Hannah Montana e Eu (Miley To Go)
4 Nem tudo foram borboletas e flores
Dizer que a sexta serie não foi boa seria faltar com a verdade. Ao descobrir que aquela sessão – piloto – quando todos os testes para a TV ocorrem em Los Angeles – coincidiria com inicio do ano letivo em setembro, passei mais uma hora n chão do meu quarto se lamentando. Significava que, se quisesse trabalhar na TV, teria de começar a frequentar a escola em Nashville com duas semanas de atravo. Na época, pensar em faltar as aulas parecia terrível.
Tínhamos acabado de voltar do Canadá, depois de termos passado um ano ali, perto de Toronto, onde meu pai trabalhara na série de TV Doc. Ele e minha mãe viajavam de lá para cá havia alguns anos, mas no verão anterior ao meu ingresso na quinta serie, todos sentimos muito a falta dele, então minha mãe nos levou para viver lá.
Ela me deu aulas em casa por um ano. Naquele tempo eu retornava a antiga escola, após um ano de ausência. Não era apenas isso; eu sabia perfeitamente bem como eram as primeiras semanas de aula, quando tudo se ajeita: conhecemos professores, encontramos amigos, descobrimos se as roupas que compramos para ir a escola são aceitáveis – ou totalmente inaceitáveis. As pessoas legais se descobrem. As pessoas inteligentes se descobrem. Eu e todas as outras pessoas “comuns” percebemos que é melhor unir forças e da o nosso melhor. Se você perde toda essa diversão, corre o risco de ficar de fora; de se tornar um fracasso. Se já entrou no ensino médio, sabe do que estou falando. Se ainda não chegou lá, bem, pode esperar. As coisas vão melhorar, garanto. De qualquer modo, deve ter ficado claro que perder aquelas aulas estava longe do ideal. Mas, se desejava ser uma artista – e eu queria mesmo -, não havia escolha. Tinha de ir para Los Angeles.Não esperava voltar a escola e ser uma da meninas populares. A fazenda do Tennessee, onde vivíamos quando não estávamos em Toronto, era meio isolada, portanto, não havia crianças na vizinhança com quem pudesse fazer amizade. Cresci brincando com meus irmãos, mas sentia-me bem entre meus pais e amigos.
Não ajudou muito o fato de sempre ter tido energia em excesso. Não conseguia sentar e me concentrar por horas a fia. As pessoas não sabiam muito bem lidar comigo. Não que estivesse tentando se desrespeitosa, mas Eu. Simplesmente. Não. Parava. Quieta. Certo ano, no primeiro dia de aula, minha professora disse que eu levaria advertência se dissese mais uma palavra. Virei-me para a minha amiga e sussurrei:
–Mais uma palavra.
Pronto! Advertência. Por sussurrar. No primeiro dia de aula. Tive sorte de a professora não ter ouvido exatamente o que eu disse, ou sabe-se lá o que teria acontecido comigo.
Na escola, sempre queria ser eu mesma e não tinha vergonha disso. Falava muito. Destacava-me nas aulas de teatro e musica. Tirava boas notas. Tinha sonhos esplendorosos. Não era exatamente a formula para ser “tranquila”. A maioria das crianças tem medo de não se encaixar; eu me preocupada em não me destacar. Queria me sentir única, diferente. Mas ganhar destaque perdendo o começo essencial das aulas não era o que pretendia.
Então, ao regressar a Nashville para começar a sexta série – duas semanas após o início das aulas -, meus amigos se mostraram felizes em me ver, e a vida parecia ter voltado ao normal. Comecei a achar que tinha exagerado, ficado preocupada por nada. Mas logo percebi que não era bem assim. Uma de minhas amigas mais próximas, vamos chama-la de Rachel*, e eu começamos a fazer amizade com um grupo de meninas de nossa sala. Elas não eram meninas “populares” nem “malvadas”. Não sabia muito bem qual era a delas na época, e não posso lhes dar um rótulo agora. Mas, por algum motivo, formavam um grupo com o qual eu desejava me envolver.
O primeiro sinal de problemas foi a coisa mais infantil que se pode imaginar. Estávamos perto de nossos armários após a aula de matemática. Fiz uma brincadeira e a líder – que vai ver chamada de MM, Menina Má – revirou os olhos. E foi isso: um gesto pequeno... que desapareceu num instante. Mas estávamos na sexta serie. Tudo significa tudo na sexta serie. O que eu fiz? Nada, é claro. Se você já passou pela sexta serie, sabe como as coisas são. Se tivesse dito qualquer coisa, do tipo “Para que essa cara de tédio ?”, MM teria dito algo para ficar por cima, do tipo “Não sei do que você esta falando”, e eu seria humilhada – algo que detesto mais do que qualquer coisa. Então, agi como se não tivesse visto. Ignorei.
Mas os sinais continuaram ocorrendo. Alguns dias depois, coloquei minha bandeja na mesa do refeitório e pensei ter escutado um resmungo. Um resmungo ? Na semana seguinte, cheguei vestindo uma jaqueta jeans nova. E disse:
– Adoro a roupa que estou vestindo hoje.
Uma delas resmungou:
–É mesmo ? – E me lançou um olhar que me fez sentir como se eu fosse uma ervilha seca no chão. Do jantar de ontem.
Soube então que não estava sendo paranoica; estava era sendo deixada de lado. Por que minhas “amigas” se voltavam contra mim? Não sabia. Mas era isso mesmo. Bem-vindo ao inferno da sexta série.
Fale com o autor