Harry se sentou na cadeira à frente, sem saber o que esperar. Dumbledore parecia sentir a ansiedade que vinha do garoto de óculos. Ele sorriu e foi falando:

- Harry... o que você está buscando?

O silêncio foi instantâneo. Harry não esperava por aquilo. Nenhuma luva. Nenhuma postura. Nenhum golpe. Só... uma pergunta. Só que era uma pergunta complicada. Depois de uns segundos, ele respondeu:

- O senhor quer dizer... com o boxe?

Dumbledore balançou a cabeça.

- Não. Sem o boxe. Sem o ringue. Sem os punhos. Só você.

Harry engoliu em seco. Olhou para o chão. Para os próprios tênis gastos. Para as mãos tremulantes. Dumbledore deixou que ele ativasse a parte da mente que estava perdida dentro de tantas distrações do mundo. Pouco depois, ergueu os olhos e respondeu com seriedade:

- Eu quero ser... a melhor versão de mim.

Dumbledore parou por um instante. Ele não era homem de se impressionar facilmente, mas aquela resposta o tocou. Não era vaidade. Aquilo era a mais pura sinceridade. O velho treinador se levantou de sua cadeira e andou até o quadro com o pôster desgastado dos seus antigos alunos. Ele tocou a parede ao lado do quadro, como se cumprimentasse os pupilos, como se dissesse "achei mais um, meus velhos amigos".

- Então, escute com atenção... Porque se você decidir trilhar o caminho do boxe, esse desejo será testado todos os dias.

Ele começou a andar lentamente pela sala. Harry o observava com total foco.

- Você vai acordar cedo quando estiver exausto. Vai sangrar quando ninguém estiver olhando. Vai perder quando tudo parecer ganho. Vai pensar em desistir mesmo tendo chegado tão longe. E quando todos acharem que você já deu tudo de si... vai ter que dar mais.

O treinador parou atrás da cadeira de Harry. Este levou seus olhos até o quadro do quinteto, tentando imaginar que aquilo que estava sendo dito, foi dito a todos eles anos atrás.

- Mas se você seguir esse caminho... e seguir por inteiro... vai descobrir coisas sobre você que nenhum espelho, nenhuma escola, nenhum outro esporte poderia te mostrar. – acrescentou Dumbledore.

Harry era preenchido pelas palavras. Sua determinação só crescia. Dumbledore não estava forçando o boxe nele, e sim contando o que vai acontecer caso ele se decida de vez. O treinador continuou.

- Pense nos grandes nomes, Harry. Manny Pacquiao, das Filipinas, teve uma vida repleta de dificuldades antes do boxe. Passou fome, dormiu na rua, trabalhou em empregos braçais... Hoje? Campeão em QUATRO diferentes categorias de peso – Peso-mosca, Peso-galo-júnior, Peso-pena e Peso-leve-júnior. Um profissional de altíssima qualidade, uma lenda.

Harry arregalou os olhos, tentava imaginar a virada impressionante na vida de Pacquiao. Dumbledore citou mais um, apontando para o quadro preto e branco:

- Muhammad Ali: começou aos 12 anos porque teve sua bicicleta roubada! Ele se tornou o símbolo anti-guerra em 1966 – e já era campeão Mundial dos Pesos Pesados naquele momento. Teve lutas icônicas na carreira – "Fight of the Century" (1971), "Rumble in the Jungle" (1974), "Thrilla in Manila" (1975). Também foi medalhista olímpico em Roma. Chamá-lo também de "lenda" não é exagero algum. Veja essa foto. Nocaute no primeiro round.

O fogo dentro de Harry crescia sem controle. Ele finalmente estava eliminando todas as dúvidas. Era o boxe que ele queria. Aquilo era épico demais para ser ignorado.

- Se você realmente quer ser a melhor versão de si mesmo... – foi falando Dumbledore – então tem que começar hoje. Não amanhã. Não depois do treino. Agora. Pontualidade. Técnica. Controle. Respeito. Fome. Paixão. Estudo. Disciplina. Cada degrau. Sem pular nenhum. Porque aqueles que tentaram pular etapas... caíram do alto.

Harry se levantou sério de sua cadeira. Olhou ao redor.A academia parecia diferente agora. Não era mais só um lugar com luvas e sacos de pancada. Era... uma forja. Um templo. Um lar. Ele se virou firme para o treinador e disse:

- Então me mostra. Me guia. Eu tô pronto pra começar!

