Guerra de Gemas e Rosas
6 Ruína
As dunas estendiam-se em silêncio através do horizonte, formando uma paisagem mortal que crescia, infinita, a cada passo, vacilante e exausto, que o grupo realizava conforme buscavam refúgio no deserto inclemente. Rose caminhava solenemente em direção ao pequeno grupo de colinas rochosas que desfilavam abaixo do céu azul da tarde. A ausência de nuvens e da umidade excessiva que caracterizavam o terreno da floresta era um fator novo e limitante para as Gems. Não havia sinais que indicavam a existência de um Jardim no vasto oceano de areia, tornando a presença solitária do transportador um mistério ainda mais profundo.
Quando a escuridão noturna assumiu forma no céu, as temperaturas caíram de forma inesperada, mergulhando o grupo em um cenário insólito e frio. A brisa soprava contra seus rostos e as colinas, mais próximas, pareciam uma cortina negra a perfurar o manto estrelado. Em certo ponto, às margens de uma enorme duna com um sopé plano e aparentemente seguro, decidiram realizar uma pausa e averiguar a situação antes de prosseguir.
— Rose. Está claro que não há uma central de produção aqui. Devemos retornar ao transportador imediatamente. – sugeriu Pérola.
— Mas a existência de um transportador aqui ainda é suspeita. Esse terreno é impróprio para a produção de Gems. Por que haveria uma conexão da Galáxia Warp em uma região de biosfera pouco espessa? – argumentou Garnet.
— O fato é que as Gems no Jardim de Infância da floresta estavam retidas. Os transportadores terrestres seguem um fluxo de energia entre os continentes do planeta, diferente da ampla liberdade de transporte da Galáxia Warp. Há um motivo aqui. Sinto algo sinistro nessas dunas. Uma força oculta que se expande entre cada grão. – respondeu Rose.
— Deve haver outra Criança do Poder aqui. Por isso Garnet e eu não conseguimos perceber sua presença. – comentou Pérola. – A questão é: o que faremos?
— O melhor é que retornemos o quanto antes. A essa altura, porém, a Galáxia Warp já deve ter sido inspecionada por Diamante Branco a partir do terminal da floresta. Não podemos retornar para lá tão cedo. Devemos partir para o próximo continente. – concluiu Rose.
— Se há de fato uma Criança do Poder aqui, e que ela possa exercer tal domínio sobre o ambiente, está claro que abandonar este local é a opção mais viável. – admitiu Garnet. Naquele momento, sua voz soava fracamente com o tom previdente de Safira.
Encerrada a discussão, as Gems exploraram a ravina, confirmando se era, de fato, segura. Enquanto Rose e Pérola se atentaram às extremidades arenosas e secas, Garnet ascendeu ao cume da duna que bloqueava o luar acima das sombras da cavidade. Uma sensação estranha crescera nas últimas horas em seu coração. A agonia por existir como um ato proibido. As inconsequências de um amor caloroso a haviam trazido à vida. Um juramento de puro ódio a traria ao nada.
***
As naves contemplavam a floresta calcinada conforme as recém-chegadas avaliavam os resquícios do confronto. Os rebeldes restantes haviam rechaçado as tropas de Diamante Azul acima da lateral externa do Jardim, desaparecendo na escuridão selvagem. Horas depois, um conjunto de naves liderado pelo imponente veículo imperial pousara no local para recolher os dados de um novo relatório que deveria ser enviado à Homeworld como parte da exigência de reforços solicitados por Diamante Branco. A última derrota havia abalado o equilíbrio de poderes e as Crianças do Futuro foram divididas entre as líderes restantes.
Na Terra Natal, Diamante Amarelo divulgara a notícia da captura da irmã, assumindo-a como obra dos anarquistas que conspiravam no território colonial. O nome de Rose, antes secretamente apoiado por pequenos setores da sociedade Gem, agora era sinônimo de ameaça à integridade do império e fonte do receio de novas rebeliões terroristas nos outros sistemas que estavam sob a jurisdição de Homeworld.
