Híbrido
1 I
Notas iniciais
(Fase 1: Exílio)
I
—O que a senhorita faz?-Perguntou um senhor a Cassandra. Era a quinta vez que ela iria responder a essa pergunta no dia, mas sempre o fazia como na primeira, não desistiria até encontrar um novo patrão.
Recomeçar pode ser difícil, principalmente quando a única pessoa que pode contar é você mesmo. Há um mês Cassandra não se imaginava naquela situação: sozinha, desamparada e andando por uma feira a procura de alguém que a ajudasse.
A morte de sua mãe era recente, mas ainda não tivera tempo de sentir o luto. As coisas aconteceram muito rápido. A partir daquele momento precisaria ser muito forte e principalmente esperta:
—Sei cozinhar, limpar, lavar e cuido de idosos. –Disse ela acompanhando o homem que escolhia laranjas sem ao menos olhá-la no rosto. Cassie evitava olhar todas aquelas frutas para tentar enganar a fome.
—... Minha filha acaba de ter trigêmeos. Cuida de crianças?
Cassandra conviveu desde sempre com adultos, se um dia brincara com outra criança não se lembrava:
—Sim, claro, adoro crianças!
Ela tinha uma bolsa improvisada feita com um lençol onde guardava as poucas roupas que conseguira pegar antes de sair da casa dos antigos patrões, além de um espelho quase do seu tamanho que ora queria descartá-lo num canto qualquer, ora temia que o roubassem. Estava plantada ao lado do homem esperando a decisão dele. A principal coisa que aprendia ao morar na rua era exercitar sua paciência:
—Preciso voltar para casa, conversarei com minha mulher a respeito e talvez na próxima feira lhe procure. –Ele finalmente disse.
Cassie não queria estar ali na próxima feira, começava a ficar cada vez mais irritada com tudo aquilo. Despediu-se educadamente e seguiu seu caminho.
O movimento da feira começava a diminuir, logo todos voltariam para as suas casas enquanto Cassandra já procurava um canto para ficar. Ela não conseguia tirar da cabeça a possibilidade de continuar naquela situação por mais tempo que desejava. Na verdade, o frio, a fome e a falta de oportunidades não lhe torturavam mais que saber que não teria sua mãe lhe confortando com um abraço dizendo que tudo ficaria bem. Quando se deu conta literalmente vagava, as pessoas a rejeitavam com o olhar, seus olhos estavam marejados, o fim de feira a botava pra baixo.
De repente ela avistou uma mulher correndo em sua direção, Cassandra demorou muito a perceber que ela não desviaria. Não é exagero dizer que ela fora atropelada, um homem que passava conseguiu desviar a tempo. O espelho ameaçou cair, mas por sorte saiu ileso, ao contrário de Cassandra, que já sentia seu corpo doer. A mulher ruiva saiu, ou melhor, foi tirada de cima dela por dois homens, que depois disso mal notaram que outra moça também estava no chão:
—Essa, senhoras e senhores, é a bruxa que tanto procurávamos. –Disse um deles.
Ela não era uma bruxa e Cassandra sabia disso, mas com os humanos não havia diálogo quando estavam cegados por uma falsa razão, eles se tornavam criaturas destrutivas quando eram contrariados.
O homem deu um discurso se vangloriando de sua conquista enquanto a mulher tentava se soltar. Cassandra o olhava com desdém. A multidão que se formara em volta deles ouvia o que ele tinha a dizer com um semblante sério, muitos concordavam, outros eram só curiosos. Cassandra perguntava-se se havia mais alguém além dela indignado. Quando ele terminou houveram aplausos, a mulher começou a chorar ao ser levada embora.
Não era a primeira vez que Cassandra presenciava tal cena, não poder salvar todas aquelas mulheres inocentes de um destino tão cruel a matava por dentro, porém era assim que as coisas funcionavam na cidadezinha de Praga, logo todos voltaram à rotina como se nada tivesse acontecido.
Ela ajeitou o vestido e se apoiou no espelho para se levantar. Distraída, ela não percebeu outra mulher se aproximar:
—Com licença... Essa barbárie acontece com frequência por aqui?-Ela perguntou.
Logo que ouviu aquelas palavras virou-se curiosa para ver quem as disse. Era uma moça aparentemente poucos anos mais velha que ela, com cabelos loiros ondulados e olhos claros. Por mais que seus traços delicados a remetessem a qualquer outra humana daquela feira havia algo mágico nela:
—Sim, infelizmente. –Cassandra respondeu.
—Este mundo não é justo com as mulheres.
—... Verdade. É daqui?-Geralmente Cassie não falava com estranhos sobre outra coisa que não fosse trabalho e se falava era para persuadi-los a contratá-la. Dessa vez realmente tinha curiosidade em conhecer a moça.
