Gélida Vingança
2 Quando o calor desaparece
Os planadores emitiam um zumbido baixo inaudível aos ouvidos humanos, mas facilmente receptíveis aos dela. As folhas das árvores balançavam em diacronia por conta do vento causado pelas máquinas, elas sacudiam-se como se também tentassem fugir da visão dos perseguidores de Nahemah. Talvez até mesmo as plantas os temessem.
A garota pode ver quando em determinado momento os planadores abriram um compartimento e levaram ao solo cerca de sete soldados cada. Eles estavam dividindo as forças, afinal, procurar por um vulto tendo a visão obstruída pelas volumosas copas das árvores era uma tarefa complicada. Agora eles teriam mais chances de capturar a amorfa, pelo menos era o que pensavam.
Os passos dela eram rápidos enquanto desviava de galhos, raízes e pedras, ao contrário dos atrapalhados movimentos feitos pelos humanos que não importavam-se de serem ouvidos. Nahemah não sabia dizer se a falta de animais na floresta fora causada pelos barulhentos humanos ou por sua presença.
“Você consegue ouvir? Esse é o som do prefácio de uma calamidade... O silêncio.”, a voz distante da albina criança de sua memória voltou de repente, quase como um aviso.
Nahemah não havia ouvido animais ou insetos desde o momento que caíra do outro lado de Colossus. Não ouvia passos, o respirar, batimentos cardíacos, nem mesmo sentia a presença de qualquer vida além da sua — e agora de seus perseguidores. A falta de animais não havia se dado por conta dos intrusos barulhentos ou da amorfa, algo já havia espantado toda a vida dali antes mesmo dela própria chegar. Algo ruim já estava presente, à espreita de uma deixa para explodir.
Ela parou de correr. A brisa do vento batia em seu rosto e trazia consigo um leve aroma, um aroma que ela não conseguia identificar. No começo havia achado que aquilo tratava-se do perfume das plantas, contudo as plantas pelas quais passou não possuíam aquele odor. Era o cheiro de alguém, mas quem poderia ser? Nahemah não sentia a presença de qualquer outro indivíduo além dos guardas atrás de si que cada vez mais aproximavam-se dela. Não ouvia nada que pudesse indicar que outros estavam presentes, ainda sim o cheiro adocicado distinguia-se infimamente no ar.
As luzes dos planadores que varriam a floresta à sua procura chegou perigosamente perto do local onde estava, iluminando palidamente as árvores e dissipando as sombras. Se continuassem parada ali logo a luz chegaria até ela.
Um gatilho foi puxado e o som de um projétil vindo em sua direção foi o suficiente para fazê-la mover-se. Nahemah subiu na árvore à sua frente como um vulto. O projétil atingiu a árvore no local onde antes ela se encontrava emitindo uma pequena faísca antes de soltar-se do tronco.
As balas usadas pelos guardas eram o que ele denominavam de Abatedor. Elas possuíam um formato cilíndrico de uns cinco centímetros e uma ponta que abria-se em quatro pequenas garras de metal quando eram lançadas. As garras agarravam-se ao alvo e uma espécie de choque era emitido, o choque causava paralisia geral. Era como um desmaio, mas a pessoa ainda estava acordada e ciente do que estava ocorrendo.
— Nas árvores! – Um dos soldados esgoelou para os outros.
A garota já pulava de um galho para o outro em um ziguezague entre as altas plantas. Os planadores a encontraram, suas luzes refulgentes tentando acompanhar o ritmo da amorfa que parecia uma mancha enquanto movia-se de um local ao outro desviando de projéteis que voavam em sua direção.
Porque eles estão me seguindo por tanto tempo?, indagou-se internamente.
As tropas normalmente perseguiam amorfos que conseguiam atravessar a Colossus apenas por alguns metros, nada que os deixassem distantes demais da fronteira. No entanto lá estavam eles, em uma perseguição que alcançara o limite do permitido para que eles chegarem.
Porque...?, a amorfa começou novamente a indagação, porém a resposta veio tão clara e óbvia à sua mente que pareceu estupidez não pensar naquela probabilidade.
— Krieg Gülliver. – Ela parou sobre um galho, a mão esquerda cravando-se no tronco da árvore tão profundamente que a fez rachar, forçando-a a pular para o próximo galho antes da madeira ruir.
Krieg era o comandante da Quinta Frota da Matriz. Um homem destemido e rígido que levava as regras muito à sério. Sem qualquer compaixão, o Comandante Gülliver tratava os amorfos como a escória da sociedade – se é que pode-se inteirá-los nela. Aquele homem era um dos poucos que sabiam da natureza de Nahemah, e por saber o que ela era a garota tinha a certeza de que ele não a deixaria fugir. Mesmo que tivesse de persegui-la até outro continente. Nahemah sabia que ele o faria se isso significasse que poderia capturá-la.
