Hanahaki

1 Doença das flores


Sara bateu na porta do banheiro mais uma vez, perguntando se estava tudo bem, mas Emil não conseguiu responder. Sentiu uma nova onda de dor subir pela garganta e abriu a boca o máximo que conseguiu, forçando a rosa para fora. O braço estava apoiado na louça do vaso, a testa apoiada no braço e ele teve que enfiar a mão dentro da boca para tirar o espinho preso em sua língua. O gosto metálico do sangue certamente não era bom, mas estava acostumado, então também não era insuportável. Conseguiu forçar um fio de voz para garantir que ele provavelmente comera algo ruim, e só quando ouviu a italiana sair de seu quarto foi que se deixou cair sentado no chão.

Começou com uma pétala, nada diferente do padrão.

Emil tinha catorze anos e era sua primeira vez na Bielorrússia. Estava no meio de um salto quando tossiu e algo diferente se alojou em sua língua, mas continuou com a apresentação. Infelizmente, o desconforto em sua garganta o distraiu o suficiente para que voltasse para a casa com a quarta colocação da final do Campeonato Júnior.

Assim que saiu do gelo, colocou os dedos na língua. Era uma pétala vermelha e aveludada, e o garoto não pode deixar de pensar na ironia.

Rosas não são tão românticas quando crescem em seus pulmões. Os espinhos rasgam por dentro no caminho de fora e os botões tem gosto amargo e o pólen vira uma pasta nojenta e viscosa quando se mistura com o sangue, além de secar sua língua. Depois das crises, ele não consegue beber água. Em parte porque é difícil engolir qualquer coisa com a garganta cortada, em parte porque às vezes as pétalas bloqueiam a passagem e ele engasga e se afoga com o menor dos goles.

Se der sorte, consegue ingerir algo poucas horas depois, o que é importante para tirar os espinhos que ficam presos pelo caminho, mas ele não tem sorte e não é incomum dormir com a sensação áspera de literalmente estar furado por dentro.

Às vezes, considera a cirurgia. Quando eram só pétalas realmente não atrapalhava muito, mas agora que cuspia botões e flores inteiramente abertas, respirar estava ficando mais difícil, principalmente no ringue. Seu treinador acha que ele anda sem fôlego por estar relaxando nos treinos, quando na verdade é justo por nunca conseguir ar o bastante que não consegue se manter pelo tempo necessário. O problema era que a cirurgia não tiraria só as flores de seus pulmões, arrancaria também o sentimento, como se ele fosse erva daninha ao invés de adubo.

Às vezes, ele tem esperança.

Quando sai com os gêmeos Crispino qualquer gesto mínimo de afeição convence seu coração inocente de que ele vai melhorar, é só questão de tempo.

Na maioria do tempo, simplesmente aceita que morrerá jovem.

A coisa boa, porém, foi descobrir cedo que Mickey gostava de rosas brancas.

Demorou pouco tempo para ele descobrir que as flores estavam manchadas do seu próprio sangue. Quando as pétalas começaram a vir em quantidades maiores, algumas que ficavam no meio do bolo conseguiam se preservar brancas, ou pelo menos não serem completamente coloridas. Então, dar os buquês certos para congratular os gêmeos pelas vitórias só veio naturalmente.

A onda de dor surgiu de novo, mas dessa vez ele teve que desprender os espinhos do céu da boca. A crise tinha terminado, sabia, então enfiou a mão na água do vaso, tirando as flores meio destruídas e pétalas soltas e jogando no lixo.

Seria tão mais fácil se fosse Sara. Ela era uma boa amiga, e Emil sabe em suas entranhas que não seria tão difícil escolher pela cirurgia se fosse ela. Não que a mulher não fosse incrível; era. Mas Sara não era Mickey, por mais bonita, gentil e dedicada que fosse, era impossível. Compará-la ao irmão era como comparar a Copa Europeia e o Grand Pix — ganhar o circuito europeu certamente era algo grande e muito recompensador, mas só participar do mundial era de outro planeta e Michele era como ganhar a medalha de ouro.

Emil também sabe em suas entranhas que as chances de não estar mais ali para o próximo ano são grandes. Consegue sentir que logo as raízes estarão em suas artérias e botões vão vir em buquês grandes o bastante para que ele não volte a respirar depois de uma crise. Pergunta-se se as rosas vão nascer em sua pele, se vai acordar um dia com uma flor desabrochando de seu ouvido e a ideia o aterriza pelos motivos errados. Sabe que não sente nada, mas mesmo assim se força a levantar e confirmar no reflexo do espelho.

Não havia botão crescendo do ouvido, mas seus lábios estavam tingidos de vermelho e a expressão abatida. Nekola ligou a água fria, lavando o rosto, e permaneceu ali até a tremedeira nas pernas diminuir e ter a certeza de poder caminhar sem vacilar.

Sara e Michele estavam no meio do corredor, a mulher com um buquê de tulipas coloridas nas mãos. Pareceram surpresos de vê-lo saindo do quarto, e o louro não precisou forçar o sorriso.

"Para dar boa sorte amanhã." A Crispino falou.

Mickey tossiu.

"Você precisa tomar cuidado com o que come, Emil. Vai conseguir competir amanhã?"

Ali estava. A esperança boba enraizando novamente em seu peito simplesmente porque o italiano percebia sua existência.

Emil garantiu que estava tudo bem. Só ia conversar com seu treinador e comeria algo leve. Os gêmeos desejaram melhoras, mas precisavam também ir atrás da delegação italiana para acertarem detalhes da apresentação do dia seguinte. Sara não parecia feliz com a ideia, mas Mickey era dedicado demais e não arriscaria perder o pódio e, consequentemente, o lugar deles no Grand Pix.

Quando eles sumiram na curva do corredor, Emil cuspiu pétalas ensanguentadas.

Queria acreditar que as tulipas foram escolha de Michele, mas mesmo pra seu coração apaixonado a ideia de que ele perceberia suas flores favoritas parecia absurda.

Inspirou, fundo, seguindo para o elevador.

Era sua última chance de competir no mundial, e a faria valer.

Notas finais
Olá você
Eu estava com esse plot fazem alguns dias na cabeça. Ele acontece durante o circuito europeu, enquanto os personagens ainda não haviam reencontrado o Yuuri. Portanto, Sara e Mickey ainda estavam competindo como uma dupla.
O final foi bem aberto porque, sinceramente, não tenho um coração gelado a ponto de matar o Emil. Ele é um nenê e merece ser protegido, mas, de alguma forma, esse casal me pareceu o mais adequado ainda para o que tinha em mente.
Eu fiz uma revisão muitíssimo rápida e pode ser que tenha deixado algum erro escapar - se foi o caso e notou algo, deixe-me saber!
Espero que tenha gostado.
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!