Notas iniciais
"Odeio circo. Aliás, odeio tudo o que me encanta e depois vai embora." - Caio Fernando Abreu.

A primeira coisa que vi ao abrir os olhos foi o céu. O céu límpido e azulado, com um brilhante sol lançando raios para todo o mundo e nenhuma nuvem. Era uma sensação incrível depois de quase uma semana na prisão de pedra. Pisquei mais algumas vezes, para me certificar de que era real. Ri sozinha, e, com certo esforço, sentei-me. Estava deitada na grama, assim como os outros. Havia sido a primeira a acordar. Olhei ao meu redor e pisquei mais uma vez, pois não parecia real. Deixei escapar um suspiro surpreso e me levantei. Não havia Santuários, ou paredes cinzentas, ou mesas de metal ou a minha casa. Mas sim tendas coloridas, com plaquetas igualmente coloridas, repletas de jogos e prendas, as plaquetas indicando nomes de brincadeiras ou atrações. Ao longe, eu podia ver a tenda gigantesca onde ficava o picadeiro. Havia duas torres de metal gigantescas, com escadas próprias para pessoal de limpeza ou quem mais se aventurasse a subir, que sustentavam uma placa gigantesca e que provavelmente se iluminava pela noite. O chão era de grama, e em certos locais podia-se ver uma ou duas flores e pedregulhos.

– Minha nossa – Georgia, que também havia acordado, estava em pé ao meu lado, tão estupefata quanto eu – Ele caprichou dessa vez.

Acordamos aos outros juntas, e todos entraram no mesmo estado de torpor e curiosidade que nós.

Ao observarem o novo ambiente, deixavam involuntariamente escapar interjeições que indicavam surpresa. Não era a minha casa, mas em comparação à prisão antiga aquele lugar era incrível. Era lindo, e exalava alegria. Mas tendo sido feito por Nariz de Prata, esperávamos encontrar todo tipo de monstruosidade mascarado pelos panos e placas coloridas. Toda a alegria desapareceu quando me lembrei de Sarah. “Você há de sentir na própria pele”, Nariz de Prata dissera. Advertira-me, dizendo que não eram meus amigos. Talvez ela não fosse, mas eu me recusava a acreditar que o mesmo valia para os outros. Quando o gás que nos fez desmaiar começara a ser liberado, não era a ele que eu dava atenção, mas sim ao rosto de Sarah que me encarava como se pedisse perdão. Mas eu nunca a perdoaria por nos trair daquela maneira. Ela havia sido fraca, e o excesso de pressão não era desculpa. Eu havia resistido, ela também poderia. Mas de qualquer maneira, estava perdida. Henry se aproximou. Havia alguns fiapos de grama perdidos em seu cabelo escuro, mas ele não parecia ligar. Mesmo sujo, enlameado e suado, conseguia parecer encantador. Imaginei que o mesmo não valia para mim, e estremeci ao pensar que não tomava banho e usava o mesmo macacão há uma semana. Henry? Sete meses. Fiz uma prece silenciosa de que a higiene fosse mais possível no novo ambiente. Decidimos que daríamos uma volta para conhecer o lugar, Jeremy e Henry sempre preparados para enfrentar o que quer que aparecesse em nosso caminho. Fui observando as tendas. Sorri ao imaginar a mim mesma, alguns anos mais nova, jogando em barracas parecidas com aquelas. Em como os funcionários do circo sempre faziam com que eu vencesse mesmo que eu claramente não o tivesse feito. Em como minha irmã ficava contrariada ao nota-lo, e argumentava com ares de importância sobre como a honestidade era essencial, até que o funcionário lhe dava uma prenda também, assim ela se calava. Estava tudo em perfeito estado, limpo e bem cuidado, e o grupo sujo e fedorento que atravessava o local contrastava incrivelmente com este. Dei uma segunda olhada na grande placa. “Circo e Acampamento Circense Fratello”, ela dizia. Circo e acampamento circense? Então aquele lugar funcionava, ou chegaria a funcionar? Era estranho imagina-lo, já que tudo estava completamente deserto. Estávamos andando na direção das torres, e ao nos aproximarmos vimos que havia uma espécie de galpão coberto ao seu lado. Havia uma plaqueta tão colorida quanto as outras, na qual se lia “Sala de Ensaios”. Ouvimos música saindo de lá, do tipo animado que Susie, minha irmã, costumava dançar. Entreolhamo-nos. Podia ser uma armadilha, ou não. Concordamos – sem dizer uma palavra – que entraríamos, seguido aos dois caçadores. A porta já estava entreaberta, e o vidro das janelas completamente aberto, já as persianas estavam fechadas. Jeremy empurrou a porta. O chão era de madeira, tão coberta de cera que brilhava. Dos dois lados da porta de entrada havia espécies de recipientes retangulares com um pó esbranquiçado que reconheci como o breu que as bailarinas usam em suas sapatilhas. Havia arquibancadas de um dos lados, e espelhos como os de sala de dança no outro. Em um canto, havia bolas, pinos e todo tipo de coisa, e um rádio conectado à tomada e a auto falantes era a fonte da música. Mas isso não era tudo. Do teto, pendiam tiras de tecidos... E uma delas estava ocupada. Ela se contorcia e fazia todo tipo de acrobacia suspensa no ar pelo pedaço de tecido, agarrando-se a ele e movendo-se com tal leveza que era como se este fosse parte dela. Era a típica garota invejável. Apesar de não estar em pé no chão, parecia ser alta. Era atlética, mas em uma medida razoável. Tinha a pele perfeita e clara, e o cabelo branco era curto como o de meu irmão. Ela amarrara nele um lenço vermelho. Os olhos eram azuis e profundos, alegres e gentis, e os traços em geral eram bem delicados. Tinha dois furos e alguns piercings em cada orelha, e vestia uma camiseta e calças coloridas como o resto do local. Ao nos ver, sorriu satisfeita e aterrissou com graça na madeira. Levantou-se, batendo nas pernas para livrar-se de pó inexistente, e caminhou na nossa direção. Então deteve-se e olhou para Henry, estupefata. O olhar foi retribuído, mas com a adição de admiração e carinho. Quase vomitei.

