(HNW!18) - Especial de Natal Sociedade dos Nômades
1 (HNW!18) - Especial de Natal Sociedade dos Nômades (Parte 1)
Natal. Época de rever a família e os amigos. É complicado falar de “amigos para rever”, porque meus amigos agora são os que tenho aqui, e os antigos mesmo têm tão poucos assuntos em comum comigo que eu me sinto completamente deslocada ao reencontrá-los. Meu nome é Sarah Grunewald e eu estudo em um colégio de bacanas chamado Hepburn High School. Aqui, passo pelo menos dez meses do meu ano reclamando como queria estar em casa, diante da lareira dos meus pais, a uma distância de um ônibus escolar de casa, como qualquer adolescente normal. Numa hora dessas, eu provavelmente estaria liberada para o recesso de fim de ano, assistindo O diário da princesa e chorando até desidratar, enquanto minha doce irmã Maga estaria me perguntando “Você está chorando mesmo ou é só fingimento?” e meu irmão Roger, com aquele riso irônico dele, diria “Deixa de ser demente, garota! É só um filme idiota.” Mas, como eu ia dizendo, estou por aqui, e estamos a uma semana do Natal, e ainda assim não fomos liberados para ir para casa. Legal.
Antes de vir para esse colégio, minha única preocupação era manter uma cintura como a da Avril Lavigne, mas agora eu tenho que lidar com problemas, vamos dizer...um pouco mais palpáveis. Aos doze anos, descobri que eu e meu amigo Henry não somos pessoas comuns. Comuns, que digo, é: escutar e ver coisas a cem metros de distância não é um dom que todas as pessoas têm, não é? Fazemos parte de um grupo de mutantes que ninguém sabe do que se trata, de onde veio, como começou, nada. As especulações são muitas: contatos extraterrestres, experiências laboratoriais enquanto nossas mães estavam, sei lá, fazendo pré-natal ou teorias de que elas foram expostas a áreas com radiação, vai saber. Alguém encontra uma justificativa por trás de as plantas endoidarem quando eu estou por perto, ou de meu melhor amigo conseguir soltar fogos pelas mãos? Uma dica: já procurei na Wikipédia a causa e não achei.
Como tudo o que vive na sociedade é catalogado, criaram um nome para definir pessoas com os mesmos talentos que nós. Chamamos de ambidestros aqueles que se manifestam sozinhos, isto é, aqueles que não precisam tocar na mão de um amigo para o poder aparecer, e destros aqueles que são como eu e Henry, que precisam de um companheiro para o poder mais destacado em nós se manifestar. Defino “poder mais destacado” porque a audição e visão privilegiadas são dons inatos à raça. Eu não preciso de um parceiro para que isso se manifeste em mim, e isso já me meteu em altas confusões quando pequena. Mas não vamos falar disso agora. Foi por conversar sobre essas capacidades com Henry que descobri que ele era do mesmo jeito. Mas o nosso poder original só é revelado quando nos damos as mãos.
Com a sugestão de um especialista, nos matriculamos nesta escola. Isto porque ele foi bem claro ao dizer para os meus pais que nossas vidas estavam em perigo. Se nos mantivéssemos no lado externo, que eles chamam de Sociedade Comum, seríamos alvos fáceis para a caçada dos chamados eliminadores. Eliminadores podem ser divididos em dois grupos: eliminadores eliminadores mesmo, que caçam a gente e nos revendem para sermos mortos e estudarem nossos corpos, ou nos doarem a alguma universidade para estudos ainda vivos, ou até mesmo executarem em nós reproduções forçadas no intuito de gerar mais seres poderosos como nós (as alegações externas são de que isso acontece apenas com ambidestros transgressores de acordo com as leis da sociedade. Por exemplo: aqueles que usam seus poderes para roubar, matar, etc. Mas como nunca se sabe, estamos aqui). E existem os eliminadores reversos, que são um grupo de rebeldes que não admitem o que acontece conosco e treinam ambidestros e destros para se defenderem dos ataques dos eliminadores originais ou atacá-los gratuitamente, chegando inclusive a matá-los. Este último grupo é taxado de subversivo, pois lida com naturalidade com a ideia de matar humanos, algo proibido no Tratado Comum da Ambidestria com a Humanidade desde 1924. O clube responsável por esse treinamento de defesa se chama Eliminação. Atualmente, é moderado por um ambidestro extremista chamado Thomas Liebert, que viola dois acordos fundamentais das leis do seu clube: não admite a entrada nem de destros nem de humanos, quando deveria permitir ambos. Para contrariar seu intuito de deixar ambidestros malignos agirem livremente na sociedade, resolvemos criar o nosso próprio clube de eliminação. Nele, admitimos humanos, destros e ambidestros que, por simpatia à nossa causa ou divergências com o clube de eliminação e seus moderadores, mudaram de lado. Ele se chama Sociedade dos Nômades.
Ambidestros, percebemos isso desde o nosso ano de ingresso na escola, não são religiosos e nem admitem qualquer manifestação religiosa dentro do colégio. Todas as pessoas têm que andar exatamente iguais, ou seja, moças de véu não entram aqui. Presilhas de cabelo, eles mesmos dão uma, e você não pode usar outra. Se você for de uma igreja mais conservadora, não vai poder aumentar o tamanho da sua saia. Se for de uma religião que não admite muita vaidade, vai ter que lidar com o fato de que aqui todos têm que ter cabelos e unhas cortados e impecáveis. Se é do tipo que luta para preservar os sábados, sábados aqui têm atividade. Se gosta de maquiagem esqueça, aqui não se pode usar, só em ocasiões especiais. Cabelos coloridos nem pensar. E Natal...bom, Natal só se você olhar o horizonte iluminado de luzes e cores através de sua janela. Aqui eles não comemoram isso.
Enviamos um ofício para o diretor solicitando a licença para ao menos podermos sair para comprar presentes e trocar entre os amigos antes do recesso de fim de ano. Não funcionou. Eu acho que ele nem ia vetar nada, mas aí aquele moleque horroroso chamado Thomas Liebert deu um jeito de marcar uma audiência com ele e voltou de lá anunciando que não ia ter nada de excursão de Natal muito menos amigo oculto.
— Fico me perguntando como esse desgraçado conseguiu isso – rosnou Pam, minha melhor amiga e líder da Sociedade dos Nômades.
— Ele sempre acha uma brecha nas leis para barrar o progresso alheio – observou Henry. — Mas quer saber? Não precisamos sair daqui para darmos presentes uns aos outros. Podemos fabricar algo com nossas próprias mãos!
Pamela deu um grito.
— Você-é-genial!! — disse ela, beijando sua testa – Sabe o que eu já estava pensando? Poderíamos nos reunir no meu quarto e dar uma supernoite de amigos! Vocês têm seus colchonetes de Educação Física, certo? E edredons? Podem todos dormir no chão! Mas antes disso podemos ver um filme, comer uma pipoca, contar planos para as férias!…
— Eu acho isso muito legal, estou dentro – estirei minha mão para a frente, como amigos travessos fazem em filmes juvenis.
— Eu também – Henry colocou a sua mão em cima da minha, e eu senti meu coração ir de zero a cem em um segundo.
— Estamos juntos! — Pam pôs a mão pálida sobre a de Henry – Faremos uma reunião e em algum momento solene da noite, trocaremos os presentes!
— Isso! — eu e Henry assentimos, lançando nossas mãos para cima.
Nos juntamos no refeitório e definimos, enfim, quem era de confiança o suficiente para saber de nossa reunião. Ficou estabelecida a seguinte lista:
Eu;
Henry, meu atual melhor amigo e futuro marido;
Pam, minha melhor amiga ambidestra;
Anastasia, destra que era antigo membro do clube da Eliminação. Aderiu à Sociedade dos Nômades no fim do ano passado. Agora sabemos que ela é 100% confiável, mas a tivemos como adversária por um longo tempo porque ela era apaixonada pelo nosso maior inimigo;
Fred Manon e Gerald Kent, adversários de Henry nos jogos de rugby e fãs da Pamela. São humanos;
Kamilla Parker, uma garota estilosa que não pôde mais manter o cabelo azul devido às regras do colégio. É bastante curiosa, e entrou para o nosso clube no ano passado com mérito. É humana;
Scott Gladstone, que também saiu da Eliminação no fim do ano passado e tem se revelado um de nossos mais dedicados membros. É ambidestro.
