(HNW!18) - Especial de Natal Sociedade dos Nômades

2 (HNW!18) - Especial de Natal Sociedade dos Nômades (Parte 2)


Minnie, sem se voltar para trás, seguiu adiante. Sem que desse tempo de nos escondermos melhor ou voltarmos para a nossa sala, Liebert caminhou para a mesma direção que nós e deu de cara com a gente. Encerrou os passos, ficando a um metro de distância de nós, mais ou menos. Não parecia minimamente envergonhado pelo flagrante.

— Posso saber o que estão fazendo aqui?

— Não — Pam respondeu, convicta.

Ela ia passando direto, mas ele agarrou o braço dela.

— Tira. Essa. Mão. De. Mim! — Pam se debateu.

— Eu sei que vocês estão armando alguma coisa. Vai ser amanhã, certo? — eu odiava essa mania dele de querer falar no ouvido das pessoas, mas dessa vez fiquei com uma raiva descomunal, pois não era comigo que ele estava mexendo, e sim com minha amiga.

Se Pam estremeceu de medo, não demonstrou nada. Merecia um Oscar.

— Já me conformei que aqui não se comemora Natal. Mas e aí, vai me soltar ou eu vou ter que arrancar sua mão de cima de mim à força?

Liebert tirou a mão de cima de Pam de uma forma totalmente sarcástica, e passou por ela evitando esbarrar, como se estivesse fazendo graça a respeito de ela ser alguém muito perigosa.

— Babaca idiota — Kamilla rosnou.

— É um panaca mesmo — Ana completou.

— Lixo — fiz questão de deixar minha colaboração de xingamentos, afagando os ombros de Pam — Lixo asqueroso.

— Aiiiii que meeeeeedooo...! — Pam se soltou, caindo sentada no chão — Cara, a gente vai ter que ser super, hiper, mega, extra discreto com essa celebração! Ele vai dar um jeito de querer nos ferrar! O cara é simplesmente louco!

— Ele vai estar ocupado, Pam — eu disse, não querendo que a festa fosse cancelada de jeito nenhum. — Se o diretor nos punir, estaremos todos juntos.

— Se o diretor nos punir? Isso pode dar expulsão, garota! — ela me repreendeu.

— Então, vamos ser todas expulsas juntas — Kamilla Parker deu de ombros, e eu fiquei indignada com sua nova aparência, uma frase daquelas só poderia ser dita por uma garota de cabelo azul.

— É isso aí — Anastasia assentiu, com as mãos na cintura e estufando o peito, que, diga-se de passagem, não era muito.

(...)

Pela noite, marcamos uma reunião geral incluindo os meninos. Contamos sobre o encontro com Liebert e garantimos que ele já sabia da nossa festa, mas não sabia nada sobre horários nem qual sala usaríamos na nossa reunião.

— Eu tenho uma ideia para mantê-lo bem ocupado durante todo o dia de amanhã — Drake estendeu a mão para o alto.

— Qual? — Ana olhou para ele, e eu a segui. Acho que todos nós.

— Vocês estão dizendo que a Minnie e o Tom brigaram. Isso não pode continuar assim. A gente vai ter que congraçar os dois.

Henry trancou a cara, sem opinar. Ele nem disfarçava o fato de estar satisfeito com um provável rompimento de Minnie com o noivo.

— Não precisa ser de verdade — ele acrescentou — Mas Tom precisa achar que é.

— A Minnie está bem zangada, não sei qual foi a briga que eles tiveram, mas acho que só uma pessoa pode ajudar a convencê-la a distrair o Tom, pelo bem de todos — Samuel prosseguiu o raciocínio do irmão.

— O Liebert não vai dar, afinal é com ele que ela está brigada — Henry quis dificultar.

— Você, Henry — eles concluíram, falando juntos, com milésimos de segundos de diferença.

Henry arregalou os olhos, muito contrariado.

— Eu não posso fazer isso.

— Por que não, Henry? — Pam falou pausadamente, irritada.

— Convencer Minnie a enganar alguém, ainda que seja o Thomas Liebert...isso é muito errado.

— Aproveite que é apenas por você que ela toleraria passar um dia sem reclamar ao lado daquele mala.

— Vocês estão querendo me excluir da festa? — Minnie perguntou, de braços cruzados, após escutar o que decidimos no conclave do dia anterior.

— Eu estou extremamente envergonhado de ter que te pedir isso, acredite — Henry disse — Mas o pessoal está certo, ficar em cima dele é a única coisa que vai fazer ele se distrair o suficiente para não ter como nos perseguir até a hora de sua apresentação.

— Certo — ela disse — Organizem tudo por aqui. Já estou ciente do horário. No momento certo, eu virei.

— E a apresentação do Liebert? — eu perguntei.

Ela me encarou como se estivesse vendo uma pilha de cocô e disse, pausadamente:

— Eu virei para a festa, você é surda?

Henry pigarreou, em protesto à forma como ela me tratou. Sonsa, ela tratou de ficar toda sorrisinhos:

— Eu vou ajudar vocês, Henry.

Pam me encarou e depois revirou os olhos. Estávamos muito contrariadas de contar com esse apoio, mas ou era isso, ou não era nada.

(...)

Sem que ela se desse conta da nossa presença (minha e de Pam, no caso), porque ainda estávamos desconfiadas dela, Minnie seguiu para falar com Tom. Ele acabava de sair da sala do diretor, um péssimo sinal. Percebi que ela engoliu de uma tragada só o nojo que estava sentindo dele e tentou parecer amável:

— Estive procurando por você a manhã toda. O que esteve fazendo?

— Você não gostaria de saber — ele respondeu, tomando a frente.

Tom não parecia muito apto a se reconciliar com ela. Passou direto sem nem olhar para a cara dela. Minnie correu e agarrou seu braço direito.

— Você está livre agora?

— Minnesota, o que você está tentando fazer?

Percebi que ela ficou em choque.

— N...não entendi.

Ele estreitou os olhos, desconfiado. Mas, por alguma razão desconhecida, aceitou o convite dela.

— Você já tomou café? — perguntou.

— Não — ela mentiu. Digo "mentiu" porque tomou café na reunião com a gente.

Eles seguiram juntos para o Restaurante Particular. Tom pediu para a noiva uma fatia de bolo e um chá. Ele pediu para si mesmo uma bebida estranha, que eu não entendi muito bem o nome mas era preta como café e que se bebia com um canudo. Em silêncio, ele conduzia o canudo aos lábios mas não parecia sorver nada. Estava com a cabeça em outro lugar.

— Você vai beber isso numa hora dessas?

Pelo modo como ela falou, deu a entender que ele estava tomando algo à base de álcool. Mesmo sendo muito jovem, ele ingeria bebidas alcoólicas e isso não era segredo para ninguém. Pelo que Pam me explicou, o álcool aliviava as dores contínuas que quem toma desaceleradores sente pelo corpo.

— Está preocupada comigo?

— Você tem apenas 13 anos.

Ele não disse nada. Apenas sugou o suficiente para deixar seu copo pela metade, como quem bebe refrigerante.

— Parece que sim — ele respondeu, olhando na cara dela.

Minnie ainda estava de olhos arregalados para o copo dele.

— Você queria falar comigo a respeito de alguma coisa?

