Cassandra acordou numa sala pouco iluminada, arejada por um ventilador de teto. Estava deitada sobre um sofá de três lugares branco cheio de detalhes em madeira, provavelmente formava conjunto com as duas poltronas alinhadas a sua esquerda e o outro sofá de dois lugares da mesma cor e material à direita (deviam custar os olhos da cara).

Ao se levantar sentira uma fraqueza descomunal, como se tivessem posto algo pesadíssimo em cima dela. Voltou a deitar e tentou pelo menos sentar-se, dessa vez se levantou rápido demais, tendo uma terrível vertigem. No entanto conseguiu o que queria, descansou as costas e a cabeça no encosto confortável do sofá, sua cabeça latejava.

Só notou a grande porta dupla de madeira escura quando ela se abriu revelando um rosto familiar, Eleanor, que se assustou ao vê-la:

—... Na hora certa. –Disse ela. A moça segurava uma bandeja prata, Cassie viu de relance xícaras e um pequeno bule, tudo de porcelana.

Ela pôs a bandeja sobre a mesa de centro octogonal e foi abrir a única janela do recinto, a luz foi contra o rosto de Cassandra, que fechou os olhos no mesmo momento. Eleanor não deve ter percebido, apenas fechou as cortinas e foi sentar-se com ela, Cassie disfarçou e ajeitou o vestido e os cabelos:

—Que susto me deu!-Eleanor despejou o líquido quente do bule em uma das xícaras. Café. Estranho, pensava Cassandra, os antigos patrões sempre preferiram chá. Além disso, havia uns pãezinhos, que Cassie devorava com os olhos desde que os vira.

—Mil perdões, senhora, prometo que isso nunca mais acontecerá.

—Enquanto trabalhar aqui se alimentará adequadamente e isso é uma ordem.

—Sim, senhora. –Cassandra nunca foi servida, se sentiu lisonjeada quando Eleanor o fez, mas estava muito abatida para sorrir.

—Sua bagagem está no seu quarto, te preparei um banho.

—Não se incomoda de fazer tudo isso por uma empregada?

—Não nasci em berço de ouro, Cassandra, também tive que servir alguém para sobreviver.

Cassie não disse mais nada, terminou de comer rapidamente. Eleanor a mostrou onde era o banheiro e um quarto perto da cozinha.

Aquele espelho finalmente teve serventia. O pequeno quarto que estava ganhou um diferencial, mas Cassandra só conseguia pensar aliviada que naquele dia provavelmente teria uma cama para dormir e nunca valorizara tanto um bom banho.

O lençol que servia de mala sujou por causa da queda na feira, mas por sorte as roupas se salvaram. Quando pôs o segundo vestido que tinha e viu seu reflexo pela primeira vez em um mês pode notar que perdera alguns quilos. Não era nada muito significativo, mas suficiente para deixar o vestido levemente folgado.

Pôs um avental branco por cima e pegou um pente que estava sobre a mesinha de canto. Assim que voltou para frente do espelho viu, surpresa, Eleanor entrar no recinto pelo reflexo:

—Com licença. –Disse ela. Aproximou-se de Cassandra e amarrou o avental na cintura da moça.

—Gostou do quarto?

—... Sim. –Respondeu Cassandra penando para desembaraçar os cabelos.

—Se houvesse outro quarto lá em cima ficaria lá, mas só há dois, o meu e... –Eleanor sorriu. –Do bebê que virá.

—Está grávida?

—Não, mas em breve estarei.

Sem perceber, a senhora Hauser ficou com as mãos na cintura de Cassie por mais alguns instantes, observava o vestido azul de pouca costura que ela usava. Cassandra era um pouco mais alta que ela, tinha um quadril mais largo e um busto menor. Seus olhos lilases a traíram mais uma vez. Tinha cílios de boneca e lábios bem preenchidos.

Havia uma diferença gritante dela com as outras mulheres da cidadezinha de Praga, mas não deixava de ser bela aos olhos de Eleanor, que estranhamente a fitava como se estivesse hipnotizada. Saiu do transe quando sentiu uma mão sobre a sua. A da própria Cassandra:

—Obrigada. –Disse ela. As duas paradas ali frente ao espelho oval de moldura de metal mais parecia uma pintura.

Cassandra pareceu não ter percebido os olhares da patroa, mas Eleanor se afastou levemente constrangida como se ela tivesse. Ficou perto da porta com as mãos para trás, queria ficar ali fazendo companhia a ela, mas sentia que devia deixá-la terminar de se arrumar sozinha:

—Não prenda o cabelo, deixe-o secar. –Disse ela sem olhá-la diretamente.

—Ah, sim.

—Meu marido deve estar na biblioteca, vou procurá-lo enquanto se arruma.

—... Tudo bem.

—Encontre-me na cozinha.

Bastou sair do quarto e estava na cozinha. Não tinha muita decoração e era consideravelmente pequena, havia o essencial e pronto. Pelos móveis que vira na sala Cassie pensava que o restante da casa teria o mesmo luxo... Bem, só conhecia três cômodos até então.

Uma porta dava acesso ao quintal com um jardim fértil e florido. Cassandra quis ir até lá e ver de perto o que os Hauser cultivavam, porém receosa se contentou em apenas observá-lo de longe pela janela acima da pia.