Dumbledore sorriu.Um sorriso raro, leve, e cheio de significado.

- Então vamos dar o primeiro passo. E nunca mais parar.



...



Depois que decidiu se tornar a melhor versão de si mesmo, Harry se transformou numa máquina de treinar. Todo dia, sem fraquejar, sem se atrasar. Qualquer dúvida que aparecia sobre técnica, ele tirava com Angelina ou Dumbledore. Então ele aperfeiçoava cada aspecto: abdominais, flexões, treino de sombra, postura, jab, direto, cruzado, gancho, mais abdominais... E dobrava a intensidade a cada vez. Dumbledore sorria ao observar. Embora Harry não fosse o mais experiente e nem o mais habilidoso de todos do salão, ele, sem duvida alguma, era o que tinha a maior paixão, a maior vontade.

Era mais uma tarde comum na Columbia Road: Harry estava correndo pela calçada em direção à academia. O rosto tinha um sorriso empolgado, um que era de alguém que finalmente descobriu o que precisava.

Do outro lado da rua, pela vitrine do pet shop... está ela. Luna Lovegood. Ela deixou cair uma latinha de ração no balcão ao ver Harry passar. O cliente à frente dela ergueu uma sobrancelha.

- Oi? Moça? A ração?... Ei! – ele tentou chamar Luna.

Luna nem respondeu. Correu até a vitrine e encostou as mãos no vidro, com os olhos brilhando. O cliente resmungou algo, jogou uma nota em cima do balcão e saiu, nada feliz.

- Você viu, Pompom? – ela falou para o seu coelho favorito. – Lá vai ele... o garoto que carrega uma música dentro. E ele está tão feliz! Se ele soubesse a luz que está irradiando...

Luna sorriu um sorriso extremamente meigo, admirando o que outras pessoas não conseguiam ver. "Tomara que a gente se conheça um dia...", pensava a loira sonhadora.

A nova mentalidade de Harry foi contagiante. Rony e Hermione, influenciados pela empolgação dele, também melhoravam seu próprio boxe. O trio estava sempre fazendo um brainstorming de ideias para melhorar suas habilidades. Hermione vinha com informações técnicas e contexto histórico, Rony com sua coragem disposição de aprender e Harry com suas descobertas solitárias sobre como aperfeiçoar cada exercício.

Os outros às vezes olhavam para o trio, que parecia tão entrosado que estava criando seu próprio método de treinar. Angelina sorria orgulhosa. Neville olhava esperançoso, também querendo melhorar. Simas corria até eles às vezes pra pedir algumas dicas também. Gina sorria, Harry se mostrava cada dia melhor, cada dia mais boxeador. Dino agora tinha que se esforçar pra ter atenção exclusiva da namorada. Cho Chang, sempre em seu canto, ficava incomodada com toda aquela animação dos "inferiores".

- Presta atenção no seu, Neville! – vociferou a garota com traços asiáticos. – Você ainda erra suas sequências nas manoplas da Angelina, eu tô vendo daqui!

Neville se entristeceu um pouco. Gina ouviu e saiu em defesa na hora.

- E você pode prestar atenção nos outros, Cho? Já deve estar se achando a Katie Taylor aí, né?

Dino se colocou entre as duas quando viu que o clima ia esquentar.

- Calma, garotas... Relaxa, Cho. Aquele pessoal ali tá só brincando de boxe, nós somos a verdadeira referência aqui.

- Escuta seu namorado, ruiva. – disse Cho, se afastando.

- Essa... petulante! – disse Gina pra si mesma. – Dino, eles estão melhorando! Qualquer um pode ver isso. E nós três somos todos passíveis de erro aqui. Vamos nos concentrar ou eles vão nos ultrapassar em breve.

- Há! Nem se aqui fosse uma academia de magia! – foi rindo Dino.

Gina balançou a cabeça, cheia de desdém. Depois voltou à postura pro treino com o namorado. Neville estava sorrindo. Gina o tinha defendido e agora ele pensaria nisso o resto do dia.

Mais tarde, após os treinos em grupo, lá estava o trio na sorveteria. Os três sentados como sempre. Sorvetes na mão. Harry finalmente contou para eles sobre a conversa que teve com Dumbledore dias atrás. Hermione ficou encantada com as citações do treinador.

