Guerreiros

1 Capítulo Único: Warriors building their future


Notas iniciais
Oi Docinhos Azuis! Sumi? Porque estava participando do NaNo, como disse lá na página. Terminei minhas 50 mil palavras e fiquei doente. Já estou melhor e voltei a escrever. Ficou um pouco grande? Perdão, adorei essa história aqui. Até as notas finais e aproveitem...

Warriors building their future (Guerreiros construindo seu futuro)

Ela tinha 17 anos quando encarou pela primeira vez a Montanha Furiosa, longa e tortuosa. Se ela olhasse para trás, veria apenas um barco, bem ao longe, indo embora de volta para sua casa, comprovando o fato de que estaria só por um bom tempo, distante de todos que ela conhecia.

No topo daquela montanha, estava a Academia Fogo Fugaz, renomada em todo o Arquipélago Barbárico. Mas por que ela estaria ali? Por que uma guerreira como ela estaria tão longe de seu lar, de sua ilha?

Por que Astrid Hofferson estava tão longe de Berk, a quem jurara proteger com sua vida?

A resposta envolvia o fato de que aquilo não havia sido escolha dela, por isso sua consciência estava limpa. Mas não era como se ela pudesse lutar contra o seu futuro. Seus pais ainda eram donos do destino enquanto ela tivesse apenas 17 anos.

Vikings costumam ser liberais, mas os pais de Astrid queriam o melhor para ela e acreditaram fielmente que aquele seria o melhor futuro que ela poderia construir para si. E, infelizmente, ela não pôde negar a escolha de seus pais, pois de certa forma entendia o motivo deles.

Então ela se esforçaria, se formaria como uma verdadeira guerreira, a melhor que pudesse. Mas somente dali a 2 anos ela iria voltar para Berk, após a Cerimônia do Novo Guerreiro.

Muito tempo. Muito longe.

Mas ela prometeu que lutaria para voltar, para ser a melhor. Guerreiros lutam, e ela sempre lutou e iria lutar ainda mais, pois queria ver Soluço novamente.

Astrid Hofferson encarou a Montanha com fúria. Mas, afinal, como ela havia parado ali?

**

A Guarda de Berk era composta por guerreiros dispostos a defender a qualquer custo a Tribo Hooligan. Quando Astrid era pequena, sempre sonhou em entrar para ela, ser o orgulho de seus pais, de sua família. A pequena Hofferson sabia que teria de ser uma guerreira exemplar, mas também sabia que era mais do que capaz.

Quando conheceu Soluço, ela soube que nunca seria uma guerreira como ele, por mais que lutasse e treinasse. Muitos não enxergavam a força que ele possuía, mas ela sabia que ele era um adversário competente e poderoso, um dos mais difíceis que ela enfrentaria. E aceitava ser derrotada por ele.

Ele não tinha tanta força física como ela, um treinamento excepcional em combate, ou qualquer coisa parecida. Soluço tinha algo que nem mesmo os melhores treinos poderiam ensiná-la. Ele preferia conversar, usar de suas palavras para trazer o melhor para todos.

Ele sempre tentaria evitar guerras, Astrid amava estar nelas.

Mas entrar para a Guarda nunca havia sido o desejo dele, assim como passou a não ser mais o desejo dela. Ela queria descobrir novas Ilhas, ela queria descobrir novos dragões. Ela queria fazer coisas que nunca faria na Berk de antigamente.

Ela queria seguir Soluço, ela queria fazer coisas impossíveis. Mas o destino quis pregar uma peça nela. Neles.

Quando seus pais lhe contaram, a primeira reação dela foi negar. Ela não queria ficar longe de Berk, ela não queria ficar longe dos seus pais. Ela não queria ser uma guerreira formada pelo Fugaz apenas por um nome.

Astrid Hofferson se importava com outras coisas agora. Com outras pessoas.

Mas ela tinha apenas 17 anos, somente em seis meses ela faria 18. Por seis meses ela não poderia negar. Ela foi obrigada a aceitar o que os seus pais lhe impuseram, tinha que obedecer.

E teria que partir.

Deram a ela dois dias para se despedir de quem quisesse. Não era, de longe, o suficiente, mas, de qualquer forma, ela não queria realmente prolongar aquilo tudo. Detestava despedidas, embora tivesse que fazê-las. E apenas uma despedida iria, de fato, doer mais do que todas as outras. Dizer a ele iria doer. E ela não queria de forma alguma fazer aquilo, mas que escolha ela tinha?

Nenhuma.

Quando ela chegou aquele penhasco, em meio a Floresta escura de Berk e não mais assombrosa para ela, a brisa se fez presente. Tempestade voava ao seu redor, disposta a tudo para protegê-la.

