Halloween Love
20 Dentes, magia e temores
Notas iniciais
A criatura de pelagem branca e longas orelhas fuçava as ervas ainda cobertas do orvalho da manha. Seus pequenos olhos observavam o ambiente a sua volta de instante em instante tendo certeza que estava realmente só ou seguro. Suas orelhas sempre em pé escutavam, parecia que não havia nenhum predador por perto. Se deixou relaxar por alguns segundos, com o seu focinho inspirava o odor das deliciosas plantas. Deveria comer, quanto mais rápido o fizesse, poderia retornar a sua segura toca.
Crack!
Não estava só! Tinha se enganado! Teria que fugir. Suas grandes pernas traseiras já estavam prontas para impulsionar o seu pequeno corpo para frente, iniciando a sua manobra de fuga, pois correr era a sua única defesa. Saltou em meio ao ar, o vento úmido da floresta atingiu suas narinas, infelizmente esse seria a sua ultima lembrança, já que um seu temido predador o abocanhou em pleno ar, suas mandíbulas perfurando sua pelagem, quebrando seus ossos, jorrando seu sangue... Sua vida, finalmente, esvaio de seu corpo.
O coelho foi capturado pelo o grande lobo.
~~**~~**~~
Arthur observou toda a cena, escondido atrás de uma moita, cobriu a boca com as suas mãos, tentando evitar um grito que se formava em sua garganta e subia para se libertar de seus lábios. Nunca tinha presenciado uma morte, de fato, nunca participara de uma batalha muito menos de uma caça, lógico que sabia que a comida que era servida em suas refeições era proveniente de animais que perderam suas vidas para o proposito de alimentá-lo. Mesmo assim, o vampiro ainda ficou surpreso com a ferocidade do ato. Será que poderia ser capaz de fazer algo semelhante a outro ser vivo? Não podia se tornar vegetariano agora... Vampiros necessitam de sangue!
–E aí? Gostou das minhas habilidades? – Alfred falou, se aproximando, limpando com as costas da mão a boca ensanguentada e trazendo o coelho morto com a outra mão livre.
–B-bem... Você foi bem rápido...-Admitiu, tentando não olhar para o rosto do seu companheiro, não conseguia associar o rosto alegre e até mesmo infantil de Alfred com o lobo feroz que acabara de abater um pequeno coelho. Contudo, logo se arrependeu do seu ato, já que seus olhos se posicionariam justamente no corpo nu do lobisomem, mas precisamente no local abaixo da cintura. Seus olhos se arregalaram, seu rosto ficou rubro, seu coração bateu tão rápido que mais parecia um zumbido... Ou seja, seu corpo estava lhe avisando que estava entrando em colapso, também alertava que, possivelmente, se não alterasse seu ponto de visão, as consequências seriam desastrosas, isso significava que ficaria excitado! Algo perigoso, já que estavam no meio da floresta, sozinhos e Alfred estava, definitivamente, nu! Sem dúvida, havia um grande perigo, naquela situação.
–Oh! Santo morcego banguela...-Resmungou voltando novamente sua cabeça para cima, logo encarando o rosto confuso do lobo.
–Artie~ -Choramingou o maior – Você não vai me elogiar? Capturei o nosso jantar!
–V-você foi muito prestativo, obrigado. –Falou o vampiro, em um tom bastante formal, tentando conter o seu embaraço.
Alfred estava tentando decifrar as reações do seu pequeno amado.
–Quer segurar o coelho? –Ofereceu, já empurrando o animal para o outro.
–N-não! –Arthur praticamente gritou, tentando afastar o cadáver de si. Parte do sangue fresco respingou em sua roupa, desesperadamente, o vampiro tentou limpar. Lágrimas já começavam a se formar seus olhos.
–Arthur. –Alfred segurou o pulso do vampiro, firmemente, a voz séria do lobo fez o menor tremer. Será que o tinha ofendido de alguma forma?
–Esse animal serviu o seu proposito. A natureza é um ciclo continuo, a sua morte não significa o fim, esse coelho será aproveitado por meus irmãos lobos e seus nutrientes e sais irão servir de combustível e componentes para a manutenção de nossa vida. Morte e vida se entrelaçam... Um dia eu também irei morrer e minha carcaça será aproveitada de alguma forma para preservar a vida de outros seres. Não se deve temer a morte, deve-se honrar todos os seres vivos, logo matamos para sobreviver e não pelo o prazer de matar. A caça deve ser respeitada. Além disso, o espirito não morre. Esse coelho, sua alma, irá um dia retornar a vida no corpo de outro animal... Existe um ciclo tanto da matéria quanto do espirito.
