Notas iniciais
Bem, retornei. Afastei-me um pouco da história e perdi a inspiração. Agora retornei com esse novo capítulo. Espero que apreciem.

A brisa cinzenta da aurora soprou acima das árvores mutiladas do Jardim. Um som fúnebre erguia-se no ar conforme as últimas oficiais recolhiam o entulho gerado pelo confronto. As cinzas brincavam sobre as cápsulas destruídas e um líquido escuro como sangue envelhecido alimentava pequenos riachos que serpenteavam entre os injetores destruídos.

Obscurecida pelas sombras do céu tempestuoso, a Nave Imperial admirava o horizonte com uma aura temível de ódio. Em seu interior, os Diamantes organizavam sua primeira conferência. Uma fúria mortal emanava de suas vozes enquanto relatavam os dados da noite anterior, contaminando o silêncio pacífico do Grande Salão de Homeworld.

— Identificaram a líder? – perguntou Diamante Amarelo.

— Rose Quartz. — responderam as irmãs. – Ela reuniu um grande conjunto de seguidores nas demais naves e agora está coordenando uma insurreição por todo o planeta. Temos poucas aliadas aqui e os reforços não poderão ser enviados por meio da Galáxia Warp. Nosso transportador foi destruído durante a batalha.

— Maldita traidora... Não há tempo para o envio de uma nova frota. Vocês deverão reunir nossas últimas tropas e organizar dois esquadrões de combate. – ordenou ela. — Esse planeta miserável pagará caro por essa ousadia imunda.

— Você não virá? – perguntaram elas.

— Devo impedir que essas informações cheguem aqui. Nosso povo está nos limites de uma revolução desde a última conquista. Vamos exterminar esses vermes em silêncio. – finalizou ela. Um sorriso sádico entremeou-lhe os lábios. – E quantos os restos, serão de bom uso para uma certa experiência.

— Experiência?

— Sim. Uma experiência. Vamos condenar para sempre a prática odiosa das fusões. Vamos dar a essas traidoras uma lição de sofrimento e, diante de todos, mostraremos do que somos capazes. Seus gemidos ecoarão pela eternidade. O destino de uma rosa é perecer...

— Saboreando seu próprio veneno. – responderam.

***

A luz prateada das estrelas ainda cobria as passarelas silenciosas da Galáxia Warp. Acima da base espelhada, Rose observava as ondas colidirem contra os pilares, esmaecendo com o toque rígido e retornando, enfraquecidas, à solidão azul do oceano. As imagens finais da noite anterior retornavam aos poucos, inundando sua mente com uma triste agonia. O sacrifício de suas companheiras a atormentava com o som de seus gritos propagando-se, invisíveis, pelo ar. Pérola sentou-se ao seu lado, incapaz de dizer algo que não um profundo suspiro de lamento.

Safira, por sua vez, observava as cores negras do céu que lentamente oscilavam para um dourado solar. Apoiada em seus cabelos, Rubi segurava suas mãos. O temor da morte assombrava sua face enquanto pensava na crueldade profana de Jasper. Se fosse seu destino, ela a derrotaria. O sangue é sua cor, mas a paz é sua alma e Safira, seu único amor. A lealdade por Rose a inspirava e, naquele momento, as palavras da amiga ecoavam em sua mente. A impotência agora transformando-se em medo. E o medo em ódio. Mas um fraco ódio para uma eterna esperança.

Rose levantou-se, cerrando os punhos. A tristeza desapareceu e um uma figura decidida assumiu seu rosto, banhando-o de uma coragem renovada.

— Está na hora de retornarmos. Nossas irmãs continuam lutando nas centrais de produção e há milhares de cápsulas que ainda ameaçam a continuidade da vida naquele planeta. Iremos utilizar um desses transportadores para isso, mas antes devemos neutralizar a ameaça principal que são os exércitos de Homeworld.

— Mas, Rose... – interviu Pérola. – Seriam necessários muitos meses de preparação. Grande parte da frota do planeta está aqui.

— Se puderem utilizar os transportadores não necessitarão de naves. Devemos destruí-los, incluindo as conexões coloniais. Só pouparemos o que utilizaremos. Há pelo menos seis deles no novo planeta. Serão de grande utilidade para nós.

Em seguida, a Gem hasteou sua espada e a fincou em um dos transportadores. A plataforma trincou com a pressão e uma enorme rachadura danificou o cristal azulado. Rubi saltou para os demais, invocando sua pequena manopla. Uma aura avermelhada cobriu seus dedos e a arma golpeou várias bases. Safira congelou os restantes e Pérola, utilizando sua espada, rompeu o gelo para danificá-los. Restando apenas um, aos pés de uma das enormes colunas que sustentavam o local, Rose caminhou até ele. O grupo a acompanhou.