— Tom, você...vai conseguir se apresentar?

— Com o que você está preocupada, exatamente?

Furiosa, Minnie agarrou os pulsos dele, forçando-o a olhar para ela.

— Eu não vou mais tolerar isso! Pare com essas insinuações agora!

Algumas pessoas ao redor olharam para os dois. Minnie recuou, envergonhada. Soltou devagar os pulsos do noivo, que não tirou os olhos dela nem moveu um músculo do rosto. Este ataque súbito dela seria uma situação assustadora para qualquer pessoa normal. Sem ter mais o que dizer, ela finalmente mexeu em seu bolo, comendo mesmo sem vontade. Thomas pareceu levantar a manga da roupa para analisar as marcas que ela deve ter deixado em sua pele, como uma mulher agredida faz após ser brutalizada pelo namorado.

— Desculpe — Minnie disse, mas não parecia estar nem um pouco arrependida — É que desde ontem, você tem sugerido que eu estou fazendo coisas que, na realidade, não estou. Eu sou a líder do acordo, Tom. Não é você que deve me controlar.

Ela se referia ao duelo que noivos ambidestros têm que fazer logo que assumem um compromisso. Por piedade, Tom a deixou vencer, mas com isso perdeu o direito ao comando familiar, à posse de sua herança e até mesmo ao seu sobrenome, que mudará para Crowley após o casamento. Thomas Crowley. Isso vai ficar estranho.

— Você ainda não respondeu minha pergunta: você vai dar conta de se apresentar bebendo dessa maneira?

Sem dizer nada, ele afastou o copo e ficou olhando para ela de um jeito que, se eu fosse ela, ficaria aflita.

— Vamos embora daqui — ela determinou, sem esconder sua irritação.

Mais uma vez em silêncio, Tom a seguiu.

— O que acha de irmos para a biblioteca?

— Eu não posso ir para lá, Minnie. Achei que já soubesse.

— Devido às suas ideologias racistas, presumo. É isso que acontece em todos os segmentos de sua vida, não é? Você é boicotado por onde passa. Onde chegamos, todos se afastam. Você consegue ser feliz assim, Tom?

— Por que está me perguntando isso?

— Perguntando o quê?

— Minha felicidade não parece interessar você.

— Nada parece deixá-lo feliz, esse que é o problema.

Eu e Pam nos entreolhamos, chocadas com aquela DR.

— Se essa idiota continuar falando com ele assim, não vai conseguir distrair ele nem pelos próximos cinco minutos!

— Parece ser um fardo muito grande para ela, tolerar ele.

— Isso é óbvio, mas agora temos um motivo mais do que suficiente para que ela faça das tripas coração! Ela que se vire! Que droga! Ela está fazendo tudo fora do combinado e depois ele vai querer descontar na gente!

Fiquei preocupada, mas havia outra sensação incomodando meu peito e me deixando com remorso, de certa forma.

— Ela age como se o odiasse.

— Ela o odeia, Sarah. Qual parte disso você não percebeu?

— Eu...sinto pena dele.

— Pena você deve sentir de si mesma se, por causa dele, o diretor acabar descobrindo a reunião que estamos tentando fazer! — Pam disse, como se tentasse me chamar à razão — Bom, como eu não pretendo passar o resto da vida em cima desses dois, vou cuidar dos preparativos. Continue aí, "sentindo pena dele", se desejar. Fui!

Eu sabia que deveria ajudar Pam e as meninas na cozinha (sim, teríamos comida!), mas fiquei curiosa sobre o desfecho daquela conversa.Tomando todo o cuidado do mundo para ser discreta e silenciosa, me misturei a várias pessoas ou me escondi atrás de colunas e paineis nos momentos certos. Descobri, afinal, ser boa nisso. Minnie não parecia encontrar lugar para ficar. Qualquer paisagem na companhia de Thomas Liebert lhe parecia insuportável. Aborrecida e de cara fechada, ela se sentou rente a uma janela, onde um acesso de concreto tipo uma escada fazia as vezes de cadeira. Tom, a dois braços inteiros de distância dela, se sentou na outra ponta. Crowley o encarou com indignação, como se esperasse algo dele.

— Minnesota — vi que ela deu um pequeno salto, pois não esperava que ele falasse — Você não precisa se esforçar mais.

Ela o encarou por um longo tempo sem dizer nada, depois ajeitou algo dentro da bolsa, se levantou e saiu na frente sem se despedir.

— A apresentação vai começar às oito — ele disse — Estarei esperando por você até o último minuto.

Minnie, sem se voltar para trás, estendeu o polegar para cima de uma forma que ele pudesse ver. Esse não era um gesto de uso comum aos ambidestros, o que demonstrava da parte dela um ato de tremenda inacessibilidade vocabular e indiferença sentimental. Provocar Tom com um gesto de humanos também dizia algo a respeito dela, de suas amizades, do novo mundo em que ela estava se metendo e que ele não poderia questionar.

(...)

Imitando o exemplo de Pam, saí de cena. Até o fim da tarde, fui até a cozinha e ajudei as meninas com o preparo do ponche e de alguns bolos. Fizemos uma pequena lasanha e alguns cachorros-quentes para termos algo salgado a saborear junto com os refrigerantes. Kamilla disse que não precisava mais da minha ajuda, pois preparar a calda do bolo de chocolate era sua especialidade. Aproveitei a liberdade para resolver um problema no meu cartão: com alguns post-its e adesivos, cobri a declaração amorosa que fiz ao Henry e escrevi por cima mensagens comuns de felicitações pelo Natal e pelo novo ano que se aproximava. Esfregando os olhos, torcia para que 2016 me trouxesse a coragem necessária para me declarar ao meu primeiro e grande amor. A imagem de Tom sendo rejeitado por Minnie me desencorajou completamente de qualquer tentativa. A simples possibilidade de Henry dizer não para mim por causa daquela garota desprezível me enchia de medo e raiva. Mesmo que eu perdesse mais uma possibilidade de me declarar, eu achava melhor não arriscar agora. Eu ainda não estava pronta para saber se conseguiria continuar me comportando como amiga se ele me recusasse. Mas, acima de qualquer coisa, eu precisava estar no ponto para desmentir Thomas Liebert se de alguma maneira ele quisesse delatar o conteúdo real do meu cartão.

Usei meu vestido novo, que pretendia vestir quando meus pais viessem me buscar. Trouxe meu batom vermelho no decote; eu não poderia ser vista usando ele por aí. Não é porque não ia me declarar a Henry que eu não iria tentar conquistá-lo! Fui até um banheiro bem iluminado, onde finalmente passei a maquiagem. Antes de sair, examinei os corredores com a cautela de quem ia passar por ali sem roupa. Não vendo ninguém nas proximidades, corri para o salão de festas.

Ao contrário do que tinha combinado com as meninas antes, só consegui ver a linda decoração que fizeram no salão no dia da festa, enquanto transportava para lá os comes e bebes. Eu estava confiante do meu aspecto até ver a Minnie. Ela se vestia discretamente como era regra entre os ambidestros, mas veio de cabelo amarrado para o alto, o que ressaltou as características formosas de seu rosto — e deixou à mostra o colar e os brincos de inestimável valor. Meu vestido vermelho, uma espécie de bata com gola clássica e laço, proporcional à minha idade, acredito, me fez perder pontos diante de seu vestido de alças, decote quadrado, acinturado e de saia rodada. Henry, para variar, fazia sala a ela e parecia muito mais animado em tê-la ali do que eu gostaria. Ela pediu algo a ele fazendo beicinho, e pela direção que ele foi, imagino que foi buscar ponche.

