Gwen Savage e o Nariz de Prata - Interativa
11 Você me concede essa dança?
Notas iniciais
Tina estava conversando com Nick em um canto, e parecia ser algo preocupante. Mas estava muito distraída para dar a devida atenção àquilo. Estava olhando para o nada. Pensando em Sophie, em meus irmãos... Minha vida antiga parecia tão distante. Henry estava sentado ao meu lado, e apesar de sentir o seu olhar, os meus pensamentos me consumiam por inteiro, de maneira que eu não me incomodava ou me voltava para ver o que havia com ele. O ataque das bestas havia sido realmente inesperado e assustador. Nick havia sido o mais ferido, e Henry tinha apenas alguns arranhões que já haviam sido tratados por Hout, o que me tranquilizava bastante. Era quase como um sonho imaginar a minha vida antes daquele lugar terrível, os colegas na escola, a faculdade, minha família... Henry finalmente se pronunciou.
– No que está pensando?
Voltei-me para ele, assustada. Ele repetiu a pergunta. Enrubesci e balancei a cabeça.
– Não é nada. Bobagem. – disse. Ele ergueu uma sobrancelha e sorriu de canto.
– Vamos, diga. Por favor.
– Já disse que não é nada. Besteira.
– Por favor – ele insistiu. Corei e comprimi os lábios, sorrindo timidamente.
– Está bem, mas é besteira... É que, antes de vir para cá, eu estava prestes a me formar e, sabe como é, toda garota sempre sonha com o baile de formatura... Todas as luzes, e o ponche, as conversas, o momento em que se sente linda e única, as danças... – detive-me ao perceber que meus olhos brilhavam e que eu falava com um ar sonhador, e corei ainda mais. Ele sorriu e abriu a boca, mas mudou de ideia e a fechou. Encorajei-o com o olhar e ele suspirou.
– Estava pensando... Já que perdeu a sua formatura, eu achei que... – balançou a cabeça negativamente – Não, estou fazendo isso errado. Gwen, você me concede essa dança?
Encarei-o, surpresa. Balbuciei algo que nem eu mesma compreendi, e ele sorriu de canto.
– Vou considerar isso como um sim.
Então ele tomou as minhas mãos e me levantou de modo galanteador. Um pouco sem jeito, deixei que ele me conduzisse.
– Vamos dançar sem música? – sussurrei.
– Oh, não – ele respondeu – Não sou nenhum cantor, mas aqui embaixo se usa o que se tem...
Ri baixinho e continuamos a dançar, enquanto ele cantarolava Can't Help Falling In Love, e corei ao imaginar que ele queria realmente dizer aquelas palavras, mas rapidamente afastei esse pensamento. Quando a canção acabou, ele segurou a minha cintura e a aproximou dele. Ficamos observando-nos um ao outro, dois pares de olhos brilhando, dois corações batendo e dois rostos ocupando tudo o mais, porque, às vezes, o amor resume-se à esse estado de torpor que se sente ao simplesmente olhar para alguém, à simples, mas sincera, troca de olhares entre duas pessoas. Não devia acabar. Mas acabou, porque havia outras pessoas ali que estavam nos observando em silêncio enquanto eu tinha o meu baile de formatura. Desviei o olhar, sem querer ser quem soltaria as mãos. Decidimos não soltar. Nick pigarreou, e todos se voltaram para ele.
– Sinto interromper isso aí, mas tivemos uma ideia.
– Tivemos? – Tina ergueu uma sobrancelha, e estranhei ao notar que estava mais pálida que o habitual.
– Sim – ele olhou para ela – Eu e você. Gwen segurou na grade com as duas mãos. Se houvesse segurado com apenas uma, não haveria tomado um choque e caído. Portanto, se alguém que dispõe da força necessária munido de uma pedra, pensamos em Jeremy, essa pessoa poderá subir e arrancar a grande usando apenas uma mão, sem levar choque algum. Os outros subiriam atrás e todos se esgueirariam pelos dutos até encontrarmos uma saída.
Por um lado, senti-me um pouco estúpida por não ter pensado em segurar com uma só mão. Mas a minha felicidade e expectativa eram tão grandes que encobriram esse sentimento. Todos concordamos, e decidimos que esperaríamos apenas algumas horas para que nos recuperássemos do ataque e nos preparássemos para a fuga. Henry sorriu e se afastou para ajudar Jeremy a planejar nossos próximos passos. Aproximei-me de Tina.
– Não está feliz? Sair daqui e voltar depois de três anos... Eu com certeza estaria mais animada. Quer dizer, as suas perspectivas para a vida aqui com certeza seriam bem obscuras, mas agora poderá voltar e fazer tudo o que tinha planejado.
– É – ela respondeu, sem convicção. Encarei-a com curiosidade e ergui uma sobrancelha.
– Por que falou desse jeito? – perguntei.
– Por nada.
– Tina, por que falou daquele jeito?
Ela comprimiu os lábios, mas continuei insistindo.
– Porque vou morrer! Vou morrer daqui a uma semana, Gwen, fui atingida por um espinho! – ela respondeu, irritada. Abri a boca e a fechei, encarando-a sem conseguir me mover. Não podia chorar. Não podia. Tinha de ser forte. Por ela.
– Oh, Tina – foi o que eu disse.
– Por isso eu não queria dizer – ela murmurou – Porque agora vou passar a última semana de minha vida sendo tratada como um defunto.
– Não vai não – disse, convicta e tentando evitar que minha voz tremulasse. – Agora levante-se daí agora e venha, vamos fugir.
Ela sorriu e me olhou de maneira agradecida, mas era porque não sabia que conforme eu subia, chorava silenciosamente.
Subimos todos, eu tinha apenas Georgia atrás de mim e todo o resto em cima. Jeremy logo chegou ao local, e todos se detiveram, tensos. Ouvi o barulho da pedra se chocando com o metal repetidas vezes, e a respiração ofegante de Jeremy. Após algumas dezenas de murros, ele envolveu a grade com uma das mãos e a puxou com toda a força que tinha. Para a surpresa geral, funcionou. Olhei, estupefata, enquanto a grade caía no chão com força. Então, como os outros, entrei no tubo. Rumo à liberdade.
Fale com o autor