Half Wrong
1 First and Last
Notas iniciais
Alguns dizem que amar é uma dádiva. No meu caso, sempre achei ser o maior dos pecados.
Fazia algum tempo que Tan tinha saído de casa. Jin deveria estar tomando conta de nós, não jogando a merda que estivesse no seu computador. Agora ele deveria pensar que eu tinha cara de empregado dele, só pode ser. Sempre soube que NamJoon era uma má influência, mas ele nunca me ouviu. Deveria ter colocado alguma coisa na bebida dele, sinceramente. Não seria a primeira – e provavelmente não a última – que o irmão de By faria isso. Senti vontade de jogar-lhe o forno de micro-ondas quando, pela enésima – exagero, possívelmente a quinta, não me preocupei em contar – perguntou-me, aos gritos, se a comida já estava pronta. Infelizmente para mim, porém, não sou tão forte quanto ele. Bem capaz de acabar pedindo para que ele jogasse-o em si mesmo. O que, aliás, se eu pedir com o jeito certo, talvez o fizesse.
“Tae!” bradou, me assustando. A surpresa com o grito que interrompeu o gostoso silêncio impregnado na casa fora tamanha que quase derrubei meu laptop no chão.
“O quê, caralho?” berrei em resposta, sem me mover. Se ele queria voltar a me encher o saco, que o fizesse depois que a minha paciência retornasse. Isto é, depois que eu terminasse o maldito capítulo.
By e JiMin já me agoniavam há uma semana e, agora, estavam extremamente preocupados graças ao meu atraso de uma reles hora.
“Vem aqui?” Sua voz amansara. Me pareceu que ele havia feito alguma coisa horrível.
Desde a última vez, em que ele explodiu o próprio banheiro, decidi parar de ignorar essa mudança de tom. Tivemos que dividir o meu por dois meses por conta disso. Ao menos agora sabia que teria que se virar na piscina caso fizesse algo assim de novo.
Suspirei. O cara era o idiota irresponsável e eu, o caçula três anos mais novo duas vezes mais irresponsável tinha que tomar conta dele. Acho que devo ter matado um papa na vida passada para merecer isso.
Coitado de mim.
Deixei meu notebook sobre minha cama espaçosa e bagunçada, jogando os pés pela beirada da mesma para logo alcançar o chão gelado. Espreguicei-me, abaixando logo a camiseta branca que subira com o movimento, e enfiei as mãos nos bolsos do moletom escuro.
Kim SeokJin era um maldito sortudo. Cursava culinária em uma universidade renomada, mas era basicamente um sortudo que conseguia tudo no “coice”. Estávamos em março, cerca de um mês se passou desde seu primeiro dia no curso, e já fora preso duas vezes, uma por correr pelado no campus e outra por levar bebida para um parque de diversões, além de doze faltas em diversas aulas pelo simples fato de conseguir dormir em qualquer – qualquer mesmo – lugar. Já o encontrara dormindo no armário da cozinha da cantina durante o colegial. Passava sempre horas e horas jogando no computador e no XBOX e, frequentemente, se fazia de sanguessuga*. Não chegava nem perto de ser um bom exemplo. Sinceramente, não tinha dúvidas de que ele já se drogara um dia.
Bati na porta do seu quarto, a qual ele não demorou a abrir.
Nunca fui de entender muito suas manias. Principalmente a de me segurar pelas bochechas, as apertando até me obrigar a fazer um biquinho. Arg, moleque estranho.
“O que foi?” perguntei, sentando-me na sua cama quase tão grande e bagunçada quanto a minha.
Seus lábios rosados se esticaram até um sorriso estar impregnado neles.
Convenhamos, SeokJin sempre foi uma pessoa bonita. Isso pareceu aumentar depois de descobrir algo chamado “descolorante”. Seus cabelos loiros, quase platinados, estavam jogados de qualquer jeito, como sempre ficavam após uma tarde de sábado jogando no computador. Vestia jeans surrados – que só depois fui notar que eram meus – e uma camiseta cinza de mangas curtas.
Muita gente nos perguntava como era possível que fossemos irmãos, sendo que sequer parecíamos parentes. Só depois de uma longa explicação de nosso progenitor em comum que ficava compreensível. Eu apenas parecia mais com a minha mãe, ele parecia com a sua.
O único trabalho do nosso pai foi nos colocar lá dentro, o resto foi com elas.
O mais velho se aproximou, sentando-se ao meu lado.
“Fez o almoço?” perguntou.
“Não sou teu empregado, te vira.”