A guerra atingira novas proporções quando dezenas de declarações de independência foram enviadas por vários mundos através da galáxia que, comandados por representantes de produção local, iniciaram uma série de petições para a autonomia de seus territórios. O Conselho do Protetorado, formado por magistrados eleitos e associados pelos Diamantes, aconselhava o envio imediato da nova frota e o reparo da Galáxia Warp para a contenção da crise. Um exemplo de força bélica traria o controle para as mãos da Tríade.
No Jardim, Diamante Branco recebia as notícias enquanto coordenava a coleta dos fragmentos de pedras destruídas no confronto que seriam conduzidas a um conjunto de cápsulas de armazenamento no laboratório subterrâneo construído abaixo da primeira área de produção destruída pela rebelião. O conteúdo genético restante não fora removido e os resultados, caso houvesse, seriam agrupados após o término das hostilidades.
No leito rochoso, ainda danificado pelo intenso duelo, Peridot e Jasper dialogavam entre si. As subordinadas retiravam peças úteis dos injetores destruídos e inspecionavam o estado das cápsulas ainda ocultas no solo.
— Rose Quartz pagará caro por isso. — comentou Jasper. A ira evidente em sua voz grave e firme.
— Um esforço tolo, sem dúvida. – afirmou Peridot. – Arriscar a própria existência contra a onipotência dos Diamantes para salvar esse planeta estúpido.
— O problema é que quando esse tipo de lixo exige algo impossível, outros tolos aceitam sua bandeira para experimentar o gosto do poder e tudo se torna uma doença degradante. – respondeu Jasper. – Apesar dos esforços de Diamante Amarelo, rumores estão se espalhando pelos planetas próximos. Uma guerra civil está sendo preparada em Homeworld. Maldita Quartz.
— Por que estamos recolhendo esses restos inúteis de Gems? – perguntou Peridot.
— Não temos certeza. É um projeto mantido em sigilo. Uma finalidade doentia, espero, para as sobras dessas traidoras miseráveis.
Peridot observou as dezenas de cápsulas reunidas na lateral do Jardim. A carga deveria ser alojada no compartimento de carga da pequena frota e o local deveria ser esvaziado até o início da noite. As luzes douradas do crepúsculo já dançavam no céu, prenunciando o fim do dia. Em breve, a Gem estaria ciente do que significava o esforço da coleta. Um segredo sombrio que ameaçava não apenas as vítimas inconscientes, tragadas pela morte, do projeto, mas a existência de todo o planeta, sentenciando, desde o passado, o que viria a ser no futuro.
***
O mar agitava-se contra as rochas do litoral quando pequenas aves brancas ancoraram-se, acima do vento que soprava do oceano, nas bases rochosas da falésia que delimitavam a praia. Os animais avistaram ao longe, um vulto misterioso sobrevoar a superfície inquieta da água. Uma mulher dotada de asas líquidas, tocando o reluzente espelho das profundezas. Não havia qualquer outra expressão em seu rosto, exceto uma malícia profunda.
Segundos após sobrevoar uma pequena área, distante da faixa arenosa da praia, investiu contra as ondas, adentrando na grossa coluna de água. Enormes rochas depositavam-se no fundo, abrindo-se para um penhasco submerso. À vista de seus limites, porém, uma imponente construção erguia-se em meio às correntes profundas. Seus minaretes apontavam para o céu e suas janelas abriam-se para as esculturas entalhadas em seus corredores. Um contraforte do penhasco apontava em sua direção. Próximo à extremidade, um transportador reluzia sob a luz lunar. Um grupo de Gems avistou a aproximação da estranha recém-chegada, sem, contudo, dar-lhe atenção.
A obra deveria ser finalizada em alguns dias, porém, algo impediria seu término, uma batalha que desencadearia efeitos desastrosos por milhares de anos de impaciência, solidão, ódio e sofrimento. Um reflexo triste de uma guerra recolhido na face cinzenta de uma lágrima marinha.