Mas, será que ele estava ali? Ela duvidava muito, mas precisava mandar um recado, precisava fazer com que ele e todos os outros entendessem que persegui-la não era a melhor ideia. Ela estava tão cansada de fugir quanto estava de se controlar.
“Deixe-se consumir.”, a amorfa lembrou da voz em seu sonho, agora mais parecia seu subconsciente ditando que aquilo era o que ela deveria fazer.
Ela não se deixaria consumir, tampouco impediria sua explosão.
Tudo então começou a mudar. A floresta tornou-se fria enquanto, a partir da árvore em que estava até um raio de 100 metros, tudo começou a congelar. O frio intensificou-se ao ponto de fazer pequenas nuvens de ar quente saírem da boca dos soldados ao falarem. Ela podia ouvir seus dentes batendo e trincando-se, podia ouvi-los tremer e diminuir o ritmo de seus passos. Acima, os planadores focavam suas enormes lanternas brancas em sua direção enquanto a temperatura interna dos veículos também começava a cair rapidamente.
— Renda-se e seu fim será melhor. – Uma voz de um dos autofalantes dos planadores ecoou pelo perímetro.
Nahemah não se moveu. Sua mão estava cravada ao tronco, seu olhar estava sobre o galho em que estava de cócoras. Com seu rosto completamente coberto por seus fios negros que soltaram-se em algum momento da perseguição, ela sorriu. Havia naquele sorriso maldade o bastante para fazer qualquer humano hesitar. Os soldados ergueram suas armas enquanto formavam um círculo ao redor da árvore, alguns tremiam de frio mais que os outros, tanto que as armas balançavam sobre suas mãos como uma xícara na mão de um idoso com Parkinson. Seu sorriso se alargou à cena.
O primeiro planador falhou. As engrenagens internas fizeram um som estranho e fumaça começou a sair das brechas do veículo. As janelas trincaram e embaçaram-se quando o frio o tomou por completo, congelando-o. Antes de cair no chão e quebrar como um carrinho de brinquedo, o som de uma respiração abafada e desesperada pode ser ouvida dos autofalantes; o último suspiro de vida que deixava o corpo de algum dos tripulantes da aeronave.
Não houve um comando para disparos, mas um consenso silencioso entre os soldados. Os projéteis vieram zunindo até a amorfa, mas antes que se quer pudessem a tocar eles simplesmente pararam. Flutuando no ar como beija-flores bem treinados, as balas prateadas inverteram sua trajetória antes de voltarem rápidas àqueles que lhes atiraram. Dos quatorze soltados, apenas quatro conseguiram desviar de sua própria munição; os outros, talvez pelo frio ou assombro, foram lentos demais para tal e acabaram jogados no chão sem poder se mover.
— Retirada! – Gritou a voz do segundo planador que com dificuldade permanecia no ar.
— Ninguém irá sair. — Ela disse num sussurro, sussurro que reverberou em cada canto, como as palavras de uma assombração.
O segundo planador caiu quase no mesmo momento em que os pés de Nahema tocaram o chão.
Dois dos soldados tentaram ataca-la com as próprias mãos, mas ela apenas desviou de seus lentos golpes sem qualquer dificuldade. Os outros dois estavam estáticos de pavor. A amorfa sabia que eles nunca haviam visto um ser como ela, eles nunca haviam enfrentado alguém assim.
Um dos soldados tentou desferir um soco no rosto da morena, porém quando estava próximo de acertar ela apenas segurou sua mão. Ele tentou puxar seu punho para soltar-se do aperto gelado da pele da garota, ao ver que não conseguia mover nem mesmo um centímetro ele tentou empurrar; o efeito foi o mesmo. Ele estava preso, sentindo sua mão ficar cada vez mais gelada. Primeiro o formigamento em seus dedos como se o sangue estivesse lentamente indo embora de sua mão, depois a queimadura. Onde os dedos e a palma da mão de Nahemah tocava, o soldado sentia queimar. O grito do homem soou histérico enquanto sua mão começava a perder a cor, congelar e inchar, com o efeito expandindo-se para seu braço, necrosando aos poucos seu membro. O soldado perdeu a própria sustentação caindo de joelhos em meio à lágrimas e pedidos de piedade.
Ela olhou de esguelha para os outros três, todos fitando a cena sem conseguir desviar sua atenção. Ela podia notar que tentavam arrastar os pés para longe, talvez para tentar fugir, mas o medo havia os tomado. Eles haviam a visto, haviam visto o puro medo. Mesmo que fugissem ainda viveriam imersos naquela lembrança.
Nahemah apertou a mão congelado do homem, ele gritou com mais vigor e agonia enquanto seus dedos faziam um som excruciante de quebrado. Ela soltou sua mão e deu um passo agachando-se à frente do homem. Ele tremia de frio, de medo, de dor. Seus lábios estavam roxos, sua pele tinha perdido a cor, por toda a sua pele havia uma fina camada de gelo e neve, como se ele tivesse escalado uma enorme montanha ártica. As lágrimas em seu rosto congelavam-se ao escorrerem por sua face, seu braço direito havia neecrosado e sobre ele estava uma camada mais grossa de gelo tornando-o pálido como a neve. Ela passou a mão sobre a bochecha dele, seus frios dedos deixando um rastro de queimado sobre a pele morena do homem. Mais gritos.
