Gwen Savage e o Nariz de Prata - Interativa
8 Segredos
Notas iniciais
Catherine sentou-se ao meu lado, e não me voltei para ela. Estava encarando as minhas mãos, repletas de ataduras ensanguentadas. Estavam latejando, mas a dor se havia reduzido consideravelmente com os curativos que Hout fizera. Ao que parecia, ela era um gênio de dezesseis anos e estudante de medicina. Henry insistira em ficar sentado ao meu lado me observando fazer absolutamente nada para “certificar-se de que eu estava bem”, mas eu o dispensei. Estava muito assustada, e por mais que a companhia de Henry fosse maravilhosa eu não queria ninguém por perto. Por isso me surpreendi quando Catherine tomou a liberdade de se juntar a mim no meu momento de encarar o nada. Estava formulando alguma desculpa para tira-la dali quando ela rompeu o silêncio.
– Preciso falar com alguém, Gwen, não estou aguentando mais. Isso me incomoda desde que cheguei, e achei que você fosse a mais indicada para me ouvir. – ela despejou as palavras como o ar saindo de uma bexiga, rapidamente e com certo desespero. Observei-a com curiosidade e me ocorreu que talvez fosse sobre o seu comportamento estranho que ela me falaria. Estava certa.
– Pode falar – eu disse, ignorando a desculpa formulada que insistia em aparecer em minha mente. Estava realmente curiosa. Ela mordeu o lábio inferior, talvez imaginando como falar a informação que me daria em seguida. Olhou para Jeremy com certo temor, como se ele a estivesse escutando ou observando – coisa que não estava. Então ela suspirou.
– Eu o conheço – disse, rapidamente.
– Sim, todos nós. – eu disse, estupidamente.
– Não, Gwen. Eu já o conhecia quando ainda não estava... Nesse lugar. – ela disse. Ergui uma sobrancelha. Não sabia porque aquilo a incomodava tanto.
– E qual é o problema?
– Ele provavelmente não se lembra de mim, faz um tempo, mas deve se lembrar do meu irmão mais velho, Patrick. Patrick, ao fazer dezesseis, estava em uma fase um pouco confusa. Estava como que se rebelando contra o mundo e tudo o que havia nele. E foi nesse período que ele conheceu Jeremy... Mas ele não era desse jeito, como é hoje. Ele... Ele bebia, e brigava, e se metia em todo tipo de problema, e começou a atrair o meu irmão para a mesma situação. Algum tempo depois de meu irmão tornar-se um segundo Jeremy, aconteceu algo horrível. Estavam os dois no bar, bêbados, e eu estava indo levar o meu irmão para casa com o meu pai. Quando chegamos lá, os dois estavam brigando feio. – ela balançou a cabeça, como se tentasse afastar essas lembranças – Meu irmão caiu, e Jeremy foi embora antes que meu pai pudesse fazer qualquer coisa. Eu nunca mais o vi, até... Esse lugar. E meu irmão? Nunca mais andou sem coxear.
Abri a boca, perplexa. Olhei para o meigo e educado Jeremy, e qualquer imagem dele bebendo e brigando parecia inconcebível. Comprimi os lábios e suspirei.
– Isso é horrível, Catherine. Talvez devesse falar com ele.
– Falar com ele? – ela disse, um pouco mais alto que esperava. Os outros olharam para nós. Ela corou e repetiu a pergunta num tom mais baixo – Falar com ele? Só pode estar brincando. Ele parece ter mudado, mas não quero aflorar sua antiga personalidade. Só não consigo ficar perto dele sem lembrar de tudo, sentir o bafo azedo de cerveja... Não sei o que fazer. Mas falar com ele não é uma opção.
– E se eu falasse com ele?
– Não! Ele saberia que eu contei e viria tirar satisfações comigo, e eu não suportaria isso – ela disse, e vi desespero em seus grandes olhos.
– Eu posso arranjar um jeito dele não fazê-lo. Mas alguém precisa falar com ele, e eu acho que deve ser você. Mas se não consegue, eu o faço em seu lugar. Só precisa confiar em mim. – sorri, e ela não pareceu muito convencida. Passou a mão no ralo cabelo castanho e suspirou, cedendo.
– Mas, por favor, não diga que eu te falei...
