Half Body — Interativa
9 A noite em que Príncipe Arthur ressurgiu.
Notas iniciais

Nine.
9. A noite em que Príncipe Arthur ressurgiu.
— Repassando: orgulhoso, metido, ande sempre com o nariz para cima, olhando para cima, e olhe sempre nos olhos nas pessoas, e sempre tenha uma resposta na ponta da língua — Thomas repassou, enquanto ajeitava a gravata em seu pescoço. Afonso assentiu, passando a mão pelo seu cabelo preto bem penteado. Olhou-se no espelho e concluiu que talvez nunca estivesse tão bem arrumado em toda a sua vida.
— Achei que você não conhecesse bem Arthur — o menino comentou, distraidamente, ainda se fitando no espelho. Às vezes Afonso não conseguia acreditar que era ele ali. E não é. Você é Arthur. Príncipe Arthur Jackson James Renselmann.
— E não conheço — Thomas respondeu, virando-se para o filho. — Conhecia, no caso — corrigiu-se. — Eu li os arquivos do Doutor Simon — admitiu, aproximando-se do garoto, que ainda se encarava no espelho, e que não esboçou nenhuma reação perante aquilo, o que de certa forma assustou Thomas. Afonso era todo certinho, com certeza o menino ficaria assustado ao saber que o pai leu os arquivos de um psicólogo. — Como está se sentindo?
Afonso se permitiu dar uma risada sarcástica.
— Como se você estivesse interessado em saber — falou e então virou para o homem, e logo em seguida indo em direção a cama de Arthur e sentando. Talvez estivesse mais nervoso que o esperado.
Thomas se permitiu sorrir.
— Okay, não estou, só perguntei para ser legal — ainda sorrindo, ergueu as mãos para cima.
— É, com toda essa situação, você precisa ser legal — Afonso comentou irônico. Batia o pé constantemente no chão, e parecia que ele iria explodir a qualquer momento.
— Desceu o espírito do Arthur em você, só pode — Thomas comentou num sussurro, e recebeu um olhar irritado de Afonso, mas aquilo só o fez sorrir. — Joanna vai ficar tão orgulhosa! — a voz de Thomas tinha uma animação acentuada, e aquilo só fez Afonso bufar e revirar os olhos.
Mas decidiu não responder.
Não queria ter que ficar respondendo Thomas nas idiotices e bobagens dele.
— Nossa, quase estava esquecendo! — Thomas gritou, assustando Afonso, que fitou o homem com mais raiva ainda. Mas este estava mexendo no guarda roupa de Arthur com pressa. Thomas rapidamente se aproximou de Afonso e depositou umas coisas em cima da cama de Arthur, ao lado do menino. — As balinhas de menta — entregou ao garoto uma caixinha cheia de balinhas brancas. — Se não estiver bebendo, ou comendo, coloque uma bala na boca, e quando pressentir que irá beijar uma menina também.
— Beijar uma menina? — Afonso indagou fitando o pai. Ele nem conhecia as meninas, como Thomas queria que ele já as beijasse?
Thomas ergueu os olhos para o garoto, como se estivesse falando: é óbvio, mas depois baixou a cabeça.
— Às vezes eu esqueço que você é um puritano — sussurrou, e Afonso ignorou-o. — Isso daqui — entregou ao garoto um frasco de vidro. — É o perfume que está usando. Um pouco antes da valsa com as meninas você irá repassá-lo no pescoço, nos pulsos e depois tacar no corpo todo — explicou.
— Mas eu já passei perfume — o mais novo retrucou.
— Eu sei, mas o perfume sai, e ter cheiro de perfume nunca é ruim — Thomas prosseguiu, e rapidamente pegou um saquinho. — Afinal, vocês vão ficar colados — o homem deu de ombros e logo viu a cara de nervoso do filho. — É para ficar colado, ouviu? — ordenou, mas o menino não lhe encarou. — Isso daqui — Thomas lhe entregou o saquinho de chiclete — você vai colocar na boca antes da valsa. Mastigue um pouco, e quando começar a dançar, deixe no céu da boca.
Afonso assentiu, e guardou os itens dentre do bolso do paletó.
— Só, ou você vai colocar a gaveta inteira? — indagou ironicamente, e Thomas forçou um sorriso.
— Só por esse seu comportamento Arthur eu deveria te encher de coisas — comentou amargo, e Afonso sorriu divertido.
— Eu só estou fazendo o que você e a Joanna mandaram — o moreno deu de ombros, com a face inocente, e Thomas sorriu, mordendo o lábio, e apontando para o menino.
— Você... Você é bom — comentou, e Afonso sorriu, levantando-se da cama e indo em direção ao banheiro.
Thomas riu sozinho.
— Estão prontos? — Joanna indagou abrindo a porta rapidamente. Thomas fitou sua mulher, e deu uma olhada em seu corpo todo, até parar em seus olhos claros desafiadores.
— Sério? — indagou apontando para a roupa da Rainha. Thomas conhecia o estilo de Joanna, e fora isso que havia chamado sua atenção em sua Seleção: Joanna estava sempre usando pouco tecido, mas muito ouro, fosse a aplicações nas roupas, fosse a jóias.
