Happy Ending
5 Capítulo V – Felicity o faz sorrir
Notas iniciais
FS
Confesso que estava um pouco tensa, o garoto Queen não parecia nem mesmo estar atento a minha existência dentro do carro, apenas trocou algumas poucas palavras com Dig, que havia perguntado como havia sido o dia na escola. Tentei puxar assunto, mas ele respondeu com monossílabas. Estava realmente preocupada que essa seria a reação que eu teria durante o resto da tarde.
Vi pela janela que estávamos entrando em uma espécie de área rural, a estrada era de pedras e cercada por árvores, pinheiros eu acredito, abri um pouco a janela e o cheiro era agradável, mas logo tive de fechar, minha alergia começou a sinalizar com o cheiro de árvores e flores.
— Você não me falou que iríamos para uma fazenda! – Sussurrei para Dig que riu.
— Não é uma fazenda Felicity, a mansão Queen fica em uma área fora da cidade, mas não é algo que você possa chamar de campo.
— Não é o que meu nariz está dizendo – Espirrei assim que acabei de falar.
— Garanto que não vai sentir nenhum cheiro de flores quando chegar à mansão, lá dentro é tudo muito limpo – John sorriu – E se me permite dizer, velho também.
O encarei com o canto do olho, nunca havia ido a uma mansão, mas a imagem que eu tinha era de uma espécie de castelo, MUITO velho, cheio de teias de aranha e um jardim com pedras quebradas, um pântano cheio de bichos e com um mordomo de bigodes grandes e o cabelo bem penteado, usando um smoking tipo pinguim, a mansão então teria um piso bem lustrado e escadarias de madeira escura, um lustre enorme sobre elas, infinitos quartos e móveis antigos cheirando a mofo.
Minha ideia foi posta a baixo assim que avistei o ENORME casarão, com pedras, um jardim bem aparado, um hall de entrada maior que o meu apartamento e esculturas em forma de coroas dos dois lados da porta e em uma fonte próxima a entrada.
— Uau! – Falei boba assim que desci do carro, olhei para cima e tive uma leve vertigem ao encarar a altura até os últimos cômodos.
— Você ainda não viu por dentro – John falou me dando um leve empurrão nas costas, só então notei que estava parada no mesmo lugar.
Entrei na mansão e ao contrário do que eu pensava não havia um mordomo engomado esperando na porta, mas sim uma senhora com sorriso doce, vestida como uma empregada, imagino que seja alguma espécie de governanta e ao lado dela Moira Queen, que diferente das fotos em revistas, estava com sorriso amigável no rosto muito bem conservado. Engoli em seco quando vi que ela vinha em minha direção.
— Você deve ser a tutora – Estendeu a mão para mim, respondi o cumprimento – Felicity Smoak, certo?
— Sim.
Fiquei extremamente desconfortável com o olhar avaliador que ela me lançou nos segundos que se seguiram. Quase desfaleci ao final de sua inspeção nada discreta com os olhos.
— O Sr. Diggle disse que era formada pelo MIT, por que não trabalha na área?
— Não tenho experiência.
— Em que outros empregos esteve antes?
— Em alguns, já trabalhei como garçonete por dois anos no Big Belly Burger, então passei a ser acompanhante de uma senhora idosa, secretária em uma agência de turismo e por último estava como camareira e atendente em no Motel Star – Eu não tinha um histórico profissional muito bom, mas fiz o que era necessário para sustentar a mim e Amy.
— Entendo – Eu ainda sentia aquela aura de avaliação, mesmo por trás do sorriso – Espero que possa desempenhar bem sua função com meu neto – Acenei com um pequeno sorriso. A Sra. Queen olhou para William que até então estava parado próximo as escadas – Se comporte querido, espero que a Srta. Smoak o ajude no que precisar para escola – Ela o acariciou no rosto e beijou sua cabeça, sorri com o gesto de carinho que parecia tão inocente – Se precisar de qualquer coisa, essa é Raíssa, a governanta – Apontou para a senhora de sorriso amável – Estarei no meu quarto – Concordei e ela subiu.
— É um prazer conhece-la Srta. Smoak – Raíssa apertou minha mão com as duas mãos e um sorriso aberto.
— Por favor, me chame de Felicity, isso de Srta. Smoak me faz sentir velha – Cochichei e ela riu.
— Tudo bem Felicity – Piscou para mim e então encarou William – Leve Felicity para o seu quarto para estudarem com mais calma – Ele concordou com um aceno.
— Vamos – Falou praticamente sussurrando, encarei Dig que piscou e levantou o polegar direito, sorri nervosa.