— Já escrevi todos os nomes. Cada um de vocês, pegue seus papeis com o nome de um amigo oculto! Vou começar por mim! — anunciei, enfiando a mão em uma meia grande de veludo vermelha com uma faixa fofa branca, algo que trouxe de casa no natal do ano passado.
Não consegui evitar: sorri ao ver o nome do Henry no papel que peguei.
— Agora é a minha vez! — Pam estendeu a mão para o alto e pegou um papel dobrado da sacola. Antes que ela pudesse escondê-lo no decote, vi que nele estava escrito “Anastasia”.
— Vamos lá – Henry cedeu, ao ser empurrado por Kent e Manon. Ele não escondeu quem pegou: expôs para todos verem o papel com meu nome.
— Ei, a graça do amigo oculto é ninguém saber quem pega quem! — Kamilla reclamou, rindo.
— Deixa eu ver, quem eu vou pegar… — cantarolou Ana. E ela pegou seu papel e dobrou junto ao peito.
— Quem você pegou? — inquiri baixinho.
— O Kent – ela sussurrou.
— Agora, quem vai? — apresentei a meia vermelha, passando por todos. Fred Manon pegou um papel, que eu não vi qual foi.
— Vai lá, Kent, sua vez – mostrei a ele a sacola, e ele pegou um papel.
— Putz, que que eu vou dar para esse cara? — ele se queixou. Não ficou claro para mim de qual dos meninos ele estava falando.
— Kamilla – chamei.
— Hum-hum-hum-hum-hum – ela fez um barulho com a boca. Ahhhhhhhhhh! — sorriu, ao olhar o papel que pegou.
— Scott (Gladstone), você é o último.
— Então vamos.
E ele pegou o último papel que estava no fundo da meia, passou com ele perto de mim e eu inclinei generosamente o rosto para ver quem era, mas foi sem sucesso, porque ele o escondeu no bolso.
— Seu malvado! — o estapeei no braço.
— Fechado! — eu disse, sorridente, animada com a minha desenvoltura diante de várias pessoas, o que não era comum acontecer – A reunião, qual será o dia dela?
— Acho que dia 21 é um bom dia. Conseguimos o recesso para o dia 23, certo? Não pode ficar muito em cima, senão ficaremos cansados para arrumar nossas bagagens, e eu não sei vocês, mas pretendo amanhecer acordado! — disse Freddie Manon.
— Ah, nisso eu estou de acordo! – Pam reforçou, trocando com ele um sinal de tapas de mão e batidas de cotovelo.
— Está de acordo com o quê, Pamela Briggs?
Foi unânime a contrariedade nos rostos de todo mundo: todas as cabeças se viraram sincronicamente na direção da vozinha rouca de Thomas Liebert. Como uma top model, ele tinha as mãos na cintura e o quadril levemente jogado para o lado. Balançando a cabeça de modo a tirar os cabelos lisos e loiros das ventas, ele deixou à mostra sua cara arrogante de líder de torcida de filme high school.
— Cara, o que você faz aqui? — Scott, que por alguma razão que eu não sei mas imagino, não o tolerava, já se levantou agressivo – Ninguém te convidou, some!
— Deixa ele – Henry disse, conciliador – Pamela estava falando sobre seus planos para as férias. E ela e Manon concordam que um certo lugar é bom para passar o feriado natalino.
— Oh, é mesmo? Eu espero que, por um acaso, vocês não estejam pensando em realizar algum tipo de confraternização aqui dentro. Como vocês devem saber, não é permitido. E eu, como monitor, faço questão de manter todas as coisas e pessoas dentro das regras – disse ele, acariciando o acessório ao redor de seu braço esquerdo, que o identificava como portador da honraria.
Eu e Pam nos entreolhamos de olhos arregalados. Imaginávamos algo nesse sentido, mas não tínhamos certeza. Bom, até agora.
— Ainda me pergunto por que escolheram um terrorista para monitor. Prova de que a credibilidade dessa escola está indo de mal a pior – Pam alfinetou, e Kamilla esbarrou nela para fazer ela se calar.
— Estou de olho em vocês – disse ele, com aquele sorrisinho nojento na cara – Em todos vocês, até nos mais irrelevantes. Não saiam da linha, porque eu adoraria ter trabalho com vocês.
— Muito lisonjeada por isso, Liebert – Kamilla Parker assentiu, baixando os olhos e saudando-o como uma dama.
— E aí, Parker, como está sendo andar de cabelos negros de novo?
Parker quis avançar nele, ao lembrar que ele caguetou seu inadequado cabelo azul à diretoria. Kent e Manon a seguraram antes que ela arruinasse o seu histórico escolar com aquele desgraçado.
— Tira daqui essa sua cara de gesso antes que eu a parta em mil pedaços! — ela berrou, arfante.
Liebert sorriu, vitorioso, e devo reconhecer que ele estava ficando de um jeito que eu não estava gostando: bonito.
— Tom, o que está fazendo aqui?
Bufei ao reconhecer a vozinha infantil de Minnesota Crowley. O noivo dela não era suficiente, ela tinha que aparecer também.
— De novo com esses nômades? — ela desdenhou – Se continuar assim, vou começar a acreditar que você gosta deles, Tom.
Seria ótimo se ela admitisse para ele que sempre que pode, se enfia aqui. Mas que cínica.
— Está enganada, Minnie. Os nômades estão pensando em organizar alguma coisa para aquela festa de humanos, como se chama mesmo? Ahnn, Natal. Ou melhor, pretendiam. Pretendiam, certo? — ele colocou a mão por cima do ombro de Henry e falou em seu ouvido, e ah, só o Henry mesmo para aguentar isso sem enfiar a mão no meio da cara dele.
(…)
— E a nossa festa mal começou e já foi por água abaixo! — reclamei, ao me encontrar com a equipe na biblioteca, lugar que seguramente Thomas Liebert não poderia entrar por ter sido banido de lá.
— Mas quem te disse isso? — Pam retrucou – Estava claro, para mim, desde o começo, que seríamos proibidos de qualquer coisa, independente ou não de o Liebert saber. Natal é uma festa religiosa e, como tal, mesmo as alusões mais pequenas a essa comemoração, como uma reles troca de presentes, não é permitida aqui na escola. A única coisa que a gente vai precisar fazer é tomar cuidado para não sermos pegos. Só isso.
— Eu continuo dentro – disse Henry – E já estou pensando aqui na minha cabeça, o que vou dar para a Sarah.
Ah, agora eu me sentia tentada a participar desse amigo oculto nem que tivesse que enfrentar um exército de Lieberts para isso!
— Certo – assenti, sem conter a emoção na voz – Eu também não vou desistir.
— Hah! E você acha que eu vou? — Manon avançou um passo na nossa direção.
E um a um de nós encerrou nossa corajosa líder em um abraço coletivo.
— Eu sabia que estariam aqui! — escutamos novamente a voz de Minnie, noiva do Tom Liebert.
— Minnie… — Henry, sorrindo, tratou de alinhar suas roupas e ajeitar algo que nem precisava no cabelo. Revirei os olhos.
— O que estão fazendo?
— Olha, isso não é da sua conta – esbravejou Pam – Melhor voltar para a companhia do seu noivo logo. Não vai ser nada bom para nós se ele te pegar por aqui.
Isso aí, Pam, exclui logo. Não é seguro essa garota aqui com a gente. Não sendo noiva de quem é.
— Algo me diz que sua preocupação não é bem essa – Pam disse com um sorriso na cara, me encarando com hilaridade. Pigarreei de nervoso, baixando a cabeça.