—Me chamo Eleanor Hauser, meu marido e eu acabamos de nos mudar... Que olhos lindos!
Depois que seus olhos foram do castanho para o lilás Cassandra não teve mais sossego. Eles apareciam quando menos esperava quase a colocando em apuros, tinha de descobrir um jeito de escondê-los definitivamente antes que acabasse numa fogueira:
—Isso acontece involuntariamente, não sou o que pensa que sou. –Disse nervosa.
—Não penso nada, só disse que eles são lindos. Deveria valorizá-los.
—Muito agradecida, senhora.
Eleanor despediu-se educadamente, Cassie poderia oferecer seus serviços, mas a elegância da moça a deixava receosa. Bobagem, o que custava fazer uma simples pergunta? Observava-a seguir seu caminho arrependendo-se por desperdiçar tamanha oportunidade até que Eleanor parou e virou-se:
—Perdão. Esqueci-me de perguntar seu nome.
—Cassandra.
—Ao olhá-la de longe tive a impressão que procura uma ocupação. Procuro uma emprega...
—Sim!-Cassandra corou ao perceber que a interrompeu. –... Sim.
Eleanor sorriu.
—Fico feliz. Posso levá-la até a minha casa ainda hoje só para conhecê-la e se meu marido estiver de acordo está contratada.
—Posso me mudar quando desejar, senhora... Só tenho esse espelho.
Cassandra notou Eleanor mudar o semblante, parecia comovida. Isso a irritou, mas não demonstrou, odiava que sentissem pena dela, mesmo que soubesse que estava em ruínas:
—Não tem mais nada?-Perguntou a moça.
—Não.
—Então me acompanhe. Depois do que presenciei não estou com a mínima vontade de permanecer neste lugar.
Ela pegou o espelho e seguiu Eleanor, elas foram até o começo da feira, onde uma carruagem as esperava. Seguiram por uma estrada de terra.
A senhora Hauser morava num terreno afastado do centro da cidade, ao ver aqueles campos vazios diante de uma imponente floresta servindo como um verdadeiro muro, Cassie imaginava se um lugar tão medíocre como a cidadezinha de Praga um dia ocuparia aqueles espaços inabitados e talvez até tomasse o lugar das árvores.
Com o início da tarde começou a esquentar e por mais bonita que achasse a carruagem, Cassandra sentia-se assando e tinha a impressão que Eleanor passava pelo mesmo desconforto, pois balançava seu leque como um beija-flor batia as asas. A moça então se lembrou de que não se banhava há tempos. Furtivamente, afastou-se de Eleanor, que acabou notando:
—Tudo bem?-Perguntou ela.
—Sim, senhora.
—... Odeio verão.
As duas sorriram uma para outra:
—De onde vem, Cassandra?
Era uma pergunta delicada. Cassie pensou na resposta por alguns instantes:
—Cheguei nesta cidade com apenas oito anos, fui criada na casa dos patrões de minha mãe, um casal de idosos.
—Tem uma mãe?
—Tinha... O nome dela era Aurora. Faleceu há pouco tempo.
—Eu sinto muito.
—Agradecida. Depois que ela morreu fui expulsa... Estou na rua desde então.
—Por que eles fizeram isso? Digo, eles não eram obrigados a te manter na casa deles, mas poderiam ao menos te deixar em uma condição melhor.
—Eles... –Descobriram uma coisa sobre mim, ela queria dizer, mas isso estragaria tudo. –Só deviam estar assustados. Mamãe caiu morta na sala deles.
—Misericórdia!... Perdão por fazê-la relembrar isso, querida.
—Não se preocupe senhora, estou me recuperando.
Eleanor pôs sua mão quente e macia sobre a de Cassandra:
—Apesar de ter quase certeza que meu marido concordará com a sua contratação, independente de qualquer coisa quero te ajudar.
—É muita generosidade sua, senhora, mas... Sem querer ser grosseira... Por que está me ajudando? Mal me conhece.
—Não poderei salvar aquela mulher da fogueira, mas te livrarei da miséria.
Cassie não sabia o que pensar. As intenções de Eleanor pareciam legítimas, mas depois de ser simplesmente jogada pra escanteio por pessoas que acreditava gostarem dela passou a ficar de olhos bem abertos:
—... Então farei por merecer.
—Já está fazendo.
As duas seguiram viagem sem conversar mais. Cassandra começava a ficar impaciente dentro daquele verdadeiro forno. Sentia muita fome e sede, torcia para que Eleanor não escutasse sua barriga roncar e principalmente não sentisse seu mau cheiro.
Tinha repulsa de si mesma, ao mesmo tempo em que queria chegar logo à casa dos novos patrões seu nervosismo aumentava quando imaginava ter que se apresentar ao marido de Eleanor naquele estado.
Assim que Cassie deitou a cabeça no encosto do banco percebeu sua visão embaçar... Desmaiou.
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