HISTÓRIAS ETERNAS
2 Capítulo dois — Azalee: Marroquinos, Egipicios e uma Pantera
Notas iniciais
O castelo da Uagadou era duas vezes maior e mais fabuloso que os históricos prédios de areia do Conselho Bruxo da África. Era de um tom marrom antigo, respingado de cores diversas vindas das sete torres que a circundava, sobre uma gigantesca muralha de pedra amarelada com desenhos em textura de padrões comuns nas estampas africanas. Atrás da escola havia uma montanha de pico nevado, que se curvava sobre ela como uma caverna. Azalee Knawku imaginou como uma concha escondendo sua pérola.
Kabur era um tipo excêntrico de gênio, no sentido literal da palavra, não era mais homem que Azalee. Não era humano, bruxo ou deus, era gênio e isso ninguém podia negar. Seus dentes desdentados e sua barba branca embaraçada; suas vestes largas e velhas do bom sábio; seus olhos tão enigmáticos quanto o tempo... Que, a propósito, Azalee tinha certeza que ele podia explicar.
Azalee Knawku também não era comum. Era bruxa, naturalizada inglesa, naturalmente sul-africana, obcecada por números, permutações e gatos. Ah, e é claro, fotografa amadora e possível contadora de historias, como foi seu pai, seu avô e seu bisavô. Azalee era Ananse, mas sem histórias para contar. Histórias que ela talvez encontre na Uagadou.
Bastou Kabur gritar... Kabulii!... para que enfim descesse o balão. Havia tantos outros que Azalee sentiu-se extasiada. Tantos possíveis amigos... E antes das vinte horas! Com a câmera polaroide em mãos, sentiu-se na obrigação de registrar tudo: os portões de madeira branca da Uagadou, uma garota gordinha usando roupas com hieróglifos, dois garotos voando em raios brilhosos, um grupo de rapazes conversando e a última frase de Kabur antes dele desaparecer:
— Se lembra de menina, veja pelos seus olhos. Seja Ananse, como foi seu pai, seu avô e bisavô — e então bastou gritar para então o balão voar e sumir entre as nuvens.
Azalee estava sozinha e sem saber o que fazer. Abraçou-se a sua maleta, olhou o fluxo de alunos a sua volta, e se encaminhou atrás deles. Todos seguiram em frente, rumo aos portões de madeira branca estilizados com as imagens dos animais das torres em um grande ciclo da vida, e pararam. Lee sentia-se um pouco esmagada no grupo, afinal, ela tinha certeza de que os discentes contabilizavam mais de três mil, de diversas idades e regiões africanas. Porém, mesmo tão acompanhada, sentia-se excluída. Era tímida demais para puxar assunto com desconhecidos. Toda vez que tentava a conversa acabava com alguém chorando — geralmente ela.
Os portões se abriram lentamente e da Uagadou surgiu uma luz. Precisou cerrar os olhos até que os acostumasse com a luminosidade e sorriu: era esplêndido. Havia um gramado tão verde quanto escamas de serpentes; dúzias de estátuas de animais em pedras e metais preciosos, como o leão de ouro, com olhos de rubi; havia a cobras de jade circundado duas colunas de postes de luz a gás, que flanqueavam um caminho de pedra cinzenta indo dos portões ao magnânimo castelo de pedra escura como cascas de árvores, bem no centro da muralha de sete torres, em forma de cúpula no estilo marroquino. Havia plantas de climas diversos; lagoas de águas cristalinas e espaços para atividades esportivas. Era como um oásis. Azalee demorou um pouco para discernir tudo. Era muito mais bonito que ela esperava. Então fez o que melhor fazia: fotografou.
Os alunos adentraram os portões como empalas fugindo de leões. Era uma multidão desorganizada que empurrava demais e gritava mais ainda. Aza tapou os tímpanos e esperou todo grupo atravessar os portões para só então prosseguir, só que dessa vez acompanhada. Era um rapaz de face sofrida e, simultaneamente, sonhadora. Usava vestes meio rasgadas e trazia consigo apenas uma trouxinha e um simplório sorriso amarelo. Azalee simpatizou-se com ele, enquanto via sua surpresa ao presenciar a Uagadou.
— Minha mãe dizia que era bonita como um rio e mágica como a felicidade — ele disse. Lee sorriu.
— E você concorda com ela?
— Não. É duas vezes melhor do que ela disse — seu sorriso era tão tocante que Azalee se obrigou a registrá-lo em um polaroide — Eu sou Taú, da Etiópia.
— Muito prazer Taú da Etiópia, sou Azalee Knawku da Inglaterra — respondeu amigavelmente.
Taú era simpático e simplório. De muitos sorrisos cativantes; olhos como duas esmeraldas e uma triste história que preferiu não contar a Azalee. E ele odiava felinos, principalmente panteras.
Aza se juntou a ele e chegou ao gramado, colorido pelos alunos de toda África e parte da Ásia. Todos admiravam a Uagadou, que por dentro era muito maior que esperavam. Uma garota de burca azul parou ao lado de Aza. Seus olhos eram negros como a noite, e, a pele, amarela feito areia.
— Sou Cantara — apresentou-se ela, de modo educado, em inglês. Sua voz era como uma misteriosa dança as escuras. Aza sorriu.
— Sou Azalee, muito prazer. Você veio de onde?
— Do Marrocos — respondeu ela, sorrindo com os olhos, ou era o que parecia a Azalee — Está animada?