Arthur ficou duplamente surpreso com aquela explicação, primeiro lugar tinha menosprezado a capacidade intelectual do seu parceiro – em outras palavras, tinha o considerado meio bobo –, além disso, em segundo lugar, não tinha noção o quão complexo era o ato de caçar... O ciclo da vida, nunca tinha parado para analisar mais afinco esse quesito. Para ele, a morte era simplesmente morte, ou seja, término de tudo e sinônimo de tristeza e terror. Sua mãe tinha sido morta, não conseguia pensar nada de positivo naquilo, contudo, agora uma nova luz iluminou as trevas que envolviam aquela lembrança. Sua mãe não tinha ido totalmente, ainda vivia nele e em seus irmãos, afinal eles tinham nascido dela. Suas memórias ainda eram vividas e influenciavam suas ações...Ela estava ali, em matéria e em espírito. Saber que a morte não era o fim, aliviava ,um pouco, a tristeza que dominava seu coração.
Alfred pegou a mão de Arthur e colocou o corpo morto do coelho em sua mão.
–Entende como é importante respeitar tanto a vida quanto a morte?
O vampiro se sentia como participando de algum tipo de aula, tendo um sexy lobo como professor. Corou com o pensamento, mas sorriu para o lobisomem e assentiu.
–Sim, eu entendo. Desculpe ter...Meio que surtado... –Devolveu o coelho para o outro, podia entender o valor da caça, mas não achava higiênico ficar a segurando.
–Tudo bem. –Sorriu Alfred dando um cafune no jovem Kirkland, desarrumando ainda mais os cabelos rebeldes do loirinho –Todos agem assim na primeira caçada.
–E-ei! –Reclamou Arthur, mas não havia raiva em sua voz, na verdade parecia que estava rindo.
–Bom! –O lobo afastou a mão, subitamente –Agora é sua vez de caçar!
–E-eu...-O vampiro apontou para si mesmo, confuso –B-bem... Como você acabou de dizer, eu não sei caçar... Essa é a primeira vez que...
–Eu não disse que você não sabia! Ora, você é um vampiro, tem habilidades naturais para ser um predador. –Interpôs Alfred.
–Sim, mas eu não sei como usar essas habilidades! Digo...Eu nunca precisei usar, como saberei? –Falou aflito e ao mesmo tempo se sentindo desolado, aquela era a verdade, era um inútil como vampiro. Seus irmãos mais velhos participaram de incontáveis batalhas, enquanto Arthur tinha que ficar protegido no castelo. Nem aulas de esgrima seu pai permitiu que tivesse. Sabia que os vampiros tinham habilidades próprias tal como a velocidade e força, mas o jovem Kirkland nunca fora exposto a situações que precisasse usar alguma delas. No entanto, mesmo dentro da criação super-protetora de seu pai, conseguira aprender algo que poderia ser usado para se defender de inimigos...
–Já sei! –Exclamou o vampiro, Alfred o encarou receoso –Tem algo poderei usar para caçar.
–Sério? Se quiser eu posso te ensinar algumas táticas de lobo.
–Creio que a minha tática será bem melhor. –Falou orgulhoso o menor.
–Ohhh... Veremos isso. –Alfred deu um meio sorriso –Mostre-me que o além de lindo você também é um grande caçador.
–Certo... Onde está outro coelho? –Inqueriu, já olhando para os lados.
–Você tem que rastrear a sua presa primeiro e depois ataca-la.
–C-certo...- Arthur meio que se sentiu idiota agora, pois aquilo parecia ser bem obvio –E como faço isso?
–Bem...-Alfred já iria começar a explicar quando o som de galhos se quebrando e algo pesado se aproximando, com velocidade, o interrompeu.
–Alfred...-Sussurrou o vampiro olhando para a fonte do som, não precisava usar sua super-audição para saber que estavam encrencados.
“Esse é momento para eu usar minhas verdadeiras habilidades... Irei mostrar que não preciso de ajuda e que sei me proteger!” Pensou, convicto. Colocou suas mãos para frente com a palmas abertas e começou a recitar um encantamento.
–Artie! Nós temos que sair daqui! –Disse, aflito, o lobo, contudo parecia que o vampirinho não o ouvia, na verdade murmurava algo em uma língua estranha.
–Droga...-Rosnou já se transformando em lobo e ficando na frente do seu parceiro, o protegendo do inimigo que iriam enfrentar.
–CUIDADO! –Para a surpresa do lobo, o que emergiu da floresta foi Gilbert, ofegante com Matt em seu ombro – Foi minha culpa! Não sabia que ursos podiam ficar tão irritados quando se rouba o seu mel!
Alfred retornou a sua forma humana, unicamente por estar muito surpreso com tudo aquilo. O vampiro albino tinha mel em seu cabelo e em suas mãos , quanto ao seu irmão, estranhamento, tinha mel em seu corpo.
–O que aconteceu?
–N-não pergunte! –Falou Matt, totalmente corado.
–Isso é uma marca de mordida? –Perguntou Al ao ver uma marca vermelha no pescoço do irmão que rapidamente escondeu com a sua mão.
