Guerra Mutante: A Relíquia Roubada
22 22 - Sou nomeado herói
Jake e Demetria foram me ajudar depois de eu ter matado Torrance. Eu olhei pelo desfiladeiro, observando de relance o corpo desfigurado do motoqueiro. Eu havia me vingado, mas não me sentia feliz por aquilo. Aquela batalha quase havia custado nossas vidas, e de que adiantou minha vingança, no fim das contas? Nem meu pai, nem Willian, nem Royal e nem Yordle voltaram à vida depois daquilo tudo. Mas minha missão não tinha terminado ainda.
– Você mandou bem. – Falei para Demetria, que corou. – Mas você também tem dois poderes e subpoderes... Assim como eu e Jake... Ou seja, isso significa...
– Que somos um trio de Mutantes raros? – Falou Jake, e eu confirmei. – Legal.
Eu ri, e me levantei. Cambaleei um pouco quando tentei andar, e os dois me ajudaram, cada um me segurando por um braço e passando-os pelos seus ombros.
– Ei, calma aí. – Falou Demetria, fazendo força para me manter de pé. – Você precisa ser recuperado. Quando Hariel chegar, nós...
– Não. — A interrompi, um pouco rouco. – Precisamos ir o mais rápido possível ao Abrigo.
Snow veio cambaleando até minha direção. Ele estava ferido, mas nada grave. Eu me ajoelhei e o abracei. Ele encostou sua cabeça em meu peito.
– Você também foi muito bem, amigão. – Falei para o lobo, que não fez nada além de soltar um baixo uivo. – Você salvou nós três.
– É, Snow. – Falou Jake, ajoelhando-se e acariciando seus pelos sujos. – Valeu por ter me salvado.
O lobo uivou e lambeu o rosto de Jake, que riu. Percebendo agora, ele de fato parecia ser mais feliz. Ele ria com vontade agora, e não ficava somente com uma cara de ódio.
Eu também te ajudei, bocó, falou Nasura. Não se esqueça de mim.
Ah, agora resolve aparecer?, falei, e ele permaneceu quieto. Mas obrigado. Se puder me curar agora...
Tá, que seja, ele falou e eu comecei a me sentir recuperar minhas forças. No entanto, meus ferimentos não se fechavam. Droga. Parece que vou demorar um pouco para curar os arranhões e cortes por causa da Espada Dourada. Ela é muito forte, então não espere muita coisa.
Tudo bem, falei, e olhei para Demetria. Ela estava muito ofegante e pensativa. Talvez ainda estivesse tentando entender o fato de ser como eu e Jake. Quem sabe ela se sentia um pouco mal por causa daquilo, como eu me senti. Ser um Mutante extremamente raro tem seus riscos, pensando bem. Tudo bem que podemos ser até mais fortes, mas corremos mais riscos de vida do que os outros.
– Acham que foi o destino? – Perguntei aos dois, quando nos levantamos e começamos a andar até a Montanha da Escada. – Digo... Nós três no reunirmos, e nós três sermos iguais em termos de poderes e subpoderes... É coincidência demais, não?
– Destino ou não, formamos um belo trio. – Falou Demetria, e eu concordei. – Mas não esperava que fosse agir daquela maneira, como se eu soubesse usar o meu poder. Jake ainda não consegue usar o poder novo nem o subpoder dele ainda, mas no entanto eu consegui usar o meu perfeitamente.
– Assim como Franklyn. – Falou Jake, que estava pensativo. – O mais estranho de tudo é que nossos poderes adicionais... São todos mentais.
Eu fiquei surpreso, pois de fato aquilo era verdade. Manifestação Psíquica era meu poder adicional. Manipulação Psíquica era o poder adicional de Demetria. E Personificação Psíquica era o de Jake. Havia algo muito estranho ali.
– Vamos discutir sobre isso no Abrigo. – Falou Demetria, por fim. – Agora, precisamos ir até o Abrigo. E temos que ir o mais rápido possível.
Eu olhei para a Espada Dourada em minha mão. Era tão leve, mas tão potente. Quando eu a segurava, parecia estar segurando uma pena. Mas quando ataquei Torrance, ela o cortou com extrema facilidade. Só de olhar para sua lâmina eu sentia que seria cortado, de tão afiada que parecia ser.
– Mas se formos a pé demoraremos muito. – Falei, pensando no tempo que havíamos demorado até ali. Mesmo que tivessem acontecido imprevistos no caminho, demoraria cerca de uma semana até chegar ao Abrigo.
– E quem disse que iremos a pé? – Ela falou, e abriu sua mão direita. Havia uma chave nela, com um pingente que havia dois botões, um azul e um vermelho. Entendi o que era aquilo.