- O Manny Pacquiao tem um jogo de pés quase dançante. Já o viu lutar, Harry? Vi três lutas dele ontem à noite. É uma aula. Uma coreografia agressiva. Mês que vem, ele tem uma revanche contra Juan Manuel Márquez! A gente pode combinar de assistir na casa de alguém!

Rony estava lá, mas as palavras de Hermione eram pouco importantes. Ele estava olhando para ELA. O jeito que ela falava, o olhar empolgado. Como era bonita...

- Sim... dançante, é... – disse Rony.

Harry notou e entendeu o que estava acontecendo na hora. Sorriu de canto.

- Cuidado, Rony... sua bola de sorvete tá derretendo. – disse Harry com uma breve risada.

- Ah, deixa escorrer. Eu tô... absorvendo conhecimento.

Hermione revirou os olhos rindo e depois olhou sem jeito para outra direção.

- Pensei que não gostasse da falação, Ronald...

- A gente tem 15 anos, Hermione... Ainda estamos entendendo o que gostamos ou não. – respondeu o ruivo com um sorriso bobo.

Harry riu. Hermione acabou rindo também, aquilo foi, no mínimo, estranho.

- Gente, nunca mudem... é sério! – disse Harry.



...



Dois meses depois, a tarde chegava na Columbia Road. Luna está limpando o vidro da vitrine do pet shop enquanto murmurava uma canção bem baixinho. Um guaxinim doente dorme numa caixa. Pompom, o coelho, coça o nariz com a pata, pensando em quando viria a próxima cenoura.

De repente, Luna congela. Ela sabe o horário. Largou o pano, o balde e correu até a janela. Até mesmo escorregou de meias no chão de azulejo. Harry está passando. Mochila no ombro e pronto para mais um dia de crescimento. Luna apoia o queixo na mão, sonhadora. Foi falando ao coelho:

- Sabe quando toca aquela música que só a gente ouve? A que toca dentro? Toda vez que ele passa... eu a ouço.

Ela fecha os olhos. O som da rua desaparece. Só a batida da música imaginária permanece na mente da garota.

Pouco depois, Harry entrou na academia e viu a turma treinando. Só que não viu Dumbledore. Ele foi até Angelina e perguntou sobre o técnico.

- Ah, foi pagar umas contas, visitar uns contatos... – respondeu a aluna mais antiga. – Ele pediu pra eu conduzir o treino hoje e receber as entregas que vão chegar.

- Entendi... bom, vou me trocar. – respondeu Harry.

Angelina, com o seu jeito autoritário e experiência, ajudava os colegas. Ainda não estava na hora do treino em grupo, então ela ia a um por um saber como estavam se saindo em alguns fundamentos. Ela ajudou Cho Chang a ajeitar uma postura de gancho que estava esquisita.

- Ok... Você não é a Emmeline Vance, mas dá pro gasto... Continua com esse embalo.

Cho fechou a cara para o comentário, mas não respondeu. Só voltou a fazer seu treino de sombra solitário. Harry treinava com Rony, os dois sem luvas, simulando golpes no ar. O garoto de óculos mostrava uma sequência nova: cruzado com a esquerda, cruzado com a direita, e um gancho com a esquerda avançando — tudo com velocidade e precisão impressionantes para alguém com apenas dois meses de treino. Rony, um pouco assustado, recuou, pois foi na direção dele. Hermione aplaudiu com empolgação genuína e disse:

- Harry, isso foi incrível! Um gancho limpo desses podia sair em câmera lenta de tão certinho!

- Só faltou um trovão pra acompanhar... – comentou Rony impressionado. – Onde você aprendeu isso, cara?

- Eu percebi que isso parece ser bastante útil e pratiquei! – respondeu Harry, com um sorriso empolgado.

Dino Thomas, que estava conversando com Gina, percebeu a cena. O olhar cada vez mais confiante de Potter o incomodava. Brilho demais. Atenção demais. Então, o rapaz, sem dizer uma palavra, largou Gina ali sozinha e foi andando.

- Dino? Oi? – falou Gina, incrédula.

Ele não respondeu. Ele precisava ir até o trio. O errado tinha que ser corrigido. E ele ser menos notado que um completo novato era MUITO errado. Quando chegou, lançou seu clássico sorriso torto — meio arrogante, meio brincalhão.

- Olha só... já tá se achando o Ricky Hatton, é, Potter? Continue nesse ritmo de lesma e daqui há 100 anos pode começar a fazer algo decente!