Ela fechou seus olhos e uma visão familiar penetrou em seus pensamentos. Um orbe azulado, coberto de pequenas áreas de cor verde e branca. Um feixe de luz envolveu o grupo. Segundos depois, um vento quente e úmido tocou-lhe a pele. Ao abrir os olhos, Rose deparou-se com uma enorme floresta. Sons estranhos perfuraram-lhe os ouvidos. A cantoria das aves difundindo-se ao coro mortal dos injetores.

***

A névoa cobria a face escura da montanha quando a estranha criatura pousou acima do penhasco. Os animais que pastavam ali fugiram em direção às planícies abaixo do nevoeiro cinzenta. Uma mulher com um longo vestido azul caminhou através do local. Seus cabelos escuros fitavam o céu e as asas hasteadas tremiam com o vento. Apesar disso, nenhuma gota sequer caíra sobre o solo. A pedra cristalina em suas costas emanou uma luz pálida, absorvendo as asas.

Lápis sentou-se na campina deserta. Lágrimas brotaram em sua face e amparou o rosto, observando, duvidosa, o símbolo da solidão. O seu símbolo. Enquanto lamentava-se, um novo sentimento surgiu em seus pensamentos confusos. Ódio. Um ódio profundo que alimentava um desejo sombrio de ruína para aquele planeta. Tentando encontrar a raiz da terrível sensação, os cumprimentos de Rose na nave retornaram-lhe à mente. Sua voz tornou-se uma tortura. Como poderia ter dito que entendia esses sentimentos se agora deseja privar não somente ela, mas vítimas inocentes de sua insanidade, da suavidade silenciosa de Homeworld? Ela pagaria por aquilo. Pela hipocrisia de suas palavras. A água murcharia a rosa. Era uma promessa. Um juramento de sangue.

A mulher tocou uma flor altiva das montanhas. A planta murchou como se água que corresse em seus vasos, o líquido precioso da vida, lhe tivesse sido roubado. Em seguida, a campina morreu por inteiro. Uma pequena poça formou-se diante de Lápis, criando um reflexo distorcido de seu rosto. Uma mulher figurava naquele espaço. Seus olhos espelhados miraram-se naquele rosto como um espectro do passado. O som da visão era de puro lamento. Um lamento que muito em breve seria mais real do que nunca.

Lápis ergueu suas asas e mais uma vez ascendeu aos céus, abandonando a campina morta. A mulher no reflexo não repetiu o ato e desapareceu em um solene arrependimento.

***

A luz intensa da tarde caía sobre as fendas do Jardim quando os Diamantes reuniram os sobreviventes acima dos campos arruinados que cercavam sua Nave. Suas faces rigorosas e firmes oscilavam conforme informavam as ordens que seriam administradas.

— Serão formados dois grupos que estarão sob nossa supervisão. Nosso objetivo é patrulhar as demais centrais de produção que estão localizadas nos demais continentes deste planeta e garantir seu pleno funcionamento. Temos um prazo de retorno e infelizmente não poderemos utilizar o Sistema de Transportadores.

— E quanto às rebeldes? – perguntou Jasper.

— Garanto que lidaremos com elas. – respondeu Diamante Branco. – Devemos ser silenciosas e rápidas. Nossa intenção é sufocar e exterminar qualquer pensamento revolucionário que tenha surgido ao longo dessa nova conquista. Não admitiremos traidores e nem mesmo aqueles que sejam compassivos com seus ideais. Não conquistamos, esmagamos. Não combatemos, destruímos.

— Você, soldado. – prosseguiu Diamante Azul. – Em virtude das habilidades que demonstrou na noite anterior, concederemos a você o direito de escolha dos integrantes de seu próprio grupo, no qual também estarei presente. Você terá até o fim do dia para realizar a seleção de combatentes. Ao cair da noite, devemos estar prontas para a primeira missão.

— Onde será realizada? – perguntou Peridot.

— No segundo fragmento territorial desde continente, mais ao sul, em uma área florestal. Há um Jardim naquele local, já conectado à Galáxia Warp. Será uma viagem rápida. Em menos de uma hora, estaremos aterrissando. – respondeu ela.

Os Diamantes encerraram a reunião para coordenar a última coleta de fragmentos no local. Segundo uma nova notificação enviada aos computadores de Homeworld, uma nova base de transporte seria instalada no local por razões de segurança. Diamante Amarelo estava utilizando de uma farsa para controlar a chegada de informações, afirmando que, sob a ameaça de revolta colonial, todos os aparelhos de comunicação, incluindo Pedras dos Gritos, deveriam ser confiscados pelas tropas imperiais.