– A chave da moto de Torrance... – Adivinhou Jake, surpreso. – Quando pegou ela?
– Quando eu o atacava junto com vocês, a chave acabou saindo de seu casaco. – Ela riu para nós, balançando a chave no ar. – Eu a peguei. – Ela então entregou a chave para mim.
– Mas eu não sei pilotar uma moto. – Falei, segurando a chave, analisando-a.
– Para tudo se tem uma primeira vez, certo? – Falou Jake, encostando sua mão em meu ombro. – Tenta apertar esse botão azul.
Eu o apertei, curioso, e o botão piscou. O barulho de um motor começou a se aproximar atrás de nós, e nos viramos. A moto preta e azul de Torrance vinha correndo pelo gramado sem ninguém dirigindo-a. Demetria saltou para o lado, e a moto parou no lugar em que ela estava antes.
– Só tem lugar para um. – Falei, observando o banco sozinho em meio a moto de combate, com uma metralhadora acima do pneu, na lataria, e propulsores embutidos nas rodas.
– Exatamente. – Falou Demetria, e eu olhei para os dois inseguros.
– Eu não vou sem vocês. – Falei, incomodado com aquela situação. – Passamos tudo isso juntos, não quero deixar vocês para trás.
– A Espada Dourada deve chegar primeiro, Franklyn. – Falou Jake, e eu o encarei. – Você precisa ir na frente. E pode ficar calmo, que agora estamos mais fortes do que antes. Iremos avisar ao grupo sobre o que aconteceu.
– E eu explicarei sobre a aparição de meu poder e meu subpoder novo. – Ela falou, e eu me senti um pouco triste.
– Têm certeza que vai ser isso mesmo? – Falei, e eles concordaram. – Então cuidem de todos para mim. – Ajoelhei-me então para falar com Snow. – E você, amigo, obedeça à Demetria e ao Jake, ok? Ajude-os.
Ele uivou, triste, e eu me ergui mais triste ainda. Olhei para a Espada Dourada, e pensei como levaria ela enquanto dirigia a moto. Mas ela parecia ter pensamentos, e se transformou em um anel dourado que se encaixou perfeitamente em meu dedo médio da mão direita. Eu fiquei um pouco surpreso com aquilo, mas não dei muita atenção.
Sentei-me no acento da moto, e olhei para os outros. Eles sorriram para mim, e eu liguei o automóvel.
– Cheguem todos vivos e inteiros. – Falei, e eles assentiram. Acelerei a morto e apertei um botão que dizia “propulsores”. Os propulsores se ligaram, e eu puxei a moto para cima, rumo ao Abrigo, que de alguma forma eu sabia onde era.
Enquanto viajava pelo céu a quase 300km/h, vi muitas coisas que eu havia visto enquanto viajava. Ao horizonte, pude ver a base em que Emma, Hariel e eu havíamos passado perto. Depois, pude ver todo o trecho que nós três havíamos feito. Muito mais tarde, vi as silhuetas da cordilheira de montanhas com a torre de rádio, onde Royal e eu havíamos sido capturados.
Me veio a cabeça, então, a forma que Royal havia se sacrificado por mim. Tinha sido igual a meu pai, igual a Willian, igual a todos. Estava quase um mês naquele grupo, mas já o considerava como uma segunda família. Minha vida dependia deles, e a vice-versa. Éramos uma alcatéia, realmente, já que todos cuidavam de todos.
Pensei também na morte de Yordle, e como ela mudou Jake. O deixou mais “vivo”. E, no fim, pensei em Torrance. Mesmo que eu tenha matado ele, recuperado a Espada Dourada e finalizado minha vingança, algo ainda me perturbava. Ele havia falado de respostas, mas eu não descobri quais eram.
A viagem era muito mais rápida de moto voadora. Depois de umas 2 horas, estaria no Abrigo, provavelmente. O mais incrível é que a velocidade não me lançava para fora. Era como se a moto me prendesse à ela.
E, como eu esperava, finalmente pude ver o nevoeiro que cobria a montanha do Abrigo, e senti um aperto em meu coração. Eu saberia como usar a Espada Dourada? Como meu tio reageria ao saber que quebrei a promessa de que traria o grupo inteiro? E o pior de tudo: Qual seria a reação de minha mãe ao descobrir que me tornei um matador impiedoso, e que havia me arriscado tanto?
Quando me aproximava da floresta muito ao fundo, passei por cima do primeiro abrigo que havíamos feito, na borda da ravina, com rochas servindo como uma muralha. Tive uma breve lembrança de minha conversa que havia tido com Demetria ali. Pensei em tudo que havia passado até então. Era para eu ter morrido várias vezes: quando Torrance tentou me matar, e eu consegui escapar voando, quando Demetria e eu caímos do penhasco, quando aquele motoqueiro nos encurralou, quando tivemos aquela batalha no túnel, quando Royal e eu estávamos presos, quando Emma me achou e os outros momentos. Em todas essas situações era para eu ter morrido, mas não. Eu sobrevivi, e tudo para aquilo acontecer. Recuperar a Espada Dourada.