— O batom vermelho e o vestido não têm nada a ver um com outro — ela falou de longe, eu ainda procurei para ver se era com outra pessoa, mas era comigo mesmo — Você parece uma criança que roubou a maquiagem da mãe.

Eu juro que formulei mil respostas na minha cabeça, todas destruidoras, mas a verdade é que quando alguém quer te derrubar dessa forma tão inesperada, você passa mais tempo processando se a pessoa teve mesmo coragem de dizer aquilo do que pensando em algo para dizer. No fim, eu não disse nada. Henry chegou em Minnie com a taça de ponche e eu estava querendo dizer qualquer coisa para me despedir dele e ir chorar em outro lugar, mas ele me ofertou uma taça também.

— Estávamos aqui comentando como o vestido da Sarah ficou bonito nela — Minnie disse — Eu também gostei do batom. Ela parece mais adulta, não acha?

Tudo aquilo ela disse com um sarcasmo indescritível, mas Henry, na sua ingenuidade, não era capaz de perceber.

— É uma pena que não a gente não possa tirar fotos e expor nas redes sociais — ele disse — Mas, Sarah, nem pense em comer qualquer coisa antes de tirar fotos! Você está demais! A Pam trouxe a câmera dela e, bem, se você quiser arriscar o seu pescoço...

— Transgressor — eu ri, socando o seu braço — Claro que sim! — sorri, e até hoje me arrependo de não ter olhado para trás, para ver a cara de idiota que aquela asquerosa da Minnie devia estar fazendo.

— Vem, Minnie — Henry chamou, após ela ter ficado a umas cinco jardas da gente.

Todos nos reunimos diante da mesa cheia e tiramos várias fotos, Pam ora trocando de posição com um ou outro membro da festa, que bancava o fotógrafo para ela também poder aparecer nas imagens. Quando consegui me misturar com as meninas num local mais privativo, contei a elas meu quase embate com Minnie. Cada uma deixou sua cota de xingamentos à minha rival. Henry chegou em nós perguntando do que estávamos falando, eu me levantei e disse que ia pegar uma musse que estava no freezer da sala de culinária. Para chegar até lá, passei por um corredor envidraçado que dava para apreciar de cima o auditório com sua apresentação musical. Procurei Tom no meio dos músicos para saber se tudo ia bem, e, dentro do previsto, ele estava tocando. A plateia estava cheia de alunos e pais de alunos que foram apreciar o espetáculo. Minha esperança era que, com tanta gente ali, ele não desse pela falta da Minnie. Mas não deu certo. Mesmo tocando, dava para perceber que ele olhava para todos os lados que a limitação instrumental permitia, em busca dela. Como era um ambidestro de olhos muito claros, segundo Pam, era provável que ele não enxergasse nem um pouco bem, ao contrário dos que tinham olhos mais escuros. Mesmo assim, isso não era garantia de que ele não fosse notar que ela não estava lá.

Fiquei por lá mais um pouco, apenas para me certificar de que era impressão minha Tom estar procurando alguém. Não era. Perdidos, seus olhos buscavam por Minnie. Notei que, numa das cadeiras da frente, havia um aviso de "reservado". Todos aqueles que representavam alguma coisa para os que se apresentavam se sentavam na frente: pais irmãos, amigos, namoradas, etc. Liebert deve ter requerido uma dessas cadeiras para a Minnie, mas o espaço dela estava ali, vazio. Pelo que eu pude observar, ela não estava apenas atrasada, mas realmente não tinha a intenção de ir.

Mais uma vez, veio aquela sensação de culpa. Para não ficar de baixo astral numa noite tão especial, ignorei aquele sentimento e fui até a cozinha, peguei o doce e corri de volta para o salão, para não ser vista.

— Sarah, você demorou! — Ana me sobraçou, corada e um pouco suada — Estava dançando com o Scott Gladstone, mas não deu. Aquele menino é péssimo — ela me explicou, rindo.

— Será que teremos um casal para o novo ano? — brinquei.

— Acho que essa pergunta é minha — ela indicou com o polegar Henry e Minnie, que estavam conversando em um lugar reservado.

Fiquei séria, mas depois tentei disfarçar com um sorriso. Acredito que não fiquei convincente.

— Eles parecem bem íntimos, né?

— Amiga, me desculpa! Eu não deveria ter dito isso...

— Não, Ana. Tudo bem. Eu vou ficar bem.

— Vai mesmo?

Assenti sem dizer nada. Caminhei em direção à mesa e aproveitei que já tinha tirado fotos com todo mundo mesmo e comecei a comer. Em poucos minutos, eu já olhava para o doce em minha mão com ar de tristeza por ter me excedido. Deixei o restante na ponta da mesa envolto em um guardanapo e fui ao toalete retocar a maquiagem da qual Henry disse ter gostado. Tentei tirar as ideias deprimentes da cabeça e aproveitar a festa. Sentei e conversei com os garotos, tentando adivinhar quem eles iam presentear, mas todos me garantiram que manteriam sigilo até a hora do Amigo Oculto, que Pam finalmente anunciou.

— Atenção, meninos e meninas! Vamos começar a temporada de trocas de presentes! — ela estendeu as mãos para o alto e aplaudimos fazendo palmas comedidas, para não atrair a atenção das pessoas de fora.

— Quem vai começar? — ela incentivou a galera — Ninguém? Então, vou começar pelo meu amigo oculto. Ela é uma garota muito cheia de estilo e atitude...

Kamilla deu um passo para a frente, achando que era ela.

— ...e é a melhor atriz comediante que eu conheço! Vocês já sabem quem ela é.

Anastasia andou até ela e a abraçou. Pam entregou o pacote das presilhas, aquele que eu vi antes, mas trouxe também algo maior, e sem embrulho. Era um livro.

— Obrigada, Pam! — ela disse, e, emocionada ao ver o livro, gritou de felicidade — Eu sempre quis ter esse! -, mas não chegou a deixar claro para todos qual livro era.

Então, Pam disse que ia dar apenas um kit de presilhas e deu um livro? Já estava ficando insegura com meus presentes.

— Bom, então já que eu ganhei os meus presentes, eu vou ser a próxima a presentear — Ana deu um sorriso tímido, para fazer mistério a todos — O meu presente também é um livro, e o meu amigo oculto é um cara que adora youtubers de Minecraft, por isso darei a ele o livro do seu youtuber favorito! Eu li o comecinho e deixei cair uma vez, mas posso garantir que ele ainda está em bom estado.

Henry parou para olhar aquilo, mas Kent e Manon também. Todos eles poderiam ser os presenteados.

— É o Gerald.

— Aeeeeeee! — ele gritou, de alegria — É meu! — ele levantou o livro como um troféu. E, mais uma vez, eu fiquei sem saber qual ou de quem era o livro.

— Já que eu estou frustrado por não ter ganhado o livro, vou logo dar o meu presente! — anunciou Fred — E eu não sei se ela vai gostar, mas se não gostar eu jogo pela janela.

