Half Body — Interativa
2 A madrugada em que o gêmeo do Arthur foi enganado.
Notas iniciais

Two.
2. A madrugada em que o gêmeo de Arthur foi enganado.
— Não precisava tê-lo matado — Thomas suspirou tacando a caneta longe, sentido certo repudio ao ver o corpo do rapaz caído no chão. Inspirou e expirou profundamente, e Joanna perguntou-se sinceramente o que aquele homem tinha ao ver um simples corpo caído no chão. Nem sangue tinha.
— Um segredo não pode ser contido se várias pessoas sabem, Thomas — Joanna retrucou. Seus fios louros estavam presos em um coque refinado e sem um único fio fora do lugar. Usava sua coroa, mesmo estando dentro da sala de reuniões, e não tendo tanta necessidade.
— Ele sabia guardar segredos, Joanna.
— Se você quiser ir para o mesmo lugar que ele, posso dar um jeito — falou indicando com a cabeça a taça de vinho o qual o segurança do Príncipe havia bebido.
Thomas fechou os olhos apoiando a cabeça na cadeira e indicando aquela conversa por encerrado.
— Nós vamos buscar o Segundo hoje? — o homem indagou ainda de olhos fechados. Como ambos não sabiam o nome do gêmeo de Arthur, acabaram por o chamando de Segundo. Era mais prático do que descobrir o nome do garoto.
— Três da manhã — Joanna informou, bebendo mais um pouco do seu vinho, fitando o nada a sua frente, imaginado mil ofertas e ameaças que faria aquele pobre rapaz. — Dois seguranças irão nos acompanhar — informou ao marido que soltou uma risada nasal.
— Deixe-me adivinhar, nenhum dos dois voltarão vivos.
— Errado — Joanna sorriu, e Thomas abriu os olhos, um pouco assustado pelo tom da mulher. — Apenas um voltará vivo. Que a sorte esteja a favor de um deles — e ergueu a taça como se estivesse brindando.
[...]
O caminho até a pacata casa do Segundo foi longo. Resolveram ir de carro para não chamar tanta atenção assim, mas no final se arrependeram amargamente disso. O carro ficou atolado duas vezes, e por conta da estrada ser horrível ficava pulando o tempo todo. Thomas teve de parar o carro duas vezes para vomitar. E nas duas vezes, Joanna praguejou alto para o marido escutar enquanto vomitava.
Assim que chegaram, às quatro da manhã, Joanna admirou o quão pobre era aquele lugar. A casa era totalmente de madeira, e extremamente pequena. Estava tudo escuro e a única coisa que iluminava o local eram os faróis do carro.
Depois do motorista, a mando de Joanna, buzinar duas vezes consecutivas, a mulher decidiu que era melhor descer do carro e entrar na casa dele e simplesmente o acordar. Seria mais fácil e prático. Além de que já mostraria o poder de que eles obtinham.
— Eles podem estar armados! — Thomas falou enquanto agarrava o pulso da mulher, e a impedia de sair do carro. — Podem simplesmente te matar, Joanna!
Depois disso, resolveram buzinar mais algumas vezes — totalizando cinco vezes. Joanna achou palhaçada tudo aquilo e desceu do carro sem aviso prévio. Quem quer que estivesse dentro daquela casa pobretona já teria acordado depois de sete buzinadas e um farol extremamente alto. Eles estavam gozando com a cara dos Reis.
— Estão com medo — Joanna murmurou assim que abriu a porta de Thomas, ordenando que ele saísse do carro. Se a camponesa ainda morasse naquele local, ela logo reconheceria o Rei, principalmente pela coroa que ele fora obrigado a usar.
— Se nos virem irão ficar com mais — Thomas logo falou assim que saiu do carro ajeitando o paletó, que também fora obrigado a usar. Não sabia por que Joanna queria que parecessem tão refinados mesmo de madrugada, mas mesmo assim obedeceu a mulher. Sabia muito bem o que poderia acontecer consigo caso não a obedecesse.
— Não vão — Joanna garantiu dando um sorriso ao homem, que arqueou uma sobrancelha e a seguiu até a porta da pequena casa. A mulher ordenou que buzinassem mais uma duas vezes seguidas, mas nada de alguém abrir a porta.
— Nós devíamos ter vindo cedo, assim eles-
— Shiu — a mulher ordenou quando escutou barulhos de passos. Joanna era boa. Muito boa. E tinha certeza de que tinha alguém acordado ali dentro. E também sabia que estava sendo vigiada. Rapidamente olhou para seu marido, e sorriu. Forçou um sorriso tranquilo, e o homem, ficou sem entender. — Só queremos conversar — falou alto, alto o suficiente para qualquer que estivesse a um raio de 3 metros escutasse.
Thomas lhe cutucou no quadril delicadamente e discretamente apontando com a cabeça, discretamente, para uma janela à direita. Joanna lhe deu um sorriso triste, e Thomas entendeu o recado, pegando na mão da Rainha, dando-lhe conforto.
Eram ótimos atores.
— Não querem conversar — Thomas falou também alto, mas não tão alto quanto Joanna. — Melhor irmos — concluiu, e parte de si realmente queria ir embora, sem nem ao menos rever certas pessoas.
— Eles precisam saber, Thomas! — Joanna insistiu, a voz mais alta, fitando Thomas com os olhos marejados, e a boca seca. Thomas fitou sua mulher. Desde quando ela havia se tornado uma melhor atriz que ele? — Arthur morreu — sussurrou, a voz baixou, mas continuou alta.