***
O luar movia-se acima da ravina quando Rose alcançou o ápice da duna. No horizonte, quilômetros de deserto estendiam-se sob o vento frio que transformava as colinas de areia. Avistando esse cenário inóspito, uma Gem de cabelos negros refletia com olhares oscilantes, balançando sua atenção entre o presente e o futuro. Sem perder o horizonte de foco, Rose foi até ela. Uma voz de consolo em um momento de dúvidas.
— Sempre pensamos que seríamos eternas... – disse Garnet. – E agora, depois do confronto, aquela confiança desapareceu. Não sei mais quem ou o que sou.
— Não posso dizer por você mesma. – respondeu Rose. – O que somos depende do que sentimos e do que fazemos.
— Não estou fazendo nada por mim mesma. – admitiu Garnet. – Porque o que sou não passa da mesma matéria de dois seres que foram antes e que agora parecem não existir mais. Se eles não existem, então eu não existo.
Garnet fitou suas mãos em um gesto de lamento. As pedras de Rubi e Safira, agora tingidas de um vinho escuro, iluminaram-se como pequenas chamas. Naquele momento, a Gem considerou a si mesma como um cadáver e aquelas pedras como símbolos das vidas que roubara para existir. Rose, porém, segurou suas mãos e fechou seus punhos, fixando seus olhos.
— Ouça. – disse ela. – Você existe agora como um sentimento e é perfeita porque encarna um sentimento maravilhoso, o mesmo sentimento que não só a manterá unida, mas manterá Rubi e Safira sempre juntas. Não sinta vergonha do que é. Você faz o seu próprio destino.
— Como me sentirei única?
— Não se sentindo como duas. – respondeu Rose. – Afinal, você é uma experiência.
— Uma experiência?
— Sim. E vamos garantir que seja uma boa experiência.
Ambas deram um forte abraço e, naquele instante, Garnet sentiu-se completa, íntegra. No horizonte, a noite gelada começou a ceder espaço para um novo dia. A esperança das Gems, porém, teria um novo rival. Uma vontade obscura que, em breve, manifestaria sua fúria mortal.
***
O céu tingia-se de um azul pálido acima das sacadas silenciosas do Palácio em Homeworld. Os pátios estavam vazios e solenemente trancados. A hipótese de uma revolta civil havia sido assumida durante a última conferência do Conselho e a segurança havia sido ampliada em cada cidade do planeta, especialmente a capital. As únicas atividades desenvolvidas eram relacionadas à organização da nova frota estelar, constantemente inspecionada pelos altos oficiais das Tropas Imperiais. Um sorriso assassino figurava seus lábios sempre que observava os canhões pesados que adornavam os veículos de combate.
Em seus aposentos, Diamante Amarelo refletia acerca dos rumos do império enquanto incinerava as petições de independência enviadas pelos sistemas planetários coloniais. O ódio crescia a cada mensagem destruída, até que recordou dos últimos detalhes que deveriam ser informados ao esquadrão de combate que seria enviado para aniquilar os rebeldes, em poucos minutos. Em seguida, caminhou em direção ao Grande Salão, utilizando do interfone holográfico para solicitar o comparecimento da líder escolhida para a missão.
Minutos depois, os portões abriram-se para recepcionar uma estranha mulher de volumosos cabelos negros com um evidente quartzo negro em seu abdômen. Com uma expressão irônica e com uma calma sádica, a Gem subiu as escadarias, encontrando a governante sentada à mesa de conferência. Após uma breve reverência, ajoelhou-se, esperando informações.
— Você receberá um mapa detalhado indicando as localizações de cada transportador e Jardim de Infância do planeta. – anunciou Diamante Amarelo.
— Entendido. – respondeu ela.
— Não tenho interesse em prisioneiros, apenas em mortos. – adicionou a líder.