— Eu vi vocês com a meia de natal. Eu quero brincar disso também. É amigo oculto que chama, não é?
Henry passou os olhos ansiosos por Pam, por mim e pelos meninos. Kent sacudia as mãos, relativamente ciente do que significava a noiva de nosso pior inimigo saber o que estávamos fazendo.
— Eh...sim – Henry confirmou – Você escolhe o nome de uma pessoa em um sorteio e a presenteia. E diz somente na hora para quem vai dar o presente. Faz um pequeno discurso sobre o que acha da pessoa que irá presentear, também.
— Mas eu não quero sortear nada. Eu só quero presentear você.
Minha nossa, imagina o Liebert chegar aqui e pegar a noiva dele dando o maior mole para o Henry na frente de todo mundo!
— Eu não sei se isso é uma boa ideia – me intrometi – Você é a noiva do Liebert. Se ele souber, isso vai dar uma baita confusão.
Ela me olhou de alto a baixo num estilo que o próprio Liebert faria e disse assim:
— Eu irei presentear o Henry, e você vai ficar caladinha, se não quiser que saibam da sua reunião clandestina. E eu vou dar para o Henry o melhor presente de todos – determinou ela, antes de ir embora nos seus ruidosos sapatinhos de colegial com saltos.
Pam levou uns cinco minutos para soltar todo o ar que prendeu.
— Eu não suporto essa garota! — desabafou, rilhando os dentes.
— Se ela gostasse do Henry como diz, não ficaria chantageando a gente, sabendo que ele vai ser prejudicado junto – Anastasia acrescentou.
Fiquei em silêncio, pensando que qualidade uma pessoa daquelas tinha para Henry olhar para ela e não para mim.
— Infelizmente, parece bem claro para mim que o Henry gosta dela.
— Você também é muito mole – Pam tripudiou – Teve todas as chances do mundo para dar em cima dele no ano passado, mas esperou a Crowley aparecer para mostrar sinais de interesse.
— Eu não quero que ele continue olhando para ela – falei, sem conseguir conter as lágrimas – Meu coração fica tão apertado...
— Se você fosse esperta, se declarava para ele antes de ela ter a chance de fazer isso. Por enquanto, eles estão apenas na fase de trocar olhares e sorrisinhos, então ainda tem tempo de virar esse jogo a seu favor! – Kamilla me aconselhou, tomando minhas mãos – E ela é noiva do Liebert! O Henry não vai ser louco de mexer com a namorada daquele cara!
— Eu não sei… — grunhi.
— Mas eu sei – Pam me atropelou – Já era. Passa para o próximo que esse daí já foi!
— Ai, Pam! Que crueldade! — Ana reclamou.
(…)
— Ficaram sabendo da última? — Pam chegou no quarto de Ana, onde estávamos eu e Kamilla, preparando um cartão artesanal para eu poder dar de presente a Henry – Parece que a nossa querida amiga Minnie não vai mais poder ir ao nosso encontro, ó que peninha!
— Como assim? — Ana era a mais sorridente. Aparentemente, seu passado de admiradora do Tom Liebert despontava de vez em quando, pois sua antipatia a Minnie era flagrante.
— Sério? — eu me levantei, pois estava de bruços em cima da cama desenhando no cartão feito de cartolina, cola glitter e EVA – Mas por quê? — tentei não parecer tão feliz, pois Henry certamente não ficaria contente ao saber disso.
— Sabe a cerimônia de despedida do ano letivo? Thomas Liebert vai fazer a apresentação de uma ária no exato momento de nossa reunião, junto com a orquestra da escola! E o que podemos deduzir disso? Que ele que vai estar ocupado o suficiente para nos deixar em paz, e que Minnie será obrigada a ficar lá com ele, prestigiando o talento musical de seu aclamado noivo violinista. Quer algo mais perfeito do que isso?!
Eu, as meninas e ela nos entreolhamos, como que para crer que estávamos realmente acordadas e que aquilo não era um sonho. Quando percebemos que era tudo real, gritamos e agitamos as mãos de contentamento.
(...)
Liebert parecia muito satisfeito com sua seleção para a orquestra. Rivalizando com Pam que também tocava, e ganhando ainda por cima, ele não poderia deixar de espalhar sua felicidade para todos os seus amigos, ou seja, os irmãos Samuel e Drake Jonas. Estes últimos queriam porque queriam noticiar sua apresentação na gazeta do colégio, que monopolizavam mais por influência de suas famílias do que por mérito. Mas não vou dizer que eles escrevem mal. Seu humor ácido com certeza os tornarão muito bem sucedidos lá fora, em algum jornal estilo Charlie Hebdo.
— ...já escrevi a palavra “ária”, o que posso colocar de semelhante para não ficar repetitivo? — inquiriu Drake ao irmão, Samuel.
— Sei lá, qualquer coisa – ele respondeu.
— Que qualquer coisa, esse é um artigo sério, talvez o mais importante da minha vida! Tom venceu a Pamela Briggs e ganhou a posição que originalmente seria dela!
— Vocês conseguem fazer silêncio? — Thomas esbravejou – Agora eu estou lendo.
Minnie, ao lado dele, não parecia nem um pouco satisfeita ao vê-lo ler em vez de dar atenção a ela.
— Você chegou na gente todo ansioso dizendo que ia se apresentar e agora não está nem aí para a nossa manchete?
— Eu só queria contar a novidade para alguém. Está contada, já podem ir.
— Ah, fala aí, Tom. Nos dê uma dica. Eu não quero parecer um cara que não sabe escrever.
— Drake, você não precisa se esforçar para parecer inteligente. Você nunca terá relevância para ser citado por algo que escreveu.
Drake não pareceu entender o que ele disse. Minnie riu, com superioridade. Garota nojenta.
— Ah, não importa. Vou repetir “ária”, então.
— Olha ali, Tom – eu ainda quis virar a cara para não me reconhecerem – O grupinho de derrotadas. Vamos lá mexer com elas? — Sam convidou.
Tom fechou seu livro e sorriu. Isso parecia para ele uma boa ideia. Ele se levantou, alinhou as vestes já impecáveis, jogou a cabeça para o lado de uma forma que seu topete acompanhasse o movimento e alisou o resto dos fios rebeldes com o uso de uma mão, do jeito que um modelo de propaganda de shampoo anticaspas faria. Colocou o livro debaixo do braço e veio em nossa direção, pé ante pé. Pam, que conversava comigo e as meninas alegremente, de repente ficou silenciosa, como se pressentisse aquele apocalipse personificado se aproximando e ficando plantado atrás dela.
— Já conferiu os resultados para a seleção da orquestra, Briggs?
— Claro, Liebert – Pam devia estar muito irritada, já que é extremamente competitiva, mas soube como manter a pose.
— Percebi que seu nome não está na relação.
— Pois é, que pena! — ela disse, cínica, ciente de que era o fato de o nome dele estar lá e o dela não que asseguraria que a nossa festinha aconteceria sem percalços – Estou triste, muito triste mesmo. Arrasada. Nem consegui dormir direito pensando que seu nome estava na lista e o meu não! Que raiva! É uma injustiça!
Baixei a cabeça, rindo de seus gestos exagerados. Tom sorriu sem mostrar os dentes, apenas curvando os lábios para cima. Era como se a infelicidade alheia fosse para ele motivo de glória. Ele não parecia desconfiar de nada.
— Era natural que escolhessem apenas os mais habilidosos e capazes. Quem sabe no ano que vem, se eu não quiser mais, você possa, não sei, ocupar a vaga.
Pam sorriu cinicamente pare ele.
— Que amor, você.
Como se a palavra lhe soasse inadequada, Tom franziu a testa, e o sorriso que ele lutava para manter não estava mais em sua cara. Indicando para a noiva o caminho da saída com a cabeça, ele contava que ela fosse segui-lo, mas Minnie não o fez de imediato.
— Dia 21, certo? — ela perguntou para ninguém em específico, querendo confirmar a data.