No início da noite, Jasper retornou à Nave Imperial para entregar o relatório. Diamante Azul reuniu as selecionadas e embarcou em uma das naves para realizar a missão, deixando a Nave Imperial e o Jardim sob as ordens da irmã. Conforme atravessavam o continente, um desejo de sangue espalhou-se por seus lábios. O mesmo ímpeto assassino que unia os três Diamantes além do espaço obscuro. O futuro reservava algo inimaginável. Uma luta memorável e uma carnificina dolorosa, pela qual as Gems conheceriam uma verdadeira visão do inferno.

***

As chamas serpentearam sobre o vale ao som de inúmeras explosões no interior do Jardim. Expostas ao calor fumegante, as árvores da floresta incendiaram-se rapidamente. O líquido genético das cápsulas destruídas pelas rebeldes demonstrou ser como um perigoso combustível e, assim, Rose saltava sobre as chamas, golpeando as combatentes com sua lâmina. Não suportando sua força, as adversárias caíam sobre o chão. O impacto de um reluzente escudo as fazia desaparecer no ar, deixando pequenas pedras sobre o solo.

Pérola bailava entre as máquinas, perfurando silenciosamente as defensoras do Jardim. Os gritos de dor inundavam seus ouvidos e, em uma mistura de lamento e instinto, ela suportava a visão infernal sem, contudo, perder a fé em sua líder. As novas aliadas foram uma surpresa no início do confronto. De início, hastearam suas enormes armas sobre o pequeno grupo de Rose. Em seguida, voltaram-se contra suas líderes que, assustadas, abandonaram o local.

Rubi e Safira corriam através da floresta, capturando as fugitivas. Presas em cápsulas de gelo, as adversárias sumiam em uma neblina de fumaça, gemendo com o soco de uma pequena manopla que surgia da escuridão. Apesar da expressão vitoriosa de Rubi, Safira ainda parecia apática e cinzenta, resumindo-se apenas a informar onde as próximas vítimas entrariam na floresta. Em uma batalha, o futuro é quase certo, considerando o desespero de quem luta e o poder de quem combate.

A vitória parecia próxima e Rose triunfava sobre os injetores destruídos. Sem solução ou rota de fuga, as adversárias lançaram suas armas ao chão, rendendo-se diante do exército rebelde. As aliadas comemoravam e Pérola sentia-se novamente segura. Porém, quando o confronto parecia terminado, uma luz branca iluminou as árvores, acima do incêndio. Uma voz grave e repleta de ódio vociferou:

— Quartz! Eu sabia que iríamos nos encontrar! Prepare-se para morrer! – gritou Jasper.

Acima da nave, uma enorme figura parecia perfurar o manto das estrelas. Seus olhos brilhavam na escuridão com uma aura assassina e misteriosa. Ela saltou em direção a Rose, hasteando uma longa lança. A lâmina metálica disparava pequenos relâmpagos no ar. Rubi e Safira dispararam em direção à orla da floresta e avistaram a nave acima do Jardim. Safira suspirou de temor. Por um momento, tanto ela como Rubi desapareceram no futuro.

De repente, uma brisa repentina agitou seus cabelos. Rubi saltara para o ar, disparando sua manopla contra Jasper. O impacto sacudiu o Jardim e ambas caíram na margem oposta. Um ferimento terrível agora cobria o rosto da líder inimiga e ela preparava-se para retaliar a adversária. Um duelo era visível, mas Safira não via nada além de trevas. Ela ajoelhou-se, pensando, naquele momento, estar encarando sua própria morte.

***

Jasper segurou firme a haste da lança e atravessou o ar em direção à pequena adversária. Rubi saltou para o lado, e disparou sua manopla contra ela. A pequena explosão empurrou Jasper em direção aos limites da clareira. Ao levantar-se, a Gem fincou a lâmina no solo. A corrente propagou-se em direção à Rubi, atingindo-a com uma forte descarga que a fez ajoelhar-se diante do precipício. Jasper correu até ela e atingiu seu rosto com um poderoso chute. Apesar da violência do golpe, Rubi levanta-se novamente. Rose corre em sua direção.

— Essa é luta é minha, Rose. – gritou ela.

— Então será a primeira a morrer! – respondeu Jasper e avançou sobre ela.

Rubi defende-se com sua manopla e atinge seu dorso, lançando-a contra uma árvore. Jasper invoca seu capacete e aponta a lança para ela. Rubi tenta esquivar-se, mas Jasper a agarra e a empurra contra o chão, criando uma pequena cratera com o impacto de seu rosto. Impiedosa, ela perfura as costas da inimiga com sua lança. A descarga ilumina a clareira e o grito de Rubi desperta Safira do transe de desespero. O futuro não mais lhe importava. Rubi estava morrendo e se essa era a vontade do mesmo destino que a trouxera àquele mundo, então que fosse, pois viver sem Rubi, era, para ela, pior que a morte.