Astrid também teria que se despedir dela, já que não eram permitidos dragões na Academia. Ela teria que dizer adeus, por dois anos, à sua amiga e Astrid não sabia se ela aceitaria muito bem aquela história.

A viking soltou um longo suspiro. Não queria pensar, não queria imaginar. Se fizesse isso, iria enlouquecer.

— Astrid — ela escutou a voz de Soluço lhe chamar com animação. — Você não vai acreditar!

Ela respirou fundo, tentando imaginar qual seria a reação dele mais uma vez.

Soluço se aproximou e parou em sua frente. Estavam próximos à borda do penhasco, mas aquilo parecia não os incomodar. Vikings não tinham medo do perigo. Com a chegada da noite, as respirações deles eram transformadas em fumaças devido ao frio que se intensificava.

— Soluço — ela lhe dirigiu um mínimo sorriso, tentando se mostrar animada. — O que aconteceu? Você parece bem animado, não sei dizer se isso é bom ou ruim para o resto de Berk.

— Muito engraçado. Faz um bom tempo que não destruo Berk com as minhas invenções. Considere isso um avanço — ela soltou uma gargalhada. — E um milagre, porque Berk não vai continuar inteira por muito tempo — Astrid riu ainda mais.

Apenas ele conseguiria animar seu coração, nem que causasse um mínimo sorriso.

— Você é impossível — ela disse. — O que aconteceu, Haddock? — ele sorriu com a menção de seu sobrenome.

— Achei uma Ilha ao sul, ainda não a nomeei — ele disse encarando seus olhos profundamente. — Está cheia de dragões, Astrid, milhares. Dragões que nunca vi na vida. Um lugar para explorar, simplesmente incrível.

— Isso é realmente animador. Que incrível, Soluço — ela sorriu, animada por ele.

Ele era um explorador nato, sempre atrás de coisas novas, atrás de aprendizado. Astrid se sentiu um pouco aliviada, porque sabia que aquilo o manteria ocupado e o faria feliz. Ela torcia para que aquilo o fizesse se esquecer do que tinha para lhe contar.

— Encontrou algum Fúria da Noite?

Astrid sabia que ele estava procurando há muito tempo companheiros para o seu amigo e que ele se preocupava muito. Não queria que ele vivesse sozinho.

— Não vi nada ainda — ele encarou seu dragão brincando com Tempestade.

Essa era mais uma das inúmeras coisas que ela gostava em Soluço. Sempre disposto a fazer de tudo para ver o outro feliz, ele iria até o fim do mundo para fazer quem amava feliz. Iria até o fim pelo amor que tinha pelos amigos.

— Mas meu pai deixou que eu explorasse a Ilha, assim poderei verificar. Ele impôs uma condição, é claro, que eu levasse alguém comigo, não poderia ir sozinho, ele até invocou o famoso herdeiro da liderança na conversa — ele disse, revirando os olhos, provocando o sorriso de Astrid. Ele não gostava de pensar em si como líder ainda. — Pensei em reunir os cavaleiros e assim podemos verificar tudo rapidamente.

— É uma ótima ideia — ela disse, desviando o olhar para o mar.

Aquilo estava se encaminhando para um caminho perigoso para Astrid.

— Astrid — ele segurou sua mão, atraindo o seu olhar. — Também quero que você vá, na realidade, preciso que você vá conosco. É uma treinadora muito experiente e que seria de ajuda preciosa.

— Sou a melhor depois de você, não é? — ela disse com um sorriso. — Ninguém supera você, menino dos dragões.

— Pare, não gosto quando fala isso. Todos nós somos excelentes treinadores. Todos nós somos capazes de lutar para defendê-los — ela revirou os olhos. Ele estava sempre tentando diminuir os seus feitos. — E é por isso que preciso de você. E de todos os outros.

— Eu adoraria ir com vocês, Soluço — ela sorriu tristemente.

— Então vamos, não vejo nada que possa nos impedir agora. Você vai adorar a Ilha, sei que gosta de desafios — ele disse com um sorriso, obrigando Astrid a fechar os olhos, sentindo um aperto em seu coração.

Ela não queria ver Soluço desanimado. Ela não queria ver tristeza no olhar dele. Ela não suportaria fazê-lo sofrer. Ela não queria.

— Eu adoraria ir, Soluço, mas não posso — ela encarou seus olhos.

— Não pode? Por quê? Não me diga que se inscreveu para a Guarda de Berk? Se for isso, posso convencer meu pai e ele te tira, sem problemas. Quero dizer, sei que é o seu sonho desde pequena, e sei que não quer mais isso. Mas se realmente quiser ir conosco, posso pedir para ele. Aí ficaria tudo bem.