Assenti silenciosamente, porque Deus nos livre Liebert nos pegar no meio dessa conversa. Essa menina era louca.
— Pensei que você fosse querer vê-lo se apresentar – Pam apontou para Tom, que se distanciava sem perceber que não era seguido. Ela nem disfarçava que estava muito contrariada.
— Pois pensou errado! Eu irei presentear Henry, como prometi.
Um dia antes de nossa reunião, ouvi dizer que Henry estava muito ansioso. Ainda não tinha pensado em nada para me dar, pelo que ouvi dizer. Eu mesma estava pensando se o modesto cartão que tinha feito era o suficiente. Henry sempre teve uma situação financeira superior à minha e eu estava com medo de fazer feio. Para piorar, Minnie, uma garota extremamente rica, tinha prometido presenteá-lo. Quanto mais eu olhava para o meu presente, menos segura me sentia. Eu já tinha escrito cerca de 75% do conteúdo interno, mas deixei os últimos quatro dedos para pensar se seguiria ou não o conselho de Kamilla: me declarar a Henry. Nas linhas anteriores, tinha feito um resumo do quanto ele tinha me ajudado, me divertido ou até me irritado ao longo do ano. Era uma carta normal de amiga. Estava distraída olhando para os meninos jogando basquete na quadra pensando na minha decisão quando alguém tocou no meu ombro. Era Minnie.
— Fiquei sabendo que você vai pegar o Henry no amigo oculto. É sério isso?
— Ah...sim… — confirmei, escondendo meu cartão atrás de mim – C-como soube?
— Ora, como? Perguntei de cada um quem pegou quem. E só sobrou você.
— Entendo – sorri, tensa.
— O que é isso aí atrás? É o seu presente? — ela falou aquilo com um deboche tão grande na voz que meu coração se partiu em mil pedaços ao imaginar Henry com aquela cara, dizendo aquilo para mim.
Fiquei em silêncio. O que se pode dizer nessas horas?
— Olhe – ela tirou uma caixinha do bolso de seu paletó e a abriu– Este é um presente de verdade.
Estiquei o pescoço para ver e notei que era um lindo relógio de bolso. Acho que era de prata.
— Melhor esquecer isso daí que você ia fazendo. Eu também tenho um cartão e ele está bem melhor do que essa sua coisa aí...que eu acho que é um cartão, não dá para saber.
Lutei para conservar as lágrimas nos olhos enquanto ela esteve lá. Minnie colaborou: levantou e foi saindo, saltitante e faceira. Levei uma meia hora para me recompor. Que ousadia a minha, tentar me declarar para o Henry com um cartão ridículo desse. Talvez uma mensagem de texto fosse melhor. Daí eu pensei: é isso que ela quer: me desencorajar, fazer eu sair do páreo. Por acaso eu não conhecia meu Henry? Ele levaria em consideração o trabalho que tive para confeccionar este cartão, e adoraria a mensagem de dentro dele. Algo preparado com as próprias mãos é algo que essa garota mesquinha jamais seria capaz de fazer.
Resolvi que iria até a mesa mais próxima para terminar de escrever, dessa vez, não uma carta de amiga, mas uma declaração amorosa para Henry. O lugar escolhido foi a biblioteca. Concluído o trabalho, meu coração estava mais leve. Eu quase conseguia me sentir confiante. Henry ficaria surpreso, com certeza. Será que ele, apaixonado por Minnie, acharia minha declaração algo inconveniente? E se ele me desse um fora, eu conseguiria sustentar a nossa amizade do jeito que sempre tinha sido? Balancei a cabeça numa negativa, tentando afastar essas ideias. Decidi que daria um presente simbólico para Henry durante a reunião coletiva e depois o chamaria de canto para que ele lesse este cartão em particular. Se eu levasse um fora a sós com ele, pelo menos Minnie não ia poder rir da minha cara…
Estava dobrando o corredor depois de uma estante de livros quando colidi com alguém. Meu instinto mais primário foi o de tentar apanhar meu cartão antes que ele caísse, mas o livro que estava com esse alguém caiu por cima dele, e ao me abaixar para pegá-lo eu toquei em uma mão pálida, gelada e com uns cinco aneis em cada dedo...Levantei a cabeça com muita hesitação, pois já conhecia aqueles dedos finos com aquelas unhas compridas, as joias exageradas e imensas, aquele estilo de camisa vitoriana com bufantes punhos de renda, a boca vermelha que Pam descreveu, no auge de sua paixão, como “uma pequena cereja” e aquela pele branca como gesso, mas ainda queria negar o que estava diante dos meus olhos. Sim, ele mesmo, Thomas Liebert. Ah não, Deus.
Ele não deveria estar ali. Estava banido dali. O que raios esse cara fazia na biblioteca? Comecei a hiperventilar de tensão. Tocar na mão de alguém para apanhar o mesmo objeto era algo que faria começar uma sonoplastia romântica nas novelas. Agora, na minha cabeça, a única coisa que me ocorria eram aquelas músicas de bang-bang italiano. Thomas Liebert umedeceu os lábios com a língua e eu fiquei com medo do que ele ia dizer, mas ele ficou apenas boquiaberto. Recolheu rapidamente a mão junto ao peito logo que se recuperou do choque. As aulas de Planejamento Familiar me ensinaram que segurar a mão de uma pessoa tinha, para um ambidestro, o mesmo impacto que beijá-la na boca. Limpei minha mão na roupa logo que me lembrei disso. Forcei a mente para me lembrar do que eu ia fazer antes daquilo acontecer, mas não consegui a tempo: ao pegar seu livro do chão, Liebert carregou com ele o meu cartão. De alguma forma que não consegui entender, as folhas se fecharam em torno dele e o absorveram para dentro. Eu me sentia na posição frágil de quem planeja pegar uma borboleta: um movimento errado poderia fazê-la voar.
Levantei a mão para dizer “espere, tem algo meu aí”, mas Liebert, não sei como, num único passo que deu para trás, conseguiu se afastar de mim uns três metros. Essas pernas compridas dele estavam virando um problema. Sem esperar eu dizer uma sílaba, ele girou o corpo e saiu caminhando na direção contrária em passos apressados, e eu lutei para tentar acompanhá-lo. Durante um bom pedaço do ano, ele conseguiu me chantagear se aproveitando de um vacilo meu, eu não queria dar a chance de isso acontecer novamente. Eu ia ter que usar a cabeça dessa vez, mas meu processador era tão devagar que ele ganhou o fim do corredor e foi embora levando meu precioso cartão onde eu me declarava para Henry.
Continuei avançando esbaforida, tentando alcançá-lo, e o vi dar de cara com Drake e seu irmão Samuel.
— Vamos sair daqui – ele chamou o amigo.
— Como é? Eu ia para o…
— Não importa, me acompanhe – ele atropelou, imperativo.
Qual era a dele? Bom, não interessa. Tenho que recuperar o fôlego. Me escondi atrás de uma coluna. Tom, arfando de tensão, se sentou no parapeito de uma das janelas. Ainda agarrava a manga da roupa de Drake.
— O que foi, dá para me soltar? Escrevi algo que você não gostou, o que deu em você?
— ...demais— Tom disse – Eles estão tranquilos demais – ele fugiu do assunto – Quero saber o que estão tramando.
— De quem você está falando? Do pessoal da SDN?
— Sim. Não gostei do tom da Briggs. Ela não estava arrasada como deveria. Essa apatia diante de algo que eu sei que é importante para ela...isso é incomum. É impróprio. Algo está acontecendo.
Cobri a boca para conter um soluço de espanto.
— Para mim eles parecem normais – Samuel opinou.
— Parecem porque você nunca presta atenção em nada à sua volta!
— É que nada naquele pessoal me interessa, não sei por que você é tão obcecado por eles, Tom. Quer dizer, nada me interessa, a não ser as meninas – Samuel cutucou o irmão com o cotovelo e, sorrindo, os dois esfregaram as mãos e uivaram, cúmplices.
— Do que vocês estão falando?