– Confie em mim – cortei. Decidi falar depois de comer. Hout estava novamente distribuindo aqueles biscoitos quadrados, e, embora sem apetite algum, forcei-me a engolir o meu. Assim que terminei, caminhei até Jeremy e disse que precisávamos conversar. Henry lançou um olhar suspeito, mas quando viu que eu tinha notado fingiu que agia casualmente. Sorri de canto e corei, mas tinha mais no que pensar no momento. Jeremy me olhava com expectativa. Eu não falava muito com ele.
– Então. Sobre o que precisa falar comigo? – ele perguntou, amolando a lâmina da lança sem que isso fosse realmente necessário. Arrumei os óculos no nariz, sem saber ao certo o que falar. Então respirei profundamente e tomei coragem.
– Há alguém aqui que diz ter te conhecido. Antes de vir parar desse lugar.
Ele ergueu uma sobrancelha e riu, embora eu tivesse captado um pouco de nervosismo em sua risada.
– E o que há de mal nisso? Além disso, não é certo que tenha me conhecido mesmo. O meu rosto é comum. – ele disse, tentando soar confiante.
– Acho que não é o caso – eu disse, gravemente. Mordi o lábio inferior. – Eu não vou dizer quem é, mas essa pessoa está um pouco... Incomodada.
– Incomodada? E te mandou aqui para pedir que eu me mandasse?
– Não! Jeremy, fique calmo! Ninguém mandou nada, eu vim porque me senti na necessidade.
– E porque haveria uma necessidade? Não vejo o que há de tão errado em já ter me visto antes. – ele disse, cruzando os braços.
– Acho que há sim, se eu disser a você que essa pessoa o conheceu quando tinha cerca de dezesseis anos.
Ele empalideceu um pouco, mas fingiu que não acontecera.
– E o que há de especial nessa idade?
– Essa pessoa te viu brigando, e bebendo, e afins! – deixei escapar, irritada. Arrependi-me imediatamente ao ver o efeito que as palavras produziram sobre Jeremy. Ele empalideceu ainda mais e pude ver medo e vergonha em seus olhos claros. Retesou os músculos do braço e enrijeceu o maxilar. Abri a boca para dizer algo, mas ele me cortou antes.
– Quem foi que te disse isso tudo? – perguntou.
– Não importa quem me disse isso...
– Importa. Importa sim, Gwen, você não faz ideia do quanto isso importa – ele insistiu, pressionando-me com o olhar. – Eu... Eu preciso... Falar com essa pessoa. Eu mudei, Gwen. Eu não sou mais assim, você precisa acreditar em mim! Eu não faço mais isso, garanto a você que...
– Ei! Fique calmo! Calmo! – interrompi, segurando o seu ombro. O seu lábio inferior tremia um pouco. – Eu acredito em você, Jeremy. Não só sei que mudou, como o vi com os meus próprios olhos. Você é uma pessoa boa...
– Mesmo? – ele replicou, respirando pesadamente – Então por que a pessoa que me conhecia não teve nem mesmo coragem de vir falar comigo? Por que não veio ela mesma, ao invés de você? Não precisa responder, Gwen, nós dois sabemos o porquê.
– E qual seria? – cruzei os braços.
– Porque ninguém acredita de verdade! – ele estava ficando mais nervoso – Ninguém! Você diz que acredita, essa pessoa diz, todos disseram! E no fim, é só para “apaziguar a fera”! Porque tem medo de que eu volte a fazer o que fazia se me desagradarem! E isso me mata, Gwen, me mata!
Ele se afastou e não se voltou quando chamei o seu nome. Fechei os olhos, odiando a mim mesma por não ter sido mais compreensiva. Nunca o havia visto tão alterado, e nunca imaginei que algo o pudesse abalar tanto. Suspirei e fiquei ali em pé, encarando o nada. Henry se aproximou e tocou o meu ombro.
– O que aconteceu? – perguntou.
– Não importa, Henry – respondi, um pouco grossa. Logo em seguida balancei a cabeça negativamente – Quer dizer, me desculpe. Só estou um pouco... Ah, eu nem sei o que estou. Acho que reabri feridas muito profundas, que haviam apenas começado a cicatrizar.
– Do que está falando?
– Faça algo por mim – eu disse, voltando-me para ele. – Não peça que eu fale tudo outra vez. Mas sim, abrace-me e me fale sobre a sua vida antes desse lugar.
– Está bem – ele disse, um pouco surpreso, e assim o fez.
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