Notas iniciais
Em primeiro lugar, gostaria de agradecer todos os comentários positivos que recebi à respeito dos capítulos anteriores. A história é intermitente e perco o foco frequentemente e mesmo agora, não me sinto muito inspirado. Mas agradeço o apoio, afinal, é vital para qualquer história. Espero que aproveitem esse capítulo. Até.

Homeworld, 9 497 anos atrás.

As luzes lunares atravessavam as janelas vítreas do Centro de Treinamento Gem às margens da Capital, iluminando um amplo pátio de granito, ladeado por colunas imponentes, trazendo imagens de mármore do Trio Diamante. Ali, inúmeras Gems duelavam entre si, cruzando espadas, machados, lanças e escudos no ar tumultuado por ruídos violentos.

Em destaque, frente às demais, dois quartzos enfrentavam-se em um violento confronto. Suas espadas chocavam-se em leves filetes de faíscas. A de cabelos verdes, gritava para a companheira, bradando-lhe com um sorriso confiante:

— Vamos, Rose! Levante a guarda!

Ela, porém, cedeu por um minuto, apoiando-se na lâmina. Em seguida, sentou-se em uma das bancadas, acompanhada pela irmã.

— Como se sente?

— Preciso descansar.

Após um minuto de silêncio, Green notou a expressão triste empunhada por Rose, fitando o chão de forma vazia e duvidosa.

— Há algo errado?

— Nada importante. Na verdade, não tenho certeza se farei o que for necessário. É a nossa primeira anexação e há uma sensação estranha oprimindo meus pensamentos. Medo, talvez.

Green fitou o chão ao lado da irmã, erguendo a face para o teto fechado com uma expressão de consolo antes de pousar a mão sobre seu ombro.

— Não se preocupe. Estarei com você.

Ambas entreolharam-se. Não precisavam selar uma promessa. Seus sentimentos eram tudo que precisavam para sentir a realidade que as uniria, para sempre.

***

Terra, Quadrante λ – 6 000 anos atrás.

A neve caía sobre a face cinzenta do vale conforme as Gems desciam em direção ao leito congelado de um antigo riacho, partindo da base cristalina do transportador, abandonado aos pés de uma enorme rocha, quase soterrado pela precipitação sólida.

Abaixo, um bosque, cujos galhos sombrios sustentavam uma grossa camada de neve, abria-se para as antigas margens do fluxo interrompido de água. Enquanto a floresta era repleta de sons, aquele lugar, assim como o deserto, era vazio e silencioso, afinal não havia vida que resistisse àquele frio. O planeta já demonstrava sinais da infecção. Sua energia já desaparecia aos poucos apesar dos esforços contínuos dos rebeldes para interromper a produção de subespécies em sua superfície.

Após a terrível provação no deserto, Garnet e Pérola exibiam evidentes sinais de cansaço à medida que, Rose, terrivelmente oprimida pela derrota, forçava o grupo em passos lentos e angustiantes em direção ao abrigo precário fornecido pelas árvores moribundas. Ainda em silêncio, recolheram galhos secos depositados no assoalho gelado do bosque e tentaram, sem sucesso, produzir uma chama. Minutos depois, largaram-se, exaustas, entre as raízes de uma enorme árvore. O aroma de resina penetrava-lhes a face, enquanto discutiam novas estratégias de combate.

— O último duelo, sem dúvida, demonstrou o poder de elite que está à disposição do Trio. – argumentou Pérola.

— Ela parecia emanar uma aura de Poder, mas projetava habilidades do Discernimento. Como é possível? – questionou Garnet.

— É provável que ela seja um dos híbridos. – respondeu Rose. – Seres produzidos com a mistura dos genes iniciais. Por isso pude senti-la antes que se revelasse a nós. Parece que os Diamantes obtiveram resultados em suas experiências passadas.

— Precisamos ter cuidado. Está claro que elas possuem poderes superiores se comparados a um Gem comum. – concluiu Pérola.

— A questão é: se o deserto era um local destinado à construção de um dos marcos imperais deste planeta, por que este lugar foi anexado? – perguntou Rose, observando os picos pálidos das montanhas.

— Não tenho certeza se o objetivo é o mesmo, Rose. Analisei o transportador no sopé da montanha. Parece ser uma instalação recente. Alguém nos quer aqui por alguma razão.