— Se fosse apenas isso, eu pediria para que você falasse com Stoico. Sei que ele me compreenderia. Não quero mais isso, não quero defender Berk do chão — ela olhou para o céu e soltou um longo suspiro. — Mas infelizmente não é isso. Eu só faço 18 anos daqui a seis meses, ainda não posso decidir nada por mim. Então meus pais resolveram me mandar para a Academia Fogo Fugaz, querem me tornar uma verdadeira guerreira.

Soluço sentiu seu coração parar por um minuto. Milhares de pensamentos voavam em sua cabeça. Ele não conseguia pensar direito.

— Mas Fogo Fugaz é tão longe daqui — ele encarou seus olhos e sentiu sua respiração também se acelerar. — Você já é uma guerreira. Uma guerreira incrível. Não precisa ir para lá.

— Meus pais não acham isso.

— Mas você quer ir?

Ela soltou um longo suspiro. Os olhos suplicantes de Soluço a fariam desistir de tudo e ela não podia. Astrid fechou os olhos e sentiu a mão dele colocar uma mecha de seu cabelo atrás de sua orelha delicadamente.

— Tudo o que eu quero, desde que tenho 10 anos, é dar orgulho aos meus pais. Quero que eles me considerem digna de ser uma Hofferson. Não posso negar ir para lá, isso os decepcionaria. E devo obediência a eles.

— Não foi isso que eu te perguntei — ele constatou em um sussurro.

— Não, eu não quero ir — Astrid sentiu lágrimas encherem seus olhos e desviou seu olhar dele, não podia fraquejar. — Eu quero ir explorar essa ilha nova com você. Quero defender Berk contra as ameaças do céu. Quero ficar com Tempestade. Mas essa escolha não é minha.

— Astrid — ela se afastou dele e encarou o mar. — Eu sinto muito.

Não era aquilo que ele tinha para falar. Não era só aquilo. Ele não queria desistir tão facilmente. Ele encarou as estrelas acima de si e o trajeto de sua respiração pelo céu.

— Eu posso impedir, eu posso tentar impedir?

— Não. Você não vai conseguir. Além disso, dei minha palavra a eles, não posso voltar atrás agora.

Astrid sentiu a mão de Soluço em seu ombro e simplesmente o abraçou. Ela sentiu as lágrimas deixarem seus olhos e Soluço também as sentiu nos seus próprios olhos. Ele a apertou em seus braços e desejou que toda aquela dor parasse.

O que Soluço queria era ver Astrid feliz. E ela não estava.

Por um momento Astrid se sentiu incapaz de tornar tudo aquilo possível, se sentiu incapaz de entrar em Fogo Fugaz ou sequer no barco que os levaria. Ela não queria ser uma guerreira forte.

Ela queria ser apenas Astrid, a mesma que Soluço queria ao seu lado para explorar uma Ilha qualquer ao sul de Berk. Ela sentiu Soluço acariciar seus cabelos e respirou fundo. Ele estaria ali para consolá-la, estaria ali se precisasse. Ele nunca iria desistir dela, e ela não poderia desistir dele.

— Daqui a dois anos vamos explorar várias Ilhas juntos, Astrid. Isso se ainda quiser ser minha amiga e andar com uma Espinha de Peixe falante.

— Eu não tenho amigo melhor para desejar, Soluço. Nenhum amigo estaria disposto a enfrentar dragões selvagens comigo — ela encarou seus olhos e assistiu o seu sorriso. Um belo espetáculo. — Obrigada por estar disposto a me esperar.

— Você é minha melhor amiga, senhorita Hofferson — ele baixou o olhar. — Gosto muito de você para te esquecer.

Soluço sorriu e encarou seus olhos. Se Astrid imaginasse o que ele estava pensando no momento talvez nunca mais falasse com ele. Porque uma mulher poderosa como ela nunca sentiria por ele o que Soluço sentia por ela.

Ele a amava, desde o primeiro momento. Desde a primeira vez que encarou aqueles olhos tempestuosamente azuis. Ele jurou a si mesmo que um dia diria a ela o quanto era apaixonado por ela. Que estaria disposto a morrer por ela. Mas onde isso os levaria?

Ele soltou um longo suspiro e sentiu a mão de Astrid acariciar seu rosto. Ele sorriu.

— Eu prometo que não vai demorar muito até nos encontrarmos novamente. E até lá eu vou escrever para você. Eu acho que os Terrores não entrarão lá, mas o jeito antigo também é interessante — ele disse.

— Você também é muito importante para mim. E eu não vou te esquecer — Soluço a abraçou antes que ele falasse demais, antes que confessasse. — Cuide de Tempestade para mim.

— Isso não é nem um pedido, Astrid. Claro que eu cuidarei dela.

— Não faça manobras malucas enquanto eu estiver fora, nem invenções que envolvam voar sem o banguela. Não terá ninguém para te conter aqui e eu quero você vivo até eu voltar.