– Henry! – ela exclamou, e correu em sua direção. Os dois se abraçaram afavelmente, talvez afavelmente demais, e se encararam incrédulos por alguns instantes.

– Vanessa, você mudou – ele disse, rindo. Ela coçou a cabeça e mordeu o lábio inferior.

– Eu sei – respondeu – Não vai aprovar as decisões que tomei desde que nos vimos... Mas tudo está diferente em minha vida.

– Como assim? E a faculdade?

– Eu a larguei. Larguei tudo. – ela suspirou, e os dois conversavam como se fossem os únicos ali. Eu queria morrer – Passei um mês lá... E decidi que não era para mim. Eu me sentia péssima, todas aquelas pessoas me encarando e querendo que eu fosse exatamente igual aos outros. Falei sobre isso com meus pais, mas eles não entendiam. Queriam que eu fosse advogada, como eles, que me casasse com alguém que eles aprovassem, que tivesse uma filha e que a obrigasse a ir para a faculdade, como eles. Eu simplesmente não podia aguentar. Brigamos feio, e foi quando eu fugi. Sei que não concorda, mas eu tinha que fazer isso. Não aguentava mais aquela vida. Então fugi e passei a trabalhar em um restaurante de estrada, e morar em um hotel. Foi quando cortei o cabelo e fiz os piercings, queria esquecer de tudo que se relacionasse à pessoa que eles queriam que eu fosse. Então o circo passou na cidade onde eu estava, e fiquei encantada. Juntei-me a eles, aprendi todas as suas especialidades e passei a viajar para todo tipo de lugar... E é incrível.

– Nunca falou com eles desde então? – Henry ergueu uma sobrancelha, e falou gravemente. Ela suspirou e negou com a cabeça.

– Não espero que me entenda. Sempre foi um bom garoto, não um “cara de circo”. O que me leva à pergunta. O que está fazendo aqui? – ela disse rindo, o que me fez erguer uma sobrancelha e a encarar, atônita. Henry fez o mesmo.

– Do que está falando?

– Do que você está falando! Isso aqui é um acampamento circense no fim da primavera, como está escrito na placa lá fora. Por isso estou aqui! O homem passou no nosso circo há uma semana falando sobre esse acampamento, então os donos do circo acharam bom que eu viesse e aperfeiçoasse meus talentos. Mas você? O que está fazendo aqui, tem interesse pelo circo? Eis algo de que eu nunca suspeitei!

– Acampamento? Foi o que ele te disse? – Henry disse, surpreso. – Isso não é um acampamento, Vanessa. É uma prisão.