Pérola gemeu com a hipótese, suspirando com a provável teoria de outra armadilha. Haviam, de fato, espiões tanto entre rebeldes como entre os defensores de Homeworld, porém, sem o auxílio de uma Pedra dos Gritos, tendo sido a última abandonada durante o confronto no terminal da floresta, o grupo estava incomunicável e, portanto, excluso de notícias enviadas tanto por aliados como pelos inimigos.

— Acredito que o mais seguro agora seja retornar ao transportador e encontrar um novo Jardim. Não temos informação alguma de outros núcleos revolucionários ou de assistência extraplanetária. – sugeriu ela.

— A Senhora do Poder não permitiria a destruição de seu império com simples reivindicações de autonomia colonial ou mesmo meras interferências na fabricação em território anexada. Estou quase convencida de que há um artifício sendo preparado para nós. – adicionou Garnet, em resposta. – Concordo com sua opinião, Pérola, mas sinto que algo está prestes a vir em nossa direção. Algo sombrio e possuído pelo ódio. Um ódio antigo e poderoso. Talvez o que acontecer a partir deste momento defina os rumos dessa guerra, adiantando ou atrasando um fim para tudo isso.

— E é por essa razão que continuarei lutando. Não sou uma heroína, mas uma pecadora. Cometi erros em meu passado que não podem ser revogados, porém, se salvar este mundo da destruição é o preço da redenção, eu o farei negando qualquer valor que minha vida possa assumir daqui em diante. – terminou Rose, erguendo-se na brisa fria e insólita.

— Estaremos com você quando a hora chegar. – respondeu Pérola.

— Sempre. – adiantou-se Garnet, mais uma sorrindo confiante para sua líder, embora, naquele momento, ambas mal interpretassem o significado de suas próprias palavras. Um significado que traria dor antes que atingissem o consolo da vitória.

Ao longe, a noite já se ascendia sobre as montanhas, ocupando o espaço quase infinito do céu. O inverno brincava com as últimas luzes do dia, fechando-se em uma escuridão mortal, sem estrelas. Longe do bosque, divisando o grupo com uma expressão séria e previdente, um imponente leão deixava a juba volumosa mover-se aos poucos, saboreando o vento frio. No espaço, uma decisão havia sido feita e, agora, as consequências seriam cobradas.

***

O som da marcha organizada invadia as fendas escuras do Jardim. A aura pálida da lua ainda aparecia nos céus, lutando contra a claridade da aurora que insinuava um breve indício do dia acima da madeira carbonizada da floresta. Apesar das recentes tempestades, o exuberante bosque tropical não ainda havia recuperado sua forma original, destruído pela contaminação do estranho combustível das naves tragadas pelo confronto.

Naquele momento, porém, as cavidades vazias exalavam uma tensão crescente, conforme os hangares das naves recém-chegadas eram abertos, revelando a capacidade na nova frota estelar construída nos últimos dias em Homeworld. Armas letais emolduravam os veículos, agora dotados de suportes extras, também preparados com um arsenal eletromagnético desenvolvido nos laboratórios da Capital.

No centro, diante da Nave Imperial, Diamante Branco pronunciava um último discurso para os supervisores e líderes da nova frente militar do império, agora trajados com as roupas oficiais que estampavam o símbolo sinistro do Trio. Apesar do número assombroso ali presente, grande parte dos combatentes haviam sido enviados para a sede do Protetorado Imperial, auxiliando a proteção pessoal dos conselheiros e, ao mesmo tempo, controlando as revoltas populares no território colonial, enquanto o restante fora dedicado à administração bélica da Senhora do Discernimento no Quadrante λ.

— Devem ser rápidos e silenciosos. Não demonstrem piedade, pois não terei o mesmo para admitir qualquer falha vinda de vocês. Quero resultados. Não erros. Quero sangue. Não feridos. Agora vão. Tragam a paz para nós e exterminem essa estupidez que ameaça o equilíbrio de nossa existência.