E agora, ali estava eu: sozinho, pilotando a moto de meu inimigo já morto por mim, indo em direção ao Abrigo.
Quando cheguei perto da montanha, desci a moto, passando por um grupo de patrulha. Eles gritaram algo e começaram a vir atrás de mim, mas ignorei. Atravessei a passagem aberta para o Abrigo, entrando com a moto, e a agora eu estava voando na cidade. Desci pela rampa, atravessando o pequeno túnel, chegando à área planificada, com chão de rocha, em que decidimos se iríamos ou não ir para aquela missão diante dos fundadores do Abrigo ainda vivos.
Eu parei a moto, tenso, e muitas pessoas chegavam lá para ver o que estava acontecendo, todos curiosos. Vi voando por entre os prédios um grupo de alguns Mutantes, e reconheci meu tio entre eles. Os fundadores, pensei. Eles pousaram à minha frente, e meu tio correu para me abraçar, e eu fiquei feliz com seu forte abraço.
– Você voltou. – Ele falou, chorando. Eu, no entanto, permanecia forte.
– Eu disse que voltaria. – Falei, e ele concordou.
Então um homem aproximou-se de nós dois. Era aquele mesmo homem com sotaque russo antes. Qual era o nome dele, mesmo? Mikhivisk? Sim, era esse o seu nome. Ele coçou sua barba, me analisando.
– Só você retornou, é? – Ele falou, puxando muito os “r” de suas palavras. – Sabia que seria uma missão suicida. Eram fracos demais...
– Na verdade, quase todos estão vivos. – Falei, ele ficou surpreso.
– Quase todos? – Ele perguntou, e eu senti um calafrio percorrer meu corpo. Tinha que falar a verdade para eles.
– Royal e Yordle Munstain estão mortos. – Falei, cerrando meus punhos. Ele ficou boquiaberto, e muitos murmúrios se iniciaram.
– Isso... – Ele gaguejou, não acreditando. – Isso é impossível. Eles eram os mais fortes... Eles eram os que mais tinham habilidade em combate... Eles...
– Eles se sacrificaram pelo grupo! – Exclamei, e ele se calou. – Eles podiam serem fortes, mas ainda assim eram pessoas e pensavam em seus companheiros! Eles morreram para deixar a mim e aos outros vivos! Para recuperar isso!
Então, fiz com que a Espada Dourada aparecesse, e todos soltaram um grunhido. Eu estava confiante. Meu tio parecia não acreditar no que via, e Mikhivisk estava com uma expressão confusa de entender: Não sabia se era raiva, surpresa, tristeza ou negação.
– Eu recuperei a Espada Dourada, com a ajuda de meu grupo! – Gritei para todos que estavam ali. – Eu, um Mutante de nível 1, matei Torrance Upton, um Mutante de nível 5, e tudo isso com a ajuda de meu grupo! Muitos de vocês julgavam que todos morreriam, mas aqui estou eu, brandindo a relíquia que trouxe a sofrimento a todos nós, e meu grupo está voltando, todos felizes por terem cumprido a missão que muitos julgaram ser suicida! – Eu me virava para ver todos. E por vim, virei-me para Mikhivisk. – Agora, fale-me o que preciso fazer para libertar a maldição que a Espada está fazendo.
Ele trocou olhares para meu tio, que ainda parecia não acreditar naquilo tudo. Meu tio, por fim, viu que estava sendo observado e confirmou com a cabeça.
– Segure minha mão, Franklyn. – Ele falou, estendendo-a até a mim. Eu a segurei, e teletransportamos.
Aparecemos no topo do ponto mais alto do Abrigo. Era um prédio enorme, com a ponta que afinava como o Empíre State.
Quando vi a altura, senti um medo de cair dali, mas meu tio me segurava. Eu olhei para ele, que parecia agora analisar a situação.
– Tudo o que precisa fazer é conectar-se à Espada Dourada! – Ele exclamou, diante do barulho do vento zunindo e dos dutos de ar mais próximos de nós. – Pense em todos aqueles feridos aqui no Abrigo por causa dessa Espada voltando ao normal! Pense em curá-los, pense em salvá-los!
Eu concordei, e olhei para a Espada Dourada. A gema azul oscilava, e eu fechei meus olhos. Senti minha Energia Mutante e a Energia Mutante dela, e fiz com que nos tornássemos um só.