— Ah, Tom! Vai me dizer que nunca percebeu que as maiores gatas do colégio estão naquele clube?
— Como se atreve, Drake? — inquiriu o falso moralista.
— Ok, já entendemos que você é todo certinho, mas e daí negar que as garotas dali são acima da média, isso é algo bem diferente.
— Eu tenho uma noiva, e essa forma de falar é inadequada diante de alguém comprometido. Pelo menos enquanto estiverem na minha presença, tentem manter a severidade e os bons modos!
Os irmãos se entreolharam, contrariados.
— Descubram o que há com eles. Especialmente o que pretendem. Sinto que ainda não desistiram de sua confraternização proibida.
— Fala sobre o Natal? Isso parece bem legal, acho que o colégio deveria aderir de uma vez – disse Sam.
— Os ambidestros parecem interessados em que aconteça e os humanos ficam sem entender por que não tem – Drake observou.
— É uma maldita data criada por humanos! É proibido, vocês não entendem? – Tom esbravejou, como se falasse de uma heresia.
— Está bem – Drake tocou no ombro do irmão, como se o incluísse na resposta – Nós vamos fazer isso. Vou tentar falar com o Henry.
Samuel o encarou com certa irritação, mas não disse nada.
Os dois avançaram na direção em que eu estava, mas consegui contornar a coluna conforme eles iam avançando, como num processo de translação. Quando eles me ultrapassaram e finalmente ficaram de costas para mim, tive uma ideia. Chamei:
— Ei! Vi que vocês gostariam de comemorar o Natal. Vocês querem conhecer uma festa de Natal de verdade?
— Grunewald? — os dois irmãos disseram, em coro.
— Você está nos convidando para festejar junto com os nômades?
Tentei ignorar o xingamento racista, mas bem, era isso o que éramos, pelo menos de acordo com o nome do nosso clube.
— Vocês querem?
Eles se entreolharam, temerosos em contrariar seu líder.
— Vai ter amigo oculto – acrescentei esse novo item, tentando persuadi-los.
— Como é isso? — Drake perguntou.
Expliquei-lhes as prerrogativas do jogo.
— Parece legal, mas dá para nos incluir depois?
— Como vocês são dois e chegaram por último, podem preparar algo para dar um para o outro. Ou trocar de dupla com alguém que já tem dupla formada. Mas como já está a um dia da festa, acho que ninguém mais vai querer trocar seu par.
Vi que eles não gostaram muito disso.
— Se não forem pelos presentes, tentem ir pela festa. Vai ter uma decoração muito legal e comes e bebes. Vocês vão gostar.
— A troco do quê está nos convidando, nômade? — Sam perguntou, desconfiado.
— Ahhh sim – gaguejei – Eu fiz um presente para o meu amigo oculto. Ele caiu no chão e Liebert, sem perceber, o colocou dentro daquele livro que estava com ele. Se ele o vir, vai saber que está acontecendo uma festa – não deixava de ser uma verdade, mas a minha preocupação maior estava na declaração de amor escrita ali – Por favor, me ajudem.
— O que você acha? — Drake perguntou para Sam.
Os dois analisaram meu rosto ansioso por um momento e esticaram as mãos para a frente.
— Fechado – disseram juntos, enquanto eu apertava suas mãos como uma negociante – Eu sempre achei nada a ver proibirem essas festas bacanas como Natal e Dia dos Namorados – Drake confidenciou.
— Eu acho que já disse que o Liebert não pode saber, certo?
Como os bons gêmeos que eram, os irmãos Jonas trocaram um olhar assertivo e disseram:
— Acho que vai ser legal fazer algo sem ele saber.
— Não o deixem ficar a sós com aquele livro de jeito nenhum. Deem um jeito de distrai-lo. No ano passado, eu e Pam conseguimos tomar dele o meu diário que ele roubou para me chantagear enquanto ele estava dormindo – ao ver que eles me encararam esquisito, logo me justifiquei: — Todos sabem que ele tem o sono muito pesado por causa dos desaceleradores. Hoje vamos tentar fazer isso de novo, ele só não pode perceber a existência daquele cartão durante todo o dia.
— Beleza – os dois pareciam realmente se empolgar quando eram encarregados de alguma missão.
— Vão atrás dele – ordenei, pois naquele exato momento Liebert poderia estar dando de cara com o tal cartão e lendo seu conteúdo.
— Certo!!
— Na minha opinião, você fez besteira – Pam opinou, ao receber meu relatório sobre os últimos acontecimentos – Samuel e Drake pegam seu cartão, leem e aí, fazem o quê? Na minha opinião, você trocou um chantagista por dois.
— Não, dessa vez sinto que eles estão realmente contagiados pelo espírito natalino, ou como você quiser chamar. Eles querem mesmo participar da nossa festa.
— E se eles derem com a língua nos dentes? Sarah, você acha que aqueles dois são o tipo de gente que consegue guardar segredo para alguém?
Fiquei pensativa sobre essa última ponderação. Realmente, eu ia precisar de uma boa dose de sorte.
— Olha, vamos ter fé. E torcer para nada dar errado. Liebert deve estar muito ocupado com os ensaios antes da apresentação. Ele não vai ter tempo para tocar nesse livro, então é nessa hora que temos que aproveitar para…
— No seu lugar, eu estaria era colada com esses caras, até para saber se eles não estão nos entregando para o líder dele. Se isso estiver acontecendo, teremos que cancelar tudo o que estamos fazendo e pôr fim à reunião, porque não sabemos o que o diretor vai fazer se nos pegar no meio de uma comemoração natalina.
— Você tem razão – assenti, preocupada com a possibilidade de os irmãos Jonas lerem meu cartão – Vou ficar em cima deles.
Me dirigi ao corredor que dava visão privilegiada do auditório musical, vários metros abaixo. Percebi que os gêmeos realmente pareciam dispostos a falar com o Liebert. Só pelo fato de estarem ansiosos por isso, eu cheguei à conclusão de que eles não haviam cometido nenhum tipo de deslealdade contra a nossa equipe – ainda. Mas, como Pam sugeriu, eu teria que ficar de olho neles e, de preferência, o mais perto possível, então engoli a cápsula de invisibilidade que ela me deu e peguei a escada para a descida, para ficar no mesmo ambiente que eles. Tirei meus sapatos – que também ficaram invisíveis, assim como todo o restante – e deixei rente a uma coluna, para ficarem escondidos e não fazerem ruídos enquanto eu caminhasse. Considerando que o efeito de uma dose de invisibilidade era de até três horas, eu teria tempo de sobra para ver se Samuel e seu irmão Drake teriam a chance de abordarem Thomas Liebert durante o ensaio e tirarem meu cartão dele.
(...)
Até onde sei, a apresentação de verdade aconteceria exatamente naquele auditório, que estava decorado com finas peças de cetim e renda e flores naturais. Elas eram preservadas por uma espécie de pó colorido e brilhante semelhante a glitter neon. Cortesia do clube de Tecnologia. Todos os alunos que ali estavam se posicionariam no espetáculo da mesma forma que estavam dispostos no ensaio, pelo que ouvi dizer. Isso quer dizer que Liebert estaria na segunda fileira, atrás de uma garota e um rapaz aparentemente mais talentosos. Um responsável instruiu que os alunos abrissem seus cadernos na partitura da sonata de não sei quem, pois o maestro estava para chegar, e foi nisso que percebi que o livro que Liebert abriu era exatamente aquele onde meu cartão estava dentro.
