O céu noturno caía sobre as cidades de Homeworld enquanto Rose Quartz fitava, atônita, as luzes douradas e prateadas que cobriam as colinas do planeta. As estrelas pareciam pálidas e mortiças. Uma brisa suave soprava seus cabelos volumosos no ar. A impressão era de que a paz era algo eterno naquele mundo, porém, a visão das máquinas e aparelhos de guerras que moviam-se pelas ruas em direção aos hangares distorcia essa visão.

Rose caminhou em direção às campinas. As luas de Homeworld brilhavam sobre sua pele alva. Por um momento, ela interrompeu sua caminhada. Uma voz familiar penetrou-lhe os ouvidos.

— Rose?

Quando percebeu de onde viera, deparou-se com uma Gem de rosto pálido e nariz pontiagudo. Uma gema branca adornava-lhe a testa, próxima aos cabelos lisos e retos. Usava uma roupa de um azul celeste, coberta por um tecido transparente branco. Rose sorriu para ela.

— Pérola? O que foi?

Um leve rubor percorreu o rosto de Pérola. Ela fitou o chão, indecisa sobre sua resposta.

— Recebemos notificações sobre a próxima invasão. Será um dos planetas do Quadrante λ. As naves estarão prontas pela manhã e ... Rose? Algum problema?

Rose havia alterado sua expressão. Uma tristeza cobriu-lhe a face.

— Pérola... Por que fazemos isso? Será que não é o suficiente colonizarmos todos os sistemas próximos? Há realmente alguma necessidade nesse ato bárbaro que há séculos cometemos?

— Rose... Eu... – as palavras sumiram nos lábios de Pérola.

Rose aproximou-se e pousou as mãos nos ombros da Gem. Pérola fitou-lhe os olhos por alguns instantes. Em seguida, retirou-se. As palavras de Rose ecoavam em sua mente.

Após alguns minutos, Rose caminhou em direção à cidade. Enquanto atravessava as ruas, deparou-se com um grupo de Gems. Aparentemente, conversavam sobre a invasão que se iniciaria em breve. Uma delas erguia-se acima das outras, como uma líder. Sua pele era de cor laranja, com marcas em seus braços e face. Sua pedra ocupava o espaço de seu nariz e seus cabelos brancos cobriam-lhe as costas.

— Massacraremos mais alguns vermes estúpidos e destruiremos aquele lixo horroroso de planeta.

Uma das Gems que a ouviam parecia deslocada em relação ao assunto. Trajava um vestido azul profundo com uma pedra azul presa às suas costas. Sua expressão indicava que não sentia interesse algum na invasão.

Quando Rose aproximou-se do grupo, a Gem interrompeu seu discurso. Seus olhos amarelos fecharam-se sobre Rose em uma terrível face de escárnio que pareceu não notar que a observavam. Atravessou a passarela de granito e entrou em seu reservado. Pérola a aguardava. Em suas mãos trazia um pequeno envelope.

— Os dados do próximo mundo.

Com certo pesar, Rose abriu o pacote e observou a imagem de uma esfera azul com uma lua pálida próxima à superfície. Em seu centro, um continente brilhava, verde esmeralda, com pequenas montanhas. Naquele momento, uma sensação calorosa pareceu ser transmitida ao seu rosto pela imagem. Um desejo de estar ali preencheu seu coração.

— Quem mais irá conosco? – perguntou ela.

— O anúncio será feito pela manhã. Os injetores estão prontos e a coleta de DNA será feita durante a viagem. – respondeu Pérola.

— Está bem. Pode ir, Pérola. — pediu Rose.

— A esperamos pela manhã. – despediu-se ela.

Pérola saiu do reservado por alguns momentos. Rose ativou sua pedra e uma luz cobriu o local. Um portal dimensional fendeu o ar próximo aos seus cabelos e uma fera saltou de seu interior. Um leão rosa, alto como um corcel erguia-se diante de Rose. A juba volumosa caía, ondulada, sobre o dorso do animal. Rose posou a mão sobre seu focinho e o acariciou.

O leão a reverenciou e ergueu a cabeça. Rose aproximou-se da porção inferior da juba como se fosse esconder a face em seu interior. Ao toque, porém, o símbolo de uma rosa brilhou no animal e ela mergulhou nos campos de sua dimensão. Caminhou até a pequena colina, soprada pela brisa gerada pelo ar inexistente. No topo, hasteou sua espada. As vinhas gravadas na guarda faiscaram.