Abri meus olhos, e ergui a espada, gritando. Uma luz amarela saiu da gema azul, tornando-se uma esfera, e começou a crescer. Ela crescia cada vez mais, expandindo pelo Abrigo. E crescia, e crescia, e crescia. Atravessou para o nível de cima, o nível de baixo, e continuava a crescer. Sentia meu corpo ficar mais fraco, a Espada ficar mais pesada. Mas eu não parava. Podia sentir que estavam todos sendo curados, e cada vez mais que a esfera amarela se expandia, mais fraco eu ficava.
E, finalmente, senti a força da Espada diminuir, e eu desci meu braço. Cambaleei para a frente, quase caindo, mas meu tio me agarrou e me teletransportou para um monto mais baixo daquele prédio, agora em uma parte com uma barricada de concreto. Eu caí sentado no chão, muito ofegante. Estava tonto demais, e via as coisas embaçadas.
– Franklyn? – Exclamou seu tio, mas sua voz ressoou fraca. Todos os sons estavam mais baixos ao meu redor. – Franklyn!
Eu voltei ao normal, e pisquei três vezes. Meu tio me segurava pelos ombros, e eu lhe lancei um sorriso fraco.
– Eu consegui? – Falei, e ele riu.
– Sim, Franklyn. – Ele respondeu, e eu me levantei, fraco, mas alegre. – Você conseguiu.
Observei a cidade abaixo de mim. Podia ouvir o som de pessoas comemorando. Meu tio veio ao meu lado, e nós dois olhamos para a Espada Dourada. Sua gema azul agora estava completamente branca, sem emitir nenhum brilho.
– O que houve com ela? – Falei, referindo-me à Espada. Ele parecia agora um pouco triste.
– Acabou toda sua Energia Mutante. – Ele falou, e eu olhei para ele, confuso. – Não terá mais poder, Franklyn. Não deixará mais ninguém mais forte.
– Então agora é só uma Espada? – Eu murmurei, e ele assentiu.
– Aparentemente. Mas talvez ela ainda tenha parte de sua força nos cortes com a lâmina. E continua leve, não?
– É, continua. – Eu então a entreguei para meu tio, e ele me olhou com surpresa. – Guarde-a em um lugar seguro, tio.
Mas ele negou com a cabeça, e entregou a Espada para mim.
– Você lutou para recuperá-la. – Ele falou, sorrindo. – Matou muitas pessoas, provavelmente. Viajou quilômetros, fugiu e lutou. É sua por direito, Franklyn. Fique com ela.
– Mas ela pertence ao Abrigo... – Retruquei, observando-a.
– Pertencia. – Ele me corrigiu. – Agora, ela pertence a você.
Eu olhei-a durante alguns segundos, e suspirei.
– Está me dando ela por que está sem os poderes que tinha, ou porque eu de fato a mereço? – Questionei, e ele riu.
– Estou te dando a Espada Dourada, porque ela agora responderá somente a você.
– Como sabe disso?
Ele sorriu, e olhou para a cidade abaixo de nós, com prédios feitos nas montanhas de rocha, com algumas pessoas ainda gritando de alegria.
– Você tem um coração puro, diferente de Torrance. – Ele revelou, por fim. – Enquanto Torrance veio aqui e pegou a Espada Dourada buscando somente destruição, você foi atrás dela para trazer salvação. Podia ter matado todos e ficado com ela só para você, mas não o fez. Por quê, Franklyn?
Eu sabia que ele já sabia a resposta, mas mesmo assim eu o respondi.
– Porque eu não traio aqueles em que confiam suas vidas em mim, assim como não mato aqueles que me ajudam.
Ele acenou com a cabeça, e eu dei-me conta de algo.
– E Klaus? – Perguntei, e sua expressão ficou sombria. – Onde ele está?
Ele parecia não saber como responder, e olhou diretamente em meus olhos antes de começar a falar.
– Klaus saiu do Abrigo em busca de vocês. – Respondeu. – Disse que voltaria com todos a salvos. Mas se vocês não o viram, e ele não voltou...
– Ele está morto. – Murmurei, sentindo um aperto em meu coração. – Três pessoas que não eram meus inimigos morreram enquanto tentavam ajudar.
– Talvez ele não esteja morto, Franklyn. – Falou meu tio, esperançoso. – Pode ser que ele simplesmente não tenha os achado.
– Você está certo. – Eu me virei para a porta que havia no prédio em que estávamos, onde levaria para dentro, provavelmente para uma escada. Caminhei até ela.
– Aonde vai? – Ele perguntou, e virei minha cabeça para meu tio, um pouco nervoso sobre o que aconteceria.
– Verei minha mãe. – Respondi, e entrei no prédio, onde havia as escadas, e as desci.
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