Fiquei com um tique nas pernas, balançando-as com impaciência. Não me atrevi a sentar; alguém poderia se sentar por cima de mim. Falar com um dos meninos tampouco: alguém poderia esbarrar em mim achando que estava passando por um espaço livre, ou eles poderiam se assustar e falar alto. Então fiz o que a raiva acumulada de dois anos somada ao desespero de ter minha carta lida por ele mandou: invadi a escadaria do auditório no intuito de fazê-lo passar pelo vexame de ter seu suporte derrubado e ser chamado de desastrado. Quando o livro caísse e despejasse o seu conteúdo, eu ia aproveitar a confusão para chutar meu cartão para baixo dos bancos vazios do auditório, e correr de lá para o mais longe que minhas pernas pudessem, sem me importar com os ruídos que eventualmente fizesse. Dei meu primeiro passo em direção à escadaria, e uma garota atrasada que subia o degrau quase esbarrou em mim, mas me esquivei a tempo. É muito difícil ser invisível e ter noção de quanto espaço você ocupa! Dei um passo para trás para me equilibrar, e acabei pisando no pé do garoto que ficaria ao lado de Tom e ele deu um grito agudo. Como se apoiou em uma única perna, pois segurava o pé machucado, ficou instável e se desequilibrou. E adivinha em quem ele se encostou? Pois é.
Não me pergunte como foi a matemática da coisa, mas Tom voou do terceiro degrau direto para o chão, sem encostar em nada. Meio segundo depois, veio aquele barulho de ossada caindo, uma coisa tipo "plof"! Pior: o suporte com seu livro ficou exatamente no mesmo lugar!! A ocasião não demandava risos, porque eu tive que me desviar de umas cinco pessoas que correram na direção dele, incluindo o garoto em cujo pé eu pisei sem querer.
— Liebert, você está bem? — alguém perguntava a ele enquanto tentava desvirá-lo do chão.
— Você é idiota? O que pensou que estava fazendo? — ele enfiou a mão na cara da pessoa, que era um menino completamente diferente daquele que o empurrou, só pela pura vontade de bater em alguém.
— Não fui eu, seu babaca!
O verdadeiro responsável se escondeu atrás de todo mundo e ficou caladinho enquanto a pancadaria e os gritos corriam soltos lá embaixo.
— Do que me chamou?
— Babaca! Babaca! Eu chamei de babaca! E aí, vai fazer o quê? — gritou o moleque, com espuma na boca.
— Eu vou te ensinar a ter modos, criatura vulgar... — Tom ameaçou.
Ele quis pular em cima do menino, mas levou um pisão na boca do estômago e caiu no chão, dobrado como um canivete. Se tem algo em que ele não é bom, além dos esportes, teatro, dança, culinária, artes e ser uma pessoa civilizada, esse negócio é brigar. Pior é que ele vive tentando, é quase uma Christina Aguilera querendo fazer um álbum mais bem sucedido que o da Britney Spears.
— Parem com isso! Parem com isso! — clamavam as meninas, apavoradas em seus vestidos sociais e saltos.
— Ah, você vai me ensinar, é? — indagou o menino, se desviando de cada um que tentava contê-lo. Por fim, ele se sentou por cima do Liebert, agarrou seus cabelos e bateu umas três vezes com a cabeça dele no chão. — Vai ensinar o quê? Hein? A apanhar que nem uma franguinha? Fala aí, seu maricas!
— Walker, pare com isso! — chamou um de seus prováveis amigos, sacudindo-o pelos ombros — Você não sabe quem é esse cara, está louco??
— Mais um motivo para sentar a mão — respondeu o menino, referindo-se ao conhecido histórico de Tom, de prejudicar todo mundo.
Foram umas cinco pessoas para tirar o garoto chamado Walker de cima de Tom. Quando isso aconteceu, ele estava tonto, vermelho de tanto levar tapa, descabelado, com a gravata torta, a camisa para fora da calça e o terno todo amassado. Nesse tempo, tentei chegar ao suporte do livro dele umas três vezes, mas toda vez era tentada a olhar para trás quando a gritaria se avolumava atrás de mim, me passando a impressão de que alguém poderia subir comigo a qualquer momento ou até mesmo que eu havia deixado de ficar invisível. No fim, o pandemônio não serviu para nada: acabei não chegando ao meu objetivo, pois o mesmo responsável que ordenou a aberturas dos livros de partituras determinou aos berros "Se matem, mas depois de amanhã. Agora, vão ensaiar."
Thomas, contrariado, resmungava que aquilo não ia ficar assim e chamava o cara de "selvagem", enquanto Samuel e Drake aconselhavam que ele deixasse aquilo para lá, porque senão ele seria afastado da orquestra e Minnie não iria poder vê-lo. Diante desse argumento, ele mudou sua postura e voltou a usar a máscara de gentleman que vez por outra assume para enganar os incautos. O ensaio foi retomado e, frustrada, da posição que eu estava, não podia mais fazer nada. Samuel e Drake, que parecem finalmente ter percebido a oportunidade que perderam de tomar o cartão de dentro do livro, se entreolhavam ansiosos.
— Eu já entendi! — Liebert deu uma última surtada antes de voltar à sua posição na orquestra.
Até por questão de sobrevivência, tiraram o garoto de perto dele. Um, dois, três, e os primeiros comandos foram ensaiados. O maestro, que tinha acabado de chegar e não pegou nenhuma parte da confusão antes de sua chegada, parecia bem exigente. Disse para recomeçarem umas quatro vezes, porque ainda não estava bom.
— Você — ele apontou para Tom — venha para a frente.
Tom, presunçoso, voltou sua cabeça platinada lá para os fundos, onde estava o garoto que o deixou naquele estado.
— Pois não?
— O que aconteceu com você? Parece que saiu de uma guerra — alguns alunos riram — Amanhã, durante a apresentação, trate de ter melhor alinho nas roupas e cabelos. E isso não é um pedido, é uma ordem!
— Sim senhor — ele respondeu, sem nem esconder a decepção na voz.
Pelo visto, ele jurava que estava sendo chamado a ficar na frente por terem notado algum talento nele. Quando ia voltar à sua posição, o mestre disse:
— Fique aí. Precisamos de público feminino.
— O...o quê? — ele não pareceu entender o que o outro disse.
— Você não precisa entender. Apenas mantenha essa sua cabeça loira e burra aí.
Mais risos discretos dos demais. Indignado, ele ficou piscando várias vezes, como era seu hábito nessa situação. Depois, o maestro apontou para uma menina linda de vestido social dourado, cabelos artificialmente ondulados e pele clara.
— E você, fique ao lado dele.
Quando começaram novamente a execução da sonata, notei que a garota estava mais atenta ao seu companheiro de orquestra do que necessariamente ao que estava fazendo. Sem querer, o maestro escolheu com inteligência: Thomas Liebert era bom naquilo. Uma coisa que, por sinal, eu nem sabia. Tinha alguma graça nele, com seus traços delicados, manejando um instrumento musical tão fino. Ele tinha a desenvoltura típica daquilo que era em todos os segmentos da prática escolar que julgava interessantes: demonstrava estudar muito mais do que todos os outros alunos. Se não fosse ele ali, eu poderia até ficar encantada com sua interpretação. O desalinho de sua roupa e cabelos davam a ele um charme especial, algo de boêmio. Tirava dele aquele aspecto engessado que ele tinha sempre.
Eles ensaiaram mais umas cinco vezes completas a música, e ao olhar o relógio de parede do auditório, percebi que já tinha se passado mais de uma hora. Acho que eu estava com uma hora e meia, uma hora e quarenta, mais ou menos, do horário em que tomei o comprimido. Estava com esperança de Tom virar a página e isso gerar uma corrente de ar que fizesse meu cartão cair, mas quando eu já reconhecia as notas finais da música, o maestro mandava repetir tudo de novo. Isso já estava me deixando aflita. Samuel e Drake, sem nem se preocupar com a minha causa, discutiam sobre as "gatas que encontrariam na festa" e riam do fato de Minnie ter furado com Tom.
— Ele se gabou dizendo que ela vinha ver o ensaio e nem veio. Está na cara que ela não está nem aí para ele — disse Drake.
— Será que já tem outro na jogada?
— Com certeza. E eu já tenho as minhas suspeitas.
— Quem?
— Ora, quem? O Grigory.
— Rapaz — Samuel sorriu, aparentemente muito surpreso — Não quero nem ver o tamanho da encrenca quando ele descobrir! E quando ele souber que nós fomos para a festa da nômade, a coisa vai pegar para o nosso lado também.
