Halloween Love
16 O caçador
Notas iniciais
–Ele não parece ser daqui...
–Um estrangeiro?
–Parece ser um caçador...
Os cochichos dominavam o ar abafado e denso da taberna. Tratava-se de um estabelecimento em uma doca em uma cidade pesqueira. A noite chuvosa e fria tinha gerado como consequência a aglutinação de todos nas tabernas, estalagens e bares do local. Contudo, naquela taberna, especificamente, apresentava um visitante que se destacava dos demais. Seus cabelos brancos, rosto jovial mas que estranhamente parecia emanar um frio e apreensão, tal como uma aura sombria o que fazia os clientes se afastassem, apesar de quão apertado o recinto estava.
–Eu não costumo fazer esses tipos de negocio, da... –Falou sorridente o desconhecido para os quarteto que estava sentado em sua mesa. Enquanto falava afiava a sua faca serrilhada em uma tira de couro, cada vez que passava a lâmina sob o couro negro o quarteto parecia sentir calafrio e seus olhos seguiam o movimento –Não costumo negociar com as minhas presas.
–O-ora... Pense unicamente no lucro que terá com essa “negociação”. Esqueça nossas diferenças! –Disse um rapaz de cabelos loiros, pele alva, barba por fazer e um forte sotaque francês. Suas mãos se movimentavam de forma exagerada enquanto falava – Além do mais, se nos caçar que ganho terá?
–Nem sempre eu caço pensando tão somente no dinheiro. –Analisou a faca e passou o dedo sob a lâmina ocasionando um corte na pele, o sangue escorreu mas o caçador não parecia sentir o expressão nenhuma dor – A família Braginski tem anos de tradição em caçar seres sobrenaturais... Sentimos prazer tão somente capturar e matar nossos troféus.
–T-t-troféu!? –Gaguejou um garoto, o menor do quarteto, seus olhos azuis já estavam cheios de lágrimas.
O caçador o encarou e seu sorriso aumentou, isso só fez o garoto tremer ainda mais e se esconder atrás dos dois outros membros.
–Senhor Ivan Braginski... –Falou aquele tinha cabelos loiros curtos, parecia ser o líder do trio, já que francês não parecia se associar com aqueles três – Sei que irá se divertir...-Ajeitou o óculos –E a caçada será mais recompensadora se suas presas se revelarem de grande importância para o mundo sobrenatural. Já imaginou como os outros caçadores irão se reverenciar ao saber que você conseguiu abater o líder dos lobisomens como também o líder dos vampiros? E ainda mais se capturar os filhos deles... Irás virar uma lenda viva. Todos irão te temer e admirar.
Ivan fincou a faca na mesa com força, os copos que ali estavam em cima caíram com a ação.
–Isso seria algo interessante...-Falou dando uma risada que de fato parecia bastante estranha. Era muito semelhante a um som “Kokokoko” o que era realmente sinistro.
–Então temos um acordo? Aceita nosso pedido? –Perguntou agora o francês.
–Aceito...-O quarteto sorriu animado e também aliviado, se entreolharam esperançosos – Mas... Eu tenho algumas condições.
–Oh! Sim...Obvio. –Disse aquele loiro que detinha os óculos – E quais seriam?
–Eu realmente não importo o que lobisomens...-Falou Ivan lançando um olhar para o trio de rapaz – E vampiros...-Olhou para o francês – Estão tão interessados assim em matar seus semelhantes, não entendo e nem quero entender a politica por trás disso tudo, desde que isso não atrapalhe o meu trabalho e minha diversão...
–Certamente...-Continuou o rapaz de óculos.
–E para garantir que cumpram a sua parte do acordo... –Sorriu novamente, era estranho o seu sorriso, ao mesmo tempo assustador e infantil – Um de vocês terá que me acompanhar, não quero ser enganado, afinal a oferta de dinheiro e fama é muito tentadora, deve-se sempre desconfiar de algo assim...
–Nós não desejamos te enganar! Nós daremos nossa palavra e...
–A palavra de vocês não valem nada para mim. –Respondeu Ivan simplesmente retirando a sua faca serrilhada da mesa –Eu não confio em seres como vocês...Eu nem confio em humanos... Se não aceitam meus termos nosso acordo está quebrado, além disso lhes darei uma vantagem de 10 minutos para que fujam antes que eu os cace pessoalmente.
–I-isso não será necessário...Mon amí! –Riu nervoso o francês –Um de nós irá acompanha-lo! Será a garantia de nosso contrato e de que irá ganhar o seu dinheiro ao fim disto tudo!
–O que? –Um rapaz de cabelos castanhos um pouco mais longos e feição doce e calma se levantou da mesa –N-não podemos entregar um dos nossos assim! Digo...Que garantia teremos que você não irá machuca-lo? Se você não confia em nós...Tão pouco confiamos em um caçador!
–Toris... –O loiro colocou a mão no ombro do companheiro e o forçou a sentar, não estavam sós na taberna afinal, os olhos e ouvidos curiosos podiam os espionar e a identidade do grupo seria descoberta e logo teriam muita mais coisas para se preocuparem do que um caçador somente –Não temos outro jeito... Ele é a melhor opção que temos...