— Não sei do que você está falando, nunca fiz isso — Banguela os encarou com uma expressão incrédula que os denunciavam e Astrid soltou uma gargalhada. — Ele é um dragão tratante. Vai ficar tudo bem, não precisa se preocupar. Quando você parte?

— Depois de amanhã, bem cedo. Minha mãe e meu pai me levarão até lá. Dizem que fica a três dias de distância. Duas pessoas irão ajudar a guiar o barco.

— Nunca duvidei que você seria capaz de ser uma guerreira tão brilhante. Mas nunca pensei que esse dia chegaria e você iria para Fogo Fugaz. É tão estranho.

Soluço sentou-se na grama e Astrid sentou ao seu lado. Ela encostou a cabeça em seu ombro e suspirou. Ela também nunca imaginou que aquilo estaria acontecendo um dia.

Era ainda mais difícil para ela. Quando ela se apaixonou por Soluço, achou que estava maluca. Primeiramente, Soluço era um desastre em pessoa. Seus pais talvez nunca permitissem que ela chegasse perto dele.

Além disso, ele nunca havia conversado com ela decentemente e provavelmente achava que ela era mais uma das pessoas que o tachavam como inútil e que nunca desejariam tê-lo como amigo. Mas ela nunca o imaginou como um.

Na verdade ela admirava as suas habilidades ocultas. Ele era inteligente, ele sabia o que fazia. Só faltava um pouco de sorte. E força. E ela sabia que ele possuía tudo para ser um guerreiro brilhante. E isso a desafiou por muito tempo.

Sim, ela sentiu um pouco de raiva dele, mas tudo mudou. Depois que tudo virou de cabeça para baixo, ela até cogitou a ideia de se declarar para ele. Mas eles eram apenas melhores amigos. Não que melhores amigos se beijassem às vezes, é claro, mas eles não faziam ideia do que eram.

E aquilo fazia muito tempo. Não eram mais adolescentes confusos. Ou talvez fossem e apenas achassem que não eram.

— Quando você vai começar a expedição para Ilha nova?

— Isso está tão distante agora. Tudo o que eu queria que você fosse comigo. Não tem condições de manter aqueles loucos em controle sem você.

— Sabia que você só me queria aqui para controlá-los — Soluço soltou uma gargalhada e ela sorriu. — Não me quer por perto mesmo.

— Sabe que isso não é verdade. E sabe que eu não tenho a sua habilidade de mantê-los sobre controle e me manter são ao mesmo tempo. Mas eu vou conseguir. Não sei quando vamos para lá, ainda não falei com os outros cavaleiros ainda.

—Que honra ser a primeira a saber — ela encarou seus olhos.

— E por que não seria? — ela sorriu.

Soluço sentiu seu coração acelerar. Era isso que acontecia, todas as vezes que lhe dirigia um sorriso. Parecia que ele não sabia como era respirar, como era falar. Não com aquele sorriso. Naquele momento ele sentiu que iria fazer besteira.

Mas esse é o destino de todos os apaixonados. Fazer uma besteira atrás da outra.

— Estava pensando em uma coisa, milady — ela sorriu com aquele apelido que há anos ele havia lhe dado.

— Você pensando? Que novidade — ela ironizou e ele revirou os olhos. — Em que você está pensando, menino dos dragões? — ele sorriu.

— Não tenho certeza de que você vai se lembrar de mim realmente.

— Como assim? Você não confia em mim? — ela se afastou dele e encarou seus olhos um pouco ofendida.

— É claro que confio, mas tem coisas que a gente não controla. Eu só quero ter certeza de que não vai se esquecer — ele sorriu com a confusão presente no olhar de Astrid.

— Do que você está falando, Soluço?

Ela sentiu os lábios deles sobre os seus e arregalou os olhos. Ela ficou sem reação por um instante. Os pensamentos embaralhados duraram poucos segundos antes dela apenas retribuir aquele doce beijo.

Sentiu o quão Soluço era doce e carinhoso. Sentiu o quanto Soluço a amava e o quanto ele sofreria com a distância. Sentiu. Ela apenas permitiu-se sentir. Soluço sabia que ela nunca se esqueceria dele. Que ela também o amava. E era por isso e por outros motivos que eles sempre voltariam para o outro.

Não importava como.

**

Um ano e meio depois...

Astrid segurou com força o seu escudo acima de sua cabeça e segundos depois foi atingida duramente. Ela suportou o ataque e direcionou sua espada para o seu oponente. Este se afastou e usou seu próprio escudo para se defender. Ela continuou atacando, sentindo-se cada vez mais poderosa.

Respira e ataca. Nunca deixe de encarar os olhos do seu adversário.

Ela escutava a voz de Mestre Fugaz em sua cabeça, orientando cada um de seus passos. Minutos depois a luta estava terminada. Mais uma vitória.

— Sempre me lembre de nunca ficar em seu caminho — a sua colega deitada no chão disse.

