Notas iniciais
Primeira Fic com esse tema, e espero agradar vocês que gostam de fantasia assim como eu ^^

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Aquele quarto era escuro e molhado. O rapaz já estava cansado de ter de esperar ali, apenas observando alguns jarros decorativos e caixas vazias. Estava abafado e as poucas janelas do lugar estavam cobertas por panos. Toda essa restrição o estava deixando louco, a ponto de imaginar coisas completamente absurdas e aleatórias. Mas ele sabia que era necessário. Pois cada ação cuidadosa era essencial para que continuasse vivo, e isso ele sabia bem. Uma guerra mortífera estava acontecendo do lado de fora daquelas paredes cinzentas e mofadas, e tudo que ele precisava fazer era esperar.

Conseguiu ouvir alguns passos abafados não muito longe da única porta que se encontrava ali. Rapidamente voltou e se encolheu no canto escuro em que se mantinha todas as noites. Prendeu a respiração e aguardou com os olhos fixos na entrada. A porta de madeira se abriu com um rangido lento e agonizante, dando visão a cabeça de um homem barbudo e um pouco acima do peso.

- Está aí? – sussurrou, olhando em volta.

O homem entrou inteiramente e tirou uma picareta de suas costas coberta por uma armadura de couro barato.

- Mas que droga, Ita, você está aí?

Foi só aí que o rapaz pôde respirar e sair daquele canto. Sua aparência era quase repugnante. Sua roupa de pano branco estava muito suja e faltavam algumas partes de suas botas; seu rosto magro expressava descontentamento, enquanto seu cabelo castanho e comprido caía de uma forma completamente deselegante sobre seus ombros; poderia se passar facilmente por um mendigo com fome.

- Desculpe, pensei que fosse um soldado – chegou a se surpreender com a própria voz, rouca por causa da sede.

Então o homem abaixou a picareta e olhou mais atentamente para Ita.

- Você está só o farelo, não é mesmo, garoto?

A fome que Ita sentia o impediu de sorrir diante do comentário.

- Vou poder voltar pra casa agora, Mongur?

Mongur suspirou ao abaixar a cabeça e passou uma das mãos sobre a barba ruiva e espessa. Seus olhos pequenos e brilhantes transmitiam compaixão, porém seus músculos continuavam tensos.

- Deveria saber que não existem mais “casas” aqui em Timael. A guerra acabou com tudo e você deve aprender a se cuidar sozinho a partir de agora – aguardou um pouco, mas não houve comentários – Quantos anos você tem, 25?

- Tenho 19! – respondeu, nada surpreso com a falta de perspicácia do amigo.

- Bom, foi o que eu disse – Mongur se esgueirou até as janelas e tentou espiar através dos panos que as cobriam – Acho que já deve estar tudo certo por essas bandas, por isso vim te buscar.

Era isso que Ita esperou dias para ouvir. Certas vezes pensava até que tivessem esquecido ele e estivesse destinado a mofar junto às paredes.

- Isso é ótimo! E pra onde vamos? – questionou sem sequer esconder a empolgação que sentia de finalmente poder sair.

- É Covalk quem sabe – respondeu ainda tentando enxergar algo do lado de fora.

- Covalk?

- Sim, ele foi designado como o principal escoltador.

Ita voltou a fechar a cara. Nunca gostou de Covalk e seu estilo arrogante. Sempre ouvira falarem sobre suas aventuras heróicas, no entanto sempre que o encontrava estava bebendo ou irritando alguma garota. Mongur pareceu notar o desconforto de Ita, pois se apressou em falar com ele.

- Vamos, o dê uma chance. Sua mãe confiava nele...

Sempre havia esse argumento em situações assim. Ainda se lembrava de quando era criança e tentavam fazer com que comesse vegetais. Mongur foi o único que conseguiu, e dizendo a mesma coisa: “Sua mãe gostava de vegetais!”

- Certo, certo. E onde ele está agora?

- Boa pergunta! – Mongur deu uma rápida checada entre as caixas e nos vasos – Acho que já era pra ele estar aqui.

Naquele exato momento a porta se abriu violentamente. Entrou um homem loiro com barba bem feita e expressão determinada. Suas vestes de cor cinza e azul o faziam parecer uma pessoa de alta classe, todavia, era apenas uma impressão. Seu cabelo estava poucos centímetros acima do ombro, dando visão ao brinco de águia na sua orelha esquerda.

Covalk observou os dois à sua frente e foi retirando os panos das janelas enquanto andava.

- Por que o atraso? – perguntou Mongur, que havia sacado novamente a picareta de suas costas com o susto.

- Tive problemas na aldeia vizinha – disse, sem nem olhar para trás.

- Algum sobrevivente?

- Todos mortos.

Mongur sempre foi uma pessoa de bom coração, e, por mais que não conhecesse ninguém de tal lugar, se sentiu mal por isso. Perdeu a família muito jovem quando foram atacados por gigantes em uma montanha e aprendeu a lidar com as perdas na vida da maneira mais difícil.

Quando a claridade encheu a sala depois de Covalk puxar o último pano, Ita teve de tampar os olhos. A luz do sol era uma das coisas que ele mais queria presenciar novamente, mas esqueceu que precisaria se acostumar.