Todos rimos.

— Eu não sei fazer muita descrição não, então vou logo dizer quem é. É a Kamilla.

Kamilla avançou e pegou uma caixa. Deu um aperto de mão em Frederick Manon e ele a puxou para um abraço.

— Abra — ele sugeriu.

Ela desatou um laço e um palhaço daqueles bem sinistros pulou de dentro da caixa. Ela gritou e em seguida xingou a mãe de Fred enquanto todos riam. No fim, ela pegou o presente do chão para ela mesma atirar da janela.

— Calma, Kamilla. Se jogar o presente, vão saber que estamos comemorando algo! — Pam alertou.

— Pelo visto, eu fiquei no prejuízo nessa — ela esbravejou, se sentando numa cadeira.

— Brincadeira, resmungona. Teu presente é esse — e ele apresentou um embrulho todo amassado.

— Olha, se for mais uma brincadeira...

— É da minha irmã. Na última visita que fez aqui, esqueceu esse suéter que tinha acabado de comprar. Bom, o problema é dela agora.

— Olha, eu não posso aceitar um presente rou... — ela disse isso até ver o suéter. — Ai, que lindo! É meu! Dane-se sua irmã!

— Agora eu! Agora eu! Agora eu! — Gerald correu para o meio do círculo que inconscientemente formamos — Meu amigo oculto é o cara mais novo do nosso clube, e eu desejo a ele que ele seja muito bem vindo. Este presente é de coração.

Todos olharam para a direção de Scott Gladstone, que abriu o embrulho e se deparou com uma camisa dos Yellow Corns, time de rugby do Gerald Kent e do Fred Manon. Os dois trocaram um cumprimento de tapa seguido de soco com as mãos.

— Valeu, cara, mas eu prefiro os Male Sheeps.

Ele se referia ao time do Henry.

— Vá se ferrar — o outro falou, aos risos.

— Agora tem ... — Pam procurou algo em sua lista, tentando lembrar quem ainda não tinha dado presentes.

— Eu! Ainda não dei o meu presente — Kamilla Parker se levantou de sua cadeira e depositou cuidadosamente seu suéter novo no assento. Foi até a mesa e pegou uma caixa — Minha amiga oculta é uma pessoa rigorosa com a gente, irreverente com os outros, corajosa e muito desbocada.

Pam já sabia que era com ela, por isso foi lá abraçar a Kamilla.

— Ei, não era você não! — Kamilla quis brincar imitando Fred, mas não convenceu.

— Eu sei que é para mim! — Pam tomou a caixa da mão dela e rasgou o embrulho. Tirou de dentro um ursinho de pelúcia pequeno, cheio de brilho.

— Comprei dois na última vez que fui passear lá fora, mas como eu gostei mais do azul, estou te dando o vermelho.

— Obrigada — Pam e ela trocaram beijos no rosto.

— Sarah, você não vai dar o seu presente? — Minnie alfinetou, ao ver que as opções estavam se esgotando.

Eu sorri com muita tensão e apontei para Samuel e Drake.

— Os irmãos Jonas, falta eles se presentearem.

— Está certo — Drake se levantou, e Samuel o seguiu — Eu vou dar para o Sam uma playlist rara daquele streamer que você gosta de assistir. Não é um CD original, mas você vai lembrar das músicas. Salva logo em outros lugares.

Samuel abraçou o irmão e segurou o CD sem encarte nem nada, envolto apenas em papel, com o fascínio de quem se depara com uma joia rara.

— Esse negócio de amigo oculto é legal — falou com a voz embargada, quase chorando.

Puxa, ele devia gostar mesmo dessas músicas. Esse presente simples me deixou mais segura com o meu. Samuel foi até a mesa onde depositamos todos os nossos presentes e pegou uma caixa um pouco maior do que as de sapatos. Sem embrulho, dava para ver que eram realmente calçados.

— Em retribuição, eu te dou os meus patins de gelo novos.

— Demais! — Drake levantou a tampa da caixa e analisou os patins, que eram prateados e pareciam revestidos com vinil — Valeu, cara. Você viu que eu gostei desses, né?

Provavelmente os dois ganharam patins, mas Drake gostou dos do irmão. Eu entendi assim.

— Vai, Sarah. Agora é sua vez — Pam me apontou.

— Está com medo de algo, Grunewald? — Minnie tripudiou.

— Entregue logo o seu — pedi, coçando a cabeça.

Pam bufou e revirou os olhos. Cruzei olhares com ela, demonstrando toda minha insegurança.

— Sem problema — ela disse, confiante.

Minnie foi até a mesa e pegou sua caixinha do tamanho da palma de uma mão.

— Este é o meu presente para você, Henry.

— Puxa, obrigado, eu...achei que você somente vinha para a festa, não sabia que ia levar a sério a ideia de me trazer um presente, senão teria arranjado algo para você também. Me desculpe.

— Não tem problema. Abra — ela disse, presunçosa, balançando o corpo para um lado e para o outro.

Quando Henry viu o presente, arregalou os olhos e imediatamente fechou a caixa.

— Desculpe, eu não posso aceitar isso.

Eu, que já estava com todo o meu repertório de autocomiseração pronto para ser usado, voltei os dois passos que tinha dado em direção à porta para fugir dali.

— Eu...acho que não entendi direito.

— É...é muito caro o seu presente. Isso...isso está fora do preço de qualquer coisa que todos nós demos ou poderemos dar. Eu não posso aceitar. Me desculpe! Me desculpe mesmo.

— Eu sei que é caro, por isso estou dando para você!

— Minnie — Henry empurrou a caixa que ela forçava na direção dele — O que você vai dar para o Tom?

Ela fez uma cara de choque. Todo mundo também. Ninguém esperava que uma pessoa fosse recusar o presente da outra ali.

— Você ia dar isso para mim e não pretende dar nada para ele?

— Mas é que ele...!

— Eu não vou deixar você fazer isso com o seu noivo. Entregue isto ao Thomas Liebert, Minnie.

— Você não está falando sério — a voz dela tremia de raiva e eu estava tipo, soltando fogos de artifício por dentro.

— Estou, sim. Isto é o correto. Entregue o seu presente a ele.

— Mas, e você?...

— A Sarah já vai me dar um — ele lhe respondeu, com um sorriso cândido no rosto.

— Você vai receber a porcaria que essa garota vai lhe dar e recusar o meu presente, é isso mesmo?

— Minnesota — se Henry não chamou pelo apelido, estava falando sério — eu não vou deixar que insulte meus amigos desta maneira — Olhando para o relógio de pulso, disse: — A apresentação da orquestra ainda não acabou. Você ainda tem algum tempo para pegar o Tom se apresentando.

— Eu não quero ir! Quero ficar aqui, com vocês...

— Eu não vou questionar suas razões — ele deu de ombros — Vamos, Sarah, me dê o seu presente.

Dei passos desanimados até a mesa e peguei o embrulho com o pequeno bloco de notas que ia dar para ele primeiro. Em seguida, tirei do bolso do meu vestido o cartão e entreguei a ele.

— Olha só — disse ele, sorrindo — Eu ganhei dois presentes!