Azalee riu baixinho. Animada era pouco.
— Mais que estive em toda a minha vida — respondeu. Taú da Etiópia adentrou no assunto.
— Seus pais autorizaram sua vinda? — perguntou ele, com a certeza de que não. Árabes tinham costumes conservadores demais. Ela riu.
— Eu fugi — respondeu ela, convicta dos atos. Azalee sorriu pela colega, já Taú pareceu temer por ela.
— Você não tem medo? — ele perguntou.
— Tenho — respondeu ela — Vim para Uagadou justamente para perder eles — e, pelos olhos, sorriu novamente, assim como Aza.
Taú teria feito outro questionamento, mas repentinamente todos os alunos ali parados passaram a assoviar. Os três juntaram-se a eles, sem entender o porque. Da varanda suspensa da Uagadou se abriu uma porta. Delas saíram doze pessoas de diferentes traços, juntos contrastavam como em uma pintura dos livros de história. Eles pareciam intocáveis, quase deuses. Azalee os registrou.
A mulher do centro, com olhos negros e pele sedosa, trajando um vestido florido que arrastava-se no chão, e dele brotavam flores, tomou a frente dos onze, sorriu e anunciou.
— Bem vindos alunos — ela anunciou em uma língua que não era inglês, banto ou marroquina, mas que todos pareciam entender — Meu nome é Farisa. Sou a nova diretora da Uagadou.
— Nova? O que houve com a antiga? — Aza perguntou.
— Soube que desapareceu no Saara — respondeu Taú — Os egípcios devem ter matado ela. Há anos odiavam o modo de ensino de Sharia — disse alto suficiente para a garota gordinha vestida de hieróglifos ouvir. Ela pareceu absurdamente ofendida, mas ignorou.
— Chulo — ela sussurrou.
— Uma nova etapa do ciclo da vida inicia-se aqui, com vocês — Farisa deu continuidade ao discurso — O que viram fora dessas paredes antigas é o mundo. E o mundo é de vocês. Aqui aprenderam como usar da magia para melhorar o mundo de alguém. Também aprenderam que nem todos os males podem ser desfeitos com a magia. Vamos ensinar vocês à arte de viver, para que quando saírem saiam cidadãos diferentes dos que entraram. Deixem as divergências, a magoa, à dor lá fora. Um novo ano se inicia e com ele a perspectiva de tantas outras mudanças. A Uagadou espera vocês — bastou Farisa dizer a última frases para que as portas enormes da parte inferior se abrissem.
Os alunos, embalados pela curiosidade e maravilhosidades, foram entrando calmamente pelos portões e chegando a um salão duas ou três vezes maior por dentro. Havia duas grandes escadarias no oeste e no leste, que levavam a um andar acima do grande salão central. Aza olhou para cima e percebeu muitas outras escadas e muitos outros andares. A decoração era viva, animada. Havia quadros de reis africanos; estatuas de personagens importantes e até animais astrais de diversas cores voando pelo vento. Só que de repente todos pararam sem motivo aparente.
— Estranho... — Aza percebeu. Curiosa, subiu na escada próxima e se pôs a observar. Cantara, Taú e a gordinha egípcia foram atrás.
Havia dois literais animais congestionando a entrada ao salão. Um era um hipopótamo cinza e o outro uma pantera negra. Aza se assustou, só não mais que Taú. Ele odiava panteras.
— Não são animais de verdade — a gordinha interveio — são Transmutados.
— Transmutados? — Cantara não compreendia. Azalee estava hipnotizada pelos olhos vermelhos da pantera e nada dizia... ou sentia.
— São bruxos que se transformam animais — respondeu a egipcia. Taú se escondeu atrás dela, observando que a pantera andava entre os alunos, estupefatos, e vinha em sua direção.
Azalee não sabe dizer por que, mas sentiu que precisava descer as escadas e ir de encontro ao felino, e assim fez. A pantera rugiu, assustando a todos, mas não ela. Aza continuou irredutível. Estendeu seu braço para poder tocar a pelagem negra do animal e então um feixe de luz prateado acertou o felino antes de seu toque.
Aza olhou imediatamente para trás, onde uma senhora de olhar rabugento estava. As mãos reluziam no mesmo tom prateado do feixe.
— É proibida a transmutação dentro da escola, Elon — ela salientou irritada.
— Perdão senhora Dada — disse uma voz masculina em tom irônico. Azalee virou-se de repente e percebeu a poucos centímetros de si um rapaz muito bonito. Seus olhos eram dourados, não mais vermelhos; usava tranças rastafári e tinha um petulante sorriso. Trajava capa negra, da mesma tonalidade da pantera.
— Todo ano é assim — disse Dada irritada — Não quer me ver irritada hoje, Elon — advertiu ela. Todos os alunos estavam assustados. O hipopótamo, inclusive, tornou-se rapaz novamente, vestindo uma capa cinzenta. A rabugenta subiu as escadarias e o fluxo de alunos para o salão voltou ao normal.
Elon estendeu a mão a Azalee.
— Elon.
Ela apertou, tentando não parecer uma boba. Sorriu.
— Azalee.
— Bem vinda a Uagadou — ele disse e sorriu novamente.
— Obrigada — Elon piscou, envolveu-se na capa e juntou-se aos alunos rumo ao salão. A sensação era indescritível.
Estavam nas escadarias ela e os três novos amigos. Ela percebeu que, realmente, encontraria sua história ali, na Uagadou.
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