Os líderes cederam-lhe uma reverência e deixaram os, descendo em direção às vias que conduziam aos hangares. Um, porém, continuava ali, fitando a Senhora do Discernimento à espera de suas ordens particulares. O quartzo negro faiscou à mira de seus olhos vermelhos e aterrorizantes. Sem intimidar-se com a insolência perigosa, a Gem caminhou através da rampa, detendo-se um degrau acima da mulher para falar-lhe com autoridade e uma elegância assassina, única dos Diamantes:

— Você sabe seus objetivos nessa missão, anjo da morte. Darei a você autoridade que não ultrapassará apenas a minha nesta rocha desprezível. Você terá o essencial para que realize sua vingança e recupere a pedra de Diamante Azul da posse ordinária de sua irmã. Estou enviando para o sistema de coordenadas de sua nave, a última notificação de teletransporte recebida pelos computadores de reparo na Galáxia Warp que apontam para transportador recém-instalado em uma região montanhosa isolada de um dos continentes, preparado unicamente para o cumprimento desta missão.

— Entendido, senhora. Não hesitarei em momento algum e a caso ouça sobre qualquer falha minha, é porque devo ter sido morta novamente.

— Se isso acontecer, certamente saberei que não devemos repetir o teste que a trouxe de volta do Mundo dos Mortos e que você está confinada, para sempre, no inferno que deseja sobre todos nós. Agora, retire-se. Está dispensada.

A mulher reverenciou a governante mais uma vez, cobrindo-se com o capuz negro que trazia consigo. Em seguida, deixou o local, embarcando em sua nave, abastecida, porém, com forças cedidas pelo Jardim. Caminhou através do pequeno salão, alcançando suas próprias linhas de infantaria Aos poucos, as demais naves foram sendo ocupadas, partindo seguidamente em direção aos seus respectivos desígnios.

Homeworld havia trazido uma nova ameaça consigo, porém, diante do crescente grito da liberdade, sua força era questionada pelo próprios Diamantes. A Era das Conquistas claramente havia chegado ao fim e a Guerra Gem preparava sua sentença final, digna de um lamento trágico de heróis.

***

O céu tingia-se de um pálido cinzento conforme nuvens negras surgiam no horizonte, antevendo o início de uma terrível tempestade. O ar parecia carregado de eletricidade, movendo uma brisa incômoda sobre os parapeitos da fenda, ocupados por um novo conjunto de naves. O antigo Jardim, antes conhecido como o primeiro palco da carnificina rebelde, agora estava sob a supervisão duradoura de uma renomada equipe de cientistas trazida dos laboratórios de Homeworld. O solo seco, perfurado anteriormente para fins comuns de produção, tornara-se o local escolhido para o teste definitivo coordenado pelo Trio.

As últimas cápsulas eram removidas e substituídas por estranhos contêineres de incubação. Em seu interior, além do metal negro, fragmentos fundidos lançavam ecos horripilantes na escuridão. No comando dos procedimentos básicos de armazenamento, Jasper e Peridot discutiam entre si sobre os possíveis resultados da experiência e até mesmo do recente movimento manifestado por Homeworld.

— Parece que a Senhora do Poder encontrou, enfim, uma finalidade mais proveitosa para essa impureza de nossa raça. – comentou a líder. Seus olhos fecharam-se em uma expressão sombria, trazendo recordações furiosas da ousadia experimentada pelas traidoras.

— Fusões forçadas serão instáveis. Está certa disso? – perguntou Peridot.

— Mesmo que sejam, não poderão ser desfeitas. Os fragmentos foram unidos entre si. Um destino pior que a morte. É o que merecem. – respondeu Jasper.

— E quanto ao último contêiner? Não estaremos supervisionando a instalação.

— Não será feito aqui, mas em outra central, do outro lado do continente, a oeste daqui.

— Há alguma razão para o sigilo?

— Se há, deve ser um projeto maior. Isso são apenas protótipos.

Peridot fitou um dos lotes de contêineres, refletindo acerca da hipótese de algo superior. A discussão, porém, assumiu rumos diretos após o comentário misterioso de Jasper.

— Há algo estranho sobre o envio da frota. As tropas coloniais estão em número suficiente para esmagar a rebelião.

— Os comentários parecem estar centrados na líder de infantaria. Seu nome é desconhecido, embora seja fato que seus poderes são considerados uma lenda entre os defensores de elite. Não estou me referindo a um híbrido, mas a um tipo quartzo incomum, conhecido nas sombras como “anjo da morte”.

— Estou ciente desse título e espero que esses comentários estejam certos. Mas sinto dúvidas quanto a isso. Não estou certa se seus objetivos estão totalmente alinhados aos nossos. Ele carrega uma aura estranha e de qualquer forma, essa Guerra ainda reserva muitos segredos para nós.