— O bloco de notas é porque...você e os meninos, quando não estão treinando, estão sempre jogando dominó, então...achei que vocês fossem gostar.

— Haha, olha que bacana, nem tinha pensado nesse uso, é verdade! Obrigado, Sarah! E o cartão, foi você que fez? Está legal, bonitão. Eu vou ler antes de dormir, porque sei que você vai ficar envergonhada se eu ler na frente de todo mundo.

— Eu borrei o final e tive que colar uns adesivos para consertar — me expliquei, para que ele não tivesse curiosidade de ver a declaração que eu tomei o cuidado de riscar, mas que ele ainda poderia identificar o que estava escrito.

— Não tem problema, ficou ótimo assim. Obrigado, Sarah. Eu adorei.

— Bom...agora é a minha vez! — Henry encolheu os ombros.

Todos olharam para ele, esperando para ver o que ele ia me dar. Eu quase quebrava meus dedos de tão ansiosa.

— A minha amiga oculta é uma garota muito especial que eu conheço desde os...sei lá, sete anos. Ela foi a primeira pessoa que me compreendeu sobre as minhas super capacidades, a única pessoa que acreditou em tudo o que eu disse numa época em que eu achava que estava ficando louco, porque passava por problemas semelhantes. Foi tocando na mão dela que eu experimentei pela primeira vez e quase morri de susto com meu próprio poder. E graças a ela, e aos pais dela, que eu me tornei um cara normal que não é famoso por isso...de certa forma, foi a ajuda dos pais da Sarah que fez com que eu fosse trazido para Hepburn e conhecesse todos vocês. A Sarah sabe o que meus pais queriam fazer quando souberam que eu podia fazer aquilo que eu faço. Só para saber, tá?, eu não estou falando mal deles nem os culpo, eles só não sabiam o que nós éramos, nem o quanto corríamos perigo. Eu gosto de todos vocês, demais, para caramba, mas essa garota aqui — Henry passou o braço em volta dos meus ombros — já tem uma longa estrada comigo, muito antes disso tudo. Ela sempre será minha favorita.

Minnie cruzou os braços, de cara fechada. Não consegui segurar as lágrimas, era muita emoção para um dia só.

— Para de falar, Grigory, senão a menina vai derreter aqui na nossa frente! — gritou Fred Manon. Esse filho da mãe.

— Então — Henry continuou, me conduzindo até a mesa de presentes — Eu fiquei pensando, eu não tinha o suéter de uma irmã para dar para a Sarah — todos riram olhando para o Freddie — nem um bicho de pelúcia, para mim essas coisas só servem para pegar poeira, enfim...eu não sabia o que dar para a Sarah, não sei os romances que ela já leu, e mesmo que eu soubesse não teria tempo para fazer chegar da internet. Então, como eu não sabia o que era importante para ela, eu escolhi dar para ela algo que é importante para mim. Aquilo onde eu deposito o meu coração — os meninos uivaram, zombando da forma de ele falar — Ei, vocês parem, estou falando sério.

Henry pegou o objeto que, pelo contorno do embrulho, se assemelhava a um ovo de páscoa comprido.

— Ela é sua, Sarah.

Quando puxei a fita do pacote, desembrulhei uma gasta e comprida...bola de rugby.

— Foi com ela que fiz meu primeiro jogo aqui. E com ela que participei de vários jogos importantes. É um presente para minha torcedora mais fiel, que ainda que não entenda muito as regras do jogo, não deixa de estar lá.

— É minha? É minha mesmo?

Ele assentiu com a cabeça e nos abraçamos.

— Obrigada, Henry. Sei o que ela representa para você. Você não precisava me dar.

— Precisava sim.

Todos aplaudiram nosso abraço, exceto Minnie, que continuava emburrada no mesmo lugar. Esse momento de emoção coletivo teria fim quando alguém abrisse a porta. Fizemos um inventário mental sobre qualquer um de nós ter saído dali e agora estar entrando de volta, mas sabíamos que não, pois todos estavam ansiosos pela troca de presentes.

Sincronicamente, olhamos todos para a porta e nos posicionamos diante da mesa, como se fosse possível escondê-la. Esperávamos nos deparar com Thomas Liebert, mas foi muito pior: plantado diante de nós, estava ninguém menos do que Constantine Hepburn, o diretor do colégio.

— Crianças, acho bom vocês terem uma boa explicação para isso.

— Nós podemos explicar — Pam deu um passo para a frente.

— A ceia, as luzes, os presentes...isto é uma festa de Natal? — ele perguntou, passando a vista em torno daquilo tudo.

— É só uma reunião temática entre amigos — Pam gaguejou.

— Não chegam a ser presentes de verdade, apenas lembrancinhas — Kamilla se explicou, mostrando o suéter de marca que ganhou.

— Nós vamos limpar tudo, e fizemos essa reunião em segredo para que ninguém soubesse que estamos...descumprindo as regras — Henry suspirou, e destruiu tudo o que os outros disseram — Pedimos desculpas por isso, diretor. Somente quem está aqui sabe dessa reunião. Não é como se quiséssemos abrir um precedente de rebeldia nem nada disso, nós apenas consideramos o Natal uma data importante demais para deixar passar em branco.

— A gente estava com falta de comemorar essa data. Celebrar somente com os parentes lá fora não tem graça. A gente precisa dessa demonstração de afeto entre os amigos, também. E nem todos moramos perto uns dos outros — argumentei.

Com o rabo do olho, vi Minnie caminhando de costas e tentando desaparecer na penumbra. Ela queria escapar dali ilesa.

— Todos fomos estudantes muito bons e ordeiros neste ano — Ana tentou em vão salvar nossa pele. Estávamos, como sempre, com a reputação na lama por causa de Thomas Liebert — Considere isso — ela amiudou a voz, ao ver a cara dele.

— Diretor — Drake disse — Eu também vim aqui a mando do Liebert só para flagrar esses transgressores e denunciá-los!

— Isso! — Sam assentiu.

Todos ficaram boquiabertos e indignados com a falsidade daqueles dois.

— Seus...safados! — com as mãos em garras, Pam se aproximou dos dois.

— Nem pense nisso — o diretor colocou a bengala entre ela e os meninos, separando-os.

— Eles estavam com a gente e até trocaram presentes! — bradou Scott Gladstone — Ninguém vai escapar coisa nenhuma!

— É...é mentira, diretor — eles tentaram negar.

— E ainda tem essa daqui! — Fred tomou o bicho de pelúcia da mão de Pam e explodiu ele na costa da Minnie, que saiu de seu esconderijo massageando o flanco direito.

— Seu grosseiro! Você me machucou!! Tom vai ter conhecimento disso, pode dar como certo!

— É que ele toca uma música e por isso vem com uma caixa de som dentro — Kamilla explicou, sobre o motivo da dor que Minnie devia estar sentindo.

Isso foi autodemonstrativo, porque mal o ursinho caiu no chão, uma musiquinha natalina passou a tocar, nos incriminando mais ainda.

— Pelo visto, vocês não estão com o espírito natalino muito aflorado, não é?

— Mas é que... — os irmãos Jonas temiam que sua deslealdade pesasse ainda mais contra eles na hora de aplicarem algum castigo.

Constantine Hepburn sorriu com seus dentes alguns originais e outros de ouro.