Segundos depois, Rose saiu do leão e, assim que o fez, o animal desapareceu em outro portal. Rose sentou-se com a espada depositada sobre si no pátio entre os reservados. A lâmina respondeu à luz das estrelas e emanou uma claridade fraca na noite de Homeworld. Rose levantou-a para o ar e decidiu treinar seus movimentos de duelo.

— Pérola? – chamou ela. – Pode vir até aqui?

Claramente corada, Pérola caminhou até o pátio. Quando admirou a face confiante de Rose, sorriu levemente e, de sua pedra, retirou uma espada.

Ambas fizeram uma reverência e começaram a duelar. Rose saltava freneticamente pelo pátio, procurando uma falha na guarda de Pérola. A adversária, porém, apesar da inexperiência, mantinha suas defesas levantadas, deslizando sobre o granito para surpreender Rose com um ataque furtivo. As espadas retiniam, agudas e violentas enquanto eram giradas através do ar, chocando suas lâminas em uma pequena nuvem de faíscas.

Rose preparou um golpe para desarmar, atraindo Pérola para perto de um dos reservados. Quando se aproximaram, a Gem percebeu que estava presa entre as paredes. Antes que ela deslizasse para atacá-la e escapar, Rose hasteia sua arma e acerta com força a lâmina de Pérola. Sem alternativa, Pérola a deixa cair com o impulso.

Vitoriosa, Rose a reverencia. Em seguida, estende a mão para pegar a espada e a devolve. Pérola agradece e retorna às ruas. Mesmo tendo sido derrotada, nunca poderia sentir-se furiosa com Rose. Seus sentimentos por ela eram fortes e ela se sentia bem ao seu lado.

***

A luz dourada descia, suave, sobre os edifícios de Homeworld. As luas do planeta ainda apareciam no alto. O céu alternava suas cores de um azul profundo para uma cor mais clara de oceano. Rose caminhou pelas ruas em direção aos hangares. Ao longe, pareciam enormes montanhas de cor cinza observando a cidade uma face furiosa e duradoura. Inúmeras Gems seguiam a mesma direção. Pouco à frente, duas delas caminhavam juntas.

Uma delas, com uma pele de cor azul, andava suavemente pela passarela. Seus cabelos claros moviam-se ao sabor da brisa da manhã. Em sua mão direita, uma safira de faceta triangular destacava-se sobre a luva branca. Usava um vestido simples, com ombreiras quadradas. A outra era relativamente mais baixa. Sua pele era de cor vermelha escura e seu cabelo curto era amarrado com uma faixa escarlate. Em sua mão esquerda, havia um rubi de cor carmesim com uma faceta quadrangular.

Ambas conversavam animadamente. Porém, a de pele vermelha, parecia preocupada com a parceira. Apesar disso, a expressão da outra era de absoluta tranquilidade. Parecia que não estava vendo as ruas que se estendiam até os hangares escuros, mas algo além, muito além.

Rose ouviu Pérola chamar-lhe poucos metros à frente.

— Vamos nos atrasar. Os injetores já foram armazenados e as últimas convocações já foram feitas. Vamos andando... – disse ela.

Quando chegaram, os hangares estavam abertos. Em seu interior, dez gigantescas naves espaciais aguardavam com as passarelas de embarque pousadas no piso. A maior delas, ornada com runas e os símbolos reais, estava parada diante da pista de decolagem, à frente das demais. Em sua passarela, três Gems imponentes conversavam. Seus rostos eram sérios. Observavam os passageiros das outras naves com superioridade. Sobre seus seios, diamantes faiscavam. Uma delas, era amarela como uma chama. A outra, era azul como os mares do planeta e a última, branca como gelo.

A que possuía o diamante amarelo deixou o hangar e as outras embarcaram na nave. Todas a reverenciaram. A Gem de cor alaranjada que Rose ouvira discutir nas ruas na noite passada observou-a com um olhar esperançoso, até admirador.

No ponto onde as passarelas se aproximavam, uma Gem com roupas verdes parecia contabilizar os tripulantes. O painel em sua mão era uma tela digital formada por seus dedos. Uma pedra de cor verde estava presa em sua testa. O cabelo era triangular. A voz, aguda. Quando Rose se aproximou, um scanner de luz verde analisou seu rosto. O painel formou um nome.

— Número 831. Rose Quartz. Nave µ.