Ela riu sonoramente.

– Já vi que pretende ser o palhaço. Prisão? Que tipo de prisão não tem guardas, mas sim um grande portão? – exclamou. – Todos vocês pensam isso?

– Não pensamos, é fato – Tina disse, cruzando os braços – Saímos da prisão de pedra, onde fomos torturados por Nariz de Prata, e agora estamos aqui, na prisão circense.

– Prisão circense? – Vanessa zombou – Não veem o quão ridículo isso soa? A porta está aberta, se quiserem sair é só caminharem para fora!
– A essa hora, já deve estar trancada – Henry suspirou, desanimado.

– Não sejam ridículos. Venham, vou mostrar. – ela gesticulou para que a seguíssemos. Enfiou os pés em botinas e começou a andar, assobiando. Inseguros e achando tudo aquilo muito estranho, nós a seguimos. Ainda andando, ela se voltou para Henry.

– Henry... Não sei se me perdoou por ter ido embora, eu queria ter ficado com você em Albuquerque, mas meus pais me obrigaram. Eu ainda te amava – ela disse, e seu tom de voz me fez encara-la e a ele com certo desespero, que rezei para que ele não tivesse notado. Ele apenas sorriu.

– Nunca me ressenti com você por ter ido. – declarou, e ela sorriu satisfeita. – Além disso, encontrei muitas outras garotas muito mais bonitas...

Ela riu e socou o seu ombro afetuosamente. Eu disse SOCOU O SEU OMBRO AFETUOSAMENTE.

– Você não mudou nada, Carter – disse, sorrindo de uma maneira tão encantadora que quis enfiar a cabeça na terra e aproveitar a visão. Ou a falta dela. Então ela se deteve e arregalou os olhos, assustada. Os portões estavam fechados, e a eletricidade que emanavam chegava a ser visível. – Estamos mesmo presos...

– Foi o que tentamos dizer – Georgia suspirou.

– Tenho que avisa-los! – Vanessa exclamou.
– Avisar a quem?

– Os filhos dos donos do circo vieram comigo, estão no picadeiro! – ela disse, e começou a correr na direção da grande tenda. Nós a seguimos, tentando acompanhar o seu ritmo. O interior da tenda era como em qualquer filme. As arquibancadas em formato circular, e o picadeiro de terra no centro. Os pilares com as cordas bambas, trapézios, panos, e uma abertura por onde deveriam entrar os artistas.

– Russel! – Vanessa gritou, sem obter resposta. – May! Onde estão vocês? May!

A única resposta – que demorou alguns minutos para chegar, foi um gemido quase inaudível, que ecoou no local e por isso foi escutado. Reparamos em uma figura encolhida em um dos cantos do picadeiro, que nunca teríamos notado se não fosse pelo gemido.

– Russel! – ela, desesperada, correu até o garoto. Nós a seguimos. O tal Russel tinha a pele em um tom belo, quase que dourado, e o cabelo negro espesso como as sobrancelhas. Os olhos eram igualmente escuros, e estavam assustados e cheios de dor – e lágrimas. A camisa branca estava um pouco rasgada e molhada de sangue na região do abdômen, e ele respirava com dificuldade. – Russel, o que aconteceu?

– Fuja! – Russel soluçou – Todos vocês, isso não é um...

– Já sabemos – ela cortou delicadamente, tomando as mãos do garoto, que devia ter minha idade. – Onde está May?

A menção ao nome da irmã fez com que o garoto estremecesse e fechasse os olhos, como se assim pudesse esquecer. Empalideci e desviei o olhar, e Vanessa tapou a boca com as mãos.

– Meu Deus... O que aconteceu?

– Um leão gigantesco, maior que um touro – ele sussurrou – Estávamos aqui, e ele simplesmente surgiu e ela estava perto e... Então avançou sobre mim, mas assim que me deu uma patada deteve-se, como se fosse um autômato, e fugiu.

– Está ferido... O que fazemos? – ela se voltou para Henry, com um quê de desespero na voz.

– Estou começando a faculdade de medicina, mas já sei alguma coisa – Nick disse, dando um passo à frente. – Tem água, ou algo assim?

– Sim, sim – ela disse, levantando-se – Nos alojamentos! Sigam-me!