–Mas... –Toris queria argumentar, mas simplesmente não tinha nada a ser dito, eles três não tinham o poder nem habilidade para lutar contra a alcateia do líder dos lobisomens, além disso se tratavam apenas de peões por trás dos verdadeiros lideres do grupo opositor ao poder de Maximiliano, os lobisomens europeus que não aceitavam a influência e poder dos lobisomens do novo mundo e muito menos queriam ser submissos a aquele líder que agora sugeria uma aliança entre vampiros. Paradoxalmente, esse mesmo grupo rebelde tinha se aliado a vampiros que apresentavam a mesma linha de pensamento, não desejavam a aliança por isso fariam de tudo para quebra-la, mesmo que significasse matar seus próprios lideres.
–Eu vou...-Falou o loiro se levantando.
–Não. –Respondeu o caçador –São os meus termos, logo sou eu que escolho o meu companheiro.
Novamente Toris quis argumentar, o seu companheiro também parecia querer protestar, enquanto o vampiro mordia, nervosamente, as unhas.
–Eu quero ele. –Ivan apontou com a ponta da lâmina o pequeno lobisomem escondido atrás de Toris.
–O Raivis?! – Toris estava surpreso e ao mesmo tempo assustado com escolha –Ele não pode ir! Ainda é...Um filhote!
–Preciso de um bom cão de caça, um bom nariz para farejar o inimigo. –Explicou o rapaz de cabelos platinados e sorriso infantil.
–E-eu não sou um cão...-Sussurrou Raivis, lágrimas escorriam de seu rosto.
–Eduard! Faça alguma coisa! –Suplicou Toris olhando para seu outro companheiro que estava com um ar pensativo e tenso.
–Ora, não sejam tão dramáticos! Aposto que ...Como é mesmo o nome dele? Ravi? Rami? –Falou o francês, agora mais relaxado ao ver que não fora escolhido.
–É Raivis! –Rosnou Toris.
–Que seja... Enfim, aposto que ele vai aprender alguma coisa...Vocês lobos devem gostar de uma caçada, não? O que tem demais em participar de uma destas caçadas ao lado de um caçador?
–Um caçador que pode muito bem mata-lo! –Cortou Toris –Definitivamente, não iremos deixa-lo sozinho com esse... –Engoliu em seco ao ver Ivan os observando, parecia estar entediado, estava limpando a sua arma, um revolver de prata, o humano estava limpando as balas de prata... Metal mortal para os lobisomens. Se eles não aceitassem os termos dele Ivan iria caça-los e seriam o fim... Mas mesmo assim, não podiam abandonar Raivis!
–E-eu aceito...-Falou o mais novo, apesar de gaguejar e tremer, a sua postura, de certo modo, parecia corajosa.
–Raivis...Não precisas fazer isso se não quiser. –Falou Eduard –Podemos pensar em uma solução...-Mesmo que no momento parecia não haver nenhuma.
–N-não..Eu sei que consigo...E-eu...Eu sou bom farejador...V-v-você mesmo disse!
–Eu sei...-O loiro sentiu um aperto no coração, de fato o pequeno era um bom farejador, mas também era inexperiente e deveras inocente...Temia pela a segurança do filhote.
–Ele vai ficar bem, não precisa se preocupar. –Falou Ivan se levantando, arma posta em sua cintura –Eu cumpro os meus acordos e como vocês mesmo disseram, eu só terei lucro, mas caso estejam me enganando...-A grande mão do caçador envolveu a nuca do menor, o movimento não parecia feroz, mas os seus dedos facilmente envolveram o pescoço de Raivis –Vocês perderão o seu pequeno filhote fofo... –Sussurrou, em seu rosto não havia mais um sorriso, o semblante sério e sinistro fez que o trio restante ficasse paralisado de medo, nenhum se opôs as palavras do Braginski. Só recobraram os movimentos do corpo quando Ivan se retirou do recinto arrastando o pequeno lobisomem consigo.
–O que fizemos? –Chorou Toris colocando as mãos no rosto, as lágrimas não podiam ser contidas. Eduard estava silencioso olhando a cadeira vazia a qual antes estava sentado Ivan, parecia ainda não acreditar no que tinha ocorrido. O vampiro bebia, trêmulo, uma taça de vinho.
Subitamente a noite parecia muito mais fria e aterrorizante...
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–Você gosta de girassóis? –Perguntou Ivan depois de um tempo, o pequeno lobisomem o acompanhava a passos lentos, constantemente olhava para trás como que buscasse seus amigos na sombra, ficava a uma distância razoável do caçador, mas ao ouvir algo estranho, tal como coaxar de um sapo ou mesmo o voar de pássaro noturno, o filhote logo se aproximava de Ivan, quase o tocando.
–Ah? –Perguntou em um sussurro.
–Eu disse...Você gosta de girassóis?
–E-eu...B-bem...-Raivis lambeu os lábios, seu corpo começou a tremer –Eu...Acho eles bonitos... Digo...Parecem sóis...E...Eles se movimentam seguindo o sol...P-parece algo mágico e...e... –Mordeu o lábio inferior e abaixou os olhos, Ivan pode ver que o garoto estava chorando, um sorriso se formou em seus lábios.
–Boa resposta...-Falou dando um cafuné no jovem lobisomem –Parece que podemos ser amigos, da? –Nisso se afastou começando a cantarolar uma música russa. Raivis limpou rapidamente o rosto úmido de lágrimas, estava confuso... Aquele caçador era assustador e misterioso demais! Não conseguia entende-lo.
–Se ficar para trás, não me responsabilizo por sua segurança –Disse Ivan, Raivis se sobressaltou e logo correu para perto dele, dedos quase tocando o casaco de pelo do maior.
“Interessante...” pensou Ivan “Essa caçada vai ser bastante interessante...”.
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