- Orcs, trolls, ogros... Todas essas criaturas malditas são o demônio encarnado – resmungou Covalk se virando para encará-los – E ainda por cima Brynna me disse que os vampiros e os lobisomens pararam de batalhar até que esta guerra maldita acabasse. Então já devem ter uma ideia do quão grave é a situação, não?

- Não podemos perder a esperança! – protestou Ita.

Covalk olhou para ele de forma carrancuda.

- Para alguém que só ficou sentado no quarto todos esses dias é fácil de se falar coisas assim.

Ita jurava que mesmo fraco e abatido poderia ter matado ele naquele exato momento.

- Pare com isso, Covalk! – interveio Mongur – Você só está com raiva pois sabe que Ita é o garoto da profecia.

Covalk fez um gesto de irrelevância e cuspiu no chão.

- Você realmente acredita nisso? São apenas baboseiras.

- Ora, então por que nos ajuda?

- Por causa de Jorunn! – era evidente que Covalk estava começando a perder a paciência com aquela conversa.

Mongur suspirou, cansado.

- Tudo bem. Quando partimos?

- Pode ser agora, ou querem sentar e conversar mais um pouco?

- Escuta aqui, seu... – Ita só não o xingou pois recebeu um olhar repreensivo de Mongur.

- Vamos logo, por favor.

Covalk assentiu e averiguou rapidamente o corredor.

- Me sigam e façam exatamente o quê eu mandar quando eu mandar!

Os três saíram de forma sorrateira, passando por escombros e vários móveis quebrados. Estavam cogitando todas as possibilidades, até de haver alguma criatura escondida esperando eles saírem ou de um soldado ter começado a rondar. Aquele lugar era uma casa de um vilarejo que foi dizimado, por isso decidiram esconde-lo lá.

A ideia era esperar a guerra se dissipar um pouco para começarem a treinar Ita, sendo assim, tinham de deixá-lo em segurança. Já o haviam explicado porque era tão importante, porém, ainda não tinha raciocinado tudo. Fizeram menção a uma profecia antiga e que talvez ele fosse o referido. Era mais fácil aceitar que as pessoas estavam certas do que ter de se encontrar com um soldado e ser recrutado para lutar. Em Timael era assim: antes dos 30 todo homem era obrigado a defender o continente, não importa de qual província fosse. Portanto, Ita precisa se esconder até dos guardas da própria espécie.

Quando saíram da casa, se depararam com várias outras no mesmo estado – destruídas. O chão estava coberto por neve, mesmo com o sol no auge. A estrada que passava no meio do vilarejo se encontrava coberta de sangue em algumas partes.

- Por que não tem corpos? – indagou Ita, baixinho.

Mongur deu de ombros, sem saber.

- Dizem que eles comem depois que matam. Ou vice-versa.

- E tem como isso acontecer ao contrário?

- Talvez, eles são demônios.

Foram passando o mais próximos das casas possíveis, se misturando com as sombras. De vez em quando Mongur pisava em algo barulhento ou soltava um espirro, mas nada que fosse muito comprometedor. O plano era sair do vilarejo e levar Ita até os Cabeças de Dragão, uma organização formada por sobreviventes.

Passaram pelo portão com entalhos e desceram pela estrada que levava até uma pequena ponte sobre um lago congelado. Muitas árvores em volta deixavam o lugar com um aspecto bonito, e Ita imaginou como seria aquele vilarejo antes de toda essa discórdia.

Quando estavam passando pela ponte, Covalk fez sinal para que parassem.

- O que foi? Algum problema? Viu alguma coisa? – perguntou Mongur, já com a picareta em mãos.

- Silêncio, rechonchudo! Deixei um homem aqui antes de me encontrar com vocês.

- Bom, e onde ele está?

- Não vê que está é a preocupação, idiota? – Covalk olhou em volta – É melhor ficarmos em alerta.

- E isso que estivemos fazendo até agora o que era?

Covalk nem se deu ao trabalho de responder. Isso era uma das coisas que Ita mais admirava em Mongur. Mesmo ele sendo responsável e carinhoso, tinha momentos de imaturidade que os mantinham descontraídos.

Continuam a avançar, e Ita reparou que deixavam pegadas na neve e que em breve estariam entrando em uma floresta. Ficou tenso por alguns instantes. Nunca teve a oportunidade de batalhar contra alguém antes, nem sequer viu na vida alguma dessas criaturas da terra de Aranko que os atacavam. E vendo Mongur com uma picareta e Covalk provavelmente com uma espada na bainha, sendo o único desarmado, ficar tranqüilo não era uma opção.

- Não precisa se preocupar! – falou Mongur, o surpreendendo por ter notado seu desconforto mais uma vez – Em breve todos irão saber sobre você. Consegue imaginar? “Itakar, o herói do continente de Timael”, soa bem, não acha?

Ita ia dar uma risada quando de repente ouviu um rugido altíssimo mais à frente.

- Muito bem! – exclamou Covalk, desembainhando sua espada de ferro – Então o que acha desta ser a primeira aventura de nosso espetacular guerreiro?

E a partir daquele momento, Ita odiou ainda mais o sarcasmo de seu escoltador.

Notas finais
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Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.