Ela pode sentir seus olhos tornando-se vermelhos, as pupilas dando lugar a cor rubra da íris enquanto sua esclera é inundada por uma coloração preta, como seu sangue, o qual parecia correr mais rápido enquanto aos poucos escureciam sobre sua pele alva, mas não o bastante para se ressaltarem tanto sobre ela.
— P-p-p-por... fa-f-f-fa-fav... – Ele não teve a chance de terminar a suplica, Nahemah havia tocado em seu peito, na direção do coração. O homem se engasgou nas palavras enquanto em poucos segundos seu corpo tornava-se roxo e meio inchado. Com um baque surto o soldado caiu no solo.
Ela levantou-se, seu olhar voltado para os três humanos restantes. Um deles havia caído no chão e parecia estar vomitando. Tão fracos eles eram, pensou a garota.
Atrás de si três grandes estacas de gelo surgiram voltadas como setas na direção de cada soltado remanescente, incluindo aqueles caídos imóveis — estas foram as primeiras a cair atravessando os corpos e cravando-se com facilidade no chão. A terra abaixo onde os corpos estavam tornou-se vermelha e o cheiro metálico invadiu todo o âmbito. Aquele cheiro lembrou-lhe o sonho.
À frente, os três soldados pareciam entrar num colapso estático. Um deles ainda vomitava, o outro apenas olhava tudo ao seu redor com os olhos arregalados de pavor, o terceiro implorava por misericórdia. Eles nunca tiveram misericórdia de nós, por quê eu teria deles?
— Peça por misericórdia no inferno. – Falou a garota com um sorriso no rosto e pronta para fazer as estacas atravessarem as cabeças daqueles seres.
Mas, antes que pudesse mover seus projéteis de gelo o cheiro não-inidentificável que sentira antes voltou. Agora não era apenas um ligeiro aroma como uma flor, era como um campo gigantesco de flores ao seu redor. As três estacas restantes se desfizeram em uma nuvem gelada e voaram para as pernas dos homens onde se sublimou, prendendo-os ao chão.
Ela varreu com os olhos tudo ao seu redor, as suas veias pulsando cada vez mais enquanto aos pouco enegrecia mais e mais.
“Deixe-se consumir.”, mais uma vez recordou-se. Agora as palavras surgiam como um aviso; um alerta para que ela não passasse dos limites. Limites estes que estavam muito próximos, por sinal.
Seus olhos voltaram ao tom azul-acinzentado de sempre, sua esclera voltou a branquitude, suas veias não mais apareciam sobre a pele pálida. Nahemah arrumou a mochila sobre as costas e fitou os três guardas restantes. No momento em que ia soltá-los para que fugissem tudo tornou-se uma confusão.
Uma sombra enorme pulou sobre um dos guardas que em meio à gritos era desmembrado e comido pelo que Nahemah percebeu ser um lobisomem. Outra sombra caiu sobre outro guarda, ele também gritava, mas não parecia haver tanta selvageria em sua morte já que seu assassino era um vampiro. E então o terceiro também fora atacado. Um homem tocava-lhe a testa enquanto aos poucos o soldado parecia envelhecer, ou melhor, parecia ter todos os nutrientes e órgãos do corpo sugados até que se assimilasse à uma múmia. Um Carnívoro o matava.
Ela olhou ao redor vendo que outros seres estavam atacando os soldados mortos no chão. Exatamente como animais com fome eles não preocupavam-se com outra coisa além de terminar a sua refeição.
Nahemah estava começando a ficar enjoada com aquela cena toda quando se deu conta de duas coisas. A primeira, o cheiro estranho vinha daquele grupo. A segunda, como diabos haviam tantos amorfos juntos ali?
Como se quisessem responder a pergunta dela – de uma forma não tão delicada –, uma fumaça arroxeada surgiu ao seu redor e assim que a inalou tudo pareceu rodar. As cores perderam o tom, os sons se embolaram em uma profusão de vozes e barulho de motor vindo de longe, suas pernas bambaram antes dela tropeçar em algo e cair de bunda no chão.
— Mas o que...? Mais fumaça, Viper. – A voz de alguém proferiu de uma forma engraçada junto de mais outras vozes que pareciam se agrupar ao seu redor.
As imagens já não faziam sentido e tudo parecia ser feito de trevas. Algo a tocou, mas logo a liberou do toque em palavras que pareceram xingamentos. Ela sentiu o cheiro doce da fumaça roxa novamente e de repente não havia mais formatos nas trevas, nem vozes, nem toques. Tudo perdeu-se enquanto ela desfalecia, apenas entendeu uma frase antes de perder a consciência:
— Vamos levá-la.
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