— Isto lembra a mim mesmo quando era mais jovem. As namoradinhas humanas...a emoção de fazer uma celebração escondido! Isso traz boas recordações a este velho. Eu e meus amigos também fizemos festas assim. Inclusive, na minha época, também havia um rapaz muito desagradável e, como vocês jovens dizem, "quadrado", como aquele Thomas Liebert!

— Isso quer dizer que não seremos punidos por ter feito uma festa natalina? — Henry arriscou.

— Isso quer dizer que eu agora estou na posição de responsável por este colégio e não posso deixar que coisas assim passem impunes. Mas, por ora, vou querer experimentar este assado com batatas, que parece estar delicioso! Quero testar como estão meus alunos de Culinária!

— C...claro — Pam tratou de acomodá-lo em uma cadeira — Kamilla, sirva o diretor enquanto eu vou pegar meu presente que este CAVALHEIRO AQUI — ela estapeou o braço de Fred — jogou para longe.

— Na hora — Kamilla, com as mãos tremendo, conduzia um pedaço do assado ao prato do diretor.

— Um pouco de refrigerante? — Gerald Kent ofereceu um copo descartável de Coca-cola.

— Cairia bem, mas tenho pressão alta.

Conversamos com o diretor sobre suas peripécias de adolescente e como ele deu umas voltas no Thomas Liebert do seu tempo: trancando-o no banheiro até a manhã do dia seguinte ao Natal, para que ele não denunciasse ninguém ao diretor, colocando uma garota popular para convencê-lo a nadar no lago e sumir com as roupas dele, escondendo o seu projeto de ciências no armário de um aluno aleatório até ele confessar uma armação para cima de outro estudante...confesso que fiquei com um certo medo dele, mas os demais se acabaram de rir, imaginando como seria ver Tom naquelas circunstâncias.

— Não se iludam com aquele garoto — ele nos alertou — Ao contrário do Richard Szklarz, Thomas Liebert é um moderador que realmente limita suas atividades às regras dos guias. Ele jamais cairia em ciladas comuns como "garotas atraentes" ou "bons lugares para passear na companhia de pessoas populares".

Divagando, sem falar para ninguém em específico, ele sussurrou algo que acredito que só eu escutei:

— É isso que me dá medo...ele ser tão incomum...

— O que disse, diretor? — inquiriu Pam.

— Estava apenas pensando em voz alta. Me lembrando de algumas coisas — ele insistiu na desculpa.

O grupo pediu para ouvir mais histórias. Acho que sonhavam usar algumas delas para se inspirar em vinganças contra Liebert no futuro, ou queriam ganhar a simpatia do diretor demonstrando interesse em seu passado de estudante. Num dado momento, o diretor Hepburn agradeceu nossa recepção e se despediu.

— Eu esperei quase sessenta anos para ver alguém ter a coragem que vocês tiveram hoje. Aproveitem, crianças. O futuro está nas mãos daqueles que conseguem se rebelar contra regras sem sentido.

Nos entreolhamos, confiantes de que não seríamos mais punidos.

— Por outro lado, trabalho para um sistema onde o que vocês fizeram hoje é terminantemente proibido. O que devo fazer com vocês?

— Foi ideia minha, diretor — Pam apontou para si mesma.

— De forma alguma — Henry tocou no braço dela, como se garantisse que estavam juntos — Tivemos essa ideia juntos.

— Em retribuição às boas recordações e à excelente ceia que me proporcionaram, eu fecharei os olhos neste ano. Mas somente neste.

Olhamos uns para os outros, batendo palmas empolgadas.

— Psiiiiu! Não se esqueçam: vocês "estarão detidos" nas duas primeiras semanas do ano que vem. O certo é estarem bem tristes, ok?

Assentimos de cara alegre. Quando o diretor foi embora, suspiramos e trocamos abraços de alívio.

Estávamos muito cansados para arrumar a bagunça da festa no mesmo dia, daí combinamos todos de ir na primeira hora da manhã do dia seguinte resolver o problema da sala onde fizemos a confraternização. A decoração deu bastante trabalho para remover, pois Ana aplicou uma fita dupla face de alta performance. Os alimentos despejados no chão, esses eu prefiro nem descrever. Duas horas depois, estávamos famintos e sujos, loucos por um café da manhã. Eu fiquei encarregada de levar todo aquele material até a lixeira mais próxima sem que ninguém me visse. Corri até a lixeira de coleta seletiva que havia próxima ao auditório, e lá chegando, vi um objeto peculiar impedindo o fechamento de uma das tampas das quatro opções de coleta. Reconheci o braço de um instrumento musical pequeno quebrado ao meio. A caixa do objeto estava aberta, descolada, partida. Era um violino. O arco também estava ali, quebrado ao meio. Um profundo arranhão na pintura da parede delatava o local onde o objeto havia sido destruído. Não precisei fazer um esforço mental muito grande para saber quem era o dono dele.

— Vamos ao Restaurante Particular, porque numa hora dessas, as refeições matutinas do Restaurante Comunitário já acabaram — convidou Pam — Anda!

Empurrei o violino com força para fechar a tampa da lixeira e segui Pam e os meninos. Não contei a nenhum deles o que vi. Talvez as outras meninas que levaram lixo para fora antes de mim tenham visto algo, mas, se viram, nada disseram também. Enquanto os meninos discutiam distraidamente sobre a festa, seus presentes ou sobre planos para o ano que vem, eu pensava no quanto Thomas Liebert nos infernizaria por Minnie não ter visto sua apresentação. Ele sabia que ela estava conosco naquela noite e por isso não foi vê-lo. Eu tinha medo de saber quanto aquilo custaria para nós.

— Vi seu violino na lixeira, ele estava quebrado — ouvi a voz de uma garota dizer a alguém que só poderia ser o dono do instrumento quebrado do corredor do auditório.

Olhei para ver de quem se tratava, e era realmente Thomas Liebert. Ele e essa menina que eu não conhecia tinham acabado de entrar no Restaurante Particular.

— Perdi o interesse nessas coisas — ele respondeu, tentando disfarçar um tédio que não era dele.

— Está correndo um boato por aí. De que você vai deixar de tocar porque a Minnie não foi ver sua apresentação.

— Receio que esteja enganada — ele mentiu — Ela esteve no auditório, você não a viu?

Ele mentia de forma tão convincente que a garota ficou encabulada.

— Não vi mesmo. Onde ela estava?

— Reservei para ela uma vaga no camarote.

— Mas alunos podiam ir para lá?

— Eu fiz com que uma aluna pudesse — Tom sorriu, quase galante.

— Ah, isso faz sentido. Nenhuma das pessoas com que conversei esteve lá. Mas então o que o aborreceu a ponto de desistir?

— Eu vou me dedicar mais ao meu clube, e tenho outros projetos em mente. A música me tomaria um tempo precioso.

— É uma pena. Você era o motivo de muita gente ver os ensaios e as apresentações, sabia disso?

— Imagino — ele disse, sem nenhuma modéstia — Era entediante tocar no meio daquele monte de amadores!

— Ha! Ha! Ha! — a menina desconhecida o empurrou com uma delicadeza e proximidade que sugeria muita intimidade, para ser sincera — Você não tem jeito, Tom!

— O que fizeram, você e a Minnie, depois da apresentação?