***

As algas moviam-se lentamente no transpirar suave da corrente profunda. No centro do rochedo submarino, uma torre apontava para a superfície, refletindo a luz clara do luar. O local parecia abandonado, um marco cinzento e solitário de um império às margens da distopia. Ali, diante dos remates brilhantes de um transportador, uma mulher aguardava, sentada, o próximo movimento do Destino.

Os animais marinhos se aproximava, observando-a com o curiosidade. A imagem de seus olhos aterrorizados desaparecia conforme suas vidas eram sugadas em uma névoa de sangue, controlada pelos dedos macabros da mulher. Com o tempo, as fitas de seu vestido eram a única coisa que movia-se no entorno de sua pedra espelhada.

***

O sussurrar firme de passos entremeou as fendas desertas do Jardim. O hangar principal da Nave Imperial abriu-se, revelando uma cápsula extra de transporte, movida por um grupo de funcionárias em direção ao exterior. Os últimos raios do dia fundiam-se em um crepúsculo avermelhado, iluminando o local com um toque dourado. Vestida em um capuz branco, uma Gem embarcou. O rosto oculto pelo tecido alvo inspirava terror e, em mesma medida, preocupação, nas faces atônitas que a cercavam.

— Está certa disso, Senhora? – perguntou uma dos auxiliares.

— Sim. – respondeu ela. – Há certas pendências que devo resolver. Por enquanto, caso Diamante Amarelo entre em contato, informem apenas que estou resolvendo assuntos pessoais.

— Que assim seja. – respondeu a mulher, fazendo uma última reverência.

O veículo fechou-se e ascendeu para o ar, desaparecendo nos céus escuros do oeste. Os minutos que se seguiram pareciam arrastar-se. O vagar de duas vinganças estava próximo da conclusão. O resultado não poderia ser previsto, nem mesmo pela Senhora do Futuro, que ainda esperava, inerte, o próximo evento que a libertaria para o Fim. O Fim de um sonho que abriria, em breve, as portas da realidade.

***

A escuridão crescia à medida que a noite tornava-se mais profunda. As Gems lutavam contra a neve lançada pelo vento contra seus rostos, tentando encontrar o transportador. A nevasca, porém, havia apagado suas marcas na neve e, mesmo diante de seus olhos, uma paisagem selvagem, coberta de branco, era o único detalhe que poderia ser mensurado.

— A tempestade está ficando mais forte! – gritou Garnet, tentando superar o rugido do vento.

— Precisamos encontrar abrigo, Rose! Não há como encontrarmos o transportador nessas condições!

Apenas um murmúrio, porém, foi a resposta ouvida por ambas. Desesperadas, forçaram os pés que afundavam na neve espessa, tentando visualizar a origem do sor. Pérola levou as mãos aos lábios, gritando para o ar frio:

— Rose!

— Onde você está, Rose?! – gritou Garnet.

— Por que não vê por si mesma? – respondeu uma estranha Gem, saltando contra ela a partir da escuridão para empurrá-la através da encosta. Ambas caíram no sopé da montanha, iniciando um duelo feroz.

— Garnet! – chamou Pérola, hasteando sua lança, até que, porém, outra adversária saltou sobre ela.

Segundos depois, ambas viram-se cercadas por inimigos. Um estranho grupo de Gems, vestidas com roupas imperiais, apontavam suas armas para elas. Entre os gemidos de dor, Garnet gritou-lhes, exigindo uma resposta:

— Onde ela está?! Respondam!

— Deveria estar mais preocupada com sua própria segurança, escória. – caçoou uma das atacantes.

— É melhor responder à pergunta! – desafiou ela, erguendo-lhe o punho fechado da manopla.

— Nossa líder deseja apenas um momento a sós com a sua, fusão. Mesmo assim, ela não deu ordens diretas sobre o que fazer com vocês. – riu a mulher, apontando-lhe uma espada. A lâmina cruel luziu para o pescoço da Gem.

— O mesmo digo eu! – gritou Pérola, avançando contra ela, empurrando a lâmina através de seu corpo. Uma fita de fumaça ergueu-se no ar e uma enorme pedra alaranjada caiu na neve.

— Ataquem! – gritaram as demais para a rebelde.

Garnet saltou para o grupo, respondendo ao grito com golpes violentos da luva metálica. Gritos furiosos ergueram-se no ar e o restante avançou para ela, enfrentando, porém, a resistência da lança de Pérola. Faíscas, sons e gemidos rasgaram o ar tempestuoso, fendendo a neve. Apesar disso, a mente de ambas voltava-se unicamente para o paradeiro de Rose.