Olhou para os lados inquieta. Tudo parecia limpo e organizado, havia um vaso transparente sobre o balcão no meio da cozinha. Nada ali dizia alguma coisa sobre a personalidade do casal e aquele silêncio começava a irritá-la:

—Mil desculpas. –Disse Eleanor de repente assustando Cassandra. –Ainda estava procurando meu marido, não sei onde ele está.

—Sem problemas... Tem um belo jardim.

—Obrigada. Meu marido é quem cuida dele, Alex tem o dedo verde, no começo estava tudo uma bagunça, foi só nos mudarmos e ele por as mãos nele e tudo floresceu.

—O senhor Hauser cuida de tudo? Que dádiva.

A conversa das duas foi interrompida por um homem entrando na cozinha pela porta dos fundos. Segurava rosas brancas e pelas mangas da blusa arregaçadas e os sapatos sujos de terra mexera no jardim, apesar de estar deveras elegante para realizar tal tarefa:

—Com licença. –Disse ele.

—Precisa parar de se esconder de mim, Alexander.

Por algum motivo Cassandra imaginou que Alexander fosse um homem mais velho, pelo contrário, aparentava estar na faixa dos 30 a 35 anos, era alto, com cabelos escuros e olhos claros. Ele e Eleanor formavam um belo casal:

—Por que eu fugiria de minha esposa?-Ele sorriu. Cassie nunca vira sorriso tão encantador antes.

Ele pôs as flores no vaso e quando foi enchê-lo com água finalmente pareceu notar a presença de Cassandra, que corou quando ele a olhou, mesmo que de relance:

—Quero que conheça a nossa nova empregada, Cassandra.

—Quais são suas qualificações?-Ele foi direto.

Cassandra travou. Aquilo foi como um tapa. Tentou disfarçar o choque e começou a falar:

—M-Minha mãe assim que chegou a Praga começou a trabalhar na casa de um casal de idosos, passou o resto de seus dias cuidando deles e eu, mesmo pequena, acabei aprendendo a cuidar de uma casa com ela e estou disposta a aprender ainda mais, só peço que tenham paciência, isso, é claro, se me quiserem como empregada.

—Nós queremos... –Eleanor trocou olhares com o marido, parecia uma criança pidona. –Não é, Alex?

O senhor Hauser olhou Cassandra de cima a baixo:

—... Certo. –Disse ele.

Eles deram um aperto de mão, a mão dele era grande e gelada.

Assim que foi apresentada ao intrigante senhor Hauser Cassandra não o viu mais, ele subiu as escadas e não desceu nem para o almoço nem para o jantar. Servira as refeições apenas para Eleanor, que em momento algum pareceu se importar com a ausência do marido, mesmo que não tivesse justificativa. Mal precisou ter o trabalho de chamá-lo.

Qualquer mulher se irritaria, mas Eleanor não, se comportava a mesa como se fosse a única moradora da casa.

Cassie terminava de lavar a pouca louça suja do jantar. Lembrou-se dos antigos patrões, devido à idade eles não comiam nada muito pesado, comiam praticamente só sopa e como eram sozinhos sempre convidavam Cassandra e a mãe para fazerem as refeições junto deles. Pensar neles consequentemente a fez pensar nela e em tudo o que viveram juntas.

Por mais que às vezes ela fosse distante, ainda assim conseguiu ser uma mãe amorosa. Toda vez que se lembrava da maneira que ela morrera, repentinamente e em seus braços tinha vontade de chorar. Segurou as lágrimas por tempo demais.

—O que achou de Cassandra?-Perguntou Eleanor ao marido. Abotoava a camisola frente a um espelho, sempre esboçava uma risada quando tentava ver o reflexo de Alexander e não conseguia.

—Ela é boa... Mas não pode ficar por muito tempo.

Eleanor franziu o cenho e virou-se:

—Por que não?... Sei que não fora nada agradável carregá-la para dentro de casa, mas...

Era sempre uma surpresa ouvir Alexander rir. Eleanor nunca sabia como reagir:

—Não notou? Pensei que soubesse identificá-las. –Disse ele, ela desfez o sorriso que se formava em seu rosto.

—Eu sei. –Disse com firmeza. — A contratei, pois não tinha nada nem ninguém.

—El, já disse que não gosto de mulheres daquele tipo.

—Elas não são mais uma ameaça para nós, além disso, Cassandra fora criada aqui.

—Eleanor, ela só ficará até acharmos outra, já me decidi.

A senhora Hauser estava vermelha, Alexander só conseguia pensar em como ela era linda até irritada. Ela deitou-se e ele tratou de cobri-la. Eleanor ficou de bruços e o olhou mais calma, seus olhos estavam num verde vivo e suas bochechas voltavam ao rosado:

—Eu só queria ajudá-la. Encontrei-a na feira completamente desleixada... Ela não me parece uma criatura ruim.

Ela começava a amolecer Alexander:

—Chega de conversar sobre a bruxa. Durma.

—Não quer... –Ela bocejou e abraçou o travesseiro. –Tentar?

Dos dois, Alexander era o que mais queria filhos. Ele sorriu e virou a página do livro que lia:

—Estamos numa negociação, não cairei em suas armadilhas, por mais tentador que seja.

A senhora Hauser deu uma risadinha.