Jin se afastou um pouco, praticamente jogando a própria cabeça no meu colo em seguida.
“Por que não?”
“Porque tenho coisa melhor e mais importante para fazer do que te servir, seu inútil.” Coloquei uma mão sobre sua cabeça, me permitindo acariciar os fios macios em seguida.
“Yah!, eu ainda sou seu Hyung, tenha respeito!” reclamou.
“Aish” revirei os olhos, lhe dando um puxão de leve nos cabelos. O loiro resmungou mais algumas vezes, mas não se pronunciou novamente.
Por algum tempo, ficamos ali, imóveis. Por mais que tivesse plena consciência de que JiMin e a Noona de NamJoon me esfaqueariam e me esquartejariam com uma faca de manteiga no dia seguinte, não consegui me importar muito, já que sabia que o fariam de qualquer modo. O novo capítulo estava ótimo para mim, mas tinha quase certeza de que meus leitores (e os editores) não pensavam assim.
Minha carreira de escritor, mascarada por um pseudônimo estranho e ideias ridículas demais para qualquer mente comum – inclusive eu – pensar, era baseada em mim mesmo. Claro que Jin não sabia de nada. Tan e o resto da família muito menos. Apenas nós três tínhamos conhecimento do assunto, e tanto eu quanto os editores sabíamos que era melhor assim.
Jin, porém, parecia desconfiar por vezes. Tan, nossa tia e única parente em comum viva além do nosso pai, era inteligente demais para sequer notar minha obsessão com meus arquivos no computador e as visitas regulares do baixinho e do projeto de arco-íris ambulante. E, do jeito que era, provavelmente não estava nem aí para esse assunto. Não duvidava em nada de que suas frequentes saídas eram propositais até demais. Ninguém sai para comprar leite de manhã e volta na madrugada do dia seguinte reclamando que precisava lavar as roupas de cama. Desde o abandono do nosso pai, que sumiu pelo mundo para curtir a vida com as duas esposas, morávamos com ela. A estranha tia liberal, louca e viciada em filmes de terror que cuidava dos sobrinhos.
Suspirei. Levantei a perna que não servia de travesseiro para a cabeça do loiro e coloquei o pé na beirada da cama, apoiando o antebraço ali e o queixo no mesmo. Os olhos dele estava fechados, mas eu sabia que estava acordado. Ele nunca dormia antes do anoitecer.
Ah, como era errado. Eu não podia e nem devia negar isso. Mesmo assim, não deixava de pensar em como nossa vida seria bem mais fácil se não precisássemos esconder assim.
O mais velho pareceu notar que eu entrara no modo “vegetativo”, como ele chamava. Estendeu uma das mãos, tocando meu rosto delicadamente.
“Tae-ah?” chamou, conseguindo fazer com que eu voltasse a minha atenção para ele, direcionando-lhe um olhar questionador. “Você está bem?”
Dei de ombros.
“Estou normal, eu acho” murmurei.
Seu sorriso de leve era preocupado, em conjunto às sobrancelhas franzidas. Porém, ao invés de continuar deitado lá, impulsionou-se para cima, deslizando a mão da minha bochecha para a minha nuca, me puxando na sua direção. Quando nossos lábios se tocaram, um sorriso involuntário foi pressionado entre ambos.
Por alguns segundos, nenhum movimento de ambos. Logo um sorriso se formou novamente nos lábios alheios, que se permitiram aprofundar o contato após um suspiro meu, causado pelo carinho que fazia na minha nuca.
“Estou aqui para qualquer coisa, sabe disso, certo?” disse, depois de se afastar, olhando-me nos olhos.
Assenti, sem tirar o sorriso contente do rosto.
Ele me beijou novamente, se ajeitando melhor na cama.
Naquela tarde, nos amamos duas vezes antes de, finalmente, almoçarmos, sendo interrompidos por um JiMin sendo arrastado pela orelha por By, que me ameaçava de morte caso eu não entregasse a “porra do caralho do manuscrito na porra daquela merda de segundo”.
Mesmo assim, não parei de sorrir, pois suas palavras ainda retumbavam na minha cabeça e ele não saiu do meu lado o resto do dia. E, por mais que fosse e soasse errado, não consegui me preocupar, nem com a realidade e menos ainda com o livro.
Afinal, éramos apenas meio-irmãos. Portanto, era apenas meio errado.
Notas finais
Sanguessuga = termo que usam na minha escola para aquela pessoa "escorada", que copia tarefa e nunca faz trabalho nenhum.
Espero que tenham gostado dessa Taejin tosca ^^
Bye ♥
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