Possuída pelo ódio, ela salta em direção à clareira e, pela primeira vez, ativa sua manopla. Em seguida, golpeia Jasper com força, congelando parte de seu corpo e arremessando-a em direção à floresta. Em seguida, segura a parceira em seus braços. Sorridente, ela desfaz a franja, revelando seu único olho. Uma esfera oceânica do futuro.

— Precisava vê-lo. – diz ela. – Pode ser a última vez.

As lágrimas escorrem pelo rosto de Safira e Rubi as segurou. Seus rostos se aproximaram e seus lábios selaram um toque final. O gelo e as chamas. O fim. O nada. Um novo início.

Seus corpos envolveram-se em uma luz branca, iluminando a campina com uma aura límpida e brilhante. Suas pedras tingiram-se de um vinho escuro. Do enorme clarão, uma mulher alta e imponente moveu-se contra a brisa que cortava a noite. Sua pele era morena e seus lábios, assim como os de Safira, eram cheios e suaves. Em seu rosto, três íris de cores diferentes avaliavam a cena. Uma era vermelha como brasa. Sua aura era intensa, assim como a de Rubi. O orbe azulado de Safira estava no lado esquerdo, mas as lembranças do futuro apareciam no terceiro, na testa, próximo aos cabelos escuros, de cor violeta.

A mulher cobriu a visão com um pequeno clarão, criando um visor prateado com a mão direita. As pedras de Rubi e Safira estavam em suas mãos. Seus nomes foram deixados para trás. Aquele era um novo ser. Uma nova eternidade.

Duas luzes envolveram seus braços e gigantescas manoplas de metal surgiram sobre eles. A Gem cerrou seus punhos e avançou para a floresta.

Segundos depois, Jasper surgiu acima das árvores, caindo sobre o solo. Da folhagem escura, a misteriosa mulher saltou sobre ela e golpeou seu corpo inúmeras vezes. Jasper tentou eletrocutá-la, porém, ela apenas segurou a lâmina e absorveu a descarga, empurrando-a através da haste. O impacto desacordou a Gem e, antes de perder consciência, ela sussurrou para temível adversária:

— O que é você?!

— Eu sou aquilo que você aprendeu a temer. Sou a chama de gelo. A força do amor. Eu sou Garnet e sou mais forte que você.

Em seguida, a arremessa por sobre o Jardim e salta em direção à nave. Golpeia a cabine de controle e o veículo cai por sobre o Jardim. Diamante Azul salta através da rachadura e a atinge com um forte soco. O ar é arrastado do impacto, arremessando Rose e as demais sobre o chão. Em seguida, pousa suavemente sobre a Gem, esmagando seu rosto contra a rocha com o pé.

— É essa doença que pretendo exterminar em Homeworld. Apenas a fraqueza é a razão de uma fusão. Duas almas desafortunadas unidas por um elo amaldiçoado. Você sabe o que é? – diz ela, observando a Gem se contorcer abaixo de seus pés. – Você é uma maldição.

Garnet ergue lentamente a cabeça e responde:

— Então que seja! Eu sou a maldição do amor! Algo que você nunca entenderá!

— Silêncio! – ordena ela e força o rosto dela contra o chão.

— Já chega! — diz Rose. – Eu exijo que a liberte imediatamente.

— Não me desafie, Quartz! Não sabe quem sou?! – responde ela. Uma aura azulada ilumina o corpo do Diamante e suas íris emanam uma luz desafiadora na escuridão. A brisa sopra de suas mãos, curvando-se à sua vontade.

As chamas continuavam a iluminar o Jardim, agora alimentadas pelo combustível da nave que agora descia para o solo. Jasper observava a cena com uma expressão vazia. Rose era, sem dúvida, uma Gem poderosa. Mas os Diamantes não eram inimigos comuns. Seu poder havia gerado todas as Gems existentes e o seu desejo de conquista era uma chama que alimentava seus corações em milênios de existência. Sua malícia projetava-se no ar, aliando habilidade e poder em um corpo único. Sem dúvida, terminaria ali. Uma seria destruída e a outra, vitoriosa. Porém, naquele momento, o seu ódio por Garnet era o único pensamento que a dominava. Ela destruiria aquela união e exterminaria aquela doença.

Uma sombra moveu-se acima das árvores. Jasper observou-a nitidamente. Por um segundo, seus olhos encontram-se. A Gem observou a si mesma naqueles espelhos e, por um momento, sua visão nublou-se. Uma mulher de múltiplos braços e volumosos cabelos brancos, com uma pedra esverdeada em seu nariz surgiu em seus pensamentos. O futuro era incerto. Um fruto amaldiçoado do presente. E a morte, naquele momento, era a única saída.