Ela começou a andar. Jeremy levantou Russel e todos a seguimos. Os alojamentos eram trailers, uma dúzia de trailers prateados com uma área comum onde estava montada uma fogueira – não acesa – e uma mesa com utensílios de cozinha. Embaixo dela havia caixas de suprimentos alimentícios.

– Cada trailer tem um kit de primeiros socorros – ela disse – Vou pegar o meu...

Ela entrou em um dos trailers e voltou com uma maleta branca. Enquanto Nick cuidava de Russel, nos sentamos nos troncos ocos que serviam de bancos, ao redor da fogueira.

– Estão acabados – Vanessa disse – Em cada trailer há roupas circenses limpas e um banheiro. Deviam tomar banho e se trocar, também há utensílios para higiene pessoal.

Boas notícias, embora o modo como Henry sorriu para ela tivesse me parecido algo além de agradecimento. Mordi o lábio inferior e entrei no trailer antes que eu batesse nela – e a pior parte: ela era incrível! Se fosse mesquinha, arrogante, chata, tudo ficaria mais simples! Mas era uma garota muito legal. Bufei e fiz como ela dissera. Embora as roupas coloridas ficassem um pouco estranhas em mim, eu as vesti – limpíssimas – de bom grado. Prendi o meu cabelo, ainda molhado, em um rabo de cavalo alto e fiquei sentada sobre a cama por alguns instantes. Bateram na porta e gritei que podiam entrar, então Tina e Georgia se esgueiraram para dentro.

– Oi, garotas – eu disse.

– Oi, Gwen – ambas responderam, em uníssono. Sentaram-se na cama junto comigo.

– Não é estranho – ri, um pouco boba – É como se estivéssemos tendo uma noite de garotas perfeitamente comum.

Elas também riram.

– Então vamos fingir que é assim – Georgia declarou. – O que acharam desse lugar?

– É incrível – Tina admitiu – Embora a perspectiva de ter o meu trailer derrubado por um leão gigantesco não seja muito divertida...

Rimos.

– Sim, com certeza não é. – concordei. – Mas não deixa de ser ótimo. Comida, limpeza... O que será que Nariz de Prata pretende?

– Não faço a menor ideia – suspirou Georgia, afastando uma madeixa castanha dos olhos – Mas não é nada de bom. Ele é realmente louco.

Concordamos com um aceno de cabeça, quando algo me veio à mente.

– Ei, pessoal, onde está Catherine?

Ambas ergueram sobrancelhas.

– Ela estava conosco na sala de controle – Georgia disse – Mas quando acordamos não estava lá... O que terá acontecido com ela? Espero que esteja bem.

– Sim – concordou Tina. – Mas esses assuntos são péssimos para uma noite de garotas. Vamos aos que interessam.

– Garotos – nós três dissemos, e rimos.

– É um pouco bizarro, porque até agora a única que parece ter alguém entre nós é a Gwen. Quer dizer, o Nick é como um irmão mais velho para mim, e a Georgia se dá bem com todos. Mas você, Gwen... Todos viram você dançando com ele. – Tina sorriu de canto. Corei imediatamente.

– Isso é ridículo. Ele não gosta de mim, gosta dela.

– Dela?

– A senhorita Vanessa Perfeição – bufei, enfiando a cara no travesseiro. As duas riram.

– Gwen Savage está com ciúmes – Tina zombou, e Georgia juntou-se a ela.

– Não sejam bobas – repreendi, embora também estivesse rindo. Logo fomos chamadas para comer. Com alguns dos suprimentos das caixas – que eram o suficiente para uns três meses – Vanessa improvisara um jantar, que comemos de bom grado. Russel estava um pouco tonto, mas bem melhor. Nick fizera um bom trabalho.

– Pessoal – Jeremy disse, encarando a cada um de nós – Parece que está tudo bem, mas ainda estamos presos. É apenas uma nova fase do jogo de Nariz de Prata. E o pior... Ainda está por vir.

Notas finais
E assim, inicia-se a fase circo. O que acharam da Vanessa? E do Russel? Curiosidade: Já se perguntaram se é realmente possível alguém ter um nariz de prata? Pois eu lhes digo que é sim! Tycho Brahe foi um famoso astrônomo dinamarquês. Durante um duelo, perdeu o nariz, e o substituiu por um de ouro, passando a respirar somente pela boca! Vejam uma pintura: http://www.datosfreak.org/site_media/upload/tycho_brahe.jpeg Mas enfim. Comentem!