Rose observou as passarelas e observou o símbolo gravado na porção basal de uma das naves. Agradeceu à estranha Gem e embarcou. No interior da Nave, surgiram alguns rostos conhecidos. Pérola, assim como as demais Gems, estava nas laterais do recinto central. A Gem de vestido azul que Rose vira conversando desanimadamente sobre a invasão na noite anterior observava o céu e as campinas de Homeworld em uma das escotilhas da nave. Sua expressão melancólica fazia a cena parecer uma despedida.

Enquanto se aproximava de Pérola, Rose ouviu um som ensurdecedor tremer as paredes do hangar. Logo, em seguida, a Nave Imperial ascendeu pelo campo de pouso em direção à atmosfera. As demais naves a seguiram e, em poucos minutos, atingiram o limiar do espaço. Abaixo, as cidades e campinas de Homeworld pareciam brilhar em meio à escuridão.

Enquanto observava a cena, Rose não percebeu a aproximação de uma Gem.

— E então? – perguntou. – Quanto tempo se passará até que retornemos?

Quando voltou-se em direção à voz, Rose percebeu que era a Gem azulada.

— Alguns meses...

A expressão da Gem tornou-se uma mistura de medo e tristeza.

— Quem é você? – perguntou Rose.

— Lápis... Lápis Lazuli.

— Rose Quartz. Entendo o que está sentindo e acredite, você não é a única que se sente apegada ao seu mundo.

Lápis afastou-se de Rose e sentou-se mais uma vez nas proximidades da escotilha. Homeworld e suas luas eram agora distantes e soturnas.

Pérola caminhou até Rose e a convidou a sentar-se. Na extremidade oposta, as Gems que vira enquanto caminhava discutiam estratégias que usariam durante a missão. Em seguida, uma voz aguda de Gem ressoou pelos aparelhos de comunicação. Uma imagem, liberada por um conjunto de cristais pálidos posicionados sobre um painel, projetou-se no ar.

— Aqui é Peridot. Recebemos ordens da Nave Imperial. A líder deste grupo deve encaminhar-se para o setor de carga da Nave e preencher os canais de armazenamento dos injetores com DNA.

A Gem de cor alaranjada ergueu-se no centro do saguão. Caminhou através do espaço e aproximou o rosto de um dos comunicadores.

— Aqui é Jasper. Líder da Nave µ. Solicito a abertura do setor de carga.

— Confirmado, Jasper. – respondeu Peridot. – Abrindo setor de carga.

Em uma das paredes do saguão, uma porta abriu-se para um túnel. Antes, porém, de descer, anunciou ao grupo:

— Preciso de um auxiliar.

Seu rosto analisou os presentes e, ao mirar em Rose, sua expressão encheu-se de malícia.

— Quartz. Acompanhe-me.

Rose respondeu-lhe com uma face séria, embora serena. Embora a contragosto, desceu o túnel com a Gem.

***

O setor de cargas estava localizado abaixo do saguão principal. Em seu interior, receptáculos de vidro protegiam estranhas máquinas de perfuração. Semelhantes a um vírus, possuíam inúmeros canalículos percorrendo a extremidade superior e a broca de escavação. Jasper caminhou até um painel localizado no centro do depósito e desativou os receptáculos. Em seguida, ordenou:

— Ativar os injetores. Modo de coleta.

As máquinas ergueram-se e abriram seus casulos de metal, oferecendo um pequeno dispositivo de análise. Em uníssono, solicitaram:

— Insira o DNA de fabricação.

Jasper ordenou que Rose realizasse a inserção. Segundos depois, transformou-se uma massa disforme de luz e despareceu no interior de sua pedra. Rose depositou a pedra em uma bolha e a aproximou de uma das lâminas de um injetor. Traços de luz vermelha percorreram a extensão da bolha. A máquina anunciou:

— DNA coletado.

Dessa forma, Rose transportou a bolha até o próximo injetor. Permanecia em um silencio profundo e triste. Criar novos seres apenas para condenar um mundo à morte era algo terrível e assombroso. Uma vida pela morte de milhares.

Quando o último injetor anunciou o término da análise, Rose solicitou-lhes os resultados. Fria, a máquina respondeu:

— Espécie de fabricação: Ametista.

***

Após algumas horas de viagem, Peridot realizou outro comunicado.

— A nave está atravessando o limiar do sistema planetário. Preparem-se para o desembarque em poucos minutos.