***

A espada negra rugiu através da brisa mais uma vez, detendo-se, impiedosa, sobre a superfície polida do escudo rosa, movendo-se ruidosamente sobre os espinhos. Rose segurava firme a lateral interna da arma, quase ajoelhando-se diante da força empregada no golpe. A dor, porém, era mínima, se comparada à tristeza figurada em seus olhos. A face odiosa da mulher era insuportável. Os olhos vermelhos tomados em fúria não podiam ser comparados, nem por um minuto sequer, às íris negras e solenes que haviam sido.

— Green! – chamou ela, quase cedendo às lágrimas. – O que fizeram com você?!

— “O que fizeram?”?! O que você fez, Rose?! – gritou a mulher, brandindo a lâmina mais uma vez sobre a irmã, forçando contra o chão coberto pela neve.

Rose fechou os olhos e devolveu o impacto, saltando para o ar. Ainda ofegando pelo esforço, fechou o escudo sobre o seio, encarando a adversária.

— Isso não é possível. Você está morta.

— Sim, Rose. Eu estou. E a culpa... É sua!

Ela avançou novamente, invocando seu escudo. Os espinhos negros golpearam a arma de Rose, riscando a face da arma com uma rachadura branca. Ambas fitaram-se, incapazes de ceder o olhar.

— Não sei como o fizeram. Mas você é minha irmã.

— Eu não sou mais. Não tenho alma, Rose. Ela se foi naquele dia. Você vai pagar por isso!

— Acha que eu não lamentei todos os dias desde então?!

— Lamentar não basta! – respondeu ela, lançando a espada para o ar e usando a mão livre para agarrar a oponente pelo pescoço e atirá-la pelo ar.

Rose chocou-se contra o metal frio de uma das nave pousada sobre a margem escura, caindo, quase inconsciente no rio congelado. Marcas vermelhas tingiam seu pescoço e uma dor lancinante percorria suas costas, fraturada com o impacto. Vinhas saltaram sob a neve, prendendo-a. O toque áspero feria sua pele, deixando pequenos talhos sobre ela.

— Eu sou mais poderosa agora e não sirvo a nenhum outro propósito. Eu sou o anjo da morte, Rose. Vá para o inferno, agora e sofra o que eu sofri por você. – sussurrou ela, erguendo a espada.

Rose, porém, fitou-a novamente. Uma nova força fluía através de seu corpo e ela ganiu para o ar. Outro conjunto de cipós ergueu-se do chão, rasgando as vinhas que a prendiam. Ela levantou-se, decidida, continuando a mirá-la. Seus dedos formaram um punho tremeluzente e ela apontou a adversária, vociferando-lhe com firmeza:

— Se você não é mais minha irmã, então matarei você aqui agora.

— Você está acima disso?

— Descubra por si mesma! – gritou ela e, erguendo um novo escudo, partiu em sua direção.

A espada perfurou novamente a arma, porém, Rose não cedeu e continuou a empurrá-lo em direção à inimiga. Os cipós manifestaram novamente seu auxílio, prendendo-lhe os pés e perfurando-os. A mulher, porém, não cedeu aos cortes e sorriu sombriamente para a face serena de Rose. Ela, porém, saltou para trás, movendo-se cuidadosamente em uma nova investida. A ausência da espada dificultava a investida e, em breve, ela cairia novamente. Um erro apenas custaria seu fim e o último resquício de alma, caso existisse, no interior de sua irmã possuída. Naquele momento, ela não estava disposta a pagar ambos e caso tivesse, seu vida era a melhor opção.

A assassina, porém, continuava a balançar a lâmina da espada através da neve que despencava dos céus escuros acima das montanhas. Seus cabelos moviam-se como uma mortalha negra, enquanto a arma desferia um som grave através do ar, ansiando pela carne que deveria atingir.

Rose movia-se freneticamente para os lados, evitando outro golpe do escudo, arrastando-se inconscientemente em direção ao bosque morto, quando, porém, deteve-se em um tropeço mortal, caindo atrás de uma enorme raiz, oculta pela escuridão vazia. A floresta inquietou-se com o duelo, quando Green saltou sobre a árvore e mirou em seu pescoço, arquitetando um trágico fim de sua idílica vingança e, talvez, de toda Rebelião que lhe concedera, sem saber, aquela oportunidade.