— Bom, é só ele não descobrir.
— A gente tem que arrumar um bom pretexto para chegar naquele livro, cara. Eu não quero perder essa festa de jeito nenhum!
— Nem eu!
Agora a conversa estava tomando um rumo agradável para mim.
— Quando o ensaio terminar, você chama ele para uma coisa qualquer, diz que a Minnie apareceu, qualquer coisa mesmo — e eu dou um jeito de escorar nele e derrubar o livro, ou de buscar o cartão da Grunewald se ele deixar o livro lá — Drake dava as dicas.
— Beleza — disse o outro, esfregando as mãos.
Mais alguns minutos se passaram e eu corri dali porque já conseguia enxergar minha mão um pouco transparente. Fui até a coluna onde deixei meus sapatos e eles estavam lá, quietinhos. Calcei os dois e corri de volta para a sala de música, como se tivesse acabado de chegar. Eu já estava completamente visível à essas alturas.
— Podemos ir até o Restaurante Particular tomar um sorvete... — convidava a garota bonita do vestido dourado, a Tom.
— Estou esperando uma pessoa — ele respondeu, olhando para o outro lado.
Para se livrar da paqueradora inconveniente, ele correu na direção dos irmãos Jonas.
— Drake. Samuel. Vocês viram Minnesota?
— Estou ligado. Ela disse que vinha, não é? — Samuel perguntou.
— Ela deve ter tido alguma obrigação a cumprir. Ou estava arrumando as coisas para as férias e perdeu a hora.
Os irmãos se entreolharam, cientes de que não era nada disso.
— É, pode ser — assentiram.
Tom passou por mim veloz como um raio. Em outra situação, acharia algo para zoar, algum comentário desagradável ou ameaçador para fazer. Acompanhei seu trajeto até ele dobrar o corredor, depois voltei os meus olhos para os irmãos e vi que meu cartão não estava com eles.
— E aí?
— Nada. Você não viu o livro nas mãos dele?
Bufei, impaciente.
— A gente vai tentar achar uma outra alternativa.
— Convidem-no para um chá — sugeri — Uma hora ele vai ter que devolver aquele livro à biblioteca, porque não vai gostar de andar com um peso na mão.
— Certo — Drake assentiu. — Nós vamos atrás dele.
Os dois correram atrás de Tom e eu fui atrás deles. Nós três tivemos que parar no meio do caminho porque Tom estava parado no corredor, e com ele estava a Minnesota. Na verdade, os irmãos colocaram o braço no caminho e me impediram de avançar, por mim eu passava direto. Ficamos escondidos os três atrás de um painel.
— Eu confundi os horários! — Minnie explicava.
— Minnesota, você está se justificando demais.
— E você está sendo injusto.
— Eu não disse absolutamente nada.
— Mas sei que está pensando!
— E eu tenho por que pensar algo?
Crowley inspirou fundo.
— O que está insinuando, Tom? Não seria você a estar envolvido com atividades demais e me deixando de lado?
— É uma atividade extracurricular essencial para manter a pontuação do clube, mas, mais do que isso, é uma performance que eu gostaria que você assistisse. É óbvio que tenho de ensaiar bastante para ficar impecável!
— Esse tipo de música me entedia, se quer saber. Está perdendo tempo, Tom — ela disse antes de sair, deixando o Liebert para trás, completamente sem resposta.
Minnie se distanciou do noivo a largos passos, numa evidente tentativa de fazer a sua fala ser a última da conversa. Tom ficou parado no mesmo lugar, sem ação. A única coisa que aconteceu foi ele perder a força nos braços, deixando o livro cair. Eu quase consegui ficar com pena dele, até que notei que o livro abriu exatamente na parte em que meu cartão estava, deixando-o para cima, destacado, totalmente exposto. Cutuquei os irmãos violentamente, e eles se deram conta do mesmo problema que eu. Avançaram como dois búfalos revoltados em cima de um leão com uma presa filhote na boca.
— Tom! — Drake o abordou, sem conseguir saber o que acrescentar de mais.
— Deixa que eu pego para você. Você está bem? — Samuel se abaixou para pegar o livro e eu quase soco o ar em comemoração, mas Tom foi mais rápido, e agachou e pegou o cartão sem nem se interessar no livro.
Espalmei a testa. Quando deixei de apertar os olhos, vi que Tom analisava o lado externo do meu envelope. Nunca ele me pareceu tão pobre e tão ridículo, com suas flores tortas contornadas de glitter e um coração de adesivo de caderno lacrando a correspondência (eu tinha que gostar muito mesmo de uma pessoa para dar a ela um adesivo do meu caderno). Provavelmente, ele deve ter lido a anotação em letras garrafais que fiz: "Para Henry". Maldita hora que nasci com a letra grande.
Os meninos não sabiam mais o que dizer sem se envolverem na história, então permaneceram neutros:
— Que é isso? Um cartão? É para você, Tom?
Deus me livre e guarde, cala a boca, Drake.
— "Para Henry" — Liebert riu acidamente, tentando recuperar o sarcasmo na voz — "De Sarah Grunewald".
Ele riu daquele jeito dele, estou com preguiça de explicar com muitos detalhes agora, mas não era um riso aquilo. Era mais ou menos como se alguém tivesse contado uma piada para ele mas ele, em vez de rir verdadeiramente dela, estivesse debochando de quem a contou. Era algo que eu não gostaria de ver dirigido às minhas palavras de afeto.
— "Olá, Henry!" — ele começou a leitura — "Neste fim de ano, eu gostaria de demonstrar o grande carinho e amizade que tenho por você através dessas lembranças. Pelas nossas conversas, percebi que você adora se lembrar de dias felizes, então este será o meu presente para..."
Antes que ele chegasse à parte que eu mais temia da carta, eu corri por trás dele e o empurrei com todas as minhas forças.
— Pare já com isso, seu idiota!
Tom voou de encontro à parede. Não deixei nem que ele respirasse: saí cobrindo-o de sopapos e empurrões.
— Me devolva isso agora! — berrei, enquanto ele abusava de sua altura privilegiada para me fazer saltar em busca daquilo que queria.
Nem nas pontas dos pés eu conseguia chegar perto de atingir o nível mais alto que sua mão alcançava. Quando foi que esse infeliz cresceu tanto? Agarrei a lapela de seu terno tentando ganhar altura e ele esticou ainda mais o braço para cima, com meu cartão na mão. Me espichei o máximo que pude e cinco segundos equilibrada no meu dedão foram o suficiente para eu compreender que não tinha talento nenhum para o ballet. Dei alguns passos para trás, ofegando, ao perceber que numa tentativa de puxar seu braço para baixo, acabei arrastando dolorosamente minha unha comprida por sua roupa. Chupando a ponta do dedo que quase perdeu a unha, comecei a chorar. Ele leu mais um trecho da carta, onde eu falava de uma visita que nossos pais nos fizeram e Henry virou o lanche dele no meu vestido novo. Escrevi que, ao contrário do que disse naquela situação, eu já o tinha perdoado.
— Paraaaa! — bati com as mãos em seu peito, nisso ele sempre tendo o cuidado de desviar o cartão dos meus ataques — Seu monstro nojento, eu te odeio!
Sem nem se preocupar com meus ataques, ele me afastou com um braço, ficando a uma distância suficiente e confortável para continuar a leitura. Só que para fazer isso, ele encheu a mão em cima do meu peito. Meu olhar desceu até aquela direção em câmera lenta, minha ira acompanhando o trajeto. Ele mesmo tirou a mão dali, aparentemente assustado com aquele contato que nunca deve ter feito nem na Minnie, que dirá em outra garota.