Pérola caminhou até o comunicador.

— Onde será realizado?

— Nosso pouso está programado para as coordenadas 40*N e 80*O, próximo a um setor de lagos do planeta.

A Nave Imperial penetrou a atmosfera do planeta, pousando suavemente no local indicado. A 200 m de distância, as demais naves da frota desceram sobre o solo do planeta. Os Diamantes caminharam em sua direção. As expressões fixas e austeras.

As Gems foram reunidas na base de um descampado. No centro, as líderes debatiam os planos de invasão.

— Haverá um Jardim de Infância neste continente? – perguntou Jasper.

— Sim. Em cada um haverá uma central de produção. – informou Diamante Azul. – A única exceção será no maior. Haverá dois neste território.

— Onde será construído o primeiro?

— Será construído a 2 km deste ponto, no Leste. Os integrantes das naves µ, θ e π serão os encarregados de seu funcionamento. – respondeu Diamante Branco.

— Como nos deslocaremos entre esses pontos tão remotos do planeta?

— A Galáxia Warp será concluída em dois dias. O último transportador a ser adicionado será o deste planeta. Os demais estão em perfeito funcionamento. Aqueles de deslocamento planetário terão como prazo três dias. – adiantou-se Peridot.

— Excelente. – respondeu Diamante Azul. – E as demais naves?

— Não recebemos comunicados ainda.

— Que seja. – encerrou ela. – Iremos verificá-las pessoalmente.

***

As Gems retornaram aos veículos. As naves decolaram em direção ao próximo local de pouso. Rose observava os bosques que cobriam a superfície intocada do planeta. Estranhos seres enfrentavam os ventos com seus corpos cobertos de pequenas penas e enormes animais vagavam, sem destino, pelos prados. Em breve, aquele recanto seria destruído. Aquele solo nunca mais sustentaria outros seres e um deserto se espalharia à luz daquela estrela jovem e cálida.

Enquanto isso, Pérola a observava com curiosidade. Uma preocupação estranha atormentava seus pensamentos. As demais Gems permaneciam em silêncio. Alguns minutos antes do próximo pouso, uma luz dourada clareou o salão. Em seu centro, uma pedra deu forma a uma Gem de pele alaranjada. Seus músculos eram ressaltados pelas marcas tribais e seus longos cabelos brancos. Jasper retornara.

Rose não ousou desafiá-la. Permaneceu em silêncio e, quando desceram sobre uma colina, foi a primeira a descer sobre a campina. Peridot organizou os tripulantes conforme as últimas funções determinadas pela Nave Imperial. Até o anoitecer, a área deveria estar limpa para a construção de uma fenda com 0,5 km de largura, por 3 km de comprimento. Os injetores seriam instalados no dia seguinte.

Enquanto auxiliava as demais Gems a limparem o solo, Rose caminhou em direção a uma pastagem onde uma manada de curiosos animais alimentavam-se no capim fresco. Seus corpos volumosos eram cobertos por uma grossa camada de pelos com pequenos chifres, cor de marfim, surgindo na cabeça. Seus olhos negros eram furiosos e intimidadores, porém, serenos. À luz da tarde, o local se assemelhava aos prados na juba de seu leão.

Uma brisa forte castigou a campina. Os animais se alteraram e a fugiram em direção ao bosque. Uma enorme chama começara a consumir o local. Ao tentar averiguar o que havia acontecido, Rose deparou-se com um grupo de Gems castigando os animais. Jasper estava entre elas. Abordava as criaturas com violência, enterrando lanças elétricas em sua carne. A pastagem tingiu-se de uma horrível mancha de sangue.

Aterrorizada, Rose caminhou em direção a Jasper. Seus pés esmagavam o crânio de um dos animais mortos. Hasteou sua espada, questionando-lhe, furiosa, o porquê de tamanha atrocidade. A Gem, porém, apenas mirou-lhe uma face de repulsa. Seus olhos brilhavam com um toque assassino com a luz das chamas. A resposta era clara. Ali erguia-se uma gema. Uma gema de sangue.

As chamas consumiram a campina e uma escura mancha de cinza cobriu o que antes era vida. Naquele momento, uma lágrima caiu dos olhos de Rose. A primeira lágrima de muitas que ainda viriam.

Notas finais
Bom. Essa é a primeira história que publico, portanto, espero que haja comentários. Aceito sugestões. Se as opiniões forem favoráveis, talvez haja uma continuação.