Joanna sorriu divertida.
— Dean caprichou hoje — comentou, girando para Thomas visualizar melhor o vestido da mulher. Thomas mordeu o lábio inferior. — E a propósito — colocou as mãos na cintura — esse terno é o que você usou no seu Baile?
— Quase — deu de ombros, aproximando-se da mulher e pegando em suas mãos. — Dean deu um jeito de caber — Joanna sorriu.
— Onde está Arthur? — indagou olhando ao redor.
— Aqui — o garoto respondeu saindo do banheiro, e passando a mão pelo terno. Joanna deu uma boa olhada no menino. Nem parecia mais aquele moleque que havia encontrado naquela casa da madeira há noites atrás. — Podemos ir? — perguntou impaciente.
— Teresa quer conversar com você antes de entrarmos — Joanna anunciou ao rapaz, que apenas assentiu. — Algo que deveríamos saber?
— Não — Afonso prontamente respondeu colocando as mãos nos bolsos da calça.
— Vamos logo antes que ele desista — Thomas sussurrou no ouvido de Joanna e saíram de mãos dadas, com Afonso os seguindo, e Elliot aparecendo logo atrás. Pelos olhos do segurança da porta do quarto do Príncipe Arthur pareciam uma família feliz.
[...]
— Eu não sei, Vossa Alteza — Teresa comentou olhando numa prancheta que tinha em mãos. Eles estavam próximos a uma escada, Afonso, Joanna, Thomas e Teresa. Afonso conseguia ver todo o movimento lá embaixo, e aquilo lhe estava dando calafrios. Ter de descer lá e fingir ser Arthur não seria uma coisa fácil.
— Nem mesmo uma criada? — Afonso perguntou estreitando as sobrancelhas. Afonso precisava de alguém para praticar valsa, antes de dançar com alguma Selecionada. E Teresa não estava lhe conseguindo nenhuma menina. — Uma gostosa de preferência — o menino logo acrescentou quando percebeu a mulher lhe olhar pelo canto do olho.
— Eu irei checar — falou e anotou algo em sua prancheta e depois se aproximou de Joanna e Thomas que conversavam animados. O menino apenas olhou lá pra baixo. Teresa havia falado que as Selecionadas desceriam logo depois que a Família Real, e toda aquela demora lhe estava dando nos nervos.
— Arthur — Afonso ouviu a voz alta, e rapidamente se virou para Joanna, que lhe olhava com um olhar irritado, como se tivesse chamado o menino várias vezes. — Venha cá, já vamos descer — concluiu assim que obteve a atenção do menino. O garoto se aproximou dos dois, onde Joanna lhe depositou um beijo em sua testa. — Boa sorte, filho — sorriu, passando a mão pela testa do garoto, tirando os vestígios de batom.
Afonso fez uma careta, enquanto repassava a mão na testa, e Joanna ria junto de Thomas, que lhe dava um tapinha nas costas. O garoto se perguntou se eles faziam isso com Arthur.
O nome de Thomas e de Joanna foram anunciados, e logo estavam descendo as escadas com sorrisos no rosto, e de mãos dadas. Pareciam um casal real feliz. Afonso se perguntou se era realmente assim. Pelo pouco tempo que havia passado com os dois, eles não tinham muito contato físico (e bem, Thomas havia traído Joanna).
— Pode ficar ali — Teresa apontou para um ponto próximo ao primeiro degrau da escada, e Afonso logo se posicionou ali. — Assim que ele anunciar seu nome, você desce, ok Vossa Majestade? — a voz de Teresa saiu distante, mas Afonso assentiu, e logo ela já não estava mais ali.
Afonso estava nervoso.
Ok. Talvez mais do que nervoso. Era a primeira vez na vida que ficava tão nervoso daquele jeito. Suas mãos estavam suando, e seu coração parecia que iria saltar do peito. Nem o fato de que sua mãe estava presa em algum lugar daquele castelo deixava o menino mais calmo, ou pelo menos com raiva.
— E com vocês, Príncipe Arthur Jackson James Renselmann — a voz ressoou nos ouvidos no menino.
Sou eu. Eu sou Arthur.
E com esse pensamento, Afonso colocou o melhor sorriso Arthur no rosto (ele ficou treinando esse sorriso por duas horas com Thomas) e começou a descer as escadas. Olhar para frente, nariz empinado, sorriso perfeito, passos confiantes. Desceu a escada em poucos minutos, mas com as mãos trêmulas, e quando chegou ao pé, se aproximou dos Reis, que tinha sorrisos bonitos no rosto e batiam leves palmas.
Afonso se colocou ao lado deles e quando anunciaram a primeira Selecionada que ele desmanchou seu sorriso. Seus olhos foram para o chão, e ele permitiu respirar como Afonso por um tempo. E ficaria ali por minutos, se Joanna não tivesse lhe dado uma cotovelada.
O menino sorriu novamente e então olhou para a escada, onde a menina já terminava sua descida.
Afonso deu uma breve olhada para cima, onde as outras vinte e nove meninas estavam esperando.
Seria uma longa noite.
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