Harry congelou por um instante. Não por medo. Mas porque... já deu. Já era demais. Ele se virou e encarou Dino nos olhos com frustração.

- E você é o quê? Campeão dos Pesos Pesados em FALAR? Por que não cuida da sua vida, ô palhaço??

Aquilo saiu alto o suficiente pra que todos da academia tivessem ouvido. Inclusive Gina. Ela se deslocou rapidamente.

- OPA, OPA! O que tá rolando?

O salão parou. Neville deixou cair a corda de pular. Simas mordeu o lábio. Cho já estava sorrindo, esperando um espetáculo. Era tudo que ela queria, e finalmente ia acontecer. Angelina, que corrigia Neville, também percebeu. Rony e Hermione olhavam preocupados, sem saber o que fazer. Dino olhou com um sorriso desafiador e debochado para Harry. Gina chegou e foi falando sério com o garoto de óculos:

- Mais respeito com o Dino, Harry. Você mal chegou aqui.

Harry estava lívido e cansado de Dino falar o que quiser e ninguém fazer nada a respeito. Ele deu um passo à frente ao invés de recuar e disse:

- Mais uma palavra desse seu namorado e ele vai precisar de um novo plano dentário!

Hermione tapou a boca. Rony arregalou os olhos. Dino... caiu numa gargalhada bem exagerada.

- Essa foi coisa mais engraçada que já ouvi! – disse Dino aos risos. – Gina, ele quer ME afrontar. Olha só essa audácia!

Naquele instante, Angelina chegou e se colocou entre os dois antes que uma briga realmente acontecesse. Ela vociferou:

- Sem briga aqui! Querem testar quem é bom? Façam isso no ringue!

- Você enlouqueceu, Angelina! – disse Dino ainda rindo. – Acha que quero ser preso por assassinato? Negativo. Gina, meu bem... Luta com ele?

O silêncio foi instantâneo. Gina olhou pra ele. Olhar seco. Frio. Ofendido.

- Quer que eu lute por você, Dino?

Rony se preocupou e avançou. Era a irmã dele, afinal.

- Gina! Não! O Harry só respondeu pro FOLGADO do seu namorado, que tá sempre desmerecendo todo mundo aqui! Vê se usa a cabeça!

Gina ficou furiosa de ver que agora, até o irmão que nunca se metia na vida dela, estava querendo dar palpite. A ruiva fechou as mãos com tanta força que foi possível ouvir os músculos delas se contraindo.

- Cala a boca, Ronald! – disse Gina. – Você também vai se meter, é? Não preciso da sua proteção!

- Como pode defender esse cara?? – Harry estava perplexo.

- E você! Acha mesmo que tem essa moral toda? – disse Gina. – Então vamos. Me mostre!

Gina foi andando e subiu ao ringue com determinação. Dino mal podia se conter de alegria. O que ele mais queria estava prestes a acontecer: A ruína de um novato.

- Vamos ver se o garoto prodígio aí aguenta uma rodada! – vociferou Gina. – Anda logo!

Harry não conseguia acreditar no que estava acontecendo. Gina, que parecia ser tão sensata, estava desafiando-o para uma luta na frente de todos. Ele olhou incrédulo para Rony e Hermione, e depois para Angelina.

- Vocês não querem mesmo que eu bata numa menina, né?

Angelina balançou a cabeça com as mãos na cintura e foi respondendo:

- Meu filho... você nem vai encostar nela. Minha única pergunta é: está pronto pra fazer isso sem o Dumbledore NUNCA saber? Porque isso aqui vai ser pra valer. Com regra. Com luva. E sem dedo-duro. É só assim que vou permitir.

Harry olhou pro ringue. Depois olhou pra Gina. Ela já estava posicionada. Protetor de cabeça colocado. Luvas nos punhos. Queixo firme. Olhar de quem não precisava que ninguém lutasse por ela. Ele respirou fundo "Se eu fugir disso, não tenho esperanças de viver como um verdadeiro boxeador", pensou.

- Tudo bem então. – disse com seriedade. – Vamos nessa.

Cho, no canto e de braços cruzados, vibrou por dentro como quem assiste um reality show.

Simas sussurrou um "Péssima ideia...". Neville estava preocupado com as duas pessoas. Ele mordeu o lábio com força. O ringue virou um teatro. E o ato principal ia começar: a primeira luta de Harry.



Continua...