Segui William pelas longas escadas, posso ter me enganado com o negócio do mordomo, mas estava certa com o resto do interior, a casa realmente parecia antiga, os móveis eram antigos e haviam infinitos quartos, só que o cheiro não era de mofo, na verdade me lembrava algo como lavanda, era agradável.
Andamos por um comprido corredor, cheio de portas de madeira polida e envernizada, William parou em frente a uma, no final do corredor, próximo a uma janela que dava vista para uma piscina colossal nos fundos da casa.
— Esse é o meu quarto – Falou assim que abriu a porta. Não era nada impessoal, na verdade, as paredes estavam cheias de pôsteres e quadros de esportes, em sua maioria Baseball, a cama era grande e estava estendida com uma colcha com tema infantil, vários aviões em um céu azul e com nuvens, havia uma cômoda com alguns enfeites em cima, carrinhos de brinquedo e um avião pendurado sobre ela, a escrivaninha ficava perto de uma televisão de plasma grande, haviam alguns livros e um computador rodando um descanso de tela.
— É um belo quarto.
— Acho que sim – Ele suspirou e largou a mochila sobre a cama, sentando-se ao lado e me encarando – No que vai me ajudar?
— No que precisar, seu pai...
— Ele não é meu pai! – Fiquei um pouco em choque com a reposta tão rápida e fria.
— Certo – Limpei a garganta e coloquei os pensamentos em ordem – O Sr. Queen falou que você estava com dificuldade em várias matérias, podemos começar por você acha que está com mais problemas.
William ficou em silêncio por algum tempo – Você é mais uma das mulheres que dorme com ele? – Agora sim ele me pegou de surpresa.
Fiquei em uma espécie de torpor por alguns segundos, uma criança de doze anos não deveria falar dessa forma sobre o próprio pai. Respirei fundo e fechei os olhos por breve período.
— Não, na verdade eu nem mesmo conheço o Sr. Queen, fui apenas contratada porque sou uma grande amiga do John – Ele pareceu me avaliar por um tempo. Fiquei tensa novamente, parece que é um costume dos Queen ficarem analisando outras pessoas.
Depois de um tempo ele acenou com a cabeça – Matemática – Pisquei algumas vezes, estava perdida com esse assunto de dormir com o Sr. Queen.
— O quê?
— Você perguntou qual a matéria que eu estou com maior dificuldade – Meu cérebro voltou a funcionar normalmente e concordei.
— Certo, vamos ver então com o que você está tendo problema.
William pegou seus livros e um caderno e a partir de então não falamos mais nada que não fosse relacionado a trigonometria.
OQ
Como o esperado, o dia foi realmente uma droga, passei a tarde inteira ocupado com inúmeras rescisões e contratos que deveriam ser aprovados pelo CEO antes de serem enviadas. Isabel resolveu aparecer novamente e destilar seu veneno, de forma indireta deixou escapar que estava a um fio de mover um processo para me tirar do comando da Corporação Queen.
Estava pensando em que advogado pegar caso ela mova um processo, Laurel me pareceu uma boa opção, exceto pelo fato de que ela não estava falando comigo desde que descobriu que na verdade William havia sido concebido enquanto ainda namorávamos. Mas isso era algo que eu não iria me preocupar agora.
Suspirei cansado, fechei os olhos e afrouxei a gravata, novamente iria ficar até tarde no escritório. Minha rotina estava cada vez mais cansativa, não me recordo da última vez que consegui voltar para casa antes de anoitecer. Encarei a pilha de papéis sobre a mesa, sair mais cedo hoje iria aumentar o meu trabalho para amanhã, mas minha cabeça estava latejando e a ideia de ir para casa e deitar em minha cama até amanhã cedo era tentadora demais para resistir.
Desliguei o computador e peguei meu paletó que estava pendurado sobre a cadeira, tirei a gravata e a coloquei no bolso da calça, fui até o elevador e tentei ao máximo esquecer qualquer coisa que fosse relacionada com trabalho. Peguei meu carro no estacionamento e dirigi sem pressa para casa, o sol estava se pondo e a visão da baía de Star City refletida pelos poucos raios alaranjados me deixou sorrir.
Cheguei até a mansão e encontrei Dig lavando o carro, ele pareceu surpreso ao me ver, parou o que estava fazendo e veio em minha direção assim que desci.
— Chegou cedo senhor.
— Sabe que não gosto que me chame assim John – Apesar dele trabalhar para mim, tínhamos uma relação próxima, ele era um de meus poucos amigos.
Ele riu – Eu sei que não, mas você parece de bom humor.
— Resolvi chegar um pouco mais cedo, estou cansado, tive a oportunidade de ver o pôr do sol refletido sobre o mar, sabe como gosto da natureza e considerando que faziam incontáveis dias que não sabia o que era sair do escritório antes do anoitecer, essa simples visão me deixou um pouco tranquilo.