Tom piscou exageradamente, sem saber o que responder.

— Nós...conversamos um pouco e então eu a deixei no quarto. Ela estava feliz, mas muito cansada. Os espetáculos são agradáveis, porém extenuantes.

— É verdade.

— Um momento.

Eu já estava com pena do Liebert por causa da Minnie ontem, mas a visão dele flertando com aquela garota diante de todos quase me fez recuperar a certeza de que sua noiva não havia feito nada de errado, exceto me encher o saco. Mal nos viu, ele tratou de deixar a acompanhante falando sozinha para vir em nossa direção. Por onde ele passava, não andava em outro sentido que não em linha reta, pois não se dava mesmo o trabalho de se desviar de alguém. Todos pareciam saber disso, era praticamente um consenso. Os que não saíam do meio, ele simplesmente abria caminho empurrando. Eu estava pensando em tantas coisas que ele poderia falar, ameaçar ou até mesmo fazer que não consegui tomar outra atitude além de ficar boquiaberta, esperando ele chegar.

— E então, nômades — cumprimentou, colocando sua bunda suja na ponta de nossa mesa — Posso saber como foi o desfecho da festinha de vocês?

— Por que você não desce daí, seu babaca? — Pam indicou o lugar onde ele tinha sentado com um lado do quadril enquanto a outra perna encostava no chão — Há cadeiras em volta da mesa, sabia?

— Foi muito bom, Liebert — Henry falou, num tom de voz rígido, cruzando os braços.

— Bom, de verdade? Vocês não receberam a visita de alguém? — inquiriu o ambidestro, deslizando os dedos pálidos pela lapela do terno que devia valer mais do que a minha vida.

— Exceto os membros regulares de nosso clube, ninguém, Liebert — disse Pam — Alguém tinha que ir para lá e por acaso não foi?

Confuso, sua cara de confiante foi para o espaço.

— Essa pessoa combinou com você que iria atrás de nós, é isso? Quem era?

Tom soltou o ar, sem nem saber que expressão sustentar na cara.

— Olha, se você mandou alguém para nos prejudicar, não chegou lá não — Ana, sorrindo, comentou.

Ele estreitou os olhos. Se fosse possível matar uma pessoa com o olhar, ele teria feito isso.

— Vai ver a pessoa se confundiu de sala e não conseguiu nos achar — Kamilla deu de ombros.

— Ou esqueceu o caminho da apresentação dele — escutei Pam sussurrar no ouvido de Kamilla, que riu batendo com a mão na mesa.

Tom a encarou bem sério até ela fazer silêncio.

— Não sei o que você pretendia, Liebert — disse Henry — mas, como pode ver, estamos incólumes. Era tudo o que gostaria de saber?

Olhei para Tom, como se esse gesto aplicasse mais peso à pergunta do meu amigo. Antes que ele respirasse para dizer qualquer coisa, Pam disparou:

— E como foi sua apresentação? Preparou algo romântico para fazer com a Minnie depois dela ou estava tão focado em acabar com a gente que se esqueceu disso?

Baixei a cabeça de vergonha alheia com isso que ele disse:

— Óbvio. Minnesota, após a apresentação, ficou ao meu lado quase até o amanhecer. Fizemos planos para as férias.

Acho que Tom havia se esquecido de que estava nos infernizando justamente porque suspeitava que Minnie iria à nossa festa. Ou será que ele não acreditava que ela teria mesmo a audácia de trocá-lo por nós? Depois, que planos ele teria para as férias? Ele passa as férias enfurnado no colégio porque não tem onde ficar, todo mundo sabe disso. Todo mundo se calou, acho que resolveram fazer um minuto de silêncio pela morte da dignidade dele.

— Puxa, que legal, Liebert. Meu ideal de compromisso é encontrar um noivo como você — Pam debochou — Tão romântico que dá dor de barriga!

Todos na mesa rimos. Eu fiquei com um pouco de pena, mas mesmo assim não resisti.

— Não se preocupe — ele disse, forçando um sorriso — Os Briggs estão considerando trazer um dos filhos da Cultura para se casar com você. Talvez o casamento te dê um pouco de noção sobre o próprio lugar.

Pam já sabia que os Rivers, família que negociava com os Briggs a mão dela, eram responsáveis pelos guias de costumes que tanto limitavam a raça ambidestra a essas regras sem sentido, como não ter Natal, por exemplo. Falar que ela ia se casar obrigada com um dos herdeiros dos ideais que ela tanto desprezava era tocar num ponto sensível dela.

— Você pode estar certo de que, ao contrário de uns e outros, não vou entregar o duelo com tanta facilidade assim. Que chata deve ser a sua vida, né, Tom? Sua noiva precisa dizer a todo momento que é a líder do acordo para que você a deixe livre para fazer o que quiser, o que, diga-se de passagem, é sempre ficar longe de você! Me diz aí você, que está prestes a se casar: em que lugar o casamento está te deixando?

— Já pensou? — Scott Gladstone se meteu — Eu vejo o Liebert numa pia lavando louça daqui a alguns meses!

— De avental! — completou Fred Manon.

— Fazendo comidinha para a Minnie! — Gerald Kent pegou o cardápio e bateu na mesa — Thomas, quero meu prato para daqui a cinco minutos!

— Isso nem vai acontecer daqui a alguns meses — Pam os cortou — Minnie pretende adiar o casamento deles até o fim do colegial, tamanho o seu terror em se casar com esse lixo!

— Gente, parem com isso — Henry pediu — Não condiz com os ideais de nosso clube humilhar as pessoas desse jeito!

Qualquer pessoa normal teria corrido dali à lágrimas, mas era Thomas Liebert. Ele consumia os desaceleradores, uma substância que, entre outras coisas, inibia a libido, a raiva e comprometia seriamente sua capacidade de ter sentimentos e desenvolver a empatia com o sofrimento alheio (pelo visto, o próprio também). Sua frieza diante de um embate tão cruel mostrava a total competência dessas coisas. Após gargalhar na cara de Henry, ele disse:

— Humilhar? Vocês, me humilhando? — ele parou para rir a cada frase — Você é patético, Grigory! Uma existência inútil como a sua, jamais terá como se sobrepor à minha de qualquer maneira! "Humilhar"? Esqueceu de quem você é, de quem eu sou? O "poder da amizade" não vai te livrar de um eliminador quando você estiver diante de um! Sabe? Vocês todos só pensam que são alguma coisa porque têm uns aos outros, mas num momento real de combate, se depararão com a dura e cruel realidade sobre o quanto são fracos e imprestáveis! Olhe para a sua nômade, Grigory — Tom desceu da mesa e me abraçou por trás, segurando meu queixo para cima com o seu antebraço — você consegue pensar em algo para fazer caso eu resolvesse atacá-la agora?

Ele puxou meus cabelos para trás, deixando meu pescoço livre. Com as pontas dos dois dedos mais longos, desenhou um colar imaginário na minha clavícula. Aquele contato definitivamente não me agradava. Eu nem vi quando ele chegou ali, era assustador.

— Enquanto se distraem em reuniões inúteis que homenageiam cultos de humanos, é nesse tipo de coisa que deveriam pensar quando se reúnem naquela sala sustentando o nome de um ideal como a Eliminação.