Os segundos alongaram. Um rugido cortou a noite e dentes cortantes como aço fenderam-lhe o braço pálido. O sabor cinzento da morte invadiu a língua da fera e ela agachou-se, obediente.

***

Garnet arrematou o punho sobre o chão, produzindo um leve tremor que abalou as oponentes. Aproveitando o golpe, Pérola correu em sua direção, rasgando-lhe os corpos com a extremidade afiada da lâmina. O cansaço a fez ajoelhar-se antes de perceber o surgimento de novas adversárias, avançando, furiosas da nevasca.

A aliada conteve o ataque, usando sua força para distrair as inimigas, antes que ela se erguesse novamente, usando a haste da lança. Pedras intactas e danificadas pela desordem do confronto amontoavam-se no chão frio e, em breve, poderiam trazer os oponentes caídos de volta. A derrota parecia iminente, quando a vontade de Diamante Branco em enfraquecê-las com um grande número tornou-se evidente.

— Garnet. – tentou ela, ofegando novamente. – Precisamos encontrar Rose, mas não podemos vencê-las dessa forma.

— O que sugere? – respondeu ela, golpeando outra inimiga antes que a perfurasse com um enorme machado.

— Temos que fazer isso juntas. – admitiu Pérola, correndo novamente para a batalha, erguendo, além da lança, uma espada branca.

Garnet assentiu, permitindo que as fechassem em um círculo.

— Está pronta?

— Assim que você estiver.

Ambas entreolharam-se antes de atacar novamente em lados opostos do círculo. Suas pedras brilharam ao saltarem para o centro novamente, trocando as posições. A sincronia, aos poucos, tornou-se evidente, quando, por último, Garnet a agarrou e ambas fecharam-se em abraço sensual.

Repentinamente, uma massa amorfa de luz envolveu seus corpos, dissolvendo-os em um clarão prateado. As pedras tingiram-se de um alaranjado pálido, antes de ressurgirem nas palmas superiores e na testa de uma enorme mulher. Trajada em uma roupa negra elegante, a recém-criada possuía o nariz pontiagudo de Pérola, abaixo das quatro íris fechadas em um visor transparente. O cabelo era triangular e os quatro braços moviam-se muito acima da neve, deixando as oponentes a golpearem suas pernas volumosas.

A fusão fechou os olhos, suspirando com o ataque, antes de conjurar uma lança branca e um par de manoplas escuras, fundindo-as em um circulo de luz, do qual, imponente, retirou um gigantesco martelo de guerra, com uma haste negra trancada abaixo de enormes punhos alaranjados em uma estrela dourada, com o qual varreu as adversárias e saltou sobre elas, movendo-se de forma elegante na neve, enquanto abandonava pedras derrotadas sobre o solo.

— Doença! – gritavam elas antes de irem inutilmente ao encontro da derrota.

Ela, porém, continuava a ignorá-las, respondendo-lhes, mentalmente:

— A única doença é abominar o amor, como fazem. E assim digo, pois dele fui feita e por ele, vencerei. Cumprirei a palavra que dei. Até o fim.

***

Rose continuava a fitar, horrorizada, a mão decepada abandonada pelo leão. A fera interpôs-se entre ela e irmã, dirigindo-lhe um ódio mortal. Green, porém, gritou, incrédula, para o animal:

— Não é possível, demônio! Eu o matei com minhas próprias mãos.

— A vida não pode ser destruída, Green. Entenda isso. – disse Rose, levantando-se e mirando-a novamente.

— Então você será morta por algo que transcende a vida que você acredita.

Green saltou novamente, avançando para o leão com os espinhos de seu escudo. A fera cedeu a cabeça para Rose que, rapidamente, retirou-lhe a espada, desferindo um novo golpe contra a arma. O escudo estalou, partindo-se em milhares de fragmentos, cortando a pele de ambas.

O leão moveu a cauda, fazendo a inimiga cair novamente, no que Rose, sem hesitação, decepou-lhe os as pernas voltadas para o ar. O duelo terminara e Green caiu mais uma vez, jazendo em outro bosque morto pelos Gems. O quartzo negro trincou, expondo as rachaduras consertadas pela alquimia profana dos Diamantes.