— E os fragmentos?
— Excelente observação. – respondeu Diamante Amarelo. – Deverão ser recolhidos para um novo projeto, do qual você não precisa saber.
— Entendido, senhora.
— Quais são seus reais interesses nessa missão? – perguntou Diamante Amarelo.
— Não entendi. – respondeu ela.
— Não seja tola. Não há porque mentir para mim. É óbvio que você deixaria toda a civilização Gem cair no inferno com essa guerra se ela não se alinhasse com esses interesses. Você diz fazer isso por mim, mas sei que me odeia e deseja tanto a minha morte pelo que fiz com você.
A Gem cerrou os lábios de ódio. Não havia como mentir para aquela mulher. Em seguida, levantou-se, contemplando seu rosto dourado com uma chama voraz em suas íris negras.
— Quero destruir minha irmã. Quero encontrar a paz ao vê-la sofrer, pagando pelo que fez a mim na última anexação. Eu jamais vou esquecer.
— Mas também não deve esquecer quem a trouxe de volta à vida. Quem recolheu seus fragmentos e a fez respirar novamente. Faça o que eu ordenar e terá sua vingança. Então saberei que não devo me arrepender de trazê-la de volta dos mortos. – insinuou Diamante Amarelo.
— Você disse que eu deixaria todos caírem no inferno. Acredite, eu deixaria. É um lugar horrível. O lugar que pessoas como você e minha irmã merecem.
Diamante Amarelo apenas sorriu diante da ingenuidade daquela mulher. Mesmo assim, não subestimava seu instinto demoníaco. Assim, apenas caminhou em sua direção, indicando o céu além das portas do Grande Salão.
— Vá agora, anjo da morte. E traga-me o que quero.
A Gem retornou aos pátios, fitando as nuvens circundarem o Palácio, desaparecendo no horizonte. Em seguida, avistou os hangares nos limites da capital. A mesma imagem que, semanas atrás, enchera sua irmã de angústia e pena, agora, para ela, era motivo de prazer. Uma doce vingança. Uma amarga consequência.
***
O calor tremeluzia as imagens ao longe quando Pérola atingiu o cume da duna. Ao longe, um pequeno reflexo azulado trouxe esperança à sua expressão. O transportador estava próximo. Abaixo, Rose e Garnet lutavam contra a areia que cedia a cada passo. O deserto, em si, era uma armadilha perigosa, porém, seu detalhe mais mortal estava prestes a surgir.
— Cuidado! – gritou Garnet e saltou para Rose, atirando-a colina abaixo.
Em menos de um segundo depois, uma rajada de areia escaldante cruzou o ar, fracassando em seu objetivo de despedaçar a Gem. Pérola desceu a encosta da duna, porém, antes que alcançasse o sopé, seus pés, antes leves, começaram a afundar na camada de areia. Pequenos filetes subiam através de suas pernas, acelerando seu suplício.
Rose, porém, não pode teve a oportunidade ir em seu auxílio. Pois assim que Garnet saltou para o lado, erguendo suas manoplas para conter outra investida da areia, duas mãos ergueram-se do solo e seguraram seus braços. A Gem tentou desintegrá-las com sua força, mas as minúsculas partículas resistiam, forçando-a contra o solo. Rose saltou, hasteando a espada e cortou os pulsos de areia. Garnet levantou os pés e correu para cima, puxando Pérola, quase submersa, pelos braços que agonizavam acima.
— Abaixem-se! – alertou Rose.
A areia, porém, golpeou as duas, lançando-as acima de uma rocha no sopé da enorme duna. Pérola e Garnet desapareceram, deixando Rose para confrontar o inimigo oculto.
— Apareça! Sei que está aí! – vociferou a Gem.
Uma risada ecoou através do deserto e, acima da colina de areia, uma mulher emergiu, fantasmagórica, do solo. Uma pedra esverdeada, transparente como um frasco de vidro contendo água cristalina, estava em seu seio. O rosto a identificava como pertencente à linhagem de Diamante Amarelo, uma Criança do Poder.