— Tudo bem? — ela ofereceu sua mão para que ela se levantasse.

— Meu corpo já se acostumou a levar uma surra sua. Faz parte da vida — Astrid revirou os olhos.

Elas saíram da Arena para guardar as armas e Astrid retirou sua armadura com um suspiro de cansaço. Havia sido um longo dia, como todos os outros na Academia. Faltavam seis meses para a Cerimônia e finalmente ela estaria livre para voltar.

Ela caminhou em direção à sala de Mestre Fugaz. Ela não fazia ideia do por quê havia sido chamada, mas ela se dirigiu até lá sem questionar. Talvez ela tenha batido em alguém importante com mais força do que deveria, mas tinha algumas pessoas que a irritavam.

Ela era uma das únicas meninas e isso fazia dela alvo de muitas piadas. Infelizmente ela nunca teve uma cabeça fria o suficiente para ignorar. Eles sempre acabavam no chão. Ou na enfermaria.

Ela suspirou, sentia muita falta de Berk, mais do que o que seria considerado saudável. Sentia falta de voar em Tempestade e de se sentir muito mais forte do que em qualquer lugar. E principalmente ela sentia falta de Soluço, de uma forma que chegava a doer.

Recebeu algumas cartas de Soluço, mas elas se tornavam cada vez mais raras. Em todas elas, sentia o cheiro inebriante dele que sempre lhe faziam falta. Quando elas passaram a chegar a cada três meses, ela começou a se preocupar.

Sabia que algo estava acontecendo. Ela sentia em seu coração.

Infelizmente, ele não havia respondido o que estava acontecendo. Apenas dizia que a amava. Quando ela leu isso pela primeira vez, mesmo já sabendo sobre os sentimentos dele, sentiu seu coração aquecer. Sabia que era verdadeiro.

— Mestre Fugaz, mandou me chamar? — ela entrou na sala dele.

— Senhorita Astrid Hofferson, entre — o homem loiro e forte em sua frente. — Sente-se, por favor. Aceita uma xícara de chá? — Fugaz a ofereceu uma xícara.

— Não, obrigada — ela disse, acostumada com os chás de Mestre Fugaz. — Eu fiz alguma coisa? Eu juro que eles me provocaram.

— Não — ele riu, sabendo do temperamento de sua aluna. — Você não fez nada. Na verdade, vim te fazer um convite.

Ela estreitou os olhos e o encarou receosa. Aquela conversa estava muito estranha.

— Um convite?

— Sim. Você tem conhecimento de que é uma das guerreiras mais fortes e poderosas da Academia. Você se formará com êxito e provavelmente será a primeira da turma. Eu te desafiei no primeiro dia e não me arrependo. Meu palpite estava certo. Você se superou.

Ela se lembrou de seu primeiro dia na Academia. Ela havia subido a Colina em baixo de uma tempestade de neve. Três dias subindo. Felizmente os invernos de Berk haviam lhe dado uma resistência maior.

Ela chegou ao topo com fome e com frio, mas levantou a cabeça e entrou firme pelos portões. Olhando ao seu redor viu apenas uma menina. O resto dos alunos eram meninos do tamanho de Perna de Peixe ou de Melequento.

Eles a encaravam e riam. Aquilo fez seu sangue ferver. Mas ela se segurou e esperou orientações. Não iria perder o controle no primeiro dia.

E então Fogo Fugaz apareceu no centro da Arena. Olhou para cada um daqueles alunos e parou em frente à Astrid. Ele riu e enumerou quão pequena e fraca aquela menina era aos seus olhos. Insignificante.

Deve imaginar que aquilo a fez ficar com mais raiva. Muita raiva. Havia enfrentado muita coisa para subir até ali. Então ela aceitou o desafio dele.

Eu sou uma berkiana. Já passei por muita coisa, senhor. Eu desafio qualquer um desses guerreiros aqui a lutarem comigo. Garanto que não aguentaria cinco minutos de pé nessa Arena ela disse com raiva.

Ele apenas sorriu, como se soubesse que ela falaria isso. Ele falou que em seis meses haveria os jogos de fim de semestre e que gostaria de vê-la ganhando de todos, assim ela provaria que ele estaria errado.

Seis meses depois tinha uma medalha em seu pescoço. Ela era a primeira em tudo na Academia. Ela tinha uma força que ninguém entendia. Ninguém sabia que lutar fazia ela se esquecer dos problemas.

— Eu sabia que era capaz, Mestre. Mas por que me chamou?

— Gostaria de convidá-la para passar mais um tempo conosco. Treinando novos guerreiros. Você é nossa melhor guerreira em anos. Uma Mestra com machados. Seria uma grande ajuda por aqui.

Ela se assustou com o convite. Ela encarou a mesa em sua frente e respirou fundo. O tempo que passou ali havia sido proveitoso. Havia conhecido novas pessoas e habilidades que não sabia que possuía.

