Notas iniciais
Acordei com uma dor aguda na nuca. Estava deitada em um chão de pedra, úmido, e a escuridão me impedia de tentar descobrir onde estava. Podia ouvir uma respiração agitada, como se alguém estivesse tendo um pesadelo, e levei um tempo para perceber que a respiração que eu ouvia era a minha. Tentei me sentar, mas a minha cabeça bateu em uma outra superfície de pedra. Gritei e passei o indicador no ponto de minha testa de onde passara a escorrer um filete de sangue. Desesperada, confirmei a minha hipótese ao tatear o espaço em ambos os lados e verificar que só havia mais pedra. Entrei em pânico, ofegando, até que me forcei a manter a calma. Pensar. Não podia estar enterrada, ou estaria morta. E para eu conseguir respirar, devia haver alguma fresta que eu não conseguia encontrar. Voltei a tatear as superfícies irregulares de pedra que me cercavam, e acabei por encontrar um buraco do tamanho de um punho grande na parede esquerda, perto de minha costela. Enfiei a minha mão para fora com esforço, o que provocou pequenos ferimentos, e comecei a tatear o lado de fora. Parecia haver algo entalhado na pedra, mas eu não conseguia entender o que era. Devia haver alguma fechadura, qualquer coisa... Estiquei a mão um pouco mais e tateei a tampa da caixa de pedra, até encontrar uma espécie de esfera lisa de pedra. Verifiquei que podia ser girada com facilidade, e que havia um pequeno buraco na parte superior. A chave devia ir ali. Praguejei. Minha vida não era um filme clichê e eu não ia achar um graveto que substituiria a chave e abriria a caixa. "É o fim" pensei. Enfiei minha mão para dentro e desejei estar em qualquer outro lugar. Até que ouvi a esfera sendo rolada e a caixa foi aberta. Olhei, assustada, para a aparência de minha "salvadora". Onde deveria haver cabelo, havia apenas uma grande tatuagem representando um emaranhado de flores. Mas não flores belas, mas sim murchas e estranhas. Tinha olhos e lábios escuros, e vestia uma espécie de macacão. Não obstante, o que era realmente peculiar em sua aparência era o fato de que metade de seu rosto era de metal. Notei a chave na esfera, uma espécie de palito de metal. Ela a tirou dali e enfiou a chave em um dos bolsos do macacão. Examinou-me com desdém e depois sorriu, como se eu fosse um estudante entrando na selva do Ensino Médio.
– Quem... Quem é você? — perguntei, sentando-me com esforço.
– Não importa — ela respondeu. O timbre de sua voz era levemente metálico. — Quem é você?
Pensei em responder "não importa", mas algo me fez pensar duas vezes.
– Gwen Savage. — respondi. Ela riu.
– Pobre Gwen, condenada a sofrer eternamente. — disse.
– O quê? — perguntei, e não obtive resposta. Ela apenas se voltou e começou a caminhar. Tentei segui-la, mas de alguma maneira logo a perdi de vista. Observei o local no qual me encontrava. O chão era de pedra, e era só o que se via. Uma névoa escura impedia que se enxergasse muito além, e de cerca de cinco em cinco metros havia um poste de luz do meu tamanho, emitindo um brilho pálido, assustador e inútil. Eu não fazia ideia da direção para onde ela tinha ido, mas decidi que ficar parada não era uma boa ideia. Comecei a caminhar, e comecei a me assustar que mesmo após cerca de uma hora caminhando em silêncio a paisagem não mudara. Era como se eu não saísse do lugar. Parei para descansar, sentando-me no chão de pedra, e esfreguei as minhas têmporas, numa tentativa infrutífera de me lembrar o que acontecera no dia anterior. Enterrei o meu rosto nos joelhos, soluçando, e sentia que alguém, longe dali, estava olhando para mim e rindo com escárnio. Foi quando ouvi o som de algo caindo no chão. Longe, mas era alguma coisa. Levantei-me e comecei a seguir a direção de onde o som viera. Estava quase chegando quando um pedaço de pau atingiu a minha cabeça e eu caí. Gemi, e uma figura se aproximou de mim. Era difícil ver com aquela névoa, mas pude ver que era uma garota, talvez um pouco mais nova que eu. Seu cabelo era castanho e curto, e o rosto era coberto de sardas. Tinha olhos escuros e vestia um macacão semelhante ao da mulher que eu encontrara. Assustei-me ao ver que eu também o vestia.
– Sinto muito! Está escuro, não sabia se era um ser humano. — ela disse, ajudando-me a levantar. Não sabia se era um humano? O que mais poderia ser? O pensamento me assustou. — Você acabou de chegar?
– Há cerca de uma hora — eu disse, esfregando o local onde o pedaço de pau me atingira. — Onde estou? E por que estou aqui? Quem é você é quem era aquela mulher?
– Calma! Vai com calma! Não sabemos onde e porque estamos aqui, mas o protocolo é sempre o mesmo. O caixão de pedra com o furo, a mulher misteriosa, a quem chamamos "Porteira", a dor na nuca... Estamos todos presos nesse lugar sem fim com bestas e criaturas horrendas. "Condenados a sofrer eternamente", ela diz, e é o que parece. Sou Tina Murphy. É você, quem é?
Fiquei em silêncio por alguns instantes antes de responder, ruminando o que ela dissera.
– Gwen Savage. — disse, finalmente. Tina tomou a minha mão e pegou o que eu ouvira cair no chão, uma pedra entalhada para parecer um macaco.
– Bem-vinda, Gwen. Vem, vou te mostrar os outros.
Fale com o autor