Agarrei sua mão e empurrei para baixo, evitando que ela servisse de bloqueio para qualquer defesa que ele tentasse. Puxei sua gravata e fiz uma coisa que era mais ou menos um tapa de mão fechada, alguém sabe qual é o nome desse golpe? Seja qual for, foi o golpe que errei. Como estava segurando a gravata dele com a direita, tentei bater com a esquerda, uma ideia muito infeliz, bater com a mão errada e ainda por cima em alguém mais alto do que você. Minha mão passou direto e fez uma espécie de gancho que agarrou sua nuca e puxou sua cabeça mais para perto. Aliás, para perto demais. Minha cabeça quase explodiu ao bater na dele. Os irmãos Jonas gritaram algo como "WOOOOOOOOOOOOOOOOW" e quando eu olhei para a frente, me deparei com os olhos arregalados de Thomas Liebert. Um pouco mais embaixo, nossas bocas quase se encostavam. Eu estava torcendo para que ele não se mexesse e me desse o tempo de sair dali, mas ao virar o rosto para o lado, a boca dele raspou na minha.
Minha primeira reação foi empurrá-lo com toda a força. Depois, saí limpando minha boca em tudo: nas costas das mãos, na parte interna no braço, na barra do vestido e até na manga do terno do Sam, que eu peguei e puxei. E ainda dei umas duas porradas no Liebert para ele saber que eu não gostei.
— AAAHHHHHH! — gritei de ódio — Tudo culpa sua!
Drake aproveitou o estado de choque do amigo para tomar dele o cartão e me entregar. Bem que podia ter feito isso há uns cinquenta minutos atrás, né, seu...?
— Você pegou pesado dessa vez — ele disse ao Liebert.
Sem nem prestar atenção no que Drake falou, Tom ameaçou, olhando para mim.
— Eu li o final da carta, só quero que saiba disso.
Recolhi a mão, que ainda ia bater nele mais umas vinte vezes. Abracei meu cartão e me afastei dali dando passos para trás. Os irmãos seguraram cada um em um lado do braço do Tom, como se quisessem conduzi-lo a algum lugar. Tom se desfez do aperto dos dois, me encarou com ódio uma última vez e deu as costas para mim e os meninos. Em um passo, ele estava perto de nós, no próximo já estava na China. Realmente, ele estava ficando muito alto. Drake e Samuel caminharam alguns passos na minha direção. Ninguém melhor do que eles para sondar quais os próximos passos daquela besta fera.
— O que ele vai fazer com a informação que tem?
— O problema da carta não era ele saber que você ia numa festa, né? — Drake instigou uma resposta da minha parte.
— Do que está falando? — me fiz de desentendida.
— Uma carta sua para o Grigory! Nós sabemos que você tem uma quedinha por ele, garota!
Baixei a cabeça, sem ter o que dizer.
— Deixa quieto — disse Samuel — A gente não vai melar o seu lance. A gente só quer manter de pé o convite para a festa de Natal.
— Vocês tentaram me ajudar, claro que eu não excluiria vocês. Será que ele já percebeu que vocês estavam comigo?
— Huh! — Drake riu — Será?
— Se a gente sair escondido, ele não vai perceber nada! Além do mais, a Minnie já tinha dito que ia ver ele se apresentando na orquestra, você acha que ele ainda vai lembrar que a gente existe? — observou Sam.
— Minha preocupação maior é se ela irá assistir ele.
Cheguei até a matriz do nosso clube. Pam e as meninas estavam conversando. Digo "meninas" porque as reuniões para discutir os presentes que daríamos foram divididas em "classe das garotas" e "classe dos garotos". Todas pareciam estar à mesa, menos Anastasia.
— Onde está a Ana? — perguntei.
— Foi até o bebedouro externo. Se eu não trouxer água, ninguém mais busca — Kamilla reclamou.
— Consegui — depositei minha carta em cima da mesa para apreciação de todas que eram conhecedoras do meu drama.
— Deve ter sido uma luta, hein! — Pam disse, rindo — A tarde toda nisso, nem nos ajudou na decoração direito!
— Desculpa, pessoal. A propósito, como ficou? Quero ver.
— Certo, vamos esperar a Ana e depois trancamos a sala — Pam, a líder, determinou.
— Gente, vocês não acham que está muito simples dar para o Henry esta cartinha? Claro que antes vou dar a ele um bloco de notas que ainda não usei, mas...
— Tranquilo, Sarah — Pam afiançou — Olha meu presente para a Ana.
Antes de lacrar com fita um pequeno saquinho laminado, ela mostrou um kit de presilhas de cabelo com cinco pares.
— São coisas simples como essa. Não estabelecemos um limite de valores, mas estamos conscientes de que, sem poder ir lá fora, nossas opções são básicas, não é?
— E todo mundo vai entender que as coisas têm apenas um valor simbólico — Kamilla completou.
— Ah...sim — eu sorri, ficando mais tranquila.
— Voltei — Ana anunciou sua presença, abrindo a porta.
— Chegou — Pam comentou — Agora, vamos mostrar para a Sarah a nossa sala decorada!
Eu, Pam, Ana e Kamilla avançamos pelo corredor quando escutamos vozes. Eu sabia muito bem de quem se tratava, pois aquela voz era inconfundível: era Thomas Liebert que, para quem não sabe, tem a sede do seu clube vizinha à nossa. A outra voz, eu não conseguia identificar de quem era. Fiz sinal para as meninas pararem de caminhar e se esconderem comigo atrás da esquina de uma parede. Eles conversavam no corredor aberto. O pior tipo de pressentimento me passou pela cabeça: Samuel e Drake estavam nos traindo?
— ...os irmãos Jonas estão sabendo mais do que contam — disse ele à tal pessoa — Providencialmente, depois de eles se oferecerem para pegar o livro, a nômade apareceu reclamando pelo cartão que estava dentro dele. Não parecia um cartão aleatório, mas um presente. Há referências de acontecimentos que ocorreram ao longo do ano. É um maldito presente de Natal, tenho certeza. Eu sei que vai acontecer uma festa, e eu vou descobrir onde será. Eu vou acabar com o Natal desses nômades!
— Ficou sabendo? A nômade escreveu uma carta romântica ao Heinrich Grigory! Quer usar a data comemorativa dos humanos como pretexto para propor um compromisso, imagino — ele continuou, para o meu desespero — O que acha daqueles dois? Imagino as crias de segunda linha que vão surgir dessa união. São dois fracassados! — ele riu. — E se eu pegar os nômades em meio a alguma violação dos Termos de Conduta e Castidade, terei um diamante nas mãos! A carta pode me dar algum poder, pelo menos enquanto aquela covarde não revelar o que sente, mas é pouco. Não basta para arruinar a Sociedade dos Nômades...Por outro lado, se eles transgredirem os pactos matrimoniais...
— Tom, eu já disse para não se preocupar com essas coisas. Você acaba se envolvendo em uma série de problemas alheios e arranja cada vez mais inimigos — reconheci a voz de Minnie.
— Sou um monitor, Minnesota. O descumprimento das regras desta instituição é um problema meu. Mas, especificamente neste caso, torço para encontrar algo.
— Eles são apenas crianças, como nós. Não fariam algo assim.
— São descendentes de humanos sujos, Minnesota. Pode-se esperar tudo deles. Eles pretendem fazer uma festa clandestina, por que não derrubariam outras regras?
Depois, como se de repente lhe ocorresse uma ideia, disparou:
— Você está sabendo de algo que eu não sei?
— Perdeu a razão? O que o faz pensar que eu saberia de alguma coisa a respeito dessa festa que só existe na sua cabeça?
— Não gosto da sua amizade com humanos e nômades, Minnie. Não seria a primeira vez que você mentiria para mim por causa deles.
— Está impossível falar com você!
— Isso se tornou um padrão. Acho que nem você se deu conta. "Impossível". Você parece gostar de usar essa palavra quando o assunto é conversar comigo.
— Eu posso assegurar que você tem colaborado para isso! — Minnie acusou, se afastando, e ainda bem, indo na direção oposta à que estávamos.
— Não tem problema, Minnie. Eu posso prejudicar os seus amigos sem você saber, se isso te dói tanto! — ele falou bem alto, acompanhando a distância que ela estava tomando.
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