Joanna ouviu-se murmúrios. A mulher fitou a janela à direita, e sorriu ao constatar que não tinha mais ninguém ali. Rapidamente voltou a sua feição de moça triste quando ouviu a fechadura se desfazer e mais murmúrios.
Foi quando a porta se abriu.
Thomas demorou a reconhecer a camponesa que um dia lhe ofereceu sua cama para passar a noite, mas não demorou a reconhecer seu filho logo atrás da mulher, encoberto pelas sombras, segurando uma espada, com os olhos raivosos, e os lábios sérios e fechados. Ele não sorriria para você, Thomas, pensou, com armagura. Por isso mesmo, não sorriu.
Diferentemente de Joanna, que abriu um leve sorriso ao vê-los ali.
— Meu filho morreu? — a mulher de fios louros e longos logo indagou com os olhos arregalados e com a voz aguda. Joanna diminuiu o sorriso e assentiu em consentimento. — Não, não, não... Você jurou! Você jurou que o protegeria, você jurou!
— Eu fiz de tudo para salvá-lo, mas foi impossível — Joanna falou com a triste. Thomas baixou a cabeça. — Eu sinto muito — e como não se lembrava do nome da mulher, apenas tratou de ignorar esse fato.
A mulher começou a chorar. O que de certa forma, Joanna não entendia. Não foi ela que teve que conviver os vinte insuportáveis anos com aquele estúpido. Se ela tivesse convivido com ele, ela provavelmente não estaria chorando, estaria fazendo festa pela sua morte, isso sim.
Mas o Segundo lá atrás não chorava. Estava sério. Imóvel. Segurando uma espada como se sua vida dependesse daquilo. Joanna também achou ridículo. Soube naquele exato momento que seria extremamente difícil levá-lo para o castelo. Nenhum tipo de oferta o compraria, disso Joanna rapidamente soube.
A mulher olhou para Thomas, que mantinha a cabeça baixa, como num gesto caridoso ao fato de que havia perdido o filho, mas ela sabia que ele não queria ter que fitar a mulher com quem transou anos atrás, e também percebeu o olhar do Segundo sobre si e sobre Thomas. Ele era esperto.
Não seria uma simples ameaça que o faria ir para o castelo e largar a vida que ele tinha ali.
Joanna suspirou.
— Nós viemos aqui para convidá-los para o enterro de Arthur — falou, a voz tristonha. — Eu nunca quis dizer isso, porque é errado um pai ir ao enterro de um filho, mas... Infelizmente... Eu sinto muito.
Joanna conseguiu visualizar, com o canto do olho, Thomas lhe encarar um pouco assustado, enquanto a mulher parava de chorar aos poucos, e o Segundo mostrava-se menos raivoso ao baixar um pouco a espada. Eles — os Reis em pessoa — os estavam convidando para o enterro de Príncipe Arthur.
A mulher fitou o seu filho, logo atrás de si, e então voltou a fitar os Reis, os olhares sobre os dois.
— Nós vamos — falou com a voz chorosa. Joanna sorriu e então pegando na mão quente da mulher sorriu.
— Nosso carro está esperando — afirmou, apontando para o mesmo com a cabeça.
A mulher arregalou os olhos.
— Mas já? Nós ainda nem nos arrumamos, e eu não quero os incomodar com isso, além de que realmente não tem necessidade, e todos irão estranhar nos ver chegando com vocês, e sinceramente acho que não precisa mesmo nos levar, além de que eu estou de pijama e Afonso também, e precisaríamos nos trocar para isso, e trancar tudo, e deixar tudo organizado para-
— Nos os esperaremos — Thomas falou, assustando até mesmo Joanna, mas principalmente a mulher, que o fitou. Os olhos certamente magoados. Joanna largou as mãos da mulher aos poucos ao constatar que não seria bom.
A mulher rapidamente se virou e correu para o interior da casa, deixando o Segundo para trás, que bufou e então fechou a porta na cara da Rainha, que cruzou os braços.
— Que mal educado — resmungou erguendo o tecido da barra do vestido preto que usava e caminhando até o carro, onde os dois seguranças estavam. Thomas a seguiu logo depois. — Eles já estão vindo. Não comentem nada — ordenou, o semblante sério. Ambos assentiram.
Não demorou muito para a mulher aparecer praticamente correndo, e seu filho logo atrás, ainda segurando a espada. Joanna revirou os olhos, já dentro do carro. Um dos seguranças abriu a porta para a mulher, que adentrou e sentou-se de frente para a Rainha.
— Você não pode entrar com a espada — o segurança falou colocando a mão sobre o peito do garoto, que parou de andar.
— Eu não vou entrar desarmado — retrucou, olhando diretamente para o homem, que rapidamente olhou para a Rainha, que abanou a mão, deixando-o entrar. O segurança retirou a mão do peito do rapaz, que adentrou ao carro, e recebeu um puxão da mãe.
E então eles foram.
E se o caminho da ida havia sido longo, o da volta foi mais longo ainda, com direito a três vômitos de Thomas, a olhares repugnantes do Segundo para o Rei, e da mãe dos rapazes basicamente encolhida.
Foi horrível.
Mas Joanna aguentou.
Porque ela realmente precisava do rapaz.
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