Mas não aguentava mais. Tinha que ir embora. Ela precisava saber se Soluço estava bem. Precisava ver Tempestade.

— Eu fico lisonjeada, Mestre. Mas não posso ficar mais tempo aqui.

— Por quê?

— Eu quero voltar para Berk. Sinto saudades da minha ilha, de ouvir o barulho dos dragões e de viver aventuras. Não posso ficar aqui.

— Entendo, sente saudades de casa. Isso pode ser resolvido, você pode voltar para sua Ilha durante o ano. Podemos montar um esquema para tornar isso possível.

— Obrigada, mas não quero. Berk é minha casa. É lá que eu quero ficar.

Ele sorriu para ela e soltou um suspiro. Estava perdendo uma grande guerreira. E grandes guerreiros defendiam seu lar.

Astrid era uma pessoa intrigante.

— Muito bem, Astrid Hofferson. Daqui a seis meses você estará de volta a sua casa.

**

Seis meses depois...

Ela encarou a Colina de seu topo. Respirou o ar do lado de fora da Academia com um sorriso. Estava livre. Mesmo que ainda tivesse que descer tudo a pé. Lado ruim de ser uma guerreira.

Ela escutou um barulho atrás de si. Encarou as árvores da floresta estreitando os olhos, enxergando um vulto passar rapidamente. Segurou firmemente seu machado, afastando-se dos outros que se preparavam para descer. Entrou em alerta na floresta atrás do som.

Ela avistou uma cauda de espinhos e se assustou, guardando sua arma.

— Um Nadder? — ela sussurrou para si mesma.

Aproximou-se da linha de árvores e encarou o dragão. Com um sorriso no rosto ela exclamou.

— Tempestade!

Ela abraçou sua companheira, acariciando suas escamas. Havia sentindo tanta saudade que não reprimiu as lágrimas que surgiram em seus olhos.

— Senti sua falta, amiga.

Tempestade grunhiu com os olhos fechados. Noites e dias procurando por sua treinadora e finalmente havia encontrado. Ela estava feliz e aliviada por vê-la bem.

— O que está fazendo aqui, Tempestade? — ela a encarou acariciando o seu focinho carinhosamente. — Vamos pra casa, garota.

Astrid ganhou o céu pela primeira vez em dois anos. Havia reencontrado parte de sua liberdade.

A outra parte estava em Berk e ela iria buscá-la.

**

Em algumas horas ela já avistava Berk. Aquela tortuosa pilha de rochas molhadas, onde nunca fazia calor. Lembrava-se do que Soluço costumava falar e sorriu involuntariamente para sua Ilha.

Respirou fundo. Ela estava de volta ao seu lar. Finalmente.

Astrid desceu no centro da vila, observando os vikings da Tribo Hooligan a reconhecerem um a um. Ela sorriu e avistou seus pais caminhando em sua direção com sorrisos em seus rostos.

— Astrid — ouviu sua mãe lhe chamar com certa dúvida.

— Mamãe, que saudade.

Sentiu seus braços ao redor de seu corpo e fechou os olhos.

— Minha filha, você está tão forte, tão bonita — ela escutou sua mãe lhe dizer. — Está tudo bem, querida?

— Sim, mamãe, está tudo bem agora.

— Tenho certeza de que você se tornou uma guerreira ainda mais incrível. Você cresceu, minha filha — seu pai disse e encarou seus olhos. — Que orgulho de você, Astrid.

— Obrigada, papai — ela sorriu.

Ela havia escutado tudo que sempre sonhou escutar deles. Que tinham orgulho, mesmo que tivesse que ter ido para longe para obtê-lo. Por mais que fosse torto, amava aquela sensação.

— Tempestade? — ela escutou sua mãe dizer. — Você veio com a Tempestade?

— Sim, ela foi atrás de mim e me encontrou, eu acho. Não consigo imaginar como ela sabia que eu já estava saindo. Encontrei-a na Floresta perto da Academia, ela é muito esperta — os pais dela se encararam e ela estranhou. — O que está acontecendo?

— Tempestade sumiu há um ano. Achamos que ela tinha morrido ou que havia sido capturada — a senhora Hofferson falou. — Mas ela estava indo atrás de você como o Soluço disse.

Astrid acariciou o focinho de Tempestade e avistou Stoico sorrindo na multidão. Ela sentiu um aperto no coração e encarou seus pais. Ele falou que estaria ali, então onde ele estava?

— Mãe, onde está Soluço? — ela perguntou com a respiração acelerada.

— Filha, acho que devemos entrar e conversar.

— Onde está o Soluço? — Astrid elevou sua voz.

— Ele foi atrás da Tempestade quando ela sumiu — ela explicou calmamente. — Disse que lhe prometeu que cuidaria dela.