— A famosa Rose Quartz. – brincou a Gem. – Será que você é mesmo aquela que derrotou Diamante Azul?
— Por que não descobre por si mesma?! – respondeu Rose, atirando seu escudo em direção à Gem.
A mulher apenas sorriu e ergueu uma das mãos. Um muro de areia surgiu no ar, segurando o escudo que desfez-se no impacto. A Gem saltou sobre a parede e pousou na encosta da colina. Rose apontou a espada contra seu corpo, esperando seu próximo movimento.
— Eu poderia enterrá-la aqui até que o peso da areia esmagasse sua pedra. Mas isso não seria nada justo. Gosto de ser generosa com minhas vítimas. – disse ela enquanto sorria sarcasticamente para a oponente.
— Agradeço. – respondeu Rose, sem ceder a guarda – Por que está aqui? Pelo que sei, não há Jardim algum aqui.
— Acha que “colonizar” é apenas criar uma legião de Gems inferiores e sugar a energia do planeta? – insinuou a Gem. – Há outras raças como nós na galáxia e por isso, precisamos demonstrar nosso poder, pois a fraqueza só nos levaria à ruína. Para isso, nós construímos marcos cerimoniais em todos os mundos que não são convertidos em anexos coloniais. Todos saberão da existência dos Gems e se curvarão para a Tríade Diamante. É por isso que estou aqui, Rose Quartz. É por isso que vou matá-la aqui.
— Acha mesmo que será tão fácil. Acha mesmo que desistir aqui?! – gritou Rose.
— Você não tem escolha. Vou destruir você e libertar Diamante Azul novamente!
— Terá que me matar primeiro.
— Com todo... prazer. – sorriu a Gem.
Correntes de areia ergueram-se de seus pés, avançando pelo ar contra Rose. A Gem ativou um novo escudo que resistiu ao golpe, arrastando-a para trás. A areia segurou seus pés para impedi-la de deslizar para a duna, forçando-a ao confronto. Usando suas últimas forças, Rose saltou para cima, escapando do terreno arenoso e investiu novamente. A adversária, porém, apenas ergueu-se em uma pequena torre de areia, defendendo-se com uma grossa murada.
Rose ergueu o escudo e o impacto perfurou o muro. Surpresa com a violência do golpe, a Gem destruiu a torre, retornando ao solo. Rose pousou na encosta, deslizando em sua direção, quando uma enorme avalanche de areia desceu a colina como uma onda destruidora, envolvendo Quartz em um golpe terrível. A espada escapou de suas mãos, desaparecendo na areia, forçando-a a envolver-se em cápsula para proteger-se do ataque. Sem forças, Rose caiu na ravina, enterrando a face no solo, exausta.
— Onde está sua coragem, rebelde? – provocou a adversária.
— Aqui mesmo. – respondeu Rose, erguendo-se do solo.
Em seguida, hasteou o escudo sobre o braço e correu até ela. Antes de atingi-la, porém, um turbilhão de areia fechou-se sobre seu corpo, arremessando-a contra a enorme rocha. A dor espalhou-se sobre o dorso de Rose. A oponente, porém, pouco moveu-se.
— Parece que você é o que suas seguidoras fazem. – disse ela. – Onde elas estão? Você está sozinha
A Gem interrompeu a sentença e gemeu de dor. De repente, uma lâmina branca abriu-se em seu corpo, perfurando-a abaixo do rosto. Pérola, segurando o punho da espada, sussurrou em seu ouvido:
— Bem aqui.
Um enorme clarão de fumaça cobriu a ravina e a pedra da Gem caiu, intacta, na areia. Garnet a recolheu, envolvendo-a em cápsula avermelhada. Pérola correu em direção à Rose, ajudando-a a se erguer. A Gem avistou a pedra capturada nas mãos de sua companheira, admitindo seu fracasso. Lágrimas brotaram em sua face.