Por um momento, os olhos da Gem retornaram à cor original, fitando Rose com um sorriso agradecido, mesmo que entre os gemidos suaves de dor.

— Desculpe.

Entre as lágrimas, Rose segurou-lhe as mãos. Aquelas gotas, porém, não poderiam curar um único ferimento sequer, pois, quando nascidas do sofrimento, seu poder não existe.

— Não precisa dizer mais nada. – respondeu ela. – Agora acabou. Desculpe, irmã. Mas me arrepender é o mínimo que posso fazer.

— Vida é apenas uma, Rose. Não viva em prol do arrependimento e sim de modo correto, para que não tenha motivos para se arrepender. Não há o que perdoar aqui. Estou livre.

O leão se aproximou da Gem, pousando o focinho entre suas mãos.

— Devem me deixar agora. – pediu ela. – Elas estão em perigo. Cuide-se, Rose.

O quartzo partiu-se, desfazendo-se no ar. Green desapareceu, abandonado a neve marcada com seu corpo. Rose recolheu a espada, ainda pranteando silenciosamente. Outro sentimento, porém, surgira em seu coração. Vozes de justiça clamaram em seus ouvidos, receando a loucura da vingança. Os Diamantes pagariam por aquilo. Custe o que custasse e, desta vez, Rose se certificaria de cumprir sua vingança.

***

Um trio brilhante de sardônicas faiscou na ventania gelada, seguindo o pouso final da estranha fusão. Ela moveu os braços esquerdos, forçando o martelo a girar pelo ar, antes de desaparecer em uma nuvem de libélulas brancas. Preparando-se para desfundir-se, caminhando entre as pedras caídas, ela observou o passo apressado de Rose, apoiando-se na espada, encosta acima, visivelmente preocupada com as aliadas deixadas para trás durante o duelo que redimira seu passado.

Embora surpresa com o retorno da arma desaparecida, a mulher cumprimentou a líder, exibindo uma face sorridente, embora preocupada com os ferimentos que percorriam seus braços e sua face. Reconhecendo as feições de Garnet e Pérola, Rose assentiu, antes de notar as adversárias caídas sobre o sopé. A nevasca diminuíra, tornando-se novamente uma precipitação lenta. O dia parecia estar retornando às montanhas após a terrível noite enfrentada pelas rebeldes. O desafio que reservavam, porém, em seu âmago de crueldade, está apenas começando.

— Sou Sardonyx. – informou ela.

— Estou aliviada de que tenham conseguido enfrentá-las. – respondeu Rose. – Resolvi assuntos inconclusos e descobri novos motivos para lutar. Estou pronta para deixar esse lugar.

Sardonyx assentiu para Rose, antes de gemer para o ar. Uma lâmina branca atravessou-lhe o seio e seus olhos congelaram, vazios, para o surgimento do amanhecer acima do vale. Uma enorme explosão de luz e fumaça fez Garnet e Pérola, separadas, caírem sobre a neve. Seus corpos doíam com o dano do duelo, conforme um vulto vestido em um capuz branco, difundindo-se na encosta, descia a montanha em sua direção.

Um diamante branco iluminou a sombra projetada pela capa, quando ela desapareceu, lançada para o lado pela estranha invasora.

— Diamante Branco... – sussurrou Rose, levando as mãos à guarda de sua espada, preparando-se para iniciar sua vingança.

Um braço pálido, porém, deteve-lhe o caminho. Apoiando-se na foice branca, idêntica à de Diamante Azul, Pérola lançou um olhar desafiante para o Diamante, devolvendo-lhe a arma e sacando sua espada para apontá-la em sua direção.

— Eu cuidarei dela, Rose.

— Criança insolente! – respondeu Diamante Branco. – Como ousa apontar uma espada para mim?

— Eu não sirvo mais a você. Há muito tempo abandonei suas atrocidades. Você não tem poder sobre mim.

— Nosso passado ainda não terminou.

— Se o que diz é verdade, terminará aqui.

A nevasca finalmente caiu no silêncio. As primeiras luzes do dia iluminaram a encosta. Uma triste história havia terminado, outra, porém, estava apenas caminhando para o fim que, por sua vez, seria apenas outro capítulo para a história digna de lamento, gravada nas páginas de sangue da Guerra Gem.

Notas finais
"O passado está no passado e o futuro ainda virá. O presente é a dádiva da escolha, pois são, pois são as ações e decisões nele que formam o que será no futuro."
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.