— E? — ela sabia o que viria, mas perguntou mesmo assim.

— Ele não voltou até hoje, Astrid.

A respiração dela descompassou. Ela sentiu seu coração apertar, como se uma mão invisível estivesse o esmagando. Ela montou em Tempestade não escutando o que seus pais falavam, indo para longe de todos.

Astrid olhou para o mar e sentiu suas lágrimas vindo.

— Eu vou te achar. Não importa onde você esteja, eu vou te achar.

O vento frio levou suas palavras, mas nada mudava o fato que a brisa jogava em seu rosto impiedosamente.

Ele não estava ali esperando por ela.

**

Um mês depois...

Soluço bateu no portão com todas as suas forças. O frio o envolvia, mas não lhe incomodava mais. Ele soltou um longo suspiro enquanto esperava que alguém lhe atendesse de uma vez.

Ele encarou Banguela ao seu lado que lhe enviou um sorriso carinhoso. Sempre tentando animá-lo.

— Tempestade esteve aqui, amigão. Ela estava vindo atrás de Astrid, mas de alguma forma não a encontrou. Temos que descobrir onde ela está agora.

Soluço falava com Banguela como se tentasse convencer a si mesmo que estava fazendo a escolha certa. A preocupação com Astrid aumentava a cada segundo e isso o deixava em alerta.

Toda vez que Banguela rastreava Tempestade, iam para o local com esperança. Apenas para descobrir que ela já havia partido há pelo menos um mês dali. Ela estava tentando encontrar Astrid, mas sua dona estava perdendo o cheiro de Berk e isso confundia a Nadder Mortal. Assim como confundia Banguela.

Ele ouviu um ruído e percebeu que o portão estava se abrindo. Ativou sua espada flamejante e esperou. Um homem loiro e um pouco grande, como o seu pai, encarou Soluço com uma expressão confusa.

Aquele era Fugaz, que achava que os recrutas só chegariam dali a um mês e se encontrava confuso por ver um jovem viking ali. O mestre achava que Soluço era um de seus recrutas adiantados.

— Quem é você? — Fugaz perguntou.

— Eu sou Soluço — ele respondeu firmemente. — Preciso falar com uma de suas alunas, Astrid Hofferson. É muito importante.

Fugaz encarou sua espada pegando fogo e arqueou as sobrancelhas. Ele era uma pessoa intrigante. Viu um dragão negro ao seu lado em posição de ataque e percebeu que a situação era séria.

— Astrid Hofferson não está mais aqui — ele respondeu calmamente. — Ela já voltou para sua casa.

Soluço abaixou sua espada lentamente a desligando. Banguela o encarou confuso, mas apenas se aproximou de seu treinador. Mas um local perdido, era óbvio que Tempestade não estava ali. Astrid já havia a levado, o que significava uma coisa.

— Espera, o treinamento já acabou? — ele perguntou.

— Há um mês — Fugaz respondeu. — Você é para quem Astrid mandava as cartas. Era eu quem mandava por eles.

— Ela é minha amiga — Soluço tentou não tropeçar nas palavras. — Tempestade, sua dragoa sumiu. Estava atrás dela e aparentemente ela esteve aqui.

— Ela foi embora montada em um dragão, foi bem estrando, deve ser essa dragoa que está dizendo. Mas você parece cansado e confuso. Gostaria de entrar e tomar uma xícara de chá?

— Chá? — Soluço perguntou, ainda mais confuso. Um homem grande como ele oferecendo uma xícara de chá era estranho — Não, nós precisamos voltar para Berk — ele encarou seu dragão, que estava cansado.

— Você tem certeza disso?

— Bom, se pudéssemos passar a noite aqui. Estamos há dias aí fora — ele suspirou cansado. — Nós agradeceríamos.

— Venha, vamos entrar. E seja Bem Vindo à Academia Fogo Fugaz.

Antes de entrar, Soluço ainda soltou uma gargalhada. Parecia cômico que, um dia, o guerreiro mais rejeitado da tribo Hooligan adentrasse a Academia de Guerreiros mais renomada do mundo.

**

Astrid encarou o penhasco a sua frente e soltou um longo suspiro. Um mês e nada. Ela pensou que seria capaz de encontrar Soluço, mas não encontrou. Foi atrás dele no Santuário que havia encontrado dois anos antes e que explorou com os cavaleiros, mas ele não estava por lá.

Ele estava atrás de Tempestade e não entendia como a Nadder havia demorado tanto tempo para encontrá-la. Havia feito testes e constatou que o faro dela estava ótimo. Seria algo que Soluço explicaria para ela.

Mas ele não estava ali.

Ela fechou os olhos. Não sabia onde ele estava, entretanto ele podia estar correndo perigo e isso a agoniava todos os dias. A menina envolveu seus braços ao redor do próprio corpo, afastando aqueles pensamentos.