A mesa ficou em silêncio. Por uma lufada de ar, percebi que Thomas Liebert deve ter sorrido.

— Briggs, você treinou por dois anos essas pessoas e elas ainda não sabem o que fazer nesse tipo de situação?

A cara da Pam tremia de ódio, ela estava assustadora.

— Se você não tirar as suas patas nojentas de cima da minha discípula, eu vou deixar a sua cara em um estado que você nunca mais vai ter coragem de sair em público!

— Pam — eu falei — ele não vai poder me machucar sem se prejudicar. Está tudo bem.

Henry se levantou, esbarrando na mesa, fazendo ranger tudo o que estava em cima dela. Tom reduziu a proximidade entre nós, e ficou apenas encaixando as mãos nos meus ombros. Ainda assim, eu estava usando uma regata que deixava minha pele nua, e o contato com suas mãos geladas me incomodava de um jeito que dava arrepios.

— Afaste-se dela — Henry rugiu.

— Heinrich Grigory, não me convém ferir sua noiva aqui.

Enrubesci violentamente.

— Nós não somos noivos — protestei.

— Cale-se — ele rebateu, duramente.

Henry e os demais olhavam para ele como se Tom estivesse com uma arma na mão. A realidade não era muito diferente disso. Seu corpo todo era uma arma letal.

— Só quero lembrar vocês do quanto são vulneráveis. E cada dia perdido com coisas assim os torna mais inferiores em relação àqueles que estão trabalhando. É muito fácil, muito fácil machucar qualquer um de vocês.

Seus dedos se afastaram de mim numa estranha carícia por baixo dos cabelos. Olhei para trás, achando que ele já tinha ido embora. Pelo contrário, ele virou minha cadeira giratória e eu dei de cara com seus frios olhos azuis. Quase morri do coração. Liebert tocou meus ombros e se dispôs de frente para mim. Involuntariamente, meu corpo todo tremia de nervoso.

— Você se sente indefesa, não é, nômade? É exatamente dessa forma que eu posso perceber você. E é desse jeito que você vai estar bem encrencada se aparecer diante das pessoas erradas. É só isso que quero que não esqueçam — ele finalizou, voltando o rosto para o restante dos constituintes da mesa.

Tom empurrou levemente meu tronco contra a cadeira e saiu. Esfreguei meus braços no ponto onde ele havia encostado as mãos, como se eu tivesse escapado ilesa de um banho de lava vulcânica. Devo ter perdido a cor do rosto, e eu mal sentia as pernas. De repente um calor, acho que de raiva, fumegou no meu peito. Tentei superar o constrangimento olhando para os demais. Kamilla tocava no peito, e só depois que ele foi embora, ela se permitiu respirar.

— Ufa! O que a gente estava conversando mesmo? — questionou.

Em nossa mesa, todos tentaram restabelecer a linha de raciocínio anterior, como se nada tivesse acontecido. Entre a pena de Liebert por ele estar mentindo para si mesmo e para os outros, a raiva por ele ter me usado como demonstração de como somos inferiores e o medo do que ele disse — a possibilidade de ser uma menina vulnerável diante das pessoas erradas — alguma outra coisa me perturbava o juízo. Eu me sentia tonta e sem ar, acho que estava começando a adoecer. Adoecer nas férias, que legal, olha como tudo na minha vida acontece dentro do previsto.

Passei o resto do dia indiferente às brincadeiras e conversas do grupo. Só conseguia olhar pela janela o Natal que estava acendendo a alguns quilômetros de nós e do qual eu estaria perto no dia seguinte, quando meus pais viessem me buscar. Mesmo já tendo comemorado a data com meus amigos, eu me sentia estranhamente vazia por dentro. Alguma coisa no meio daquilo que Liebert falou estava me incomodando. Era comum que datas comemorativas me dessem uma certa melancolia e a sensação de que algo de errado estava prestes a acontecer, mas eu nunca senti uma infelicidade tão intensa como essa. Enquanto todos brincavam e arrumavam suas coisas para viajar no dia seguinte, eu andava por eles curvada e, imagino eu, com cara de semimorta. Pela falta de interesse deles em mim, acredito que nenhum deles percebeu isso.

Saí discretamente do quarto onde nosso grupo se reuniu (a exemplo do que houve no ano passado, quando também nos reunimos para fazer nossas bagagens) e fui dar umas voltas por aí. Reconheci Minnie de costas e regredi uns dois passos. A última coisa que eu queria era ser pisada por aquela garota antipática depois de ter encarado a noiva dela mais cedo. Mas a coisa se revelou pior do que eu esperava quando surgiu no meu campo de visão a figura alta e magra do ambidestro mais filho da mãe de todos os tempos. Eles dois estavam juntos. Ainda que não tivesse a intenção de bisbilhotá-los, fiquei quietinha no meu canto para que nem meus passos delatassem minha presença.

— Eu já disse, Tom. Eu acabei adormecendo e me esqueci. Quando dei por mim, o espetáculo já tinha acabado. Se não o procurei hoje, é porque imaginei que fosse estar muito bravo e fiquei com medo...

Ele deu uma volta, mexeu no cabelo, suspirou e disse:

— Sim. Está bem. Eu pensei no pior, mas esqueça. Desculpe-me. Eu estava enganado.

Era possível perceber que ele estava mentindo. Não sei o que ele pretendia com isso, mas imagino que estava querendo evitar que o conflito entre eles aumentasse.

— Vamos sair para algum lugar? É o nosso último dia juntos antes das férias.

— Ah...é? Puxa, Tom, sinto muito, eu ainda não arrumei minhas coisas. Sei que fui imprudente de deixar para a última hora, mas...

— Quer que eu a ajude?

— De forma alguma! — ela o desconvidou de forma tão veemente que eu levei as mãos à boca pensando "disfarce essa sua ojeriza, sua burra!".

Olhei de canto de olho para eles. Minnie estava chocada por ter deixado escapar sua intenção de fugir do noivo tão facilmente. Tom, ao contrário de tudo o que se podia esperar, apenas piscava, sem expressão nenhuma no rosto.

— Ah...eu...eu sei que você não gosta do Natal nem nada disso porque é uma comemoração dos humanos, mas mesmo assim eu trouxe algo para te dar de presente! — Minnie mudou de assunto, após quase um minuto inteiro de silêncio.

— É mesmo? — ele respondeu, com evidente desânimo na voz.

— É para você — e eu percebi que ela deu a ele o mesmo relógio de bolso que ia entregar a Henry, como ele aconselhou. Mas, por alguma razão, o objeto estava sem nenhuma caixa ou embrulho.

Ele tomou o objeto sem sequer observar direito do que se tratava, juntou-o ao peito e disse:

— Obrigado, Minnesota.

Com o cuidado próprio daqueles que não têm a menor intimidade com a pessoa, ele levou a mão aos cabelos de Minnie e a afagou na cabeça. Puxou-a para si e a abraçou, um ato considerado de bastante ousadia de acordo com as leis ambidestras.

— Aproveite lá fora. Depois me conte como foi.

— Sim — Minnie se desvencilhou dele — Eu já vou indo. Boas férias, Tom.

Ela correu para a direção de seu próprio quarto e ele ficou acenando até ela desaparecer.

FIM

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.