–N-não é nada! Foi só um pernilongo inconveniente, pervertido, chato e extremamente burro!
–Esqueceu de dizer: lindo, sexy e incrível!- Disse sorridente Gil.
–Que tipo de pernilongo é esse? –Resmungou desconfiado Alfred, tinha uma leve impressão que aqueles dois não estavam falando de um inseto.
Os rugidos de vários ursos que estavam perseguindo os ver lembrar do o que eles deveriam estar realmente preocupados.
–Ursos...-Rosnou Alfred para o local a qual, a pouco tempo, a dupla tinha emergido.
–Temos que sair daqui! –Disse afoito, Gil –Cadê o Artie...Ohh...Não... –Seus olhos de íris vermelhas pareceram brilhar, uma indicação de interesse ou de assombro pelo o que via.
–O que foi? –Matt olhou onde o vampiro albino estava mirando e logo entendeu a sua surpresa. Alfred olhou para trás, não entendendo o assombro de todos...
Diante do jovem Kirkland uma esfera de fogo verde, flutuante, se formava.
–O que é isso? –Balbuciou o lobo.
–Magia...-Sussurrou Gilbert –O mestre Kirkland não vai gostar nada disso...
“Magia?” Alfred ainda não entendia o que aquela palavra significava, na verdade, estava mais preocupado com a segurança do seu vampiro... Aquela chama verde podia queima-lo? E os ursos? Tinha que fazer alguma coisa e rápido.
Um urso surgiu do matagal, urrando furioso. Decididamente, mexer no precioso mel de um urso causava grandes consequências.
–ARTHUR!! –Gritou, Alfred. Tentou se lançar em direção ao urso, temendo o pior já que a fera se dirigia diretamente para o vampirinho.
Os olhos de Arthur abriram, focaram no seu adversário. Sorriu exibindo os caninos. A chama verde se expandiu em uma explosão brilhosa. O urso emitiu um rosnado que mais parecia um choramingo, os outros ursos que estavam logo atrás deste nem se aproximaram e começaram fugir, rumo a escuridão da floresta.
“Aquilo era magia?” Pensou Alfred atônico com a demonstração de poder, pequenas estrelas esverdeadas ainda faiscavam no ambiente.
–Nossa...-Balbuciou.
–D-desculpe...-Arthur pareceu notar a plateia e escondeu as mãos atrás de si, como se elas fossem culpadas pelo o ato.
–Não tem nada do que se desculpar! Foi incrível! –O lobo sorriu animado e correu para abraçar o pequeno vampiro que parecia ainda mais surpreso com a reação do seu noivo.
–Concordo com o meu irmão... Nunca vi algo parecido. –Disse Matt exibindo um sorriso.
–Nunca tinha visto uma magia deste tipo...-Falou impressionado Gilbert –Devia fazer isso mais vezes! Principalmente em festas!
Arthur suspirou aliviado, temia , principalmente por Alfred, que não fosse aceito. Seu pai sempre o reprimiu quanto as suas habilidades...
–Artie... –O lobisomem deu um leve beijo na bochecha do vampirinho, o fazendo corar devido o simples ato –Você realmente é incrível... Eu tenho muuuita sorte de ter um vampiro como você como noivo!
–O-o-obrigado... M-mas t-tecnicamente a-a-ainda não estamos n-noivos...Digo... Acho que t-teremos algum t-tipo de cerimônia e...-Gaguejou o menor, visivelmente nervoso, pois agora notou o quão os dois estavam próximos (não se deve esquecer que um deles estava extremamente nu!).
–Para mim...Você já é meu noivo...-Falou sério Alfred dando mais um beijo, só que agora no nariz avermelhado de Arthur, isso fez o vampirinho se derreter totalmente.
–Acho que eles querem um pouco de privacidade... –Provocou Gill já puxando Matt consigo.
O som de um tiro e um urro de dor de um urso se propagou pelo o ambiente. O momento fora novamente interrompido.
–Caçadores? Aqui? –Murmurou Matt olhando para Alfred –Humanos nunca caçam nesta parte da floresta...
Gilbert rosnou, seus olhos vermelhos se iluminaram, mais pareciam chamas. Matt engoliu em seco, agora sabia que a situação era séria.
–Não é um tipo comum de caçador...Conheço esse cheiro... Trata-se de um Braginski.
–Um o que? –Alfred tombou a cabeça para o lado, confuso, mas sentiu o corpo de Arthur tremer, ainda em seus braços.
–Um caçador de monstros... Ele caça criaturas como nós... –Sussurrou o menor –E é extremamente bom nisso.
“Um caçador...” Alfred começou a rosnar, não só estava irritado por aquele humano causar tamanha reação em seu amado vampiro, como também significava que alguém entrou no território de sua alcateia, podendo causar danos aos seus irmãos lobos. Como futuro líder, tinha que defender sua família.
“Que venha esse tal Braginski... Irei enfrenta-lo”.
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