— Rose, eu... – consolou Pérola. – Não foi culpa sua.
— E se a vida de vocês estivesse em risco? – vociferou ela. – Eu não teria conseguido.
— Temos certeza que teria vencido. – disse Garnet. – Ela estava em vantagem aqui. Uma Gem sozinha não teria chance.
— E você sempre nos terá, Rose. – disse Pérola. – Não importa o que aconteça.
Rose desceu o olhar para o solo. Naquele instante, porém, a esfera tremeluziu e desfez-se, deixando a pedra cair sobre o solo arenoso. Antes que a Gem se regenerasse, Garnet a segurou com suas manoplas, pressionando-a.
— O que houve? A pedra desfez a cápsula. – comentou Pérola.
— É poderosa demais para ser contida. – respondeu Rose. – É por isso que mantenho a cápsula de Diamante Azul no interior da minha pedra. O estado de animação suspensa impede que ela se rompa.
— Precisamos encontrar outro método de contenção. – avisou Garnet.
— Talvez possamos prendê-la em um objeto. – sugeriu Pérola. – Isso a impediria de assumir forma física, mas não a impediria de usar de seus poderes geocinéticos.
— É um risco que temos que assumir. Não podemos levá-la conosco. – admitiu Garnet.
Pérola iniciou um bailado elegante, conjurando um pequeno tecido de sua pedra. Garnet depositou a gema sobre o pequeno estofado, fixando sua base nas linhas do material. Em seguida, golpeou a rocha, criando uma pequena cavidade, na qual depositou a almofada para mantê-la fora do contato com a areia.
— Retornaremos para buscá-lo quando tivermos um local mais apropriado. – respondeu Rose. – É provável que quando estiver mais inativo, poderá ser encarcerado em uma cápsula.
O grupo afastou-se do local, refletindo, com pensamentos tristes e amargos, sobre a natureza cruel daqueles que, por séculos, governaram Homeworld. Aquela Gem era apenas uma vítima da cega tradição proposta por aqueles seres horríveis que deveriam ser detidos, não apenas, por aquele inocente planeta, mas pela liberdade de todos que esperavam, ansiosos, o término daquele conflito.
Rose contemplou o deserto mais uma vez, desejando nunca sequer ter pisado naquele lugar, onde sua fraqueza manifestara-se mais uma vez. A mesma fraqueza pela qual cometera um erro terrível no passado. Um erro que, em breve, cobraria um preço caro, com sangue e morte.
O transportador iluminou-se e uma coluna de luz ascendeu aos céus. O grupo, enfim, deparou-se com um local montanhoso, com um largo rio desaparecendo entre os contrafortes da montanha. Árvores altas cresciam nas encostas nevadas. Um vento frio murmurava pelo vale. Um novo perigo se aproximava. Uma vingança há muito desejada, enfim, teria lugar. Um duelo pressagiava o destino da guerra. Longo e terrível, sem dúvida, mas necessário para o futuro.
***
A luz prateada do luar, retornou, triste e solene, para o vazio do deserto. A areia movia-se devagar em sua jornada silenciosa com o vento. Em uma duna cravada no centro da imensidão seca, uma criatura imponente movia a terra com suas patas poderosas. Uma volumosa juba adornava-lhe a cabeça feroz. A cor rosa, porém, transmitia uma sensação de tranquilidade, ocultando o poder do animal.
Após alguns minutos de escavação, o enorme leão revelou à luz das estrelas, a lâmina de uma longa espada. As vinhas gravadas em sua guarda eram reconhecíveis. A criatura segurou a arma entre os dentes e desapareceu noite adentro, sumindo em uma luminosa aura mágica.
Um silêncio mortal retornou ao deserto. Nas trevas do espaço, a Guerra Gem assumia novos rumos, seguindo para o colapso final que, porém, não seria motivo de eterna paz por um longo tempo.
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