Ela não podia desistir.

— Você descumpriu uma promessa para cumprir outra. Por que você é tão teimoso assim? — ela disse para o vento.

Não sabia se suas palavras chegariam até ele.

— Eu te odeio, Soluço, sabe disso né? — ela disse e sentiu lágrimas escorrerem por seus olhos. — Você me faz chorar, eu devia te odiar. Por que eu não consigo?

Ela fechou os olhos tentando expulsar as lágrimas, mas não conseguiu.

— Porque você me ama, milady. Por isso não consegue me odiar.

Ela escutou a voz que sentiu falta durante todo esse tempo. Pensou que ela estava louca, completamente louca. Mas quando olhou para trás, lá estava ele. Com seu dragão negro e seu sorriso irritantemente belo.

Ele era um homem morto agora.

— Soluço? — ela sussurrou, como se tentasse se convencer que era ele mesmo.

— Você é uma pessoa difícil de encontrar, senhorita Hofferson — ele sorriu, se aproximando ela. — Senti sua falta, milady.

— Você é um idiota.

Ela se aproximou dele e começou a bater nele. Mesmo sendo socos mais fracos, ainda eram socos de Astrid.

— Eu fiquei preocupada, achei que você tinha morrido aí fora, pensei que nunca mais ia te ver. Tem noção do que eu passei, Haddock?

Ele a abraçou com todas as suas forças e ela parou de lutar contra ele. Soluço sentiu aquele cheiro inconfundível que sentia nas cartas que ela mandava. Havia sentido falta de tudo. Da voz dela, do toque dela. De uma forma que doía.

— Desculpa, mas fui atrás de Tempestade. Ela estava atrás de você e podia estar assustada e ferida. Banguela e eu nos perdemos um pouco e quando cheguei à Academia Fogo Fugaz você já tinha ido embora. Então vim para Berk. Perdão, Astrid, sei que prometi que estaria aqui quando voltasse.

— Você está bem? — ela encarou seus olhos preocupada.

— Estou bem, melhor ainda sabendo que você está bem também, fiquei preocupado. Senti sua falta, milady.

— Já disse isso, menino dos dragões. E sabe de uma coisa? Eu também senti.

Quando ele a beijou, ela não pôde deixar de sorrir. Também havia sentido falta do seu cheiro, da sua voz, do seu sorriso. E de seus lábios.

O amor que ela sentia era indestrutível. Unicamente belo. Um sentimento recíproco.

Ele encarou seus olhos. Tempestuosamente azuis. E sorriu. Ela era uma guerreira agora e sabia que deveria temê-la. Mas não conseguia. Ele sabia do lado doce e gentil dela. Sabia que ela não era forte sempre. Ele a amava dessa forma.

— Então você é uma guerreira agora? — ele perguntou, acariciando seus cabelos.

— Primeira da Academia — ela disse com um sorriso convencido.

— Não poderia ser menos, sempre acreditei em você — ele sorriu e a abraçou. — Eu te amo. E esse tempo me fez perceber que te amo mais.

— Eu também te amo, Soluço. E sempre acreditei em você também. Mesmo só fazendo besteiras. Mesmo assim eu acreditei em você. Seus olhos sempre me mostraram confiança. Eu sabia o que você se tornaria.

Ele sorriu e encarou seus olhos.

— Minha namorada prevê o futuro então? — ele disse, provocando o sorriso de Astrid.

— Eu sou inteligente.

— Eu sei — ele riu.

Os dois encararam o mar a sua frente.

Sabiam que mais tarde estrariam naquele mesmo lugar. Várias vezes durante vários anos. Podiam prever que era ali que Soluço a pediria em casamento. Seria ali que Astrid contariam que teriam um filho ou uma filha.

E se não fosse ali seria em outro lugar. Porque não precisavam prever o Futuro para saber que lutariam por ele. Guerreiros lutam por paz, por felicidade. E aqueles dois guerreiros lutavam pelo amor. Aquele que os unia.

Porque Astrid e Soluço eram a prova de que o amor existia. Em suas formas mais estranhas e complexas.

Em suas formas mais bonitas.

Notas finais
Esses dois acabam com o meu emocional... Gostaram, Docinhos? Espero para saber as suas opiniões, então não deixem de comentar. E já agradeço pelos comentários, favoritos e recomendações. Muito obrigada, amo vocês. Se você não curtiu minha página ainda, vai lá! Link: https://www.facebook.com/TemperanaNyah/ Vai saber informações do meu livro mais rápido! Sim, ele vai ser postado na Plataforma do Wattpad e eu gostaria muito que vocês lessem e votassem. Gostaria que vocês gostassem e que alguma editora publicasse. Obrigada por tudo e até a próxima! Temp ♥ ♥
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