— Está certo – Enxugou as mãos em um pano que estava pendurado sobre o ombro e encarou as janelas da mansão – Felicity está estudando com William.
Eu havia me esquecido completamente disso, o dia havia sido cheio, minha secretária falara que a Srta. Smoak esteve no escritório para assinar o contrato, mas eu não estava realmente ciente de que ela viria hoje.
— Isso é bom, vou subir e ver se está tudo bem – Dig concordou com um aceno e voltou a fazer suas tarefas.
Cumprimentei Raíssa assim que entrei na mansão, subi as escadas de dois em dois degraus, porém, andei mais devagar pelo longo corredor, evitando que fosse notado. Ao me aproximar da porta do quarto de William, uma doce risada feminina chamou minha atenção, fui pé por pé até chegar a pilastra, me apoiei com cuidado ali, já que os dois estavam de costas.
— Isso até que é legal – William falou sorrindo. Eu nunca havia o visto sorrir desde que ele veio morar aqui.
— É claro que é legal, é matemática afinal de contas, é como montar um quebra-cabeça – Felicity riu novamente e encarou os livros e cadernos a sua frente – O que acha de pararmos por hoje?
— Tudo bem, você me ajudou muito.
— Fico feliz que sim – Ela passou a mão com carinho na cabeça do meu filho – Nos vemos amanhã e então começamos com história.
William meneou a cabeça – Prefiro matemática.
— Na sua idade eu também preferia – Felicity deu um suspiro alto e exagerado – Mas, história é algo que você tem que aprender, mesmo que não vá influenciar realmente na sua vida.
— Eu só acho muito chato estudar sobre pessoas que já morreram.
— E é chato, mas se você encarar como uma forma de viagem no tempo, assim como nos quadrinhos do Flash, vai acabar ficando um pouco mais interessado.
— Pode ser – Mais uma vez William sorriu.
Vi que eles iriam levantar e me fiz presente com um pigarreio, Felicity deu um pulo surpresa, já William desmanchou o sorriso na hora e fechou a cara, voltando sua atenção para os livros, os guardando dentro da mochila.
— Sr. Queen, não sabia que estaria em casa a essa hora – Felicity levantou-se e veio em minha direção com passou lentos.
— Resolvi sair mais cedo hoje – Encarei William – Como foi a aula amigão?
— Boa – Ele nem mesmo me encarou, suspirei e fiz uma careta, isso era frustrante.
— A Srta. Smoak está ajudando você? – Resolvi insistir um pouco.
— Sim – Mais uma resposta curta e fria. Passei os olhos por Felicity e ela me encarava com um misto de surpresa e pena, não gostei desse olhar.
— A aula acabou por hoje Srta. Smoak?
— Sim, amanhã continuaremos – Ela sorriu fraco, percebi que estava tensa, as mãos entrelaçadas em frente do corpo estavam inquietas.
— O Sr. Diggle irá leva-la?
— Sim.
— Certo – Eu não sabia mais o que dizer, estava apenas tentando ser cordial, mas tanto ela quanto William não pareciam muito dispostos a manter um diálogo. Isso estava me irritando!
Não sei quanto tempo fiquei parado na porta, Felicity também estava parada me encarando, William estava demorando propositalmente para arrumar suas coisas, eu estava ficando constrangido. Suspirei e encarei Felicity que agora olhava para o teto e erguia-se sobre os pés ansiosa.
— Eu já vou indo então, obrigado Srta. Smoak, espero que continue fazendo um bom trabalho, sinta-se à vontade para ir até a cozinha e comer alguma coisa se desejar.
Ela piscou algumas vezes antes de me responder – Oh, claro Sr. Queen, obrigada mais uma vez por ter me contratado – Seu sorriso tornou-se mais doce e sincero – William é um menino muito inteligente, tenho certeza de que em breve não precisará mais de meus serviços – Notei um certo pesar em sua sentença – Eu também já irei, está tarde e minha filha ficou sozinha em casa – Ela encarou William e aproximou-se – Até mais, estude mais um pouco antes de dormir e se tiver qualquer dúvida, me mande uma mensagem, até amanhã.
— Obrigado Felicity, até amanhã – Ele sorriu fraco e então Felicity dirigiu-se até a porta.
— Com licença Sr. Queen – Dei espaço para que ela passasse e fiquei observando até que desaparecesse pelas escadas. Apesar do jeito simples, Felicity Smoak era a única pessoa que havia feito meu filho sorrir como uma criança de doze anos deve fazer. Eu estava certo em pensar que ela é alguém notável, talvez não fisicamente, mas sua personalidade era algo que me deixava intrigado, talvez fosse uma boa ideia me esforçar em chegar mais cedo em casa a partir de agora.
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