HL: Nebulosa - O Despertar de Hypnos
1 Prólogo
Notas iniciais
O sol na linha do horizonte abrilhantou toda a paisagem repleta de tulipas do Parque Nacional da Holanda, no fim da tarde, onde era possível observar as colinas e planícies floridas até perdê-las de vista. A brisa suave e fria era um deleite para os jovens turistas que visitavam o lugar pela primeira vez. Os dois percorreram os mais de quarenta quilômetros com bicicletas emprestadas na entrada do parque, parando várias vezes para registrar o momento com fotografias divertidas, que Edwin tinha o prazer de tirar. Para ele, não havia um instante que não precisasse ficar guardado em sua câmera, ainda mais quando sua modelo favorita dava um de seus mais belos sorriso, mostrando involuntariamente seus dentes branquinhos. Como amava isso nela!
Eles sentaram-se no gramado na beira da estrada, virados de costas para o sol, fazendo com que suas sombras se projetassem alongadas à frente.
A moça de cabelos claros, pouco abaixo dos ombros, tirou as botas de cano curto, movimentando os dedos dos pés. O rapaz riu do jeito dela, enquanto ajeitava uma mecha de cabelo atrás da orelha da garota, tirando mais um sorriso de seu rosto delicado.
— Robin — ele disse —, lembra como viramos amigos?
— Quando estávamos fazendo prova de álgebra no segundo ano. Eu estava desesperada porque não havia estudado, mas você me passou as respostas. — Ela abaixou a cabeça, rindo baixinho. — A Srta. Gonzalez viu e nós dois fomos para a detenção. Duas horas que deveríamos ficar refletindo sobre nossos atos, mas ficamos conversando. Tínhamos tanto em comum. Só não entendo porquê você sempre pergunta isso.
— Porque seus olhos sempre brilham quando você fala sobre isso. Faz eu me sentir especial.
— Você é especial. Mais do que possa imaginar. — Segurou a mão de Edwin, fitando seus olhos.
— Robin, já nos conhecemos há anos e eu sei que nos sentimos… diferentes. Ao longo do tempo, tudo isso cresceu e agora sinto que todo esse sentimento pode explodir do meu peito e…
A voz de Edwin foi silenciada no momento em que o som de três explosões seguidas ecoaram pelo parque, há uns duzentos metros atrás deles. Ele puxou a moça para perto e se jogaram no chão, sentindo a onda de energia passar sobre eles.
— Edwin…
— Shiii! — ele sussurrou, olhando por cima do ombro.
Robin fez o mesmo, enxergando apenas duas silhuetas no ar, em meio ao fogo e a fumaça.
— Neo-humanos. Vem comigo e tenta se manter abaixada.
O rapaz a guiou até uma leve inclinação no solo, pouco a frente de onde estavam. A vegetação um pouco mais alta naquele ponto, ajudou a ocultá-los, embora soubessem que Neo-Humanos possuíam habilidades inimagináveis. Quem lhes garantiam que aqueles, em questão, não poderiam ter visão de raio-x?
— Eu estou com medo! — ela sussurrou, sem conter as lágrimas.
— O que é isso, aventureira? Pensei que você não tivesse medo de nada! — Edwin desviou o olhar da batalha para abraçar Robin, beijando sua testa em seguida. — Vai ficar tudo bem, sabe por que? — Esperou ela negar com a cabeça e sorriu, ainda que estivesse apavorado também. — Porque eu sou o seu herói.
Mais uma vez colaram o corpo ao chão quando uma nova lufada de energia se dissipou com uma outra explosão e um gemido alto foi ouvido.
Curiosos, ergueram a cabeça e observaram os inimigos em sua batalha.
Uma mulher alta, tinha o brilho de milhares de estrelas nos cabelos e no longo vestido que lembrava uma nebulosa, uma massa de poeira e gás, variando os tons de azul, roxo e cor-de-rosa. Suas mãos estavam cobertas por uma espécie de aura cósmica e ela flutuava, descalça, próxima ao chão.
À sua frente, um homem despertava a curiosidade de quem quer que o olhasse. Ele era alto e esguio, com os ombros um tanto erguidos, lembrando uma ave de rapina, formavam uma pequena corcunda em suas costas, já que sua posição forçava a inclinação do pescoço para frente. Usava uma roupa social comum por baixo de um jaleco comprido — que um dia fora branco — e estava completamente sujo de fuligem, da cabeça aos pés. Pelos cabelos duros e espetados, que soltavam uma fumaça quase invisível, era de se imaginar que uma bomba explodiu em seu rosto, embora não houvesse nenhum machucado. O homem esfregava as mãos, estalando os dedos ossudos, enquanto fingia segurar uma risada esganiçada, que aumentava cada vez mais, assim como seu sorriso perverso e doentio.
— Athena. Linda e doce Athena. Quanto tempo ainda tenho que perder com você? Não cansa de apanhar não?! — O homem colocou as mãos na cintura, encarando a mulher.
— Sabe que só vamos parar com isso quando um de nós cair, Kaboom. E esse alguém não será eu! — a voz de Athena ecoou firme, embora o cansaço estivesse evidente em seus olhos negros.
— Esse alguém não será eu! Blábláblá! Essa é a parte que eu falo meu plano maligno? Quer que eu traga uma cadeira para a senhorita? Uma soda? Ah! Vá catar coquinhos! — Sua voz rouca e irritante era de revirar o estômago. — Está achando que eu sou um vilão de quadrinhos?
— Você não é um vilão, Kaboom! Não passa de um lunático! Não preciso saber dos seus planos. Só preciso garantir que eles morram aqui, com você. — Ergueu as mãos, formando uma esfera cósmica no ar, que aumentava cada vez mais.
— Faça elevar… o cosmos no seu coração! — Kaboom cantarolou, saltitando em círculos. — Vejam, Cavaleiros de Ouro! A Grande Athena em ação!
Sem dar ouvido às provocações do homem, Athena lançou a esfera de energia brilhante, mas Kaboom contra atacou com uma esfera vermelha e pequenininha, mas que causou uma enorme explosão, obrigando o casal se esconder mais uma vez.
Um silêncio agonizante permaneceu por tempo suficiente para a respiração apressada de Robin parecer ecoar pela campina. Tentando não fazer ruído algum, Edwin voltou a espiar, mas logo que seus olhos enxergaram os dois em meio a poeira, levou a mão na boca, segurando o suspiro de surpresa. A garota, assustada, se colocou ao lado do amigo e entendeu o motivo do espanto.
Athena estava no chão e mal se movimentou ao receber vários chutes por seu corpo.
— Vamos, Athena! Essa é a parte que você me derrota! Vamos! — Grudou nos cabelos dela, agora castanhos, e a ergueu, fazendo-a se manter firme sobre as pernas vacilantes.
O vestido, antes com as cores de uma galáxia estonteante, estava manchado de sangue em seu tecido branco e sujo.
A mulher cambaleou, levando a mão até o pingente de seu cordão no pescoço e mais uma vez foi tomada pela aura cósmica, elevando-a à alguns centímetros do chão.
— Não acabou — a voz fraca ainda estava repleta de confiança, enquanto fitava o inimigo.
— Não. Não acabou. Hypnos e Thanatos tem um propósito maior para mim.
— Hypnos está morto! Eu o matei! — bradou, ainda que suas forças não permitissem tantos esforços.
— Em seus sonhos... Você sabe que não. Ele está vivo! Seu despertar está próximo! — O olhar perturbado do homem causou arrepios na nuca de Edwin e, sem saber o motivo, a menção de Hypnos fez o sangue de Robin gelar.
— Você está mentindo!
— Gostaria de provar que não, mas… — Ele deu de ombros, rindo novamente de maneira exagerada e teatral. — Você morre agora!
Antes que Athena pudesse canalizar a energia cósmica, Kaboom formou uma esfera do tamanho de um grão de arroz e, com um peteleco, a atirou em direção a mulher, fixando a bomba de energia em seu ombro.
Desesperada, a heroína formou um campo de energia ao seu redor, enquanto a pequena bolinha começava a piscar e aumentar.
— Faça elevar… o cosmos no seu coração! Já que a seguir vem a destruição! Quando eu gritar a palavra da mais bela explosão! — Bradou com toda a força de seus pulmões e por um instantes, o olhar insano do homem encontrou o de Robin, fazendo-o sorrir para ela. — Kaboom!
Ao proferir a palavra, a explosão foi contida pela barreira criada por Athena, mas não por muito tempo. O campo de força acabou explodindo, aumentando ainda mais a de devastação e intensidade da bomba. Tudo em um raio de quinhentos metros foi destruído. Em um ato de coragem — ou loucura —, Edwin se jogou por cima de Robin, enquanto o som ensurdecedor sobrepôs a risada horripilante de Kaboom.
A única lembrança que se passou na mente de Robin antes de tudo desaparecer foi a voz de Edwin, que não parava